Novos ares e novos desafios

O que a derrota eleitoral do bolsonarismo tem a nos dizer e o papel do PSOL

Frederico Henriques*


Ainda atordoados com a ida de Bolsonaro para o segundo turno de 2018, setores progressistas e democráticos patinaram uma semana para esboçar algum sinal de reação e, quando foram para as ruas no vira voto, a extrema direita já tinha tomado conta do cenário. O principal indício disso foi o discurso do futuro presidente na Av. Paulista no domingo, dias antes da eleição: "Vamos varrer do mapa os bandidos vermelhos do Brasil"; “Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia”. Apesar dessa grande derrota sofrida pelos setores democráticos, com a ascensão da extrema direita e o avanço do neoliberalismo radical junto a ideais conservadores (que vão da exaltação ao punitivismo, da liberação de crimes ambientais, da criminalização de professores até o ataque à direitos supostamente consolidados), dois anos depois, todos os analistas políticos vêm uma derrota eleitoral do bolsonarismo nestas eleições municipais. É claro que o fortalecimento da extrema direita no Brasil e seus traços fascistas deixaram marcas no tecido social que não serão apagadas por conjunturas eleitorais, mas a compreensão desta derrota é chave para a superação da crise em que estamos desde o fim o lulismo. O texto buscará apontar alguns pontos importantes para compreender o resultado eleitoral, assim como o papel do PSOL na construção de uma nova hegemonia da esquerda radical.


O primeiro aspecto a destacar é a pandemia global da covid-19 como elemento fundamental para as derrotas eleitorais que a extrema direita sofreu aqui no Brasil e também nos Estados Unidos com Trump. A necessidade de manter a agitação de suas bases, em especial contrapondo ao establishment político, é algo central na manutenção da força destes setores. Dentre os principais ataques, sempre estiveram as instituições educacionais e científica do país. Em condições normais, em meio a uma crise econômica que já perdurava a anos, as elites econômicas e políticas mantiveram-se coniventes com estas ações, em troca da destruição de direitos e o desmonte da máquina pública. Porém, a necessidade de coordenar e gerir a crise devido ao avanço da doença escancarou as debilidades da extrema direita, em especial sua incapacidade de coordenar ações e seu combate cego à ciência. O aprofundamento da crise econômica junto a crise sanitária e as mortes fizeram também com que boa parte dos trabalhadores que estavam sendo governados por estes representantes tivessem uma experiência ruim, fazendo com que elementos como segurança, estabilidade e continuidade ganhassem aos poucos espaço em contraposição ao sentimento antissistema.


Logo, as contradições latentes nos âmbitos nacionais e internacionais se agravaram com a fragilidade desses governos. Em geral, elas se expressaram de diversas formas, como através de rebeliões populares em âmbito regional (como no caso do Líbano) ou com repercussões mundiais (a exemplo dos negros norte-americanos), ou ainda de forma eleitoral, como no caso do nosso continente (na Bolívia e no referendo constitucional chileno) e com o impacto global como a derrota de Trump nos EUA. De forma geral, os setores democráticos que no período anterior estavam reféns da pauta da extrema direita de forma reativa passaram a ter espaço para debater de forma ativa outros valores, como a defesa da ciência e do meio ambiente, a diminuição de desigualdades e o combate à pobreza e a renda mínima. A mudança da agenda a nível internacional passou a pautar de forma sistemática o conjunto dos países no mundo e por consequência o Brasil.


