Que conclusões podemos tirar das eleições de novembro?

É preciso uma resposta a altura e não há tempo de esperar a próxima eleição. Os movimentos sociais como a CUT, a UNE, UBES, as frente Povo Sem Medo e Brasil Popular, os partidos de oposição como PT, PCdoB, PDT, PSB, precisam colocar o bloco na rua e construir uma oposição por meio de atos e manifestações

Por Babá*


Saímos de uma eleição muito atípica, em meio a pandemia e na maioria das capitais e grandes centros urbanos sem campanhas de rua ostensivas na maior parte do pleito. Apenas na reta final é que as grandes máquinas de cabos eleitorais pagos com santinho e bandeiras tomou mais espaço nas ruas.


Sou da opinião de que as eleições não conseguem refletir o verdadeiro estado de ânimo da disputa entre as classes sociais, elas refletem esse processo de forma distorcida mas é possível tirar lições do que se expressou nas urnas.


As eleições expressaram uma derrota eleitoral dos candidatos apoiados pelo presidente Bolsonaro, mostram um avanço de setores da direita clássica que já governou o país nos anos 90 e com o governo ilegítimo de Michel Temer, além da continuidade do recuo eleitoral do PT. Além disso, revelou novidades auspiciosas como a forte eleição do PSOL nas câmaras e no segundo turno de São Paulo.


A ampla maioria da imprensa e dos analistas da burguesia concentraram suas análises explicando a derrota eleitoral dos candidatos apoiados por Bolsonaro, de um lado, e uma das piores eleições do PT, por outro, que deixou de eleger prefeitos em capitais pela primeira vez desde que esse partido disputa as eleições.


É de fato um dado muito importante porque expressa uma tendência de ruptura com um setor importante da classe trabalhadora e de setores da classe média com o bolsonarismo clássico. Além disso, revela a perda de hegemonia do PT num campo dos eleitores mais politizados.


No entanto, seria um erro acreditar que esses projetos já concluíram seus ciclos. Bolsonaro sofreu um desgaste inegável, não obteve mais um tsunami de votos como em 2018 e não elegeu aliados nos maiores centros urbanos, porém seu governo não está na lona. Não caiu ainda para o baixo nível de popularidade do Temer. Bolsonaro ainda detém apoio de um setor da burguesia nacional e confiança em setores populares e da classe trabalhadora.


O PT guarda em alguns setores do imaginário popular a crença de que representa um projeto de esquerda e possui uma figura pública como Lula que ainda pode mostrar força eleitoral. Se trata de uma ilusão de setores populares já que o PT está absolutamente incorporado ao regime político burguês, defende projetos capitalistas e não representa qualquer expressão de mudança profunda.


A importante votação do PSOL que canalizou importante votação anti-bolsonaro, contra a extrema direita, e em apoio às pautas negras, LGBT´s e feministas indica que há um espaço mais a esquerda que pode ser disputado. A ida ao segundo turno em São Paulo de Guilherme Boulos, um jovem dirigente do Movimento Sem Teto, que terminou as eleições com 40% da votação da maior cidade da América Latina é a expressão viva disso.


A grande novidade com Boulos não foi uma grande frente eleitoral. Ao contrário, no primeiro turno e com apenas 17s na TV o PSOL conseguiu com uma frente de esquerda (PCB e UP) superar as distintas variantes dos que governaram ou foram parte das últimas gestões com tucanato em São Paulo.


Ter se apresentado de forma independente dos maiores partidos que já governaram foi condição fundamental para capitalizar o espaço da novidade e deve demonstrar lições.

No Norte do país a eleição de Edmilson Rodrigues do PSOL, derrotando o bolsonarista no segundo turno expressou uma ruptura com o projeto que governava Belém há 16 anos. Um resultado positivo. Mesmo que lá desde o primeiro turno numa aliança ampla que equivocadamente integra partidos burgueses.


Contraditoriamente, o setor político mais vitorioso nestas eleições foi a direita clássica do DEM, PSDB e MDB, que aparenta ser uma alternativa ao Bolsonarismo para setores amplos do eleitorado. Um setor que é parte fundamental da aplicação das reformas que retiram direitos da classe trabalhadora e que possuem um acordo muito importante com o governo Bolsonaro que é o ajuste fiscal.


O próximo ano seguirá com mais ataques, isso não há dúvida: reforma administrativa para acabar com o serviço público e os servidores; novas alterações nos regimes de previdências dos estados e municípios e congelamento salarial.


O exemplo do Rio de Janeiro é emblemático: o projeto político que saiu vitorioso das urnas com Eduardo Paes, utilizará sua vitória para justificar o aumento da alíquota previdenciária dos servidores municipais.


A maior preocupação deve ser como organizar e unificar as lutas contra esse projeto mais global que tanto Bolsonaro quanto a oposição de direita com Maia, Alcolumbre e os governadores querem aplicar. Precisamos construir uma unidade de ação ampla e protestar todos juntos contra esses ataques.


É preciso uma resposta a altura e não há tempo de esperar a próxima eleição. Os movimentos sociais como a CUT, a UNE, UBES, as frente Povo Sem Medo e Brasil Popular, os partidos de oposição como PT, PCdoB, PDT, PSB, precisam colocar o bloco na rua e construir uma oposição por meio de atos e manifestações. Lideranças como Boulos e as bancadas do PSOL podem liderar esse necessário enfrentamento.


Esse é o enorme desafio colocado em nossas mãos, sobretudo quando a pandemia coloca sinais de novo surto de contágio. Lutar é condição para sobreviver, como diziam os jovens negros que protestavam para "não morrer de fome, de covid ou das balas da polícia".


*Babá é vereador do PSOL na Câmara Municipal do Rio de Janeiro

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