O PSOL e a “Esquerda” nas Eleições 2020

O partido precisa retomar o debate estratégico e definir um programa de transição ao socialismo, ou seja, um Programa Democrático e Popular, anti-imperialista, antimonopolista, antilatifundiário, democrático radical, ecossocialista e contra todas as opressões

Por Jorge Almeida* e Zilmar Alverita**


Depois de baixada a poeira do segundo turno das eleições de 2020, fazemos aqui um balanço sobre o polêmico resultado obtido pelos partidos chamados, genericamente, pela mídia e pela maioria dos militantes destes mesmos partidos, como sendo de “esquerda”. Ou seja, entre os representados no Congresso Nacional (PSOL, PT, PCdoB, PDT, PSB e Rede) e entre os também legalizados, mas não representados (PSTU, PCB, UP e PCO).


Usamos aqui este critério para facilitar o entendimento pois, não somente a mídia usa este critério como a maioria dos militantes destes mesmos partidos também usa esta designação. Mas esta terminologia é questionável, como veremos adiante.


A análise da performance destes partidos, evidentemente, deve ser considerada dentro dos resultados gerais das eleições o que, entretanto, por uma questão de espaço, trataremos aqui muito superficialmente, deixando para outro artigo uma análise mais abrangente.


Feitas estas ressalvas, vamos aos dados e à nossa análise.


Estavam aptos legalmente para votar 147,918 milhões de pessoas, em 5.568 municípios. A abstenção cresceu em 2020, sendo de 23,15% no primeiro turno e 29,43% no segundo. 33 partidos concorreram e 58 disputas foram ao segundo turno [1].


Em termos nacionais, a vitória nas eleições foi dos partidos da direita em geral, mas, dentro dela, havendo uma derrota pessoal de Bolsonaro. Derrota que, entretanto, deve ser relativizada considerando que houve uma vitória dos partidos que lhe dão sustentação [2].


De outra parte, houve uma derrota do conjunto da “esquerda”, genericamente falando, apesar de que, como veremos adiante, isso também possa ser relativizado com algumas vitórias particulares, como a do PSOL e, pontualmente, de um ou outro partido.


A performance do PSOL


Há um consenso de que o PSOL saiu vitorioso das eleições de 2020, mas, passadas as comemorações, cabe uma análise mais objetiva e abrangente dos resultados.


Nos dados numéricos, o PSOL de fato avançou, em maior ou menor grau, em todos os dados aqui considerados. O PSOL lançou candidaturas 4.759 candidaturas a prefeito/a e/ou vereadores/as, em cerca de 600 municípios e teve candidaturas a prefeito em 23 capitais e vices nas outras três, onde os/as candidatos/as a prefeito/a foram do PT (Recife, Manaus e Rio Branco).


Em relação a 2016, aumentou o número de prefeitos/as e vereadores/as eleitos/as nacionalmente e nas capitais e grandes cidades em particular e o número nacional de votos, apesar de que ainda menores do que os obtidos em 2012.


Mas a vitória política e eleitoral do partido está mais ligada principalmente a dois resultados em duas cidades muito importantes. A cidade econômica, política, populacionalmente e eleitoralmente mais importante do país, que é São Paulo e a cidade mais importante da região amazônica, Belém.


Em ambos os casos, os resultados eleitorais extrapolam a base social real do partido. Em São Paulo, em coligação com o PCB e a UP, ocupamos um espaço à esquerda - que o PT perdeu as condições de ocupar nestas eleições – com uma campanha que apareceu socialmente como realmente de esquerda e com uma estratégia de marketing competente e que soube trabalhar bem com as redes sociais. Soube também combinar a novidade do nome de Boulos com o de Erundina que tem uma marca de resistência, uma experiência de ter governado a cidade e é um nome que, apesar de muitos anos de exposição pública, não tem as marcas negativas que outras candidaturas da chamada “esquerda tradicional”, especialmente o PT, carregam.


Em Belém, acima da base real do partido esteve o prestígio político pessoal de Edmilson Rodrigues, conquistado principalmente nas duas vezes que tinha governado Belém, entre 1996 e 2004, e que já tinha mostrado seu legado eleitoral nas eleições anteriores que disputou para prefeito e deputado federal. Teve um vice do PT (Edilson Moura), numa coligação mais ampla (PSOL, PT, PCdoB, PDT, UP e Rede), que não foi consensual dentro do partido.


