Mais de 70% das mortes por Covid-19 da América do Sul são registradas no Brasil

Países como Venezuela, Argentina, Uruguai e Paraguai tem não apenas um número bem menor de mortes, mas sobretudo um ritmo de crescimento muito mais baixo, o suficiente para lograrem uma clara diminuição do número de casos ativos

Por Gilberto Calil


O Covid-19 não atinge por igual o continente sul-americano. Brasil, Equador e Peru concentram 93% das mortes e tem uma situação muitíssimo mais grave que os demais países, que se expressa em maior número absoluto de mortes, maiores taxas de crescimento das mortes e dos casos e maiores taxas de mortes por milhão de habitantes. São também os países sobre os quais pairam mais denúncias de subnotificação [1], o que indica um quadro provavelmente ainda pior.


Com 49.4% da população da América do Sul, o Brasil tem um percentual muito mais alto do número de mortes, e este percentual está em crescimento. No final de maio, ele estava em 67.6% e agora passa para 71.5%. Temos também o maior ritmo de crescimento do número de mortes (junto com Bolívia), a pior relação entre o número de testes realizados e resultados positivos e uma das três piores relações de mortos por milhão de habitantes.

Em uma situação intermediária, encontram-se Chile, Colômbia e Bolívia, com números menos expressivos, mas também com elevadas taxas de crescimento do número de mortes. No caso da Bolívia, mesmo com baixíssima testagem, verificou-se um aumento de 161% do número de casos nos últimos 14 dias.



O contraste com a situação nitidamente distinta de outros países evidencia a eficácia de medidas efetivas de contenção e isolamento social, tomadas de forma rigorosa na maior parte dos países, em contraposição às medidas muito mais limitadas, e ainda assim sabotadas por autoridades como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e a prefeita de Guayaquil Cynthia Viteri, no Equador.


Países como Venezuela, Argentina, Uruguai e Paraguai tem não apenas um número bem menor de mortes, mas sobretudo um ritmo de crescimento muito mais baixo, o suficiente para lograrem uma clara diminuição do número de casos ativos. Estes países têm também uma relação muito mais favorável entre o número de testes realizados e os testes com resultado positivo (acima do limite mínimo de 10 recomendado pela OMS). No caso da Venezuela, além das medidas de isolamento amparadas por políticas de renda mínima efetivas, destaca-se o elevadíssimo número de testes realizados, chegando ao impactante número de 791 testes realizados por resultado positivo. A Venezuela tem uma população 7 vezes menor que o Brasil, mas um número de mortos que é e 2.000 vezes melhor, com uma taxa de mortos por milhão 238 vezes inferior à brasileira.


Somando conjuntamente 61% da população da América do Sul, os três países em piores condições têm também disparado as maiores taxas de mortes por milhão. Os demais países somados têm 39% da população do continente e 7% dos mortos. Na realidade, a disparidade certamente é ainda maior, pois justamente os três estão em piores condições são os que tem maiores taxas de subnotificação, comprovadas pela baixíssima relação entre testes realizados e resultados positivos (o Brasil tem 2.4, o Equador 2.9 e o Peru 6.8, respectivamente a primeira, segunda e quarta pior marca do subcontinente). Além disso são os três países com as maiores taxas de crescimento das mortes nos últimos 22 dias (junto com a Bolívia), variando entre 230% e 260%. Como já indicamos em texto anterior há 40 dias [2], a disparidade da situação enfrentada pelos diferentes países revela que as diferentes formas de enfrentamento da pandemia produzem resultados absolutamente distintos.


Notas:


[1] Muito especialmente no que se refere ao Equador. Ver: https://esquerdaonline.com.br/2020/05/19/a-pandemia-no-equador/


[2] https://www.observatoriodacrise.org/post/am%C3%A9rica-do-sul-diferentes-pol%C3%ADticas-resultados-opostos

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