O asselvajamento do patriarcado na pós-modernidade

Tornar visível o tabu que existe quanto a ir além das relações e estruturas patriarcais capitalistas e mostrar as consequências fatais que tais autolimitações podem ter; este é o pré-requisito para desde logo finalmente (voltar a) poder pensar numa possibilidade de transcender o sistema, ou mesmo numa necessidade de transcender o sistema

Por Roswitha Scholz


1.


Na segunda metade da década 80 eram favoráveis os prognósticos sobre o desmantelamento das hierarquias e discriminações das mulheres. Partia-se do princípio de que, na sequência das tendências de individualização, as mulheres também teriam ganho mais possibilidades de acção, de modo indirectamente proporcional à desintegração da família nuclear. Algumas interpretações chegaram ao ponto de dizer que os indivíduos podiam agora escolher se queriam ser homens ou mulheres. Houve até “donos de casa” que chamaram a atenção para si mesmos como novidade, espalhando a esperança de que em breve talvez se pudesse ver uma grande tendência nesse sentido. Nos anos 80, ao mesmo tempo, as tendências da "nova feminilidade" eram vistas como expressão da viragem conservadora-liberal. Mas não poucas pessoas presumiram que não passariam duma simulação da feminilidade moderna.


Em contraste, nos anos 90 começou por se falar de uma "reacção negativa". A generalizada viragem à direita e o agravamento da situação económica tinham varrido um dos principais temas dos anos 80, as relações assimétricas de género. No entanto, ainda nos anos 90 subsistem avaliações feministas que “em princípio” vêem o fim do patriarcado (por exemplo, Libreria delle donne di Milano, 1996).


Gostaria de contrariar tais posições com a tese de que, no final da pós-modernidade, é mais provável que estejamos a lidar com um asselvajamento do patriarcado produtor de mercadorias do que com a sua dissolução, o que não exclui que as mulheres também tenham ganho com os desenvolvimentos das últimas décadas. Não há dúvida de que uma modificação das relações de género teve lugar nos últimos 30 anos; contudo, isto não resultou no desaparecimento absoluto da dupla sexualidade (social). Pelo contrário, no decurso das tendências da globalização, pode agora observar-se a formação de identidades flexíveis-compulsivas, as quais, mantendo a hierarquização de género, se apresentam de maneira diferente para homens e mulheres.


Neste contexto, gostaria de demonstrar a seguir que análises, teorias e concepções de acção muito debatidas no feminismo apoiam estas tendências de asselvajamento e estas identidades flexíveis-compulsivas específicas de género, bem como todo o entretanto desolado sistema patriarcal capitalista, cujos limites ecológicos, sociais e económicos há muito se tornaram ostensivamente evidentes. Isto aplica-se, por exemplo, a teorias desconstrucionistas, a modelos de acção orientados para o Estado-nação e a opções internacionalistas / da sociedade civil, bem como a várias visões de subsistência e de trabalho autónomo no feminismo. É claro que nisto é preciso desde logo arrancar a máscara demasiado solta das ilusões verde-rubras de que as relações assimétricas de género podem ser substancialmente melhoradas imanentemente ao sistema. Após a vitória verde-rubra na RFA, é provável que tais esperanças se tornem mais populares também no feminismo.


Para poder desmontar ponto por ponto estes contextos, no entanto, gostaria de começar por apresentar pelo menos alguns aspectos da tese da dissociação-valor que defendo, uma vez que esta tese forma o quadro teórico no qual irei colocar as tendências e desenvolvimentos aqui desde já esboçados apenas muito brevemente.


Leia aqui o artigo na íntegra


Tradução: Boaventura Antunes.

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