Por outro lado, apesar da eleição do prefeito, o PSOL não conseguiu ampliar sua bancada de vereadores, mantendo três mandatos, sendo reeleito o veterano Fernando Carneiro e havendo uma renovação com a ampliação da representatividade feminina com a eleição de duas mulheres: Vivi Reis e Lívia Duarte.


Os resultados do PSOL devem ser também considerados uma vitória, quando se compara com os de outros partidos da chamada “esquerda” em geral, especialmente PT e PCdoB, que, como veremos mais adiante, tiveram resultados negativos e perderam representatividade.


O PSOL teve ainda um aumento na eleição de prefeituras (de duas para cinco) e de vereadores/as (de 56 para 90) e, dentro destes, uma forte presença de mulheres, negras e duas vereadoras trans que foram campeãs de votos em São Paulo (Erika Hilton) e Aracaju (Linda Brasil). Houve, portanto, uma ampliação em termos de representatividade no legislativo, de mulheres e LGBTQIA+, sendo esta uma das nossas vitórias eleitorais e políticas.


Nas duas maiores cidades do país, em 2016, Freixo teve 553.424 votos (18,26) no primeiro turno e 1.163.662 votos (40,64%) no segundo [3]. Em 2020, Boulos teve 1.080.736 votos (20,2%) no primeiro turno e 2.168.109 votos (40,62%) no segundo. Como se vê, percentualmente, os resultados foram muito parecidos tanto no primeiro como no segundo turnos.


Em termos nacionais, PSOL teve uma queda em sua votação nas eleições para prefeito/a nas últimas três eleições: foram 800 mil votos em 2008, 2,4 milhões em 2012, 2,1 milhões em 2016 e 2,2 milhões 2020.


Isso mostra que o grande crescimento relativo no total de votos nacionais do PSOL não se deu agora, mas entre 2008 e 2012. E que o pequeno crescimento nominal de votos entre 2016 e 2020 (mais 5%) não superou a votação de 2012 (menos 10%).


É uma situação que precisa ser melhor investigada, mas que demonstra que, por um lado, houve uma diminuição geral do número de votos (talvez por uma diminuição do total de candidaturas majoritárias ou diminuição da média geral de votos). Por outro lado, houve a obtenção de melhor resultado eleitoral efetivo, em termos de mandatos e ocupação de espaço político.


Neste caso, o avanço em São Paulo foi “compensado” negativamente pelo resultado no Rio de Janeiro, especialmente pelo fato de Marcelo Freixo, numa perspectiva errada e não coletiva, ter recusado a candidatura a prefeito alegando não haver uma candidatura única da “esquerda em geral”. Foi uma atitude que prejudicou o PSOL e a esquerda na medida em que, se tivesse sido candidato, mesmo com uma frente efetivamente de esquerda como a de São Paulo (PSOL-PCB-UP), teria seguramente ido ao segundo turno e com chances eleitorais reais de vencer. Mas, vencendo ou não, colocaria o PSOL como o único partido com um papel protagonista nas eleições nas duas maiores cidades do país. Boulos foi também a candidatura com a segunda maior votação em termos nacionais.


Mas, apesar disso, no Rio de Janeiro o partido realizou uma campanha majoritária muito firme e politizada com Renata Souza. Depois da desistência de Marcelo Freixo, ela aceitou o desafio de representar o partido na cidade onde o PSOL é mais expressivo, e de forma aguerrida, contribuiu para o aumento da bancada de vereadores/as de seis para sete.


Evidentemente, estamos aqui abstraindo outras questões que têm sido corretamente problematizadas como prejudiciais às candidaturas do PSOL e da “esquerda” em geral, especialmente aquelas ligadas à pandemia e às grandes dificuldades para uma campanha presencial, tanto em termos de mobilização massiva como de corpo a corpo das candidaturas, assim como a redução de debates entre candidatos/as em TVs e rádios.

O número de prefeitos/as eleitos/as pelo partido foi de dois para cinco, o que é um saldo positivo, mas ainda muito pouco, representando a eleição de apenas cerca de 1% do total de candidaturas lançadas e o partido só foi ao segundo turno em duas cidades.


Enfim, o PSOL teve 2,2 milhões de votos para prefeituras, elegeu cinco prefeitos (sendo um de capital) e 90 vereadores/as, em 54 cidades, de 15 estados. 43 são negras e negros, 33 mulheres, quatro são trans e 10 são mandatos coletivos [4]. Elegeu 2% do total de candidaturas lançadas.


