Os desafios da esquerda mundial face à China

Como se desenvolveu a China nas últimas décadas? Quais as suas forças e fraquezas? Qual o papel da “Nova Rota da Seda” no projeto de desenvolvimento do país? Como olhar para a rivalidade com os EUA? O veterano socialista Au Loong Yu responde a estas questões

Por Au Loong-Yu*

Texto originalmente publicado no site Esquerda


Entrevista com Au Loong Yu. Extrato do texto publicado em Alternatives sud, Chine, l’autre superpuissance, volume 28, 21/1.


Uma das evoluções mais importantes no decurso das últimas décadas foi a emergência da China enquanto nova potência mundial. Como isso aconteceu?


A ascensão da China à estatura de potência é o resultado de uma combinação de fatores que se conjugaram desde a reorientação da sua produção para o capitalismo mundial nos anos 1980. Em primeiro lugar, contrariamente ao bloco soviético, a China encontrou uma forma de lucrar com a sua herança colonial, o que é uma ironia histórica. A Grã-Bretanha controlou Hong Kong até 1997, Portugal controlou Macau até 1999 e os Estados Unidos continuam a utilizar Taiwan como protetorado. Estas colónias e protetorados ligaram a China à economia global antes mesmo da sua entrada total no sistema mundial.


Depois do fim da Guerra Fria, sob o reinado de Deng Xiaoping, Hong Kong foi muito importante para a modernização da China. Deng utilizou Hong Kong para obter ainda mais acesso às divisas estrangeiras, para importar todo o tipo de coisas, até alta tecnologia, e para lucrar com a sua mão de obra qualificada, como os profissionais de gestão.


Taiwan era muito importante não apenas em termos de investimentos em capital mas sobretudo a longo prazo em termos de transferência de tecnologia, em primeiro lugar na indústria dos semi-condutores. Os investidores de Taiwan e de Hong Kong foram igualmente uma das principais razões para o crescimento rápido das províncias de Jiangsu, Fujian e Guangdong.


O Partido Comunista herdou um Estado absolutista forte que era preciso reorganizar e utilizar para o seu projeto de desenvolvimento económico nacional. Beneficiou também de um campesinato pré-capitalista atomizado habituado ao absolutismo desde há 2.000 anos para extrair o trabalho com vista a uma acumulação dita primitiva de 1949 à década de 1970.


Mais tarde, a partir dos anos 1980, o Estado chinês transferiu esta mão de obra dos campos para as grandes cidades para a fazer trabalhar como mão de obra barata nas zonas francas de exportação. Fizeram trabalhar desta forma cerca de 300 milhões de migrantes rurais, como escravos dos sweatshops. Assim, o carácter atrasado das relações absolutistas do Estado e das classes na China ofereceu à classe dirigente chinesa vantagens para desenvolver tanto o capitalismo de Estado como o capitalismo privado.


O atraso da China também lhe permitiu saltar etapas de desenvolvimento, substituindo os meios e os métodos arcaicos por meios e métodos capitalistas avançados. A adoção pela China da alta tecnologia nas telecomunicações é um bom exemplo. Em vez de seguir cada uma das etapas percorridas pelas sociedades capitalistas mais avançadas, começando pela utilização das linhas telefónicas, a China instalou o cabo de fibra ótica em todo país quase de uma vez só.


A China é hoje a segunda maior economia do mundo. Mas é contraditória. Quais são as suas forças e fraquezas?


A China pratica duas dimensões do desenvolvimento capitalista. Uma é aquilo a que chamo a acumulação dependente. O grande capital estrangeiro investiu enormes somas de dinheiro no decurso dos últimos trinta anos, em primeiro lugar nas indústrias que precisam de uma forte intensidade de mão de obra e mais recentemente das de forte intensidade de capital.


Isto desenvolveu a China mas manteve-a no fundo da cadeia de valor mundial, mesmo no setor da alta tecnologia, enquanto sweatshop mundial. O capital chinês coleta uma pequena parte dos benefícios e uma maior parte vai para os Estados Unidos, a Europa, o Japão e outras potências capitalistas avançadas e as suas multinacionais. O melhor exemplo é o telemóvel da Apple. A China contenta-se em montar todas as peças que são na sua maior parte concebidas e fabricadas no exterior do país.


Mas há uma segunda dimensão, a acumulação autónoma. Desde o início, o Estado dirigiu de forma muito consciente a economia, financiou a investigação e o desenvolvimento e manteve um controlo indireto sobre o setor privado que representa agora mais de 50% do PIB. Nas altas cimeiras da economia, o Estado conserva o controlo por intermédio das empresas do Estado.


