Silvia Federici, a força analítica de Marx e o caráter explosivo da luta feminista

Bruna Della Torre escreve sobre a potência crítica de Silvia Federici, que ao expandir o imaginário político contemporâneo e construir uma nova maneira de olhar o mundo, tornou-se a prova viva de que o marxismo feminista é um dos pontos mais altos do pensamento crítico contemporâneo

Por Bruna Della Torre* Texto publicado originalmente no Blog da Boitempo


Ao longo da história do marxismo, o gênero foi abordado de forma recorrente como uma questão “cultural”, relegado à condição de superestrutura que a cultura muitas vezes ocupou. Em O patriarcado do salário, Silvia Federici demonstra que uma análise materialista dessa questão é, ao contrário, capaz de produzir uma revolução na interpretação de Marx e do capitalismo ao expor como o trabalho doméstico não remunerado é um elemento determinante na composição do valor da força de trabalho como um todo.


O salário patriarcal, produto de uma reforma social e política que disciplinou a classe trabalhadora e empurrou as mulheres para a esfera do trabalho reprodutivo, ocultou ao longo da história do capitalismo áreas inteiras de exploração. Ele conferiu aos homens o poder de comandar o trabalho e os corpos das mulheres, transformando a casa numa fábrica da classe trabalhadora. Federici demonstra que a subsunção real do trabalho doméstico, cujo principal instrumento foi a família, e sua ideologia, o amor, enfraquece toda a classe trabalhadora ao fragilizar socialmente as mulheres. Com isso, a “esfera privada” e a família deixam de ser percebidas como elementos externos ao capital.


Fica evidente, a partir dos ensaios reunidos no livro de Federici, que a luta feminista está no centro da luta anticapitalista. Além de nos convidar a repensar o patriarcalismo do capital e da esquerda, a alargar o conceito marxiano de trabalho e a noção de luta de classes, O patriarcado do salário reúne também contribuições fundamentais aos debates sobre tecnologia e meio ambiente. As utopias socialistas da automação e do desenvolvimento, sustentadas por autores como André Gorz e Antonio Negri, bem como pelo próprio Marx em alguns momentos, são colocadas sob escrutínio.


Já que o trabalho reprodutivo não pode ser plenamente substituído por máquinas e o império da técnica nos legou uma história de espoliação do meio ambiente e extinção de culturas, populações e saberes locais, é preciso reorientar o horizonte de lutas, expandir o imaginário político contemporâneo, construir uma nova maneira de olhar para o mundo e de promover a sua transformação. A potência crítica da obra de Silvia Federici carrega com ela a força analítica de Marx e o caráter explosivo da luta das mulheres e é a prova viva de que o marxismo feminista é um dos pontos mais altos do pensamento crítico contemporâneo.


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O patriarcado do salário, da filósofa italiana Silvia Federici, traz ao leitor uma série de artigos que abordam a relação entre marxismo e feminismo do ponto de vista da reprodução social. Retomando diversas discussões presentes nas obras de Karl Marx e Friedrich Engels, a autora aponta como a exploração de trabalhos como o doméstico e o de cuidados, exercido pelas mulheres sem remuneração, teve e tem papel central na consolidação e na sustentação do sistema capitalista.


Revisitando a crítica feminista ao marxismo e trazendo para o debate perspectivas contemporâneas sobre gênero, ecologia, política dos comuns, tecnologia e inovação, Federici reafirma a importância da linguagem, dos conceitos e do caráter emancipador do marxismo. Ao mesmo tempo, esclarece por que é preciso ir além de Marx e repensar práticas, perspectivas e ativismo a fim de superar a lógica social baseada na propriedade privada e desenvolver novas práticas de cooperação social.

O livro de Silvia Federici foi traduzido por Heci Regina Candiani, tem a orelha assinada por Bruna Della Torre e a capa de Ronaldo Alves sobre obra de Vânia Mignoni. A edição da Boitempo de O patriarcado do salário contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

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Confira o debate de abertura do ciclo “Por um feminismo para os 99%”: Feminismo, comuns e ecossocialismo, com Silvia Federici e Sonia Guajajara, mediação de Bruna Della Torre (Marxismo Feminista).

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Saiba mais:


Outras Mamas Podcast: #102 – O patriarcado do salário, de Silvia Federici


Jornal Rascunho: Artigos de Silvia Federici abordam marxismo e feminismo


Agência Pública: Silvia Federici: “Espero que esse momento impulsione uma forte mobilização de movimentos feministas”


*Bruna Della Torre é professora substituta no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, editora executiva da revista Crítica Marxista, pesquisadora associada ao Laboratório de Estudos de Teoria e Mudança Social (Labemus) e membra fundadora da coletiva Marxismo Feminista. Realizou pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, doutorado em Sociologia (bolsista Capes) e mestrado em Ciência Social (bolsista Fapesp), todos na Universidade de São Paulo.

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