Isso significa cerca de 1,5% do total do eleitorado registrado e 2,2% dos votantes. Elegeu cerca de 0,1% do total de prefeitos do Brasil (4% das capitais) e pouco mais de 1% do total de candidaturas lançadas às prefeituras pelo PSOL. E elegeu vereadores/as em cerca de 1,6% das cidades brasileiras e 2% do total de candidaturas lançadas [5].


Nas capitais, foram 33 eleitas/os, sendo 17 mulheres e 16 homens, 13 pessoas negras, 5 mandatos coletivos, além das duas primeiras vereadoras trans de capitais, Aracaju e São Paulo, como as mais votadas destas cidades. Elegeu também 33 vereadores nas 25 maiores cidades brasileiras.


No Sudeste, o PSOL foi o partido que elegeu mais vereadores/as nas capitais (9,9% do total).


A distribuição regional dos votos do PSOL


É importante também considerar a votação das candidaturas majoritárias e a distribuição de vereadoras e vereadores eleitas/os, pelo menos nas capitais, das diversas regiões.


Na região Sudeste, a votação em 2020 foi maior que em 2016. Já vimos que em São Paulo a votação cresceu em 2020 e no Rio houve uma diminuição. Em Belo Horizonte, a votação em 2020 foi 54.400 votos a mais do que em 2016. Já em Vitória, a votação em 2020 teve uma queda de 4.260 votos. Nesta região o PSOL também apresentou candidatura própria em 2016 e em 2020 em todas as capitais.


Na região Norte, a votação média regional também foi superior em 2020. Cresceu em Belém e em Porto Velho (mais 991 votos) e caiu em Boa Vista (menos 30 votos). Nesta região, o PSOL não teve candidatura própria em Rio Branco (2016 e 2020). Em 2016, não teve candidatura em Macapá e Palmas e em 2020 não teve candidatura própria em Manaus.


Na região Nordeste, a votação média em 2020 foi inferior à de 2016. Em 2020 o PSOL teve votação superior em relação a 2016 nas seguintes capitais: Aracaju (mais 1.916 votos), Fortaleza (mais 16.298 votos), Salvador (mais 3.121 votos), São Luís (mais 912 votos), Teresina (mais 3.175 votos). E inferior em João Pessoa (menos 6.411) e Natal (menos 20.463 votos). Aqui, o PSOL deixou de ter uma candidatura própria em Recife em 2020, sendo esta, a explicação pela queda média da votação nesta última eleição.


Para as prefeituras de capitais, na região Sul a votação em 2020 foi inferior à de 2016, tanto na média geral como em todas as três capitais. A diferença foi a seguinte: em Porto Alegre, foi de menos 58.358 votos; em Curitiba, de menos 7.119 e em Florianópolis, de menos 8.328. No total, em 2020, a região teve menos 73.805 do que em 2016. Nesta região o PSOL apresentou candidatura própria em 2016 e em 2020 em todas as capitais.


No Centro-Oeste, a votação regional também caiu em 2020. Foi superior a 2016 em Campo Grande (mais 4.621 votos) e foi inferior em Cuiabá (menos 70.120) e em Goiânia (menos 1.019). A queda total de votos em 2020 foi de 66.518. Nesta região o PSOL também apresentou candidatura própria em 2016 e em 2020 em todas as capitais.


Para a vereança nas capitais, o PSOL elegeu sete no Nordeste (Aracaju, Fortaleza, Natal, Recife e Salvador), 16 no Sudeste (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo e Vitória) quatro no Norte (Belém e Macapá), sete no Sul (Florianópolis e Porto Alegre) e nenhum no Centro-Oeste.


Além das capitais, é importante registrar que o PSOL conseguiu eleger também vereadores em algumas outras grandes cidades. É o caso de Campinas, segunda maior cidade de São Paulo, com a reeleição de Mariana Conti como a mais votada da cidade e de Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, com o primeiro mandato de Jhonatas Monteiro, o Rasta, eleito com a maior votação da história da cidade.


Outros dados importantes do PSOL foi ter eleito a maior bancada de vereadores/as da cidade do Rio de Janeiro e o vereador mais votado (Tarcísio Motta), que superou Carlos Bolsonaro (mais votado em 2016). Foi também o partido que fez a terceira maior bancada em São Paulo e que teve o maior número de votos para vereadores/as em Porto Alegre.


Breve balanço e desafios do PSOL


Por outro lado, estes são resultados ainda pequenos para um partido fundado já há 16 anos e um salto menor do que obteve entre as eleições parlamentares, nacionais e estaduais, entre 2014 e 2018.


