Sobre uma esquerda ensimesmada e rendida

Ao acreditar-se virtuosa, ela abandonou a ampla ação coletiva. Confundiu resistência com acomodação, limitando-se a discursos vazios e lamúrias. Será preciso resgatar a ousadia de sonhar outro mundo — e acreditar que vitória é possível

Por Júlio Fisherman

Texto publicado originalmente pelo site Outras Palavras


Em seu precioso ensaio “Cinco dificuldades de escrever a verdade”, Brecht foi agudo e cortante ao conclamar a necessidade dos que combatem a iniquidade no mundo em reconhecer a verdade sobre os vencidos que são. Para Brecht, ele mesmo um perseguido pelo nazismo e o macarthismo estadunidense, os perseguidos não devem ficar alegando que o acosso que sofrem se dá por conta de suas virtudes. As injustiças de que são alvo não podem estar na conta do bem que promovem. Como ele mesmo diz:


“Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a umidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza.”

Duras palavras para um progressismo e uma esquerda cada dia mais encerrados em debates subjetivos, que toma uma idealizada condição de pureza e correção como paradigma de ingresso para ações transformativas na realidade brutal do mundo (pós)moderno. Em outras palavras, não basta ser bom e derramar queixumes sobre o estado injusto das coisas, é preciso mais que se manter numa posição moral superior, é preciso ir para o terreno do combate dos mecanismos que estruturam a sociedade capitalista e quando necessário dos seus agentes, aqueles que impedem uma transformação do mundo no sentido de nossas positivas ambições quanto ao seu futuro.


Não é por outra razão que resistir como palavra de ordem não basta. É preciso apontar outro rumo. Aqui vale lembrar do lema de Lamarca: “ousar lutar, ousar vencer”. Sim, é preciso reivindicar a vitória para construí-la. No mesmo espírito daquilo que observou de modo lapidar o poeta romano Virgílio: “eles podem porque eles pensam que podem.” Evidentemente esse pensar não é aquele de uma filosofia charlatã muito em voga hoje, aquela do alcunhado “pensamento positivo” e congêneres, mas a própria disposição de luta se irradiando em nossos movimentos e nos constituindo como seres para a transformação em favor do que buscamos.


É também por isso que se há algo que não pode faltar ao exercício das virtudes é a satisfação que sua prática promove. Se alguém ao exercer a virtude o faz por outra razão, como o orgulho ou o reconhecimento, trata-se tão apenas de heteronomia do dever socialmente construído. Um solo como esse, de fato, nunca será um ponto de partida firme para engendrar mudanças de nenhum nível. Em um certo sentido, só há virtude onde ela é a força interior predominante de nossas próprias ações.


Com dois personagens magnificamente construídos em “Os Miseráveis”, Victor Hugo conseguiu representar muito bem este tópico. Enquanto Jean Valjean exerce a virtude sem tempo para lamentações contra o mundo e na própria busca de se afirmar como o que quer ser, o inspetor Javert se descobre, ao fim, movido pelo exercício do cumprimento estanque de ordens que em realidade nada tinham de autênticas para si. Javert era governado por uma abstração quanto ao dever, não por se compreender como fonte real de suas próprias ações e esforços.


O exercício da virtude, em suma, não deve se lamentar no confronto com os poderes instituídos, naquilo que representa o mal que se combate e se procura superar, tampouco deve ser lido como um fardo, um peso que se carrega e que devemos lembrar aos demais como é difícil agir virtuosamente. Este exercício precisa apontar na direção da regeneração do mundo e de nossos próprios gestos, hábitos e pensamentos, demonstrando, no entanto, sua graça e força.


Força que reside também na amplitude das aspirações, no desejo, ali mesmo onde pode estar a reinar a precariedade, do que é dito impossível. Como anotou de modo sagaz Dostoiévski: “se os seres humanos forem privados do infinitamente grande, não continuarão a viver e morrerão no desespero”. A esquerda está desaprendendo a lutar porque desaprendeu a sonhar e ter ambição pelo tempo ainda não parido. Quase tudo é realpolitik e cálculo, como é na medula o próprio capitalismo, bem pouco é ruptura e enfrentamento objetivo que ultrapassem a linguagem e reclamem implementar um processo produtivo social e de metabolismo com a natureza em favor do bem viver, não do mais produzir e consumir, partejando assim o real poder da fraternidade e do cuidado entre os que vivem.



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