Vacinas, Drogas e 5G

A elite política e o empresariado chineses são experientes e bem preparados técnica, política e diplomaticamente. Têm interesses claros, atuam estrategicamente e são pragmáticos. Não importa o regime político ou a ideologia de governantes ou empresários

Por Jorge Almeida*


O que estavam fazendo a ministra da Agricultura e o Ministro das Comunicações junto com o ministro da Saúde nas conversações com o embaixador da China sobre a importação de vacinas e seus insumos da China? Por que o ministro das Relações Exteriores não estava?


Diante do impasse sobre a chegada de vacinas e insumos da China, Bolsonaro nomeou esta comissão para tratar de negociações para tentar acelerar o processo.


Tudo indica que, com isso, ele pretende recompor o diálogo com o governo chinês. Em primeiro lugar, tirar as drogas da linha de frente das relações. E aqui falamos em drogas no sentido negativo mesmo e não somente aquelas do suposto “Kit Covid de tratamento precoce” à base de Cloroquina, Ivermectina etc. Mas as drogas ideológicas delirantes contra a China, encarnada por Ernesto Araújo.


Ele pode ter sido excluído da comissão de negociação por decisão do núcleo governante (preventivamente) ou mesmo por um veto da embaixada/governo chinês de negociar alguma coisa com ele. Qualquer que tenha sido a fonte da decisão, Araújo está cada dia mais desmoralizado, dificultando o seu papel de interlocutor do Brasil em questões importantes e, particularmente, com o embaixador da China no Brasil, com quem teve um comportamento bem fora do padrão aceitável entre dois estados que mantém relações diplomáticas e econômicas tão importantes como Brasil e China.


Os que foram na comissão, são, de fato, neste contexto, os três ministros mais indicados para tratar do assunto. Porque, provavelmente, o assunto em discussão não será somente vacina. Tereza Cristina, ministra da Agricultura, vai pelo que representa como expressão das frações do grande capital pró China no Brasil. E o ministro das Comunicações vai porque, explícita ou tacitamente, tudo indica que a questão da Internet 5G entrou nas negociações.


Ministra da Agricultura, Tereza Cristina representa os interesses dos latifundiários do agronegócio e outros setores dessa cadeia produtiva. Esta é uma das frações do grande capital no Brasil mais favoráveis a boas relações comerciais, investimentos e financiamentos chineses.


É uma das frações hegemônicas do grande capital no Brasil e a que mais se beneficia com as importações dos chineses que são, disparadamente, os maiores compradores de produtos brasileiros. Sua opinião, interesses e movimentação política convergem com a das principais lideranças empresariais do agronegócio, assim como das lideranças da bancada do setor no Congresso Nacional.


É o caso também do presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, Fausto Pinato (PP-SP), que também é presidente da Frente Parlamentar Brasil-China. Ele que chegou a dar declarações públicas de que o Parlamento e o povo brasileiros estavam cansados das “bobagens ditas pela família Bolsonaro” e defendeu a destituição de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) da presidência Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados devido a sua “tamanha insanidade”.


A batalha do 5G


Ministro das Comunicações, Fábio Faria é o responsável político maior pela decisão estratégica mais importante no setor de telecomunicações e de infraestrutura em geral que será tomada no Brasil em 2021: o certame da Internet 5G, cujo edital, depois de muitos protelamentos, é esperado para o final de março e o leilão realizado até o final do primeiro semestre [1].


Como se sabe, Bolsonaro gostaria de vetar a chinesa Huawei e o novo relator do Leilão 5G, Carlos Baigorri, nomeado em novembro de 2020, levantou desconfianças ao dizer que o 5G “exige fornecedores confiáveis e transparentes” na “parte financeira, na governança e na estrutura societária”, pois esta é justamente a argumentação feita pelo governo dos EUA (com Trump ou com Biden) e outros que pretendem um veto à Huawei, que é a empresa que tem a melhor e mais barata proposta.