Os resultados mostraram também um enraizamento nacional do partido ainda pequeno, com cerca de 90% da votação em municípios com mais de 200 mil eleitores/as e destacadamente na região Sudeste. A maioria absoluta dos votos obtidos vieram de apenas três municípios: São Paulo, Rio de Janeiro e Belém que totalizaram cerca 63% dos votos nacionais do partido para prefeitos, aumentando uma concentração já presente em 2016 (cerca de 46%).


Outro dado importante foi a votação para vereadores/as ter sido de apenas cerca de 75% dos votos para os cargos majoritários. Mostrando um descompasso político e uma influência significativa da expressão individual das candidaturas, especialmente nos casos de São Paulo e Belém, com a votação de prefeitos sendo pelo menos o dobro dos vereadores/as, enquanto ocorreu o oposto no Rio de Janeiro e Porto Alegre, onde houve maior votação dos/as vereadores/as.


O PSOL não pode ficar na dependência de situações mais favoráveis nesta ou naquela cidade e na boa performance desta ou daquela candidatura.


O PSOL governará cerca de 1,6 milhões de habitantes (sendo 1,5 milhões em Belém) e um PIB de 31 bilhões.


Vai governar Belém numa difícil correlação de forças na Câmara Municipal, com seis vereadores/as da coligação eleitoral (três do PSOL, dois do PT e um do PCdoB). Portanto, somente com ações que, de fato, sejam guiadas pelos interesses populares e com a mobilização e participação direta do povo nas decisões, poderemos enfrentar a oposição de direita e os interesses da classe dominante e suas elites.


A imagem e o prestígio do PSOL e a simpatia pelo partido, melhoraram socialmente nacionalmente e também houve um estímulo à ampliação de filiações o que deve também redundar em ampliação de candidaturas para as eleições de 2022, tanto em termos de quantidade como de potencial eleitoral, de modo ao partido conseguir, mais uma vez, superar a cláusula de barreira. E também ampliar sua força eleitoral e de ação parlamentar.


Evidente que outros fatores entrarão em jogo, sua capacidade de incidir de fato na disputa de hegemonia na sociedade, de agir politicamente nos movimentos populares e os posicionamentos políticos que o partido e suas bancadas municipais, estaduais e federal tomarem.


Mas considerando os rebaixamentos políticos que já ocorreram nestas eleições, inclusive nas campanhas das duas capitais onde disputamos o segundo turno, há um risco real de, ao lado de uma ampliação de base eleitoral, haver um enfraquecimento de perspectivas revolucionárias e mesmo reformistas radicais.


Nossas campanhas, em sua maioria, foram programaticamente aquém de um programa democrático e popular com perspectiva socialista e com pouco destaque às questões nacionais e aos obstáculos do estado burguês e da classe dominante e suas elites políticas e burocráticas ao exercício de um programa de reformas estruturais radicais.


O partido precisa retomar o debate estratégico e definir um programa de transição ao socialismo, ou seja, um Programa Democrático e Popular, anti-imperialista, antimonopolista, antilatifundiário, democrático radical, ecossocialista e contra todas as opressões.


E não vai superar isso sem uma política clara, sem uma estratégia de luta pelo socialismo e uma tática que acumule nacionalmente e de modo combinado entre o espaço eleitoral/institucional e na luta de massas. Transformando os espaços eleitorais e institucionais em meios de reforço de sua influência no movimento, mas de modo a fazer o movimento avançar em sua organização.


E tão pouco se construirá solidamente sem uma política de organização, sem setoriais fortes, com o incremento da formação política e com uma comunicação fragmentada.


A performance da chamada “esquerda” em geral


Como dissemos no início do artigo, usamos aqui um conceito de “esquerda” bem genérico usado pelo senso comum. Mas, o bom senso indica que é impensável considerar que partidos que votaram a favor do impeachment de Dilma, como o Rede e o PSB, ou que fazem apelos conservadores e antissocialistas típicos da direita, como fez o PSB na eleição municipal de Recife neste ano, possam ser considerados realmente “de esquerda”.


É muito questionável, do mesmo modo, no caso do PDT, que tem como principal liderança pública nacional uma figura como Ciro Gomes, que se omitiu no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, indo passear na Europa. E que tem parlamentares que defendem posições conservadoras ou ultraliberais e que faz coligações com o DEM em cidades importantes como Salvador, onde indicou a vice-prefeita eleita.


