Peru: se amplia insurreição popular contra golpe institucional

Uma coalizão capitalista mafiosa está por trás do impeachment questionável de Vizcarra. Nas ruas muita disposição de lutar contra a manobra e o novo governo

Por Pepe Mejía

Texto publicado originalmente no site Insurgência


A imagem de um jovem de 26 anos, que esmurra o deputado de direita da Acción Popular, Ricardo Burga, concentra toda a fúria e rejeição em relação à chamada "classe política". O jovem poderia pegar seis anos de prisão, mas poderia pegar mais. No Peru, as pessoas foram para as ruas. Suas únicas ferramentas são gritos, cartazes feitos à mão e de papelão, faixas, bandeiras, mas eles também carregam pedras em suas mãos. A resposta da polícia é aplicar uma repressão muito severa.


Protagonistas desta revolta espontânea do povo: jovens e mulheres, em sua maioria. E eles vão para as ruas porque estão fartos de uma situação que já vem cozinhando há muito tempo. Mas agora ela está explodindo. Em meio à pandemia mais cruel, que o país lidera na América Latina, com uma grande crise econômica que não tem horizontes e uma crise política de representação, de legitimidade, porque a corrupção corrói todos os alicerces deste sistema apodrecido.


A decisão tomada pelo Congresso de retirar o presidente Martín Vizcarra do cargo, por acusações de corrupção e suborno que não chegaram ao Judiciário, foi o rastilho que explodiu nas ruas. Apesar do estado de emergência declarado pela pandemia do coronavírus, desde o momento em que o Congresso - com votos dos partidos de direita, extrema direita e esquerda representados na Frente Ampla, apenas dois deputados votaram contra - aprovou a demissão da Vizcarra. Mobilizações em todas as regiões do país, mas principalmente em Lima. Cerca de quatro mil pessoas se reuniram na Praça San Martín, a poucos metros do Palácio Presidencial, no coração de Lima.


Nos diferentes bairros de Lima, incluindo a periferia, ouve panelaços havia caçarolas e as convocações às ruas se mantêm. Em Miraflores, um bairro de classe média alta, onde as pessoas geralmente não se mobilizam (a ponto de não haver presença policial), mais de mil pessoas já saíram às ruas. Em Cusco vermelho, o umbigo do mundo, onde a insurreição camponesa liderada por Hugo Blanco começou com o grito "Terra ou morte", hoje jovens e mulheres tomaram as ruas, gritando "Insurgência do povo". Mas os slogans mais entoados têm sido contra a corrupção. "Merino, escute, o povo o repudia!", "Fora com os corruptos!", "Merino não me representa!", "Não ao Congresso!", "Vizcarra sim, não ao golpe!", entre muitos outros.


A resposta às exigências do povo mobilizado foi, como sempre, lançar mão da mais dura repressão. No momento em que escrevo, mais de cinqüenta pessoas foram presas e muitas ficaram feridas. O principal alvo dos manifestantes no centro de Lima tem sido a fachada do BBVA [banco espanhol]. Uma chuva de pedras destruiu as grandes janelas do símbolo capitalista. A polícia isolou as instalações do partido de direita Acción Popular, para evitar o assalto do povo mobilizado.


Outro objetivo tem sido chegar ao congresso, pelas várias ruas ao redor. Em uma delas, uma mulher grávida permaneceu sentada como medida de protesto contra o novo presidente Manuel Merino. Gases, balas e água. O temido, odiado e histórico Rochabús - um caminhão carregado com água para dispersar os manifestantes - fez uma aparição. As pessoas ajoelhavam-se com seus tambores e gritavam slogans em favor da democracia. E continuam os panelaços.