Contudo, a China tem igualmente fraquezas. Se olharmos para o seu PIB, é o segundo maior país do mundo. Mas se medirmos o PIB per capita é ainda um país de rendimento médio. E podem-se também detetar fraquezas até nos domínios em que está a alcançar as potências capitalistas avançadas. Por exemplo, o telemóvel Huawei, que se tornou agora uma marca mundial, foi desenvolvido não apenas por cientistas chineses mas sobretudo contratando 400 cientistas japoneses. É este problema que se tenta resolver. A sua tecnologia de semi-condutores tem duas ou três gerações de atraso relativamente à dos Estados Unidos. É por isso que a China aumenta consideravelmente os investimentos na investigação e desenvolvimento. Porém, o número enorme de patentes chinesas não é sempre no domínio da alta tecnologia mas também em outros domínios.


Para além destas fraquezas económicas, a China sofre de fraquezas políticas. Não tem um sistema de governo que assegure uma sucessão pacífica de poder de um dirigente a outro. Deng Xiaoping tinha estabelecido um sistema de limitação de mandatos e de direção coletiva para ultrapassar este problema de sucessão. Xi aboliu este sistema e reestabeleceu a regra do dirigente único sem limites temporais. Isto poderá criar mais lutas fracionais sobre a sucessão, desestabilizando o regime e comprometendo a sua ascensão económica.


Xi modificou a estratégia da China no sistema mundial? Porque o fez?


O Partido Comunista chinês é muito contraditório. Por um lado, é uma força de modernização económica. Por outro lado, herdou elementos muito sérios de cultura política pré-moderna. Estes são fonte de conflito entre clãs no seio do regime. No início dos anos 1990, os altos escalões da burocracia discutiram a questão de saber qual a clique de governantes que deveria assumir o poder. Uma delas é aquela que se chama dos “sangue azul”, os filhos dos burocratas que dirigiram o Estado depois de 1949, a segunda geração vermelha de burocratas. São fundamentalmente reacionários. Desde a chegada ao poder de Xi, a imprensa fala do regresso ao “nosso sangue”, ou seja que o sangue dos antigos quadro reencarne na segunda geração. A segunda clique é a dos novos mandarins. Os seus pais e mães não eram quadros revolucionários. Eram intelectuais ou pessoas que foram bem sucedidas nos estudos e foram subindo escalões, geralmente através da Liga da Juventude Comunista. Não é por acaso que a direção do partido controlado por Xi humilhou publicamente em várias ocasiões a Liga nestes últimos anos. O conflito entre os nobres de sangue azul e os mandarins é uma nova versão de um velho modelo; durante 2.000 anos de absolutismo e dominação burocrática tem havido tensão entre essas cliques.


Como o programa da “Nova Rota da Seda” influenciou esta evolução?


A clique de Xi está consciente que antes de poder realizar a sua ambição imperial, a China deve eliminar o fardo da sua herança colonial, ou seja, tomar conta de Taiwan e realizar a unificação nacional – tarefa histórica do PCC. Mas isto levá-la-á a entrar em conflito com os Estados Unidos mais cedo ou mais tarde. Consequentemente, a questão de Taiwan comporta ao mesmo tempo a dimensão de auto-defesa da China (até os Estados Unidos reconhecem que Taiwan faz “parte da China”) e a de rivalidade anti-imperialista. Para se “unificar com Taiwan”, já para não falar da sua ambição mundial, Pequim deve antes de mais ultrapassar as suas fraquezas, em particular no campo da tecnologia, na economia e na falta de aliados internacionais.


É aí que entra o programa da “Nova Rota da Seda” que permitirá, assim o espera o Estado, desenvolver capacidades tecnológicas independentes e subir escalões na cadeia de valor mundial. A ideia é utilizá-la para construir infraestruturas em toda a Eurásia conformes aos interesses chineses. Ao mesmo tempo, temos de ser claros: a “Nova Rota da Seda” é igualmente um sintoma dos problemas de sobreprodução e de sobrecapacidade da China. Os dirigentes esperam utilizá-la para absorver toda esta capacidade excedentária.


A China é para o Sul um modelo de desenvolvimento ou uma potência imperial em ascensão?


A China não pode ser um modelo para os países em desenvolvimento. A sua ascensão é resultado de fatores únicos que já descrevi e que outros países do terceiro mundo não possuem. Não penso que seja errado dizer que a China faz parte do neoliberalismo mundial, sobretudo quando se a vê avançar clamando dizer estar pronta a substituir os Estados Unidos enquanto guardiã da globalização do mercado livre.