Mas também é o caso de partidos que, governando ou exercendo funções parlamentares, aplicam políticas macroeconômicas neoliberais e tiram direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, não fazendo de fato reformas estruturais, e aprofundam a dependência e o sistema coercitivo antipopular do país. E que, além disso, governam estados junto com partidos da base de sustentação de Bolsonaro e outros partidos golpistas que sustentam políticas ultraliberais, como fazem o PT e o PCdoB. Este último chegando a apoiar a entrega de parte da base de Alcântara para uma base dos EUA.


Neodesenvolvimentismo neoliberal e social-liberalismo não são políticas de esquerda, nem mesmo numa conjuntura em que o predomínio das diversas direitas seja amplo.

Mesmo sem sermos muito rigorosos, dificilmente poderíamos classificar PDT, PSB e Rede como algo além de um “centro” ou o PT e PCdoB além de uma “centro-esquerda” social-liberal.


Feita a ressalva, os partidos considerados de “esquerda” tiveram a seguinte votação para as prefeituras: PT 6,8%, PDT, 5,3%, PSB, 5,1%, PSOL 2,2%, PCdoB 1,2% e Rede 0,4%. Isso soma 21,4% dos votos nacionais para prefeitos.


Exceto o PSOL, todos os partidos da chamada “esquerda” tiveram uma diminuição de prefeitos: PT, de 256 para 179; PSB, de 407 para 252; PDT, de 334 para 314; Rede de 06 para 05; PSOL de 02 para 05.


Exceto o PSOL, todos os partidos tidos como de “esquerda” tiveram uma diminuição da quantidade de vereadores/as no país, sendo o PDT foi o que obteve o maior número, elegendo 3,4% (-0,3%), seguido pelo PSB, 3,0% (-0,6%), PT, 2,7% (-0,2%), Rede, 0,1% (-0,1%) e PSOL, 0,1% (saltando de 56 para 90).


O Rede caiu de seis para cinco prefeitos e PSTU, PCB, UP e PCO não elegeram nenhum prefeito nem vereador.


O PCdoB e o PSB viram uma diminuição de vereadores/as nas capitais enquanto o PSOL, o PT e PDT tiveram um aumento. O PT foi o partido da chamada “esquerda” que elegeu mais vereadores/as nas capitais, superando o PSB que havia eleito mais em 2016. O PCdoB perdeu sete vereadores/as em capitais [6].


No segundo turno, o PT elegeu quatro prefeitos, voltando a governar no seu antigo bastião, a região do ABCD, onde elegeu prefeitos em Diadema e Mauá. O PDT e o PSB elegeram três e o PSOL um.


Também há um certo consenso, fora do PT, de que o PT saiu derrotado. Consenso que não existe dentro do partido. Muitas avaliações quantitativas, tendo como base dados diferentes, alimentam a controvérsia. A depender de como se fazem as comparações entre as eleições de 2020 e 2016 ou 2012, obtém-se resultados diferentes para cada freguês. Se é o total de prefeitos/as e vereadores/as ou sua distribuição por capitais e municípios maiores ou menores, menos ou mais importantes eleitoral e politicamente, com maior orçamento ou PIB, ou o total de votos e sua distribuição geográfica, etc.


O PT elegeu apenas 179 prefeitos/as (perdendo 77), mantendo a tendência de queda que já tinha sofrido de 2012 (630) para 2016 (256).


Nas capitais, o número de prefeitos/as do PT tem caído seguidamente desde 2004 (nove prefeitos), 2008 (seis), 2012 (quatro), 2016 (um) e 2020 (nenhum).


O PT teve 15 candidaturas indo ao segundo turno, mas 11 saíram derrotadas e apenas quatro vitoriosas, sendo duas em São Paulo e duas em Minas Gerais.


Estes dados quantitativos têm, de fato, alguma importância, mas não são o melhor caminho para uma análise globalizante. A derrota do PT e da liderança de Lula da Silva em particular, além da queda de vereadores/as e prefeitos/as eleitos/as, deve ser uma avaliação qualitativa.


O PT não ganhou nenhuma prefeitura de capital e só teve protagonismo no segundo turno em uma capital importante (Recife, com um vice do PSOL) e mesmo assim com uma candidata que não é uma militante histórica do partido e sim herdeira política de Miguel Arrais (PSB). E onde, curiosamente, o PT disputou com o PSB, mas tinha cargos tanto na prefeitura como no governo de estado governados pelo adversário. Em Vitória, foi ao segundo turno, mas foi derrotado por uma candidatura bolsonarista.


