Não, o coronavirus não é o responsável pela queda das cotações bolsistas

Atualizado: Mar 30

Assiste-se a uma grande crise das bolsas da Wall Street, da Europa, do Japão e de Shangai e alguns atribuem a responsabilidade ao coronavirus.


Por Éric Toussaint.


Na última semana de Fevereiro/2020, a pior semana desde Outubro/2008, o Dow Jones baixou 12,4%, o S&P 500 baixou 11,5% e o Nasdaq Composite baixou 10,5%. O mesmo cenário na Europa e na Ásia durante a última semana de Fevereiro. Na bolsa de Londres, o FTSE-100 baixou 11,32%, em Paris o CAC40 caiu 12%, em Francoforte o DAX perdeu12,44%, na bolsa de Tóquio o Nikkei baixou 9,6%, as bolsas chinesas (Shangai, Shenzhen e Hong Kong) baixaram igualmente.


Na segunda-feira 2/Março, a seguir a (promessas de) intervenções maciças dos bancos centrais para sustentar as bolsas, os índices retomaram a alta salvo na de Londres. Na terça-feira 3/Março, o banco central dos Estados Unidos, o Fed, entrou em pânico, baixou em 0,5% sua taxa directora, o que constitui uma redução considerável. A nova taxa directora do Fed situa-se doravante num intervalo de 1 a 1,25%. É preciso saber que a taxa de inflação nos Estados Unidos entre Fevereiro/2019 e Janeiro/2020 atingiu 2,5%, o que quer dizer que a taxa de juro real do FED é negativa. A grande imprensa escreve que esta medida visa sustentar a economia americana ameaçada pela epidemia COVID-10. O diário francês Le Figaro titula: "O coronavirus precipita uma forte baixa da taxa directora do Fed" ( www.lefigaro.fr/... ver também em inglês edition.cnn.com/... ).


Ora, a má saúde da economia americana data de bem antes dos primeiros casos de coronavirus na China e destes efeitos sobre a economia mundial (ver www.cadtm.org/... ). Em resumo, o Fed e a grande imprensa não dizem a verdade quando explicam que a medida é destinada a enfrentar o coronavirus. Apesar da decisão do Fed, na terça-feira 3/Março o S&P 500 baixou novamente 2,81%, o Dow Jones baixou 2,9% (edition.cnn.com/2020/03/03/investing/dow- stock-market-today/index.html ). Nos dias 3 e 4 de Março, várias bolsas asiáticas experimentaram igualmente uma baixa. Não se pode excluir uma reascensão da bolsa de Nova York em 4/Março para saudar o retorno de Joe Biden à corrida presidencial nos Estados Unidos aquando das primárias democratas de 3/Março pois isto representa para eles um alívio frente a Bernie Sanders, que entretanto continua à frente. Joe Biden é claramente o candidato do establishment democrata e dos miliardários que apoiam este partido. De notar igualmente que Donald Trump, num tweet da semana passada, ligou a sua sorte àquela da bolsa na Wall Street. Em 26/Fevereiro ele conclamou seus colegas dos 1% mais ricos a não venderem suas acções e a sustentarem a bolsa. Ele além disso afirmou que se fosse reeleito à presidência dos Estados Unidos em Outubro/2020 a bolsa ascenderia enormemente mas que se perdesse assistir-se-á a um crash bolsista de uma amplitude nunca vista (segundo o Financial Times, Trump anunciou que "The market will 'jump milhares e milhares de pontos se eu vencer', ... "and if I don't, you're going to see a crash like you've never seen before. I really mean it". www.ft.com/content/399783e2-57e9-11ea-a528- dd0f971febbc ). O que se vai passar precisamente nos mercados bolsistas nos próximos dias e semanas é imprevisível mas é muito importante analisar as verdadeiras causa da crise financeira em curso.


