Os laboratórios por trás da obsessão de Trump e Bolsonaro pela cloroquina

Atualizado: Mai 25

Acompanhamento sistemático da ação organizativa, política, social e ideológica das classes dominantes no Brasil, a partir de uma leitura marxista e gramsciana realizada no GTO, sob coordenação de Virgínia Fontes. Coluna organizada por Rejane Hoeveler

Por Elaine Bortone*


“As empresas farmacêuticas enxergam no Covid-19 uma oportunidade de negócios sem precedentes”, declarou Gerald Posner, jornalista investigativo inglês, acrescentando que “quanto pior a pandemia, maior a expectativa de lucro”. 


Os lucros da indústria farmacêutica, via de regra, não são investidos em pesquisas científicas; ao contrário, geram gordos bônus não só para laboratórios, e também retroalimentar o fortíssimo lobby da Big Pharma internacional; além, é claro, de financiar campanhas políticas de candidatos para influenciar o Congresso nas discussões que interessam às corporações farmacêuticas. 


No momento, a cloroquina, medicamento usado para o tratamento de pacientes com doenças autoimunes e malária, tornou-se o espetáculo de oportunismo da vez. 


Didier Raoult é o pesquisador francês que está por trás das alegações de Donald Trump de que o mundo teria encontrado uma verdadeira “bala de prata” para o coronavírus: o imunossupressor antimalárico comumente chamado de hidroxicloroquina. O que pouco se disse é que o polêmico Didier Raoult é um negacionista do aquecimento global (o que já prova sua relação pouco rigorosa com a ciência), e que ele ignorou o protocolo padrão para testá-lo em seus ensaios adepto da implantação em massa do uso de cloroquina – fabricada pelo laboratório francês Sanofi. 


O médico francês tirou suas conclusões de uma testagem pequena (24 pacientes) e com resultado reconhecidamente inconclusivo, porém, afirmando que 75% deles testaram negativo em seis dias, foi o suficiente para ser utilizado como peça de propaganda política mundo afora.  Karine Lacombe, chefe do departamento de doenças infecciosas do Hospital St. Antoine, em Paris, questionou fortemente a ética das conclusões, afirmando que “o que está acontecendo em Marselha é absolutamente escandaloso […] e vai além de qualquer enfoque ético”.


O jornal norte-americano New York Times informou na última semana que a família Trump tem investimentos em um fundo mútuo Dodge & Cox, tendo o mega laboratório SANOFI como sua maior holding. A Forbes estima que o patrimônio líquido total de Trump somente na SANOFI seja de US$ 2,1 bilhões. O bilionário Ken Fisher, um dos principais doadores para o Partido Republicano, é um dos maiores acionistas da SANOFI, informou o New York Times


O presidente dos Estados Unidos Donald Trump imediatamente passou a promover o medicamento, mesmo que sua eficácia ainda não tenha sido comprovada conclusivamente em estudos científicos, e ainda sem a aprovação da FDA – Food and Drug Administration, principal órgão regulador de medicamentos no país. Essas informações, confirmadas pela imprensa estadunidense, escancararam o interesse pessoal de Trump em promover este medicamento.


No Brasil, a situação não é diferente. 


Um garoto propaganda na Presidência


Bolsonaro, sabidamente contrário à ciência, ignora as falas de médicos, pesquisadores e da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a pandemia. Combate a necessidade urgente do isolamento social; finge não ver o que está acontecendo em diversos países, em situação drástica há mais tempo; agride e debocha de governadores que estão tomando medidas preventivas; sabota as políticas para assegurar a quarentena aos trabalhadores; e dia após dia faz corpo-a-corpo com seus eleitores, fortalecendo a ideia de que o isolamento social é uma grande bobagem. 


Mas dentro de tudo isso, seguramente sua pior ação tem sido propagandear a cloroquina como medicamento eficiente para a cura do Covid-19.


Apenas para ficar com a posição de Margareth Dalcolmo, uma destacada pesquisadora da Fiocruz:


“É preciso que as pessoas entendam que o tratamento com hidroxicloroquina é experimental, tem sido feito não só no Brasil, na rede privada, como em vários locais do mundo como uma tentativa de tratamento em pacientes em terapia intensiva, onde não há nenhuma outra terapêutica comprovadamente eficaz. É nessa condição que ela está sendo utilizada.” 

Ignorando os múltiplos alertas da comunidade científica brasileira e internacional, no dia 21 de março, Bolsonaro postou no Twitter um vídeo doméstico gravado pelos seus três filhos, Carlos, Eduardo e Flávio, e o publicou com o título: “Hospital Albert Einstein e a possível cura dos pacientes com o Covid-19”. 


No vídeo, o presidente afirmava que teria sido informado por profissionais do Hospital “Alberto” [sic] Einstein de que estes tinham um protocolo de pesquisa para avaliar a eficácia da cloroquina nos pacientes com Covid-19; e que, a partir disso, decidiu, junto com o ministro da Defesa (Fernando Azevedo), que o laboratório químico e farmacêutico do Exército ampliaria imediatamente a produção desse medicamento. A notícia foi alardeada nos grupos bolsonaristas como a cura milagrosa que viria do capitão e seu Exército, levando seus seguidores a esvaziar o produto das prateleiras das farmácias, e deixando os pacientes que realmente precisam sem seu medicamento vital. 


