Uma esquerda reduzida à política do pânico

Livro a ser lançado hoje descreve uma regressão: incapaz de enxergar os limites de seu projeto de governo, um certo “petismo tardio” recorre à autovitimização permanente e atrasa surgimento de novas perspectivas anticapitalistas

Por Paulo Arantes

Texto publicado originalmente no site Outras Palavras


Como Tancredo Neves na manchete histórica do Planeta Diário, o PT também “está morto mas passa bem”. Muito bem, aliás. E ao que parece até com vaga garantida em um futuro segundo turno presidencial. Se da próxima vez o deixarem levar, teremos então novamente os mortos comandando os vivos. A presente coletânea de estudos e intervenções militantes, organizada por Fábio Luis Barbosa dos Santos, Marco Antônio Perruso e Marinalva Silva Oliveira, é uma radiografia muito original justamente desse outro sintoma mórbido do interregno que estamos atravessando: como pode um partido morto dar régua e compasso a todo um campo de forças que bem ou mal ainda sonham dar a volta por cima? A menos que… Mas aí seria o fim.


Ao morto-vivo em questão, os autores estão chamando de petismo tardio, quem sabe parente próximo do progressismo tardio, assombração que teima em voltar à cena numa América Latina neoextrativista exaurida, depois de seu eclipse em ordem dispersa e vexatória. Mais precisamente, para além dos inevitáveis e necessários balanços deficitários dos Anos Lula — não reforma agrária, antirreforma urbana, predação ambiental sistêmica, engenharias sociais retroversas, etc. —, trata-se de uma tentativa pioneira de identificação do novo consenso lulista, cristalizado em torno do trauma de 2016, redescrito pela máquina discursiva petista como o gatilho disparador de uma monstruosa regressão nacional. Além do mais fulminante: da noite para o dia, vindo ainda não se sabe de onde, uma fagulha ateara fogo numa pradaria verdejante de best practices premiadas.


Regressão? Vá lá. Desde que também ela seja considerada ampla, geral e irrestrita, com perdão da má lembrança. Quer dizer, desde que encarada pelo desacreditado ponto de vista da totalidade, que no entanto sempre volta pela porta dos fundos, como agora, na forma bastarda e regressiva da conspiração por todos os lados. Ora, não por acaso, nosso morto-vivo é uma verdadeira usina de processamento de complôs.


Pois então, a regressão encarnada pelo lulismo tardio se manifesta sobretudo numa não tão surpreendente assim restauração do modus operandi do imaginário progressista brasileiro, golpeado mortalmente em 1964. A saber, uma visão do perene confronto com os representantes do atraso (às vezes com aspas, às vezes sem), cuja fisionomia variava conforme a temporada sociológica do momento, e sempre em nome de alguma atualização imperativa da hora, acertar o passo com as forças produtivas, em suma. Daí o retorno de anacronismos, geralmente aos pares contrastantes, como se costumava descrever a luta recorrente entre dois Brasis antitéticos. É preciso esfregar bem os olhos: entre tantas outras relíquias estão aí de volta novamente a civilização em luta com a barbárie, porém bem longe, quem diria, até, ou sobretudo, da visão inaugural de um Euclides da Cunha, ao ver como se demonstrava ao sertanejo retardatário “o brilho da civilização através das descargas”, sem falar nos Vivas à República na hora da degola. E por aí segue o desfile: moderno e tradicional, patrimonialismo e interesse público, nacionalistas e entreguistas, elites com projeto e arcaísmo dos endinheirados, etc., o todo encimado pelo velho e bom desenvolvimentismo de sempre, que aliás o próprio PT repudiara ao nascer — para se ter uma ideia do tamanho da reviravolta. Regida pela mesma lógica binária do progresso por superação das resistências à mudança, um novo cortejo de dicotomias: razão e ressentimento (sempre da classe média, pobre Drummond), ciência e pós-verdade, esperança e ódio, etc. Como sugere um dos autores, a narrativa-tronco do lulismo tardio é uma verdadeira visita ao museu das dualidades brasileiras — sempre instrutiva, aliás.


É claro que não há inocentes nessa visita guiada. Embora raso, há cálculo sob a poeira de tamanha encenação, a começar pela promessa de restauração dos anos dourados do lulismo. Não é difícil perceber o contrabando. Como se faz de conta, por cegueira ou tática, que a ruptura histórica de 64 não decapitara aquela promessa fundacional do reencontro do país com o seu futuro de progresso, estava aberta a porta para se proclamar que o verdadeiro golpe era o processo em curso de sua destituição, ameaçando de extinção toda a luminosa civilização brasileira, na pessoa de seus guardiães e fiadores. Daí o recurso ao pânico, que dá título ao livro.