Os grandes media afirmam de maneira ultra simplificadora que esta queda generalizada das bolsas de valores é provocada pelo coronavirus e esta explicação é retomada amplamente nas redes sociais. Ora, não é o coronavirus e sua expansão que constituem a causa da crise, a epidemia é apenas um elemento detonador. Todos os factores de uma nova crise financeira estão reunidos há vários anos, pelo menos desde 2017-2018 (ver www.cadtm.org/Tout-va-tres- bien-madame-la datado de Novembro/2017, www.cadtm.org/Tot-ou-tard-il-y-aura-une-nouvelle-crise- financiere datado de Abril/2018, ver mais recentemente pour.press/... ). Quando a atmosfera está saturada de matérias inflamáveis, a qualquer momento uma fagulha pode provocar a explosão financeira. Era difícil prever de onde a fagulha iria partir. A fagulha desempenha o papel de detonador mas não é ela que é a causa profunda da crise. Não sabemos ainda se a forte queda bolsistas do fim de Fevereiro/2020 vai "degenerar" numa enorme crise financeira. É uma possibilidade real. O facto de que a queda bolsista coincide com os efeitos da epidemia do coronavirus sobre a economia produtiva não é fortuito, mas dizer que o coronavirus é a causa da crise é uma contra-verdade. É importante ver de onde vem realmente a crise e não ser enganado pelas explicações que lançam uma cortina de fumo diante das causas reais.


O Grande Capital, os governantes e os media a seu serviço têm todo o interesse nas costas de um vírus o desenvolvimento de uma grande crise financeira e económica, pois isto lhes permite lavar as mãos (desculpem-me a expressão).


A queda das cotações bolsistas estava prevista bem antes que o coronavirus fizesse a sua aparição.


As cotações das acções e o preço dos títulos de dívida (também chamados obrigações ) aumentaram de um modo totalmente exagerado em relação à evolução da produção no decorrer dos últimos dez anos, com uma aceleração no decorrer dois últimos dois ou três anos. A riqueza dos 1% mais ricos também cresceu fortemente pois ela está baseada amplamente no crescimento dos activos financeiros.


É preciso sublinhar que o momento em que intervém a queda das cotações bolsistas é o resultado de uma escolha (não falo de complot): uma parte dos muito ricos (o 1%, o Grande Capital) decidiu começar a vender as acções que adquiriu pois considera que toda festa financeira tem um fim e, ao invés de a sofrer, ele prefere tomar a dianteira. Estes grandes accionistas preferem ser os primeiro a vender a fim de obterem os melhores preços possíveis antes de a cotação das acções baixar muito fortemente. Grandes sociedade de investimentos, grandes bancos, grandes empresas industriais e miliardários dão a ordem aos traders para venderem uma parte das acções ou do títulos de dívidas privadas (ou seja, obrigações) que possuíam a fim de embolsar os 15% ou 20% de alta dos últimos anos. Eles dizem que é o momento de fazê-lo: chamam a isto tomar os "seus ganhos". Segundo eles, tanto pior se isto implica um efeito de venda em manada. O importante ao seu ver é vender antes dos outros. Isto pode provocar um efeito dominó e degenerar numa crise generalizada. Eles o sabem e dizem para si próprios que acabarão por se safar sem demasiado prejuízo como aconteceu para grande número dentre eles em 2007-2009. É o caso nomeadamente nos Estados Unidos dos dois principais fundos de investimento e de gestão de activos Black Rock e Vanguard que se saíram bem, assim como do Goldman Sachs, Bank of America, Citigroup ou a Googloe, Apple, Amazon, Facebook, etc.


Outro elemento importante a sublinhar: os 1% vendem acções de empresas privadas, o que provoca uma queda das suas cotações e arrasta a queda das bolsas. Ou ao mesmo tempo eles compram títulos da dívida pública considerados como valores seguros. É nomeadamente o caso nos Estados Unidos onde o preço dos títulos do tesouro estado-unidense aumentou na sequência de uma procura muito forte. De notar que um aumento do preço dos títulos do tesouro que se vendem no mercado secundário tem como consequência baixar o rendimento destes títulos. Os ricos que compram estes títulos do Tesouro estão dispostos a um rendimento fraco, pois o que procuram é a segurança num momento em que a cotação das acções das empresas está em baixa. Em consequência, há que sublinhar que mais uma vez são exactamente os títulos dos Estados que são considerados pelos mais ricos como os mais seguros. Mantenhamos isto na cabeça e estejamos prontos a dizê-lo publicamente pois há que esperar que dentro em breve retorne o refrão bem conhecido da crise das dívidas pública e dos temores dos mercados em relação a títulos públicos.

