Os escritos originais de Mariátegui

A obra de José Carlos Mariátegui, como a de Antonio Gramsci, é fruto de uma reconstrução póstuma. Felizmente, agora temos acesso aos escritos originais desse primoroso revolucionário latino-americano

Por Ricardo Portocarrero Grados*

Texto originalmente publicado no site Jacobin Brasil


Na América Latina e no mundo, a obra de José Carlos Mariátegui segue suscitando interesse e gerando novos debates. A rigor, ela nunca deixou de existir. Hoje não apenas nasce um renovado interesse pelas ideias do marxista peruano, mas também no apaixonante – e mal compreendido – processo de escritura e método criativo do Amauta [título para professores do império Inca]. Por isso é tão salutar contar com o inédito acesso aos escritos originais de José Carlos Mariátegui.


O Arquivo José Carlos Mariátegui já tem esses textos para consulta pública. Repleto de correções, marcações, comentários e outros elementos que nos convidam a repensar o processo criativo por detrás da célebre obra de Mariátegui, espera-se que abra uma nova etapa na investigação e apreciação do maior marxista latino-americano do século passado.


Uma história editorial acidentada


Com a morte de José Carlos Mariátegui, em 16 de abril de 1930, ele recebeu o reconhecimento de sua vida e obra, com uma massa de pessoas acompanhando seu funeral, o que seria seu último lugar de descanso. Seus apoiadores propuseram a publicação póstuma de dois livros que Mariátegui vinha preparando nos últimos meses de sua vida, através da Editorial Minerva. No ano seguinte, um acordo multipartidário no Congresso Constituinte de 1931 aprovou a proposta de Víctor Andrés Belaúnde, um de seus opositores políticos, de conceder uma bolsa aos filhos de Mariátegui para que completassem seus estudos e, depois, coletassem e publicassem seus escritos, dispersos em numerosas revistas do Peru e do continente.


Esses projetos não se concretizaram. O impulso da “desmariateguização” do Partido Comunista promovido por Eudocio Ravines, a crise econômica mundial e a brutal repressão dos governos oligárquico-militares entre 1931 e 1956 não o permitiram. Mariátegui tornou-se um autor proscrito e perseguido. Alguns amigos, no Peru e no estrangeiro, promoveram e difundiram sua obra durante as duas décadas seguintes à sua morte, sobretudo de forma clandestina.


A espera durou até meados da década de 1950 para que, a pedido de sua viúva, Anna Chiappe, e de seus filhos, e por meio da Livraria e Editorial Minerva, iniciasse o mais importante projeto editorial desenvolvido no Peru para difundir a obra de um escritor peruano. Este projeto teve início com a compilação, ordenamento e publicação das Obras Completas de José Carlos Mariátegui em vinte volumes de edição popular, que vendeu aproximadamente dois milhões de exemplares (apenas as edições de 7 ensayos tinham tiragens de 50 mil exemplares).

(Viúva de Mariátegui, Anna Chiappe [Arquivo José Carlos Mariátegui])


A divulgação das edições impressas de Mariátegui tem seu auge com a publicação de dois volumes de Mariátegui Total (quase quatro mil páginas) no contexto do centenário de seu nascimento, em 1994. A edição incluiu os Escritos Juveniles, sua Correspondencia e um álbum fotográfico, que ainda estão circulando nas livrarias.


Paralelamente à publicação das edições impressas da obra de Mariátegui, foram publicadas edições fac-símiles das revistas Amauta, Nuestra Época, Claridad e a quinzenal Labor. Cabe notar que seu livro mais famoso, 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana, teve mais de sessenta edições, incontáveis edições piratas e uma vintena de traduções para outras línguas. Para concluir, trata-se de um dos acervos documentais mais importantes do país que, além disso, não contou com o apoio do Estado para seu desenvolvimento. Somam-se numerosas antologias publicadas no Peru e no exterior, em espanhol e em outras línguas. O mais recente de Martín Bergel, apareceu no ano passado (Siglo XXI, Argentina, 2020).


O arquivo do Amauta


Apesar da ampla divulgação de sua obra, que lhe permitiu ser um dos autores peruanos mais lidos nacional e internacionalmente – ao lado de César Vallejo, José María Arguedas e Mario Vargas Llosa – seus herdeiros consideraram que ainda havia muito por fazer. E essas novas tarefas vieram de mãos dadas com as novas tecnologias. Em 1994, 7 ensaios tornou-se o primeiro livro de um autor peruano que pode ser consultado e lido na íntegra na Internet, disponível no site da Rede Científica Peruana (RCP).