Dois dias antes da nomeação de Baigorri, vimos fortes acusações de Eduardo Bolsonaro, respaldado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, contra o 5G da Huawei chinesa. A ofensiva tinha como base a adesão do Brasil ao programa Clean Network, do Departamento de Estado dos EUA, sobre a tecnologia 5G. Eduardo Bolsonaro disse que, com isso, o Brasil estaria se afastando e repudiando a tecnologia e os “atos de vigilância do governo chinês”, o que realmente coincide com os objetivos do programa estadunidense.


Este foi o segundo grande entrevero do deputado do PSL-SP com o embaixador da China após as comparações que tinha feito, em março, entre uma suposta censura do PCCh sobre a pandemia, segundo suas palavras, do “vírus chinês” com a censura da “ditadura soviética” quando do acidente nuclear de Chernobil [2].


Em ambos os casos, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil respaldou o filho 03 do presidente, piorando as coisas.


Mas o lobby a favor da China é fortíssimo no Brasil, especialmente no empresariado do setor primário exportador e de comunicações, assim como numa rede de influência no parlamento, judiciário, entre militares, nos meios acadêmicos, na grande mídia e dentro do próprio governo federal.


Pode não ser um toma-lá-dá-cá rasteiro. Afinal, não ficaria bem, para qualquer das partes, tratar uma das “mercadorias” negociadas, que impacta direta e imediatamente sobre a vidas de milhões de pessoas, desse jeito.


Mas a escolha do governo brasileiro não tem outra explicação razoável. No mínimo, pretende dar uma demonstração de boa vontade diante das escaramuças na grande batalha do 5G que ocorrerá em 2021.


Sob pressão dos ventos


Mas quem decidiu isso foi mesmo Bolsonaro? Tantas concessões para conseguir uma vacina que ele tem repudiado em público sistematicamente? Processo que ele atrapalhou o quanto pode, até dois dias antes, quando ainda desqualificava a Coronavac na mídia [3].


Ele vinha chamando a vacina chinesa de “ideológica”, apostou em alternativas como a de Oxford e da Pfizer e saiu desesperadamente atrás do governo da Índia, suposto aliado com identidade “ideológica”. Mas que, entretanto, tem outros aliados preferenciais, em suas áreas de influência geopolítica, a quem vai priorizar o envio das vacinas. E depois de promessas e desmentidos, acabou garantindo apenas 2 milhões de doses, o que é menos de 0,5% das necessidades nacionais do Brasil. Ademais, nos organismos internacionais, o Brasil, recentemente foi o único país considerado “em desenvolvimento” que votou contra a proposta da Índia, que é a maior produtora de vacinas do mundo, de quebrar as patentes desses imunizantes.


Além disso, vinha de um histórico de combate à Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), ao Instituto Butantan e à pesquisa e ciência em geral.


Agora, antes da reunião da comissão de negociação com o embaixador, saiu de novo, pela terceira vez em seu governo, desesperadamente atrás de Xi Jinping, de pires na mão, a pedir favores.


Da primeira vez, em novembro de 2019, pediu, pessoalmente, de última hora, que a China investisse no leilão de petróleo do Pré-Sal, pois nenhum investidor estrangeiro estava interessado, e o presidente chinês acabou dando uma mão de apoio.


A segunda, foi para apagar um incêndio depois da primeira onda de ataques de seu filho à China, em março de 2020, quando Xi Jinping o deixou esperando o retorno de um pedido de telefonema por alguns dias.


Agora, Xi Jinping ainda não atendeu. E dificilmente atenderá antes que os termos da conversa sejam previamente definidos.


Enfim, o seu comportamento tem sido o de uma “biruta de aeroporto”.


Tutelado de vários lados, é controlado pelos chamados “militares do governo”, que conseguiram reduzir sua verborragia e orientam as decisões governamentais que mais importam ao grande capital, a eles próprios e à sobrevivência do Presidente. E, fora do governo, está cercado pelo Congresso Nacional, o STF, setores do MPF e a maior parte da grande mídia comercial e do grande capital.


De certa forma, o que está acontecendo com a “preocupação repentina” de Bolsonaro em garantir a vacina, tem a ver com a pressão que está recebendo do empresariado. Enquanto ele insuflava contra o isolamento social, tinha apoio da maior parte do empresariado imediatista (inclusive pequenos e médios), que imaginava pragmaticamente que seria mais vantajoso economicamente, deixar tudo ou quase tudo funcionando.