Mas vejamos outra vez o que se passa repetitivamente desde há pouco mais de trinta anos, ou seja, desde o aprofundamento da ofensiva neoliberal e da grande desregulamentação dos mercados financeiros [1] : o Grande Capital (os 1%) reduziu a parte que ele investe na produção e aumentou a parte que ele põe em circulação na esfera financeira (isto inclui o caso de uma firma "industrial" emblemática como a Apple). Ele fez isso no decorrer dos anos 1980 e isso produziu a crise do mercado obrigacionista de 1987. Ele fez mais uma vez isso no fim dos anos 1990 e isso produziu a crise das dot-com e da Enron em 2001. Ele refez isso entre 2004 e 2007 e isso produziu a crise das subprimes, dos produtos estruturados e uma série de falências fulminantes como a do Lehman Brothers em 2008. Desta vez, o Grande Capital especulou principalmente com a alta dos preços das acções em bolsa e com o preço dos títulos da dívida no mercado obrigacionista (ou seja, o mercado onde vendem as acções das empresas privadas e os títulos de dívidas emitidos pelos Estados e outros poderes públicos). Dentre os factores que provocaram a alta extravagante dos preços dos activos financeiros (acções em bolsas e títulos de dívidas privadas e públicas), é preciso considerar a acção nefastas dos grandes bancos centrais desde a crise financeira e económica de 2007-2009. Analisei isto em www.cadtm.org/... .

Portanto, este fenómeno não data da véspera da crise de 2008-2009, ele é recorrente no quadro da financiarização da economia capitalista. E antes disso o sistema capitalista também havia experimentado fases importantes de financiarização, tanto no século XIX como nos anos 1920, o que conduziu à grande crise bolsista de 1929 e ao período prolongado de recessão dos anos 1930. Assim, o fenómeno da financiarização e desregulamentação foi parcialmente abafado durante 40 anos após a grande depressão dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial e a radicalização da luta de classes que se seguiu. Até o fim dos anos 1970, não houve mais grandes crises bancárias ou bolsistas. As crises bancárias e bolsistas ressurgiram quando os governos deram todas as liberdades ao Grande Capital para fazer o que quisesse no sector financeiro.

Retornemos à situação dos últimos anos. O Grande Capital, o qual considera que a taxa de rentabilidade que ele extrai da produção não é suficiente, desenvolve as actividades financeiras não directamente ligadas à produção. Isto não quer dizer que ele abandone a produção, mas que desenvolve proporcionalmente mais as suas aplicações na esfera financeira do que os seus investimentos na esfera produtiva. É o que se chama a financiarização ou a mundialização financiarizada. O capital "faz lucro" a partir do capital fictício por actividades grandemente especulativas. Este desenvolvimento da esfera financeira aumentar o recurso ao endividamento maciço das grandes empresas e inclusive firmas como a Apple (escrevi uma série de artigos acima www.cadtm.org/... ).


O capital fictício é uma forma do capital, ele se desenvolve exclusivamente na esfera financeira sem verdadeira ligação à produção (ver caixa: O que é o capital fictício?). É fictício no sentido de que não repousa directamente sobre a produção material e sobre a exploração directa do trabalho humano e da natureza. Digo bem exploração directa pois evidentemente o capital fictício especula sobre o trabalho humano e sobre a natureza, o que geralmente degrada as condições de vida dos trabalhadores e da própria natureza.


O que é o capital fictício?

"O capital fictício é uma forma de capital (títulos da dívida pública, acções, créditos) que circula ao passo que os rendimentos da produção aos quais ele dá direito não são senão promessas cujo desfecho é por definição incerto". Entrevista com Cédric Durand realizada por Florian Gulli, "Le capital fictif, Cédrid Durand", La Revue du projet: projet.pcf.fr/70923 .

Segundo Michel Husson, "o quadro teórico de Marx permite-lhe a análise do 'capital fictício', o qual pode ser definido como o conjunto dos activos financeiros cujo valor repousa sobre a capitalização de um fluxo de receitas futuras: "Chama-se capitalização a constituição do capital fictício" [Karl Marx, O Capital, Livro III]. Se uma acção proporciona um rendimento anual de 100£ e a taxa de juro é de 5%, seu valor capitalizado será de 2000£. Mas este capital é fictício, na medida em que "não lhe resta absolutamente nenhum traço de uma relação qualquer com o processo real de valorização do capital" [Karl Marx, O Capital, Livro III]. Michel Husson, "Marx et la finance: une approche actuelle", À l'Encontre, Dezembro/2011, alencontre.org/economie/marx-et-la-finance-une-approche-actuelle.html Para Jean-Marie Harribey: "As bolhas explodem quando o afastamento entre valor realizado e valor prometido se torna demasiado grande e certos especuladores compreendem que as promessas de liquidação lucrativa não poderão ser honradas para todos; por outras palavras, quando as mais-valias financeiras jamais poderão ser realizadas por falta de mais-valia suficiente na produção". Jean-Marie Harribey, "A inconsistência do capital fictíci, leitura do Capital fictif de Cédrid Durand", Les Possibles, No 6, Primavera 2015. france.attac.org/... 

