Maioria de direita e minorias da esquerda nas eleições de 2020

Qualquer partido que queira cumprir um papel neste momento deve continuamente atuar para organizar uma contraofensiva da classe trabalhadora

Por Mauricio Mulinari


Uma sólida maioria eleitoral se expressou nas eleições de 2020: a política tradicional situacionista de direita. Raros foram os candidatos de oposição que venceram as prefeituras, sejam estas de capitais, cidades grandes do interior ou cidades pequenas. Ao contrário do que afirmam vários setores da esquerda brasileira, inclusive do nosso partido, Bolsonaro não sai derrotado deste pleito. Pelo contrário, a vitória das forças que já exerciam o poder político aponta para uma enorme capacidade de cooptação do Estado burguês diante da classe trabalhadora desorganizada, indicando continuidade dos projetos que já ocupam as cadeiras de mando, tal como Bolsonaro na presidência da república.


De outro lado, as chamadas minorias apareceram no processo eleitoral com alguma força. O movimento pelo “Ele não”, em 2018, mostrou que elas estavam sendo gestadas. Tal fato garantiu vitórias de parlamentares vinculados às “pautas identitárias”, ou ao ativismo social, como caracterizou o presidente do PSOL Juliano Medeiros em entrevista recente conferida durante o segundo turno, onde colocou nosso partido como o grande representante deste movimento. Entretanto, mesmo que este ativismo tenha de fato incorporado setores da juventude à política e vencido disputas parlamentares, este continua enfrentando seu claro limite que já apareceu na eleição de Bolsonaro em 2018: a incapacidade de adentrar no seio da classe trabalhadora.


Desta forma, nosso partido se encontra em um momento de definição: tratará de trabalhar esta importante aproximação da juventude no sentido de aprofundar o debate socialista revolucionário e buscar o enraizamento na classe trabalhadora ou permanecerá na posição insuficiente do ativismo pelas minorias que rendem mandatos parlamentares? Se este último demonstrou ser um patamar incontornável da consciência possível da juventude na atual quadra histórica, não pode ser seu horizonte final após mais uma eleição de vitória da política tradicional em meio a ampla maioria da população composta pela classe trabalhadora.


A vitória da direita tradicional


Qualquer análise de resultado eleitoral precisa estar vinculada ao tema da política nacional e da crise capitalista. Crise capitalista que atravessa a sociedade brasileira com intensidade desde no mínimo 2012, sem qualquer descanso de lá para cá. Diante dela e das medidas adotadas por todos os governos em defesa da propriedade privada, atravessamos um ano eleitoral em meio a altíssimas taxas de desemprego, ampliação da informalidade do mercado de trabalho, queda expressiva dos salários e ampliação da centralização de capital por meio da falência generalizada de pequenos negócios e expansão da taxa de lucro do capital monopolista. Com isso, seria de se esperar que a indignação diante da crise que provocou a “onda de mudança” de 2018, aquela hipocritamente encampada por Bolsonaro nas últimas eleições, se apresentaria novamente.


Ao contrário disso, este não foi o fato observável quando da abertura das urnas. O resultado demonstrou a continuidade dos projetos políticos que já ocupavam as prefeituras. Tanto foi assim que o velho sistema político tradicional elegeu prefeitos de cima a baixo do Brasil. Se o DEM, PSD e PP cresceram com grande força em detrimento de MDB e PSDB – que mesmo assim continuam sendo os partidos com o maior número de prefeituras no país –, isto não se deu por disputas eleitorais entre oposição e situação. Pelo contrário, o que houve foi grande migração partidária de políticos tradicionais e consolidados de um partido para outro, fato que ocorre desde o final das eleições de 2018.

Mesmo cidades onde supostamente a oposição venceu, o que tivemos foi a retomada dos velhos esquemas enraizados na máquina estatal e não a ascensão de novas lideranças. Este é o caso, por exemplo, da vitória de Eduardo Paes contra Crivella no Rio de Janeiro. Um político do antigo MDB, desgastado após a destruição do seu antigo partido pelas operações da Lava-jato, migra para o DEM junto da sua camarilha e retorna para o comando de uma importante prefeitura.