Mas dizer que a China faz parte do capitalismo neoliberal não dá uma visão de conjunto. É um Estado capitalista distinto e uma potência expansionista que não está disposta a ser um parceiro secundário dos Estados Unidos. A China é assim uma componente do neoliberalismo mundial, distinguindo-se ao mesmo tempo enquanto potência capitalista de Estado. Esta combinação particular significa que ele beneficia ao mesmo tempo da ordem neoliberal e que representa um desafio para esta e para o Estado americano que a controla.


O capital ocidental é ironicamente responsável por esta situação difícil. Os seus Estados e capitais compreenderam tarde o desafio da China. Entraram para investir no setor privado ou em joint-ventures com as empresas públicas. Mas não compreenderam totalmente que o Estado chinês permanece por detrás destas sociedades, mesmo as que são aparentemente privadas. Na China, uma empresa mesmo verdadeiramente privada deve cumprir as exigências do Estado.


O Estado chinês utilizou este investimento privado para desenvolver as suas próprias capacidades, ao nível estatal e privado, com o objetivo de poder desafiar os capitais americanos, japoneses e europeus. É assim ingénuo acusar-se o Estado chinês e os capitais privados de roubarem propriedade intelectual. Foi o que previram fazer desde o início. Desta forma, os Estados capitalistas avançados e as empresas privadas permitiram a emergência da China enquanto potência imperial em ascensão.


Como qualificarias a rivalidade entre os Estados Unidos e a China?


No passado, a maioria do sistema americano defendia a causa da abertura à China. Eram cegos na sua crença numa transformação democrática da China através do comércio. Mas a China tornou-se uma potência em ascensão que começou a apanhar e a desafiar os Estados Unidos.


Atualmente, os pessimistas no seio da administração americana dominam. Pensam que a China se reforça rapidamente e que não fará nunca compromissos sobre Taiwan. Mas a escola pessimista supõe que a hegemonia americana é justa e justificada e ignora o facto de que os Estados Unidos são de facto cúmplices do governo autoritário chinês e do seu regime de sweatshops. Não se examina nunca como a colaboração e a rivalidade entre os Estados Unidos e a China se produziram no seio de um capitalismo mundial profundamente contraditório e instável.


A China tem razão em querer defender-se?


A China segue uma trajetória imperialista. Sou contra a ditadura do Partido Comunista Chinês, a sua aspiração de se tornar uma grande potência e as suas reivindicações no mar da China meridional. Mas não penso que seja correto colocar a China e os Estados Unidos no mesmo patamar. Atualmente, a China é um caso particular. Há duas facetas da sua ascensão. Por um lado, o que é comum a estes dois países: os dois são capitalistas e imperialistas. Por outro lado, a China é o primeiro país imperialista que foi antes um país semi-colonial. É muito diferente dos Estados Unidos e de todos os outros países imperialistas. Devemos ter isto em conta na nossa análise para compreender como a China funciona no mundo.


No que diz respeito à China, há sempre dois níveis em qualquer questão. O primeiro é o da auto-defesa legítima de antigo país colonizado em virtude do direito internacional. Não esqueçamos que ainda nos anos 1990 aviões e caças americanos violaram a fronteira sul da China. Este tipo de acontecimentos recorda naturalmente ao povo chinês o seu doloroso passado colonial. Os Estados Unidos mantêm Taiwan como um protetorado.


O que fazer para agir em solidariedade com as lutas populares na China?


A primeira tarefa é opor-nos ao imperialismo americano e construir solidariedade com os trabalhadores chineses. Isto significa que nos devemos opor à retórica contra a China, não apenas a da direita também a dos liberais e até do movimento dos trabalhadores. Mas não nos devemos deixar cair na armadilha “campista” que consiste dar apoio político ao regime chinês. Devemos estar ao lado dos trabalhadores.


É importante que a esquerda do resto do mundo reconheça que o capitalismo chinês tem uma herança colonial que existe ainda hoje. Desta forma, quando analisamos as relações entre a China e os Estados Unidos, devemos distinguir entre as partes legítimas de “patriotismo” e as reacionárias, avançadas pelo Partido. Há um elemento de bom senso no povo que é o resultado do último século de intervenção imperial do Japão, das potências europeias e dos Estados Unidos. Isto não significa que nos acomodemos a este patriotismo, mas devemos distingui-lo do nacionalismo reacionário do Partido Comunista Chinês que XI estimula para apoiar as aspirações a ser uma potência, tal como também os dirigentes dos Estados Unidos o fazem para cultivar o apoio popular a favor do objetivo de conter a China.



*Au Loong-Yu é editor do China Labor Net e autor de livros como China’s rise: strength and fragility e Hong Kong in revolt: the protest movement and the future of China.


Tradução: Carlos Carujo.

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