Ler igualmente François Chesnais, "Capital fictício, ditadura dos accionistas e dos credores: questões do momento presente", Les Possibles, No 6, Primavera 2015: france.attac.org... 

Estou de acordo com Cédric Durand quando ele afirma: "Uma das consequências políticas importantes desta análise é que a esquerda social e política deve tomar consciência do conteúdo de classe da noção de estabilidade financeira. Preservar a estabilidade financeira é actuar de modo a que as pretensões do capital fictício se realizem. Para libertar nossas economias do império do capital fictício, precisamos nos empenhar numa desacumulação financeira. Concretamente, isto remete de modo claro para a questão da anulação das dívidas pública e da dívida privada das famílias modestas, como também para a diminuição dos rendimentos de accionistas, o que se traduz mecanicamente por uma diminuição da capitalização bolsista. Não nos enganemos, tais objectivos são muito ambiciosos: eles implicam inelutavelmente socializar o sistema financeiro e romper com a liberdade de circulação do capital. Mas eles permitem dominar precisamente certas condições indispensáveis para virar a página do neoliberalismo". Cédrid Durand, "Sobre o
capital fictício, Resposta a Jean-Marie Harribey", Les Possibles, No 6, Primavera 2015: france.attac.org/


O capital fictício deseja captar uma parte da riqueza produzida na produção (os marxistas dizem uma parte da mais-valia produzida pelos trabalhadores na esfera da produção) sem sujar as mãos, ou seja, sem passar pelo facto de ser investido directamente na produção (sob a forma de compra de máquinas, matérias-primas, pagamento da força de trabalho humana sob a forma de salários, etc). O capital fictício é uma acção cujo possuidor espera que lhe traga um dividendo. Ele comprará uma acção Renault se esta prometer um bom dividendo mais poderá também revender esta acção para comprar uma acção General Electric ou Glaxo Smith Kline ou Nestlé ou Google se esta prometer um melhor dividendo. O capital fictício é também uma obrigação de dívida emitida por uma empresa ou um título da dívida pública. É também um derivado, um produto estruturado... O capital fictício pode dar a ilusão de que gera lucros por si mesmo ainda que estando destacado da produção. Os traders, os brokers ou dirigentes das grandes empresas estão convencidos de que "produzem". Mas, num certo momento, uma crise brutal explode e uma massa de capitais fictícios esfuma-se (queda das cotações bolsistas, quedas dos preços no mercado obrigacionista, queda dos preços do imobiliário...).


O Grande Capital, de maneira repetida, quer acreditar ou fazer acreditas que ele é capaz de transformar o chumbo em ouro na esfera financeira, mas de maneira periódica a realidade chama-o à ordem e a crise explode. Quando a crise explode é preciso distinguir entre o elemento detonador de uma parte (hoje, a pandemia do coronavirus pode constituir o detonador) e as causas profundas, de outra parte.

No decorrer das últimas duas década houve um enfraquecimento muito importante da produção material. Em várias grandes economias como as da Alemanha, do Japão (último trimestre de 2019), da França (último trimestre 2019) e da Itália, a produção industrial recuou ou enfraqueceu-se fortemente (China e Estados Unidos). Certos sectores industriais que haviam experimentado um ressurgimento após a crise de 2007-2009, como a indústria do automóvel, reentraram numa crise muito forte nos anos 2018-2019 com uma queda muito importante das vendas e da produção. A produção na Alemanha, o principal construtor automóvel mundial, baixou 14% entre Outubro/2018 e Outubro/2019 [2]. A produção automóvel caiu fortemente em França em 2020. A produção de outra jóia da economia alemã, o sector que produz as máquinas e os equipamentos, baixou 4,4% só no mês de Outubro/2019. É caso igualmente do sector da produção de máquinas-ferramenta e de outros equipamentos industriais. O comércio internacional estagnou. Num período mais longo, a taxa de lucro baixou ou estagnou na produção material, os ganhos de produtividade também baixaram.