Bolsonaro tem divulgado também o medicamento Reuquinol, produzido no Brasil do laboratório Apsen, de propriedade de Renato Spallicci. Este empresário é um militante bolsonarista de longa data, que em 2018, durante a campanha presidencial, fez várias postagens de propaganda e apoio no seu Facebook, do então candidato do PSL. 


Em um episódio pitoresco, no dia 26 de março, em videoconferência com os líderes do Grupo dos 20 (G20), Bolsonaro atuou como um verdadeiro garoto propaganda, deixando à vista dos presentes amostras de caixas deste remédio produzido pela Apsen. No mesmo dia, Spallicci postou no seu Facebook uma matéria com a notícia de que o Reuquinol havia sido mostrado pelo presidente aos mais poderosos líderes mundiais. Em seguida, em uma live, Bolsonaro fez de novo a propaganda, mostrando duas caixas do remédio Reuquinol, e ainda zombou: “como é mesmo o nome desse vírus?”, soltando uma alta gargalhada. Em seguida, Bolsonaro afirmou ainda que o que se espalhou no Brasil foi simplesmente uma “histeria”; e completou, com ar de (mau) piadista: “Histeria quem criou não foi a imprensa… foi Papai-Noel, foi o Saci-Pererê”.


Outro empresário envolvido com a cloroquina é Carlos Sanchez, presidente do conselho de administração do grupo NC, proprietária do laboratório farmacêutico EMS [1], que fará o maior teste clínico de cloroquina do mundo para o tratamento dop Covid-19. Sanchez participou de uma reunião com Bolsonaro por videoconferência no dia 21 de março. 


Bolsonaro quer vender uma cura milagrosa a qualquer preço, mesmo que seja fake, e para isso se cercou de médicos como Nise Yamaguchi, imunologista e oncologista, diretora do Instituto Avanços em Medicina e atua também nas dependências do Hospital Albert Einstein, de forma “independente”; e, importante ressaltar, politicamente próxima aos círculos olavistas, que a vêm promovendo para seu público.  


No dia 8 de abril, Yamaguchi foi convidada pelo presidente para integrar o Gabinete de Crise de combate ao coronavírus com a missão de “reunir toda a produção científica sobre a cloroquina no Brasil e no mundo” e “liderar um processo de flexibilização da legislação sobre cloroquina de modo que facilite sua prescrição sobre pacientes”. Segundo ela, o uso do combinado de hidroxicloroquina e azitromicina para pacientes no início da doença, tem sido usado por hospitais, inclusive pelo Albert Einstein, e “tem tido sucesso em idosos”. Logo, a médica seria constantemente incensada pela CNN Brasil, de Rubens Menin, de posicionamento sabidamente favorável ao governo Bolsonaro. 


Em nota publicada no mesmo dia, na Folha de São Paulo, a direção do Albert Einstein informou que a informação “não é verídica” e que o hospital tem usado o remédio apenas em pacientes graves, monitorando seus resultados – informação que obviamente não teve a mesma circulação que a fake news propagada pelos bots, reais ou virtuais, de Bolsonaro. 


É interessante lembrar que o histórico de Bolsonaro na área não é novo: ele foi o autor do Projeto de Lei que dispunha sobre a produção e distribuição da Fosfoetolamina, substância vendida por ele como eficaz na luta contra o câncer, porém sem respaldo científico.


Assim agindo, Bolsonaro politiza uma questão que deveria se restringir ao âmbito da ciência: o posicionamento favorável ou contrário ao uso deste ou de qualquer medicamento não deveria jamais ser tratado como um instrumento político. Trump e Bolsonaro sabem disto, porém têm motivações bastante concretas, como apontamos acima, para fazê-lo: o lucro e a sobrevivência política se colocam criminosamente acima da vida.

 


*Elaine Bortone é psicóloga e Historiadora, Mestre em Administração Pública (UFF), Doutora em História (UFRJ); pesquisadora do Grupo de Trabalho Empresariado e Ditadura e do Grupo de Trabalhos e Orientação (GTO) coordenado pela professora Virgínia Fontes. 

 

NOTAS


[1] O Ministério da Justiça e Segurança Pública multou, em 2020, o grupo farmacêutico EMS em R$ 6,5 milhões por ter comercializado remédios para hipertensão com impurezas da espécie nitrosamina que podem causar câncer. BOAVENTURA, Antonio. Grupo farmacêutico EMS é multado em R$ 6,5 milhões por vender remédios de pressão com cancerígeno. Guarulhos Hoje, 6 abr. 2020. Disponível aqui. Acessado em 07 abr 2020.


27 visualizações

© 2020 - Observatório Da Crise / Fundação Lauro Campos e Marielle Franco

Alameda Barão de Limeira, 1400, Campos Elíseos, São Paulo (SP)