O que venceu, na realidade, foram os velhos esquemas do dinheiro e do poder, que operaram no seio da classe trabalhadora quando esta se encontra desorganizada e sem horizonte de superação da ordem capitalista. Se 2018 representou a onda do “vamos mudar tudo que está aí”, dois anos depois vigorou o voto orientado pelas obras públicas feitas em ano eleitoral, pela cooptação das lideranças comunitárias em função de cargos comissionados na prefeitura e pela troca de favores – grande parte das vezes ilícitos. Em resumo, uma eleição municipal amplamente tradicional, daquelas do “arco da velha”, onde o poder da máquina estatal joga seu peso, não por acaso vencida pelos partidos filhos da antiga Arena, detentora de uma tradição inegável dessas práticas.


Claramente, o frisson causado pela aparição de Bolsonaro em 2018, o candidato antissistema que hipocritamente falou que “não tinha medo de fazer as mudanças necessárias no nosso país”, ficou para trás. Comandou a apatia política em torno das eleições, onde a pandemia foi um fator agravante, mas não seu fato gerador. A classe trabalhadora, desanimada diante de uma década de crise e de um governo federal que não promoveu uma mudança sequer nesse quadro, mostrou-se apática e desinteressada nas eleições. Tal dado se expressa na continuidade dos projetos políticos que estamos tratando, mas também aparece em uma taxa gigantesca de abstenções, votos brancos e nulos, oscilando entre 30 e 40%, especialmente nas capitais.


Na aparência, isso poderia representar a derrota de Bolsonaro em 2020, tal qual vem sendo reiteradamente veiculado dentre os militantes da esquerda. Entretanto, não se enganem, se a eleição aponta a continuidade dos projetos políticos assegurada pela força do uso da máquina estatal, Bolsonaro segue no comando da maior máquina de todas: o executivo federal. Tanto é assim que não podemos esquecer do pico de popularidade de Bolsonaro neste ano quando da liberação do auxílio emergencial. 81 milhões de brasileiros auferiram o mísero valor de R$ 600,00 mensais, que em alguns casos até mesmo elevou a renda de trabalhadores antes desempregados ou amplamente precarizados.


Não por acaso, orientado pelo instinto político de um ex-parlamentar com quase três décadas de experiência, Bolsonaro fez vários movimentos em 2020 visando aliança com o sistema político tradicional, o muito mal denominado “centrão” – na verdade uma direita tradicional que opera como exército mercenário, sempre a espera de quem resolva alugá-lo para seu projeto. O mais recente sinal de composição com o sistema político, por sua vez, é o apoio à candidatura de Arthur Lira, do PP de Alagoas, à presidência da câmara dos deputados. Desta forma, não seria de se admirar que o presidente, atualmente sem partido e sem capacidade de criar um partido para chamar de seu, pudesse ingressar nas fileiras do PP para a disputa da reeleição em 2022.


Assim sendo, Bolsonaro seria um fortíssimo candidato, detentor da máquina do executivo federal e ancorado em um partido com capilaridade nacional em expansão. De outro lado, como seu opositor, desponta uma candidatura atrelada também ao velho sistema político. Tanto o expressivo resultado eleitoral de 2020 quanto o papel de Rodrigo Maia como líder das contrarreformas no congresso nacional indicam grande capacidade do DEM ser um polo de atração de uma candidatura, podendo, inclusive, trazer para si alianças com partidos que mesmo em queda, continuam a ter grande envergadura, como MDB e PSDB.

Assim sendo, configura-se para 2022 uma disputa de fachada entre o velho sistema político agora repaginado. De um lado, Bolsonaro como forte candidato a reeleição, de outro, uma candidatura também de direita atrelada ao velho sistema político. Porém, por necessidade de diferenciação do atual presidente, veremos um candidato com a chamada “sensibilidade social” para a pobreza e para as pautas das opressões.


Para essa diferenciação, por sua vez, este candidato que há de surgir como representante desta “direita sensível” em antagonismo à “direita bruta” contará também com o apoio de uma grande máquina de proporções nacionais: a Rede Globo. Se Bolsonaro será o representante do executivo federal, não tenham dúvidas de que a Rede Globo, associada a todo o pacote da indústria cultural imperialista, atuará decididamente para fabricar um candidato alinhado à nova onda da representatividade, nada mais nada menos que a reedição da cidadania como horizonte burguês.


Na pauta estrutural nenhuma diferença se encontrará. Por estrapolação do que já vivemos hoje no conflito entre Rede Globo e Bolsonaro, a divergência construída em torno dos costumes e da representatividade tratará de ser o escudo para proteger a hegemonia completa no que tange a continuidade do programa ultraliberal. Programa este que intensificará a retirada de direitos sociais e trabalhistas; a ampliação da exploração da força de trabalho; o entreguismo alarmante no tema da soberania nacional; e a manutenção da administração do abismo social produzido pela crise por meio de políticas compensatórias e da violência ostensiva do Estado contra o povo.