Mas a decisão de retirar Vizcarra do cargo expôs os interesses por trás deste golpe de Estado que alguns chamam de "golpe para a democracia". Variados interesses estão entrelaçados. Há um grupo parlamentar que apoiou a queda de Vizcarra, para garantir que fique fora da prisão um homem condenado por homicídio e rebelião. Outros estão sendo comprados com privilégios, omo o benefício à expansão de universidades privada, que enchem seus bolsos. Todos aqueles que votaram têm seus interesses ocultos, mas nenhum deles é a favor do povo. Como eu li em um tweet: Este presidente pode ser legal, mas ele é ilegítimo (e incompetente). De fato, toda a classe política é ilegítima, cheia de corrupção de todos os lados. Que o silêncio acabe. Não sejamos cúmplices.


Junto com os grupos parlamentares lambebotas, estão no golpe o sistema financeiro, os chamado doze apóstolos (as grandes famílias que controlam o país desde o início da República), a comunidade empresarial, o Clube da Construção (a máfia em torno do setor imobiliário e da construção civil), a ala ultradireita das FFAA, que é formada por militares inescrupulosos que assassinaram e têm múltiplas denúncias de violações de direitos humanos. Há ainda máfias golpistas ligadas ao tráfico de terras, de cocaína, agronegócio, plantações, extração ilegal de madeira, mineração, colonização, corporações com dívidas milionárias suspeitos de lavagem de dinheiro e megaoperações de corrupção e suborno, com a Odebrecht como pano de fundo.


Mas o povo também toma as ruas para expressar sua rejeição ao primeiro-ministro que vem da mão de Merino, o presidente que substitui Vizcarra. Ántero Flores-Aráoz, que assume o gabinete de transição até 2021, é presidente do Partido da Ordem. Ministro da Defesa (com o suicídio de Alan García) durante o 'Baguazo', numa área amazônica habitada por nativos, é suspeito de responsabilidade pela morte -de 33 pessoas e o desaparecimento de um policial.


Um advogado do atual primeiro-ministro defende José Luna Gálvez, fundador de Podemos Perú, que foi preso sob a acusação de ser membro da organização criminosa Los Gánsteres de la Política. Antero Flores-Aráoz é também o representante do maior lobby contra o meio ambiente. Flores-Aráoz expressou sua rejeição à aprovação do Acordo de Escazú no Congresso. O acordo, cuja ratificação pelo Peru foi arquivada em outubro deste ano, tinha como objetivo melhorar as condições para fornecer e gerenciar informações ambientais, promover a participação cidadã na tomada de decisões e administrar a justiça ambiental.


Acusado de machista, Ántero disse de Veronica Mendoza, uma candidata da esquerda, que ele "não conhecia suas propostas", embora ele tenha destacado suas qualidades físicas. Homofóbico declarado, ele rejeitou qualquer avanço da união civil para pessoas do mesmo sexo no nível legislativo, dizendo que elas não podem procriar e que "basta que elas dêem as mãos". "Eu sou absolutamente contra o casamento gay. (...) Mesmo que eu não ganhe um único voto gay, tenho amigos gays, mas não concordo. Que crianças eles vão ter, se forem gays?", disse ele em 2016 para o Peru21. Para completar, o atual primeiro-ministro, promovido com o apoio de redes mafiosas, pronunciou-se contra o aborto em casos de estupro em todas as suas formas.


A rua está cheia. Há muita disposição para a mobilização desta vez. 150 organizações sociais e institucionais condenaram o "golpe de Estado". Acadêmicos, dentro e fora do país, assinaram manifestos contra a ignomínia. A Aidesep, a principal entidade que reúne as organizações indígenas, apelou para a desobediência às autoridades. A Associação de Municípios do Peru (Ampe) afirma que há uma rejeição generalizada ao impeachment do ex-presidente Martin Vizcarra e eles rejeitam Merino, o atual presidente.


Fora do Peru, há também reação. Barcelona, Madri, Paris, Suécia... em muitas capitais europeias foram organizadas mobilizações contra o golpe à democracia e à corrupção. O cenário é infame, oportunista e mesquinho, mas há muita gasolina nas ruas e muitas pedras nas mãos dos peruanos.

10 visualizações

© 2020 - Observatório Da Crise / Fundação Lauro Campos e Marielle Franco

Alameda Barão de Limeira, 1400, Campos Elíseos, São Paulo (SP)