Nos últimos cinco anos, o Archivo José Carlos Mariátegui assumiu a tarefa, após um processo longo de compilação, ordenamento e classificação, de digitalizar grande parte da documentação sobre José Carlos Mariátegui. Sua correspondência, fotografias, a reconstrução da sua biblioteca, a bibliografia de e sobre Mariátegui, a edição integral da revista Amauta, sua documentação administrativa e outros podem ser consultados de maneira livre e gratuita na internet (www.mariategui.org). Dessa maneira, a obra de Mariátegui está na vanguarda do Peru em termos de digitalização de arquivos pessoais.


Em julho de 2020, o Arquivo José Carlos Mariátegui iniciou uma nova fase de reorganização e recomposição da obra de Mariátegui. Até essa data está disponível na sua plataforma digital (para acesso gratuito a todas pessoas interessadas) 134 artigos em manuscritos originais de José Carlos Mariátegui digitalizados e indexados para consulta em qualquer dispositivo eletrônico.


Por que retornar aos escritos originais?


Para o pesquisador, o acesso aos escritos originais é imprescindível. Existe a ideia aceita de que o fundamental para conhecer e estudar um autor é consultar sua obra impressa. E assim foi no caso de Mariátegui: a edição de suas Obras Completas e de Mariátegui Total, junto com as numerosas antologias, tornaram-se a principal fonte de consulta de seus escritos. No entanto, Mariátegui somente publicou dois livros em vida e deixou em preparação outros três; a maior parte de seus escritos permaneceram dispersos em inúmeras revistas do Peru e no exterior, principalmente Mundial e Variedades.


Isso significa que as principais edições da obra de Mariátegui não foram organizadas por ele, com os quais os critérios de compilação, seleção e ordenação foram estabelecidos por terceiros. Isso fez com que, muitas vezes, essas edições fossem consideradas erroneamente como livros “orgânicos”. Não se pode deixar de mencionar que essa é uma nova semelhança entre Mariátegui e Antonio Gramsci com seus famosos Cadernos do cárcere.


Uma contrapartida dessa reconsideração da obra de Mariátegui é recordar que o peruano foi fundamentalmente um jornalista, profissão a qual se dedicou por toda a vida desde muito jovem. Foi a partir dos espaços próprios do periodismo (a oficina, a redação, a direção) que desenvolveu sua formação política e intelectual. Muitos marxistas clássicos (Marx, Lenin, Trotsky, Luxemburgo, Gramsci) também tiveram essa atividade como o centro de sua ação política para produzir, difundir e debater ideias, a fim de convencer e contribuir para formar um movimento político de massas. Ou seja, em seu afã político, Mariátegui raramente escreveu “obras” que hoje se apresentam como o horizonte de sua intervenção intelectual.


Os espaços jornalísticos têm uma íntima relação com os métodos de trabalho. Pela sua formação jornalística, Mariátegui escrevia páginas diariamente, reelaborava constantemente, fazia leituras comentadas (muitas vezes nas margens de seus livros), preparava fichas onde resumia algumas ideias que considerava pertinentes. Não fez extensos resumos em cadernos, como Karl Marx, mas trabalhou com fichas e, sobretudo, através da prática diária do jornalismo.


Esses espaços também diferem das áreas próprias do mundo universitário (a sala de aula, a cátedra, a biblioteca, a administração). Repetiu-se a exaustão que Mariátegui é um antiacadêmico. Mas não ao ponto de desdenhar a cultura escrita, a academia, a pesquisa ou o estudo, mas nesse sentido banal, da lógica própria do Peru nas primeiras décadas do século XX, onde a universidade estava controlada por elites agrupadas em torno do Partido Civil.


Esses escritos permitem ter uma ideia aproximada de sua forma de redação de textos e de seu sistema de trabalho. As correções e emendas após uma primeira redação em uma máquina de escrever, por exemplo, oferecem uma ideia aproximada de seu processo criativo. Ainda mais quando, em casos de alguns artigos republicados posteriormente em outras revistas, for possível confrontar as novas correções que também podem contribuir para a compreensão do desenvolvimento de suas ideias.

(Manuscrito de “Trotsky e a oposição comunista [Arquivo José Carlos Mariátegui])


Nesse sentido, conhecer o processo de elaboração da escrita de um autor – desde sua redação até sua impressão – para compreender seu pensamento, suas ideias e abordagens é fundamental. Ter hoje 134 de seus escritos originais, ainda que seja uma amostra mínima dos mais de três mil que escreveu em vida, é muito importante para compreender seu processo criativo e lembrar que Mariátegui, enquanto jornalista, dirigiu sua escrita quase diária para um público muito amplo. A imediatez era uma característica necessária de seus artigos, muito diferente daqueles longos períodos de reflexão e revisão próprios do autor acadêmico.


Porque tão poucos escritos originais sobreviveram?