A classe dominante asseguraria mais um ciclo de continuidade do seu projeto de guerra de classes e de exclusão completa da classe trabalhadora do pacto no poder. No entanto, sem qualquer possibilidade de afirmar uma estabilidade perene, já que a crise capitalista e a perda de soberania nacional não deixarão de evoluir. Tal conjuntura manterá a criação de fissuras permanentes na ordem burguesa, o que permite o acúmulo de forças de um projeto consequente da classe trabalhadora. Entretanto, para entender as reais potencialidades do período é preciso, antes de mais nada, uma avaliação da atual condição da esquerda no Brasil.


Uma esquerda em minoria ou minorias?


É inegável que a eleição de 2020 marcou a continuidade do perfil da oposição à Bolsonaro canalizada pelos grandes protestos do “Ele não” em 2018. As vitórias parlamentares de candidaturas de perfil “identitário” expressaram justamente que a negação a “ele”, sujeito indefinido, encontrou seu desaguadouro no “elas”, que também permanece indefinido do ponto de vista do seu projeto político. Tanto foi assim que não apenas o PSOL cresceu nesta onda, mas também o Partido Novo e outros vários partidos de direita ganharam posições encampando candidaturas que afirmaram uma visão individualista ao modo de uma self made woman ou do empreendedorismo social periférico e ambiental.


De qualquer forma, afirmar apenas isso eludiria o fato de que estas candidaturas – afirmando a representatividade de “minorias” – se fortaleceram no seio da esquerda, especialmente no PSOL. Nosso partido, por conta de seu formato construído historicamente, uma espécie de federação de correntes e mandatos sem centralização, mostrou-se um terreno fértil para abraçar pautas que também operam de forma pulverizada e descentralizada. Candidaturas feministas, coletivas, em defesa do meio ambiente, LGBTs, etc. foram lançadas e colheram desempenho relativamente favorável nas urnas, especialmente em função de sua adesão nas redes sociais em setores da juventude de classe média. Daí emerge a afirmação de Juliano Medeiros, presidente do partido, de que agora o PSOL é o partido do ativismo social.


Por outro lado, partidos como o PT mais uma vez perderam nesta eleição. As históricas candidaturas de perfil sindical ou vinculadas a bairros populares, envoltas em uma crise de legitimidade por conta do afastamento da classe trabalhadora do petismo e dos seus aparelhos tradicionais de representação, perderam em densidade eleitoral. Como contraposição, também é possível perceber dentro do PT uma ascensão das candidaturas de perfil “identitário”, que foram aquelas que seguraram as votações petistas para as câmaras de vereadores – com exceção de figuras que já ganharam conotação quase que de celebridade, tal qual Eduardo Suplicy em São Paulo.


Esta onda consolida posições do perfil “Ele não” nas câmaras de vereadores, especialmente nas capitais e maiores cidades do país. Entretanto, consolida também a esquerda liberal enclausurada em uma posição de minoria na sociedade, apartada da classe trabalhadora. Se em 2018, as enormes manifestações ocorridas às vésperas do primeiro turno foram tão grandes quanto incapazes de impedir a vitória acachapante do atual presidente, em 2020, as conquistas parlamentares não impediram a vitória expressiva da direita tradicional nas eleições majoritárias para comando do executivo. Mais uma vez, a esquerda reforça seu caráter parlamentar nestas eleições, atestando uma incapacidade atual de disputar um projeto de poder e transformações mais amplas que ultrapasse a mera representação.


Se considerarmos a votação um indicador da correlação de forças da luta de classes, verificaremos uma esquerda que marcou passo em si mesma nestes dois anos, não ampliando sua base social e, o que é pior, conseguindo pouquíssimo enraizamento na classe trabalhadora. Desta forma, a vitória da direita tradicional nas eleições majoritárias é expressão de uma classe trabalhadora que não encontrou na esquerda progressista uma tradutora para sua situação imediata de desespero diante da crise. Uma esquerda que perdeu, inclusive, consistência em seu discurso de classe, abraçando o reduzido horizonte da cidadania burguesa abstrata e sua forma parlamentar como única possível.

