O clã que indicou Nelson Teich, o coveiro de Bolsonaro

Acompanhamento sistemático da ação organizativa, política, social e ideológica das classes dominantes no Brasil, a partir de uma leitura marxista e gramsciana realizada no GTO, sob coordenação de Virgínia Fontes. Coluna organizada por Rejane Hoeveler

Por Elaine de Almeida Bortone* e Rejane Carolina Hoeveler**


A indicação do oncologista carioca Nelson Teich para o Ministério da Saúde, em substituição a Henrique Mandetta, pegou de surpresa os mais argutos analistas do governo Bolsonaro. Muitos nomes eram ventilados para o cargo – entre eles, o de Rita Yamaguchi, médica com proximidade aos círculos olavistas, e que chegou a ser bastante incensada pela CNN Brasil. Teich não estava no radar da imprensa, e pareceu ser uma carta surpresa. Entretanto, rastreando seu passado, vemos que as ligações de Teich com Bolsonaro eram mais antigas, e envolvem dois nomes muito importantes da campanha de Bolsonaro em 2018: Meyer Nigri e Fábio Wajngarten, que compõem o núcleo duro de apoio ao governo.


Meyer Joseph Nigri é empresário, engenheiro e proprietário-fundador, em 1977, em São Paulo, da Tecnisa Engenharia, uma das dez maiores construtoras do país, com 665,7 milhões de reais em valor de mercado, em 2018. Atualmente, é o vice-presidente do conselho de administração, do qual seu filho, Joseph Meyer Nigri, passou a ser presidente desde 2017. A empresa cresceu muito quando em 2016, a Cyrela, de propriedade de Elie Horn, investiu por volta de R$ 100 milhões na Tecnisa. Além da Tecnisa, Nigri é dono de uma confraria de vinhos, possuindo uma adega com quase 1.300 garrafas, as quais são saboreadas cerca de duas vezes ao mês, em uma sala privativa no luxuoso restaurante Fasano, reunindo apenas seu círculo mais íntimo de amigos.


Nigri aproximou-se de Jair Bolsonaro ainda em 2016, embora tenha declarado que apoiava “quem quer que fosse” contra a esquerda, “Bolsonaro, Alckmin ou qualquer outro”. Abriu seu apartamento, em São Paulo, para que o ex-capitão se apresentasse à elite paulista. Mas foi durante a campanha presidencial, em 2018, que o empresário se entregou de corpo e alma à empreitada do candidato, tornando-se um dos seus colaboradores mais íntimos. Para dar uma ideia disso, no episódio da facada, em Juiz de Fora, foi Nigri que providenciou o transporte aéreo para que o médico Antonio Luiz Macedo fosse a Juiz de Fora e de lá fosse transferido para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo.


Em 10 de agosto de 2018, Nigri participou de um café da manhã organizado por Luciano Hang (Havan), que reuniu 62 empresários, entre os quais Candido Bracher (presidente do Itaú Unibanco), David Feffer (presidente do Conselho da Suzano), José Roberto Ermínio de Morais (Votorantim), Flávio Gurgel Rocha (Grupo Guararapes), José Salim Mattar (Localiza), Sebastião Vicente Bomfim Filho (Grupo SBF), Dráulio Bacchi (diretor financeiro Artefacto) e por fim, mas não menos importante, Fábio Wajngarten, de quem Nigri é padrinho. Ainda estavam presentes Eduardo Bolsonaro, o Major Olímpio e o general Augusto Heleno.


Na ocasião, os empresários não se mostraram preocupados com as acusações de racismo, homofobia, misoginia e apologia ao regime militar associada à Bolsonaro. Nigri deixou isto bastante claro: “Ele pode falar o que não deve, mas se fizer o que deve, não tem problema”.


A relação íntima com Bolsonaro rendeu frutos para Nigri, que logo viu uma de suas demandas na área financeira se concretizar. No dia 20 de agosto de 2019, em uma recepção no salão nobre do Palácio do Planalto, Nigri participou do lançamento de uma nova linha de crédito imobiliário da Caixa Econômica Federal (CEF), que atenderia diretamente seu setor.  O banco estatal permitiria, a partir dali, que o índice oficial de inflação fosse usado para corrigir empréstimos na compra da casa própria. Era um pedido sobre o qual o empresário insistia há pelo menos cinco anos sem sucesso.