Ao contrário da imagem idílica de Mariátegui como um intelectual que trabalhava tranquilamente em sua casa, ele foi constantemente assediado e perseguido pela ditadura de Augusto B. Leguía (1919-1930). De forma contínua, a polícia reteve sua correspondência, roubou seus documentos e até invadiu sua casa em algumas ocasiões, confiscando parte de seu arquivo pessoal, como artigos, cartas, revistas e livros. Para constatar isso, basta revisar sua correspondência na qual reclamava constantemente dessa situação que, finalmente, motivaria sua decisão – frustrada – de transferir a revista Amauta para Buenos Aires.


No contexto da denúncia do suposto “complô comunista” de junho de 1927 por parte do governo de Leguía, escreveu ao argentino Samuel Glusberg:



Tratarei de retomar a publicação do Amauta, em Lima. Se não puder reconsiderar seu fechamento, me dedicarei a preparar minha viagem a Buenos Aires para estabelecer ali a revista, que tem ampla base de circulação americana, e certo sucesso no Peru, onde a considerável importação de revistas argentinas permite que seja introduzido em larga escala, mesmo que sua entrada seja proibida. Seria absolutamente impossível para mim permanecer sufocado aqui material e intelectualmente. Minha presença no Peru deve ter um objetivo. Se perder, nada se justifica. 


A isso se somam as vicissitudes das mudanças de seu arquivo após sua morte (removidas por Anna Chiappe e seus filhos devido a mudanças de endereço), bem como o processo editorial para a impressão das diferentes edições de suas obras e, finalmente, consultas e empréstimos a diversos pesquisadores e colegas.


Que tipo de informação contém os escritos originais?


As informações que se podem obter com o sistema de busca são muito diversas. Mencionaremos algumas a título de exemplo. Mais da metade dos textos foram publicados na Variedades e outros tantos no Mundial; cinco, em outras revistas e uma permaneceu inédita até sua morte – Roma y el arte gótico – como parte de seu projeto para publicar El alma matinal y otras estaciones del hombre de hoy na Editorial Babel, de Buenos Aires, de seu amigo e correspondente Samuel Glusberg. Posteriormente, esse artigo foi incorporado ao livro na coleção Obras Completas.


Dos 134 artigos, 99 correspondem à Europa (França 32, Itália 26, Alemanha 24, Inglaterra 19, Espanha 19, Rússia / União Soviética 14), 47 à América do Norte, 20 à América Latina, 9 ao Peru e 3 à Ásia. Esse predomínio de temas europeus não é surpreendente, pois se sabe que a maioria dos escritos jornalísticos de Mariátegui entre 1920 e 1930, em termos relativos, versam sobre o continente europeu. Isso poderia ser interpretado como expressão de seu suposto “europeísmo”. Mas também se pode pensar que, em geral (e até hoje), os especialistas em questões europeias são muito escassos, razão pela qual Mariátegui foi muito procurado.


Além disso, deve-se levar em conta que Mariátegui estava muito interessado na Europa porque era a principal sede, junto com Estados Unidos, dos países imperialistas. Seus escritos versam sobre seu papel no reordenamento europeu do pós-guerra, o pagamento de indenizações dos aliados, suas políticas coloniais e imperialistas e seus intelectuais, entre outros temas.


Finalmente, deve ser mencionado o número significativo de artigos dedicados a determinados personagens. Entre os mais citados encontram-se Benito Mussolini, Primo Tivera e Miguel de Unamuno. Embora a amostra de artigos originais de Mariátegui não seja representativa, essa informação é expressão do grande interesse de Mariátegui em estudar os partidos e regimes de extrema direita, particularmente o fascismo, que naqueles anos predominava no continente europeu. Um tema sobre o qual o saudoso crítico literário italiano, Antonio Melis, reconheceu seu valor e importância, inclusive para o público italiano. O terceiro lugar de Miguel Unamuno nessas referências é um fato significativo o suficiente para reabrir o debate sobre a influência do filósofo espanhol na obra e no pensamento de Mariátegui.


Mas as tarefas do Arquivo José Carlos Mariátegui não foram concluídas. Ainda há muito material para trabalhar. Aqui pode-se citar, por exemplo, a correspondência com sua irmã Guillermina durante sua viagem à Europa, o que nos permite um acompanhamento da sua jornada europeia. Também as fichas e anotações das conferências proferidas por Mariátegui nas Universidades González Prada, e os recortes de seus artigos publicados nas revistas Mundial e Variedades. Existem pequenos acervos documentais (correspondências, artigos de jornal) pertencentes a vários personagens ligados a Mariátegui que foram deixados em suas mãos por diversas circunstâncias (como Víctor Raúl Haya de la Torre, Eudocio Ravines, Ricardo Martínez de la Torre ou Luis Bustamante). E há também sua coleção de jornais e revistas, que sobreviveram aos constantes saques da polícia ou aos empréstimos que ele fez entre seus colegas.



*Ricardo Portocarrero Grados é historiador peruano.


Tradução: Deni Alfaro Rubbo

17 visualizações0 comentário