Em 2018-2019, estes diferentes fenómenos da crise económica na produção manifestaram-se muito claramente, mas como a esfera financeira continuava a funcionar em regime pleno, os grandes media e os governos faziam tudo para afirmar que a situação era globalmente positiva e que aqueles e aquelas que anunciavam uma próxima grandecrise financeira acrescentando-se ao nítido abrandamento da produção eram apenas profetas da desgraça.

O ponto de vista de classe social também é muito importante: para o Grande Capital, enquanto a roda da fortuna na esfera financeira continuar a girar, os jogadores permanecem na pista e felicitam-se pela situação. Passa-se o mesmo para todos os governantes pois actualmente eles estão ligados ao Grande Capital, tanto nas velhas economias industrializadas como a América do Norte, a Europa ocidental ou o Japão como na China, na Rússia ou nas outras grandes economias ditas emergentes.

Apesar do facto de que em 2019 a produção real cessou de crescer de maneira significativa ou começou a estagnar ou a baixar, a esfera financeira continuou a sua expansão: as cotações em bolsa continuaram a aumentar, atingiram mesmo topos, o preço dos títulos das dívidas privadas e públicas continuou a sua progressão para o alto, o preço do imobiliário recomeçou a crescer numa série de economias, etc.

Em 2019, a produção enfraqueceu (China e Índia), estagnou (uma boa parte da Europa) ou começou a baixar no segundo semestre do ano (Alemanha, Itália, Japão, França) nomeadamente porque a procura global baixou: a maior parte dos governos e do patronato intervêm para fazer baixar os salários, as pensões, o que reduz o consumo pois o endividamento das famílias, em aumento, não basta para aliviar a baixa de rendimentos. Da mesma forma, os governos prolongam uma política de austeridade que implica uma redução das despesas públicas e dos investimentos públicos. A conjunção da queda do poder de compra da maioria da população e a baixa das despesas públicas implicam uma queda da procura global e, portanto, uma parte da produção não encontra saídas suficientes, o que implica uma baixa da actividade económica [3].


É importante precisar em que ponto de vista se situa: falo de crise da produção não porque sou um adepto do crescimento da produção. Sou pela organização (a planificação) do decrescimento a fim de responder nomeadamente à crise ecológica em curso. Portanto, pessoalmente, a queda ou a estagnação da produção a nível mundial não me aflige, ao contrário. Esta muito bem se se produzem menos carros individuais e se as suas vendas caírem. Em contrapartida, para o sistema capitalista, não se passa o mesmo: o sistema capitalista tem necessidade de desenvolver sem cessar a produção e de conquistar sem cessar novos mercados. Quando ele não consegue ou quando começa a atrasar-se, responde à situação desenvolvendo a esfera da especulação financeira e emitindo cada vez mais capitais fictícios não ligados directamente à esfera produtiva. Isto parece funcionar durante anos e depois, num momento dado, as bolhas especulativas explodem. Em vários momentos da história do capitalismo a lógica da expansão permanente do sistema capitalista e da produção exprimiu-se por guerra comerciais (e é novamente o caso hoje, nomeadamente entre os Estados Unidos e os seus principais parceiros) ou por guerras verdadeiras e esta questão hoje não está de todo excluída.

Se se situa do ponto de vista das classes sociais exploradas e espoliadas que constituem a esmagadora maioria da população (daí a imagem dos 99% opostos aos 1%), é claro que a conclusão é de que é preciso romper radicalmente com a lógica da acumulação de capital quer ele seja produtivo ou financeiro, ou produtivo financiarizado, pouco importam os nomes. É preciso encetar de imediato e planificar de maneira urgente o decrescimento para combater a crise ecológica. É preciso produzir menos e melhor. A fabricação de certos produtos vitais para o bem-estar da população deve crescer (construções e renovações de habitações decentes, transportes colectivos, centros de saúde e hospitais, distribuição de água potável e tratamento das águas residuais, escolas, etc) e outras produções devem baixar radicalmente (viaturas individuais) ou desaparecer (fabricação de armas). É preciso reduzir radicalmente brutalmente as emissões de gás de efeito estufa [NR] . É preciso reconverter toda uma série de indústrias e de actividades agrícolas. É preciso anular uma grande parte das dívidas pública e, em certos casos, a totalidade destas. É preciso expropriar sem indemnização e transferir para o serviço público os bancos, as seguradoras, o sector da energia e outros sectores estratégicos. É preciso atribuir outras missões e outras estruturas aos bancos centrais.