Agora, é outra história. Qualquer leitura racional da realidade indica que a vacinação será melhor para o processo econômico capitalista, como ele é. Combater as vacinas, criar dificuldades para a vacinação, dificultar a produção e importação de vacinas, não garantir as condições de vacinação, é a protelação da retomada “normal” da economia e dos lucros. Protelar a vacina é provocar mais prejuízos ou menos lucros e aprofundar ainda mais a crise que o governo vem alimentando há dois anos. Não tem nenhuma racionalidade econômica na perspectiva capitalista.


Enfim, o empresariado quer a vacina, está com pressa e já disse a Bolsonaro o que ele deve fazer.


China: geopolítica, pragmatismo e lucros


A elite política e o empresariado chineses são experientes e bem preparados técnica, política e diplomaticamente. Têm interesses claros, atuam estrategicamente e são pragmáticos. Não importa o regime político ou a ideologia de governantes ou empresários, mesmo que alguns modelos econômicos e reformas em andamento sejam vantajosas para eles, como as que vêm ocorrendo no Brasil.


O que importa é o que eles chamam de “win-win”, o “ganha-ganha”, quando todos ganham em termos imediatos, na lógica do mercado capitalista, mas eles ganham também estrategicamente e vão avançando como potência capitalista mundial.


É aí onde se colocam os termos deste artigo, “Vacinas, drogas e 5G”. Vacinas são parte do que se chama “soft power”, influência política não agressiva, construção de imagem e representação positiva da China. Mesmo sem trazer um lucro direto imediato, é uma forma de abrir espaços e caminhos.


As “drogas ideológicas” anti-chinesas devem ser combatidas. Atrapalham o “win-win” pragmático e a construção da imagem positiva do “soft power”. O comércio bilateral, especialmente a compra de commodities, mesmo com déficit comercial dos chineses, é o “win-win” pragmático entre os empresários e o estado chinês de um lado e as frações capitalistas dominantes no Brasil: é economicamente vantajoso pra todos os capitais.


E o 5G é o fundamental, o mais importante. É “win-win” imediatista para as frações da classe dominante no Brasil, pois vai aumentar seus lucros pragmáticos, como capitalistas particulares. Mas, para a China, além de imediato, é “win-win” estratégico para seu estado e seus capitalistas, pois é seu caminho para a disputa da vanguarda tecnológica e, de modo abrangente, geopolítica e econômica em termos globais.


Nesta parada, resta ao Brasil a reprodução da dependência estrutural. Em relação aos EUA, à China, à Europa e ao Japão. Com Trump ou com Biden, o Brasil segue sendo um campo de batalha, onde quem comanda a batalha são os outros, mesmo antes de Bolsonaro.


E o governo Bolsonaro, tem se comportado como uma “biruta de aeroporto”, se movendo de acordo com os ventos para sobreviver. Fazendo discurso “patriótico” e, ao mesmo tempo, entregando tudo que pode, enquanto a soberania e as riquezas nacionais e as condições e vida do povo vão sendo destruídas.


No meio disso, e na troca de Trump por Biden, Ernesto Araújo pode estar deixando de ser útil para ser um estorno, até mesmo para a sobrevivência política do presidente.


Sem um projeto nacional, em meio à “Guerra Fria” entre EUA e China pela vanguarda tecnológica do capitalismo mundial, o Brasil é um ente alienado, que assiste a disputa interimperialista entre as duas potências e apenas escolhe entre pratos feitos.



Notas:


[1] https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/eduardo-bolsonaro-x-china-novo-round/

[2] https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/as-relacoes-brasil-china-em-tempos-de-pandemia/

[3] https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/bolsonaro-insiste-em-tratamento-precoce-e-volta-a-lancar-desconfianca-sobre-coronavac.shtml


*Jorge Almeida é professor Associado IV do Departamento de Ciência Política, do PPG de Ciências Sociais e do Mestrado em Ciência Política da UFBA. Desenvolve pesquisa sobre a China, tendo realizado pós-doutorado sobre o tema como Visiting Scholar na SOAS-University of London em

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