Nigri, como era de se esperar, passou a ter livre acesso ao presidente, que vem aceitando suas indicações de nomes a altos postos estatais. Foi Nigri quem recomendou Ricardo Salles para o ministério do Meio Ambiente e que apoiou a escolha de Fábio Wajngarten para chefe da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência. Wajngarten é seu amigo de infância, tendo ajudado muito a realizar a aproximação de Bolsonaro com empresários da comunidade judaica. Salles foi financiado pelo empresário José Salim Mattar, proprietário da Localiza, mas não conseguiu se eleger para deputado federal, em 2018. Mattar, por sua vez, foi alçado a um cargo especial responsável por privatizações na Secretaria Especial de Desestatização e Desinvestimento do Ministério da Economia, liderado por Paulo Guedes.


Agora, Nigri emplacou sua terceira indicação: Nelson Teich, seu amigo pessoal, para o Ministério da Saúde.


Médico e empresário, Teich atuou como consultor informal para a área de saúde na equipe de campanha de Bolsonaro e assessorou o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, de setembro de 2019 a janeiro de 2020. Não tem experiência alguma com a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), que deverá ser um de seus principais desafios frente ao crescimento da Covid-19 no Brasil. Apesar disto, contou com o aval da Associação Médica Brasileira (AMB). “Ele é uma pessoa que tem os predicados científicos necessários para enfrentar a pandemia”, afirmou à VEJA Lincoln Lopes Ferreira, diretor da AMB.


Já como empresário da saúde, Teich tem uma vasta experiência: entre 2009 e 2019, foi presidente da MDI Instituto de Educação e Pesquisa; entre 1990 e 2018, foi  presidente do Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) – vendido, em 2015, para UHG/Amil (não sem antes ganhar status de OSCIP, sigla para Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, que permite ao grupo ingressar em Parcerias Público-Privadas). Entre 2010 e 2011, prestou consultoria ao Hospital Albert Eintein; e desde 2016, é diretor da Medinsight Decisões de Saúde e sócio da Teich  Health Care.


Assim que confirmada sua indicação, dois vídeos com Teich passaram a circular na internet. Em um deles, Teich chegava à conclusão de seu raciocínio mercadológico que pessoas velhas têm menos direitos de viver: “Mesmo o dinheiro que vou investir. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente, que tem a vida inteira pela frente. A outra é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”


No segundo, ele explicava que poderia ser um investimento “desnecessário” a compra de determinado número de ventiladores para enfrentar a pandemia, fazendo uma pergunta que apenas um audacioso e sádico gestor privado de saúde cogitaria fazer diante de uma curva exponencial de mortes: “o que vai fazer com eles depois?”.


Sabe-se que Luiz Henrique Mandetta havia sido indicado a este cargo por Ronaldo Caiado (DEM), representante expressivo do agronegócio, e líder importante do DEM, partido que Bolsonaro queria como base de apoio em 2018. Mandetta, que entrou no cargo com a missão de avançar na privatização do SUS, ao deparar-se com a chegada da pandemia do coronavírus ao Brasil mudou de posição, ao menos publicamente: passou a defender o Sistema Único de Saúde (único capaz de inclusive, salvar o setor privado em momentos agudos), e defendeu as normas que recomendava a Organização Mundial da Saúde (OMS) – às quais o presidente faz intensa campanha contrária com todo o ardiloso aparato do Gabinete do Ódio.


Enquanto Mandetta era um político tradicional, visando, portanto, fazer de sua atuação no cargo uma catapulta para seu próprio capital político (que, de fato, apenas aumentou), Teich tem o carisma de um cabo de guarda-chuva, e sua total inexpressividade política é exatamente aquilo que o habilita para o cargo neste momento. O discurso de posse de Teich se assemelha a um fraco presidente de DCE de universidade privada do Partido Novo, e não é casual que não tenha sequer citado o SUS, nenhuma única vez. Como vimos, Teich é muito mais cercado ao núcleo duro bolsolavista que Mandetta jamais teria sido. Bolsonaro precisava de um cordeirinho amestrado como bucha de canhão, e tanto melhor um que já está acostumado a decidir sobre a vida e a morte humana com base no frio cálculo mercadológico.


A gestão de Teich muito provavelmente será marcada por uma política criminosa e calamitosa de flexibilização a quarentena e de incentivar o apagão de dados sobre mortes e infectados. Bolsonaro não trocou seis por meia dúzia.


*Elaine de Almeida Bortone é psicóloga e historiadora, mestre em administração pública (UFF), doutora em história (UFRJ), pesquisadora do Grupo de Trabalho Empresariado e Ditadura e do Grupo de Trabalhos e Orientação (GTO) coordenado pela professora Virgínia Fontes. 


**Rejane Carolina Hoeveler é historiadora. Mestre e doutoranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Ativista feminista no Rio de Janeiro. Co-organizadora do livro A onda Conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil (Rio de Janeiro, Mauad, 2016).


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