Existem outras medidas, tais como a execução de uma reforma fiscal global com uma forte tributação do capital, uma redução global do tempo de trabalho com empregos compensatários e a manutenção dos níveis de salário, a gratuidade dos serviços de saúde pública, educação, transportes públicos, medidas eficazes para garantir a igualdade entre os sexos. É preciso repartir as riquezas respeitando a justiça social e fazendo primar os direitos humanos e o respeito dos frágeis equilíbrios ecológicos.

A grande massa da população que vê os seus rendimentos reais diminuírem ou estagnarem (o seja, o seu poder de compra real) compensa esta baixa ou esta estagnação pelo recurso ao endividamento a fim de manter seu nível de consumo e, inclusive, sobre questões vitais (como encher seu frigorífico, como garantir a escolaridade das crianças, como se deslocar para ir ao trabalho se for preciso comprar um carro por não haver transportes em comum, como pagar certos cuidados de saúde, etc). É preciso dar soluções radicais a este endividamento crescente de uma maioria da população nos quatro cantos do planeta e recorrer a anulações de dívida. É preciso portanto anular uma grande parte das dívidas privadas das famílias (nomeadamente das dívidas estudantis, as dívidas hipotecárias abusivas, as dívidas abusivas de consumo, as dívidas ligadas ao micro-crédito abusivo...). É preciso aumentar os rendimentos a maioria da população e melhorar fortemente a qualidade dos serviços públicos na saúde, educação, transportes colectivos, praticando a gratuidade.


Estamos confrontados com uma crise multidimensional do sistema capitalista mundial: crise económica, crise comercial, crise ecológica, crise de várias instituições internacionais que fazem parte do sistema de dominação capitalista do planeta (OMC, NATO, G7, crise no Fed – o banco central dos Estados Unidos –, crise no Banco Central Europeu), crise política nos países importantes (nomeadamente nos Estados Unidos entre os dois grandes partidos do grande capital), crise de saúde pública, guerras... No espírito de um grande número de pessoas em numerosos países, a rejeição do sistema capitalista é mais elevada do que nunca no decorrer das últimas cinco décadas, desde o princípio da ofensiva neoliberal sob Pinochet (1973), Thatcher (19798) e Reagan (1980). A abolição das dívidas ilegítimas, esta forma de capital fictício, deve ser inscrita num programa muito mais vasto de medidas suplementares. O eco-socialismo deve ser posto no cerne das soluções e não deixado de lado. Devemos travar a luta contra a crise multidimensional do sistema capitalista e nos empenharmos resolutamente no caminho de uma saída ecologistda-feministra-socialista. Trata-se de uma necessidade absoluta e imediata. ***

[1] Ver Éric Toussaint, Bancocratie , 2014, chapitre 3 « De la
financiarisation/dérèglementation des années 1980 à la crise de 2007-2008 ».

[2] A indústria automóvel alemã emprega 830 mil trabalhadores e 2 milhões de empregos conexos dela dependem directamente (Fonte: Financial Times, « German industrial output hit by downturn », 7-8 décembre 2019).

[3] Quanto à explicação das crises, entre os economistas marxistas, "duas grandes escolas" se defrontam: aquela que explica as crises pelo sub-consumo das massas (a super-produção de bens de consumo); e aquela que as explica pela "super-acumulação" (a insuficiência do lucro para prosseguir a expansão da produção dos bens de equipament). Esta querela não é senão uma variante do velho debate entre os partidários da explicação das crises pela "insuficiêncvia da procura global" e os da explicação pela "desproporcionalidade". Ernest Mandel. La crise 1974-1982. Les faits. Leur interprétation marxiste , 1982, Paris, Flammarion, 302 p. Na sequência de Ernest Mandel, considero que a explicação da crise actual deve ter em conta vários factores que não se podem reduzir ou a uma crise produzida pela super-produção de bens de consumo (e portanto uma insuficiência da procura) ou à super-acumulação de capitais (e portanto a insuficiência do lucro). 

[NR] Um falso problema como resistir.info tem afirmado numerosas vezes. 

Acerca do Capital fictício, ver também: Verbete da Grande Enciclopédia Soviética Reflexões sobre a crise , Remy Herrera Crise: algumas perguntas e respostas , Jorge Figueiredo Crises, os desenlaces possíveis , Jorge Figueiredo O capital fictício, como a finança se apropria do nosso futuro , Daniel Vaz de Carvalho 

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Éric Toussaint é um intelectual belga, porta-voz do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo e autor de A Bolsa ou a Vida. Escreve regularmente no site http://www.cadtm.org


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