Apesar do impacto dos fenômenos internacionais no nosso país, diversos elementos pesaram para o resultado eleitoral local e pretendo apontar algumas nuances e condições nacionais que levantam outros problemas. O primeiro elemento é a baixa participação do Bolsonaro nas eleições de 2020 e sua incapacidade de criar um partido, que o colocou como um ator secundário no pleito municipal do país. A não existência de uma oposição consistente ao governo Bolsonaro, inclusive a capitulação dos governadores nos processos de gestão da crise sanitária e econômica, fez com que o centrão ocupasse um espaço de estabilização do governo e ao mesmo tempo se postulasse como continuidade nas eleições municipais, fazendo com que partidos como PP e PSD fossem grandes vitoriosos do pleito. As frustrações com o bolsonarismo, assim como o desalento causado com o aprofundamento da crise econômica, social, ambiental e sanitária, fizeram com que o percentual de votos válidos tivessem o menor nível de nossa história recente. E, por fim, apesar da vitória da direita tradicional, a mudança da agenda política, com temas como desigualdade e renda mínima, colocou a esquerda em outro patamar novamente.


Houveram experiências interessantes de frente amplas no segundo turno de Porto Alegre e São Paulo, além da vitória em Belém e Fortaleza contra o bolsonarismo, porém o signo da esquerda é de pulverização sem um partido para hegemonizar o campo. O PT continua sendo o partido mais importante com maior número de deputados e compensa a queda nas capitais com o fortalecimento em cidades importantes como Diadema e Contagem, mas não aponta nenhuma perspectiva de se reinventar e postular o papel que cumpriu nas últimas décadas. O PSB e PDT, apesar de ter tido vitórias importantes, estão pouco dispostos a organizar um campo, acenando diversas vezes para a direita tradicional com vistas a 2022, enquanto o PCdoB sai muito fragilizado, apesar do fortalecimento da Manuela como figura pública e com poucas perspectivas de conseguir passar a clausula de barreira nas próximas eleições. A novidade, sem dúvida, é o PSOL, com Boulos em São Paulo, a prefeitura de Belém e sua bancada nas capitais.


O primeiro elemento estrutural do salto do PSOL é a capacidade de dialogar e absorver os movimentos que tomaram as ruas nos últimos anos, como o levante do movimento negro, a luta das mulheres, a mobilização de setores de trabalhadores precários, como os motoristas de aplicativos. Ou seja, o partido elegeu tribunos conectados com esses processos, expressando a centralidade da imbricação entre gênero, classe e raça na constituição da nova esquerda, além de colocar como desafio a organização desses setores e o enraizamento do partido junto as periferias do nosso país. O segundo elemento foi a construção do Boulos como figura nacional do PSOL e um dos principais expoentes na reorganização da esquerda do país. Seja a nova conjuntura colocada em 2020, a política acertada da campanha de dialogar com o sentimento de mudança, ou a relação mais orgânica do líder do MTST com o partido, participando das prévias e agitando a militância e candidatos, o fato é que garantiu-se uma projeção nas eleições nunca antes vista no partido em SP, que se refletiu no seu relevo nacional. Sem dúvida, a maneira que ele vai se postular no próximo período será chave para o PSOL e os rumos da esquerda. Por fim, é fundamental destacar a vitória contra o bolsonarismo em Belém e a primeira prefeitura de uma capital do PSOL com quadros orgânicos e da direção do partido. Ela será nossa vitrine e terá um papel chave no enfrentamento ao Bolsonaro e em defesa da Amazônia.


Apesar de ainda estar distante uma hegemonia de uma esquerda radical, já podemos dizer que novos ventos apontam para a possibilidade de superar este presente de medo com muita esperança. O que vemos hoje é um novo PSOL, com possibilidades reais de intervir no futuro e disputar uma nova hegemonia que supere os erros da esquerda do regime cometeu nos anos anteriores. Mas, para isso, é fundamental fortalecer os nossos pés e nosso projeto. Com um enraizamento cada vez maior e trabalho de base nos setores periféricos, assim como o fortalecimento de um programa de ruptura que enfrente a burguesia rentista, racista, aristocrática e misógina que nos mantém como reféns há mais de 500 anos. As brechas estão se abrindo, veremos como consigamos aproveitá-las.



*Frederico Henriques é Dirigente nacional do PSOL e Diretor Técnico da FLCMF

42 visualizações0 comentário