Via de regra, essas candidaturas afirmaram uma pauta limitada ao âmbito da luta pela cidadania, pelo reconhecimento dos direitos iguais, sem qualquer “alma social” vinculada aos interesses revolucionários da classe trabalhadora. Poucas candidaturas foram aquelas que vincularam as demandas democráticas por reconhecimento – obviamente legítimas politicamente – com a dinâmica da crise capitalista que amplia o drama do desemprego, da queda dos salários, das contrarreformas, das jornadas abusivas, do adoecimento psicológico dos trabalhadores, da liquidação das condições de trabalho dos servidores públicos, enfim, do aprofundamento do abismo social. Menores ainda foram as candidaturas que afirmaram claramente um horizonte de classe, apontando deliberadamente a classe dominante como a responsável por tal abismo social. Pelo contrário, vendeu-se a imensa ilusão de uma “cidade para todos e todas”, sem contradições de classe, como se a disputa fosse apenas pela melhor gestão do poder público.


Tratou-se de uma hegemonia ampla do liberalismo de esquerda que prega a transgressão resignada como método. Este não é novidade historicamente, já que desde que o modo de produção capitalista se impôs como padrão dominante no mundo, sempre surgiram elementos que buscaram manter a ordem exploratória do capital através de medidas pontuais e compensatórias para enfrentar as mazelas sociais. Atualmente, este histórico “socialismo burguês” – tal como Marx e Engels caracterizaram no Manifesto do Partido Comunista – se apresenta solidamente estruturado na hegemonia do horizonte individual da contestação aos costumes culturais e da caridade cristã capitalizada. Tanto é assim que essa forma conservadora de enfrentar o abismo social – conservadora por conservar todos os pressupostos estruturais do capitalismo – foi hipertrofiada por empresas monopolistas tais como Rede Globo, Natura, Magazine Luiza, Bradesco e muitas outras. Todas essas empresas vêm intensificando redes de compliance para corrigir as opressões de gênero e raça no seu interior, assim como realizando fortes investimentos em publicidades incorporando elementos da representatividade, bem como em ações caritativas. Ações essas que, inclusive, ganharam forte expressão no Jornal Nacional com o quadro “Solidariedade S/A”.


O mais contraditório disso tudo é que essas mesmas empresas, por um lado, recebem volumes imensos de renúncias fiscais e tributárias do Estado – tanto da União, dos estados e dos municípios –; não pagam suas dívidas; engordam no sistema da dívida pública e; ao esvaziarem o orçamento público por meio deste assalto sistemático ao Estado, pressionam pelo sucateamento e privatização do serviço público. Serviço público este que poderia de fato enfrentar o tema da violência contra mulheres, negros e LGBTs por meio da efetivação da rede de seguridade social (saúde, assistência social e previdência pública) e educação, para ficar aqui apenas em dois setores estratégicos. De outro lado, são as mesmas empresas que exploram violentamente a classe trabalhadora ao implementarem nas últimas décadas novas tecnologias produtivas que intensificam e ampliam as jornadas de trabalho; generalizam as formas de remuneração variável no sistema de metas de produção e vendas; e aplicam práticas antissindicais que quebram a espinha dorsal de defesa dos trabalhadores e trabalhadoras.

Um exemplo paradigmático disso são as lojas Magazine Luiza. Enquanto sua proprietária, Luiza Trajano, aparece como exemplo de empoderamento feminino ao defender todas as pautas que se reduzem ao âmbito da representatividade, as trabalhadoras da empresa adoecem sistematicamente por conta do sistema de metas de venda e da remuneração variável. Enfim, se trabalha muito, incessantemente, para se ganhar um salário miserável e enriquecer a senhora Luiza Trajano, que desfila por todo o país dando palestras inspiradoras para jovens de classe média.


Aqui, obviamente, não se trata de negar a importância mais do que evidente dos temas atuais em torno da violência contra as mulheres, a população negra, indígena e LGBT. Mas sim de demarcar claramente que a ausência de uma interpretação histórica e materialista destas particularidades da dominação capitalista no Brasil e sua redução ao horizonte moral tratará de cobrar um grande preço no desenrolar dos próximos anos. Esta pauta, se hoje está vinculada simbolicamente ao PSOL como “partido do ativismo social”, não é, de maneira nenhuma, monopólio do PSOL e nem da esquerda.


A intensidade com que outros partidos de clara vinculação com a direita já avançaram para estes temas, aliado a