Um morto-vivo que se preze deve meter medo. Porém do morto-vivo político, nas circunstâncias atuais, espera-se que inspire um medo muito especial, que paralise sim o espírito, desde que mobilize os corações ameaçados. Foi assim com a novela do golpe, que rendeu até cursos especiais, sem surpresa concebidos todos na linguagem restaurada da construção nacional interrompida pela inércia nefasta do atraso. Como a memória dos 30 anos de terror branco na América Latina, gela corações e mentes veteranos, gritamos Golpe! na primeira hora de um impeachment caído do céu para nos livrar a cara e a biografia. Quer dizer, com o upgrade histórico inerente à violência política de um golpe, desferido além do mais por forças reacionárias execráveis, embora aliados até à véspera do caldo entornar, camuflamos a visão nem um pouco épica de uma grande manobra, truculenta, como toda operação de guerra social, de recondução de um candidato a insider, cujo apetite estava saindo muito caro, à sua real condição estrutural de outsider e, se possível, de pária.


Com muito mais razão, há de assustar o grito de alarme Fascismo à vista! À vista, é claro, da peste bolsonarista que se alastra pela brecha aberta pelo supracitado golpe, e cujas mensagens de horror obviamente apavoram muito mais do que a tropa sinistra de engravatados agrupados em torno de um bacharel que fala por mesóclise — o atraso, o atraso! Mágica elementar facilmente desmontada por nossos autores. As já desgastadas palavras de ordem acerca da iminente avalanche fascista de fato podem semear o pânico nos momentos de agonia eleitoral, porém, no day after da catástrofe ou do triunfo, a vida continua sendo tocada no ritmo dos arranjos eleitorais correntes e instituições idem. O “pânico como política” passa de fato um outro recado: não entrem em pânico, pois logo estaremos dando continuidade à nossa política pacificadora de sempre, justamente a gestão da emergência nossa de cada dia. E pensar que as frentes antifascistas históricas se armaram para que a pressão social insuportável que pavimentara o caminho do fascismo jamais se reproduzisse, muito menos na forma de uma nova normalidade. Pelo menos era essa a ideia, que afinal acabou se perdendo pelo meio do caminho, mesmo com a derrota militar daquela máquina de horror. A grande burguesia que até agora está apenas calibrando o projeto bolsonarista de República Miliciana é apenas rica, muito rica, nada mais, para desespero dos progressistas ainda a procura de uma classe dirigente com um projeto de poder e hegemonia no entorno estratégico do país. O chefete bolsonarista que proclamou que a irresistível ascensão do seu bando assinalava o princípio do fim do progressismo no Brasil não poderia avaliar o acerto histórico de sua antevisão.


Resta observar que a política do pânico não é exclusividade do lulismo tardio, tampouco do seu inimigo no circuito dos afetos ameaçadores e autodestrutivos. Apesar dos bons serviços eleitorais, a “retórica da emergência” não é mais apenas uma demasia compreensível na escalada dos confrontos em sociedades cujos vínculos sistêmicos a grande aceleração capitalista está dissolvendo. Nela se exprime o real estado desesperador do mundo. Para ficar num exemplo recente, a crise migratória que se abateu sobre a Europa: o que mais se via na grande mídia e seus consultores acadêmicos eram alusões ao pânico que as sucessivas ondas de refugiados provocavam naquelas sociedades que um filósofo chamou uma vez de comunidades de insegurança. Pânico moral e demográfico, no caso, ao qual não seria difícil agregar todo um repertório de ameaças geradoras de medo-pânico. No momento em que escrevo, uma calculada derrapagem militar no Oriente Médio, incendiou as redes sociais com o fantasma de uma guerra final. Não há articulista do mainstream — estou falando do apocalipse soft dos integrados, uma novidade histórica em todo o caso, e não da desgraça cotidiana dos que se viram no porão do sistema — que não tenha mencionado pelo menos uma vez por mês a tempestade perfeita prestes a desabar sobre o globo, na qual se entrelaçariam três explosões: a da desigualdade social, a da mudança climática e a propriamente dita, nuclear.


Não é preciso subir até esse anticlímax metafísico para saber que o Brasil mete medo por todos os lados. Na segunda parte deste livro, encontra-se um vasto inventário dos descalabros que rolaram nos porões do lulismo no poder, sem falar é claro, e principalmente, dos herdados: como observa um dos autores, a predação é o fundamento da formação nacional. Assim sendo, brandir espantalhos por aqui chega a ser redundante, basta observar o cenário de ruínas à volta — o incêndio do Brasil, como se explica num dos capítulos do livro. A esta altura de desmoronamentos em cadeia, praticamente uma autocombustão que os profissionais do pânico moral, à direita e a esquerda, atribuem-se alternadamente uns aos outros, como se tivessem poder para tanto. Esse casamento de pânico e paranoia talvez explique alguma coisa do atual governo dos vivos pelos mortos.

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