Sofreu derrotas importantes nos quatro estados onde tem governadores, como é o caso da Bahia, estado governado pelo partido há 14 anos, onde diminuiu o número de prefeituras, não foi ao segundo turno na capital e perdeu nas outras duas maiores cidades do estado, Feira de Santana e Vitória da Conquista, para candidaturas do MDB ligadas ao presidente nacional do DEM, ACM Neto.


Mas o processo foi também uma derrota política pessoal de Lula da Silva, que teve seu prestígio político-eleitoral abalado. Ele teve participação direta na campanha, sendo decisivo para a política geral do PT de lançar candidaturas próprias mesmo onde o partido não tinha viabilidade eleitoral e participou intensamente na propaganda eleitoral das principais candidaturas petistas em programas de TV e redes sociais, não conseguindo, entretanto, atrair apoios e votos de modo a alterar significativamente os resultados para seus/suas candidatos/as. O caso mais exemplar foi São Paulo, onde seu candidato (Jilmar Tatto) não foi além de 8,6%, menos do que Lula da Silva obteve (10%) na sua primeira candidatura a governador de São Paulo em 1982.


Além disso, não teve destaque nas campanhas de candidaturas de outros partidos apoiadas pelo PT, que evitaram uma maior exposição ao seu lado, provavelmente por uma avaliação de marketing de que isso não somaria em termos eleitorais e, talvez, que prejudicaria mais do que ajudaria.


Mas o PT ainda teve um resultado geral, em termos de votos e total de eleitos, melhor do que os outros partidos tidos como de “esquerda”. Não significando o seu fim, como setores da mídia burguesa e outros ventilaram. Como sabemos, há uma diferença entre ter deixado de ser um partido efetivamente socialista, e deixar de ter um potencial eleitoral que ainda possa ser reconstruído e obter bons resultados em processos eleitorais em diversos níveis, continuando seu jogo na sustentação da ordem social burguesa.


O PDT venceu em duas capitais, Fortaleza e Aracaju (com vices do PSB e PSD, respectivamente) e mais uma no segundo turno (Serra-ES). Já o PSB venceu em Recife e Maceió (ambas com vices do PDT) e conseguiu ir ao segundo turno em 8 cidades, vencendo em mais uma (Petrópolis-RJ) mas teve uma queda de 8% dos votos em 2016 para 5,1% agora.


O PCdoB, apesar do sucesso político relativo da candidatura de Manuela d’Ávila, que foi ao segundo turno em Porto Alegre, também saiu derrotado. Em termos de votação geral, obteve 1.184.243, cerca de 33% a menos que em 2016. Mas o caso politicamente mais simbólico é o de São Luís, capital de um estado governado pelo partido, onde o candidato do partido não foi além do primeiro turno e a candidatura apoiada pelo governador no segundo turno, de um partido de direita aliado, saiu derrotada para outra candidatura da direita oposicionista.


Finalmente, a votação obtida por estes partidos (que somou 21,4%) não deve nem pode ser vista como um potencial para as eleições de 2022 (que tem características diferentes e terá diversos outros fatores em jogo, além da evolução da conjuntura), mas isso não pode ser desprezado e deve ser também considerado.


*Jorge Almeida é professor do Departamento de Ciência Política, do PPG de Ciências Sociais e do Mestrado de Ciência Política da UFBA. Grupo de Pesquisa Processos de Hegemonia e Contra-hegemonia.


**Zilmar Alverita é doutora em Ciências Sociais (PPGCS-UFBA) e mestre em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM-UFBA). Militante feminista, Executiva Nacional da APS/PSOL e Direção Municipal PSOL Salvador.


Notas


[1] https://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/estatisticas-eleitorais


[2] https://www.poder360.com.br/eleicoes/mesmo-com-queda-mdb-e-psdb-sao-os-partidos-mais-votados-conheca-o-ranking/


[3] Em 2012, Freixo teve um número maior de votos (914.082) no primeiro turno (28,15% dos votos válidos), mas não houve segundo turno.


[4] https://psol50.org.br/


[5] Cálculos com base nos dados do TSE: https://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/estatisticas-eleitorais


[6] https://noticias.uol.com.br/colunas/observatorio-das-eleicoes/2020/11/20/vereadores-nas-capitais-o-desempenho-dos-partidos-em-um-quadro-de-fluidez.htm

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