Tomar para si a própria história: os escritos políticos de Fanon

Talíria Petrone escreve sobre a intensidade e a beleza dos escritos políticos de Frantz Fanon, reforçando que a obra permanece como um instrumento para as revoluções do século XXI

Por Talíria Petrone*

Texto publicado originalmente no Blog da Boitempo


Escritos políticos é uma obra intensa e bela. Explicita as mazelas da colonização, mas especialmente a força da resistência anticolonial. A seleção de textos de Franz Fanon nos convida a uma imersão na luta pela libertação da Argélia, apresentando o fio condutor de sua reflexão.


Há quem fale de uma ruptura entre o Fanon de Pele negra, máscaras brancas e o de Os condenados da terra. Este é um livro que refuta as tentativas de fragmentar o pensamento do autor. Que ajuda a compreender a dinâmica da luta de classes, das revoluções e da força que ela tem sobre nós.


A obra revela um Fanon profundamente envolvido na luta contra o colonialismo francês. A desumanização imposta aos argelinos é respondida com a radicalidade da luta pela independência. Os artigos sinalizam uma produção intelectual intrinsecamente ligada à vivência revolucionária. Essa é uma das maiores riquezas dos textos reunidos em Escritos políticos. Uma perfeita “análise concreta da situação concreta”.


Ao escrever sobre o cotidiano da luta anticolonial, o psiquiatra martinicano nos provoca a questões do nosso tempo. O capitalismo, o colonialismo e o racismo constituem uma totalidade indissociável e seguem impactando duramente a vida de diferentes povos, especialmente no Sul global.


A crítica tecida por Fanon à esquerda francesa da época nos provoca sobre os rumos do nosso enfrentamento. É urgente reconhecermos a permanência da colonialidade em tudo: no saber, na política, nas instituições, em nós. E como afirma Deivinson Nkosi no prefácio que agiganta a edição da Boitempo, “a crítica intransigente de Fanon à esquerda é sempre uma crítica que exige o melhor dela, e não a recusa”. A emancipação humana pressupõe destruir o capitalismo, o racismo e os resquícios de colonialismo que nunca foram superados plenamente.


Escritos políticos é sobre a história de uma revolução que culminou na vitória do povo argelino. É inspirador ler sobre um povo tomando para si a própria história. Fanon se transforma enquanto edifica o combate contra o opressor. A contribuição do autor para nossa luta como povo negro, em África ou em Diáspora, é inquestionável.


Escritos políticos é um instrumento para as revoluções do século XXI. Como acerta Fanon: “A revolução é essencialmente inimiga de meias medidas. O processo revolucionário é irreversível e inexorável, o senso político ordena que não se obstrua sua marcha!” Por isso, e tanto mais, uma leitura obrigatória!


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Publicado pela primeira vez no Brasil e com tradução direta do francês, Escritos políticos abrange uma seleção de artigos jornalísticos de Frantz Fanon. Redigidos originalmente para o El Moudjahid, jornal da Frente de Libertação Nacional da Argélia, do qual Fanon foi colaborador de 1957 a 1960, os textos acompanham o cotidiano do colonialismo francês na Argélia, o desenvolvimento da luta pela libertação nacional do povo argelino e a formação do movimento internacional dos países colonizados e do terceiro mundo em meados do século XX.


Exibindo uma prosa vigorosa, ao mesmo tempo cortante e poética, os artigos reunidos nesta obra trazem ao leitor os desdobramentos teóricos ocorridos em uma fase decisiva do pensamento de Fanon. Além disso, deixam ver seu trabalho de agitação política e sua visão estratégica a respeito de conflitos de grande escala que, a seu ver, abriam um horizonte de cura revolucionária para a alienação da humanidade.

O livro contou com xilogravuras de Edson Ikê.


“O mais arrebatador teórico do racismo e do colonialismo deste século.”
Angela Davis
“Ninguém como Fanon viu a íntima e permanente relação entre capitalismo e colonialismo. As esquerdas eurocêntricas têm pago um alto preço por não o lerem ou valorizarem como devido.”
Boaventura de Sousa Santos

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O livro de Frantz Fanon tem tradução de Monica Stahel, prefácio de Deivison Mendes Faustino (Nkosi), introdução de Jean Khalfa, texto de orelha de Talíria Petrone, quarta capa de Angela Davis e Boaventura de Sousa Santos e capa de Edson Ikê.

Confira o debate Marx, Fanon e o anticolonialismo revolucionário, com Jones Manoel e Priscilla Santos, e mediação de Marcilia Brito, na TV Boitempo.


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Saiba mais:


Podcast Guilhotina: #61 Deivison Nkosi.

Podcast Revolushow: n. 94 – “Pele Negra, Máscaras Brancas”, com João Carvalho, Jones Manoel e Deivison Faustino.

TV Boitempo: Os Escritos Políticos de Fanon, com Deivison Nkosi

Carta Capital: Frantz Fanon e a luta anticolonial, com Manual do Jones

LabExperimental: Introdução ao pensamento de Frantz Fanon, com Deivison Nkosi

Blog da Boitemp: A psicopatologia do tecido social em Frantz Fanon: a dupla negação da identidade e da alteridade, de João Carvalho

Blog da Boitempo: A humanidade partida: reflexões fanonianas sobre a pandemia, de Jones Manoel

Revista Quatro Cinco Um: A psiquiatria de Fanon, de Deivison Faustino


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*Talíria Petrone é historiadora, mestra em serviço social e deputada federal pelo PSOL. Autora de (Re)nascer em tempos de pandemia e do prefácio à edição brasileira de Feminismo para os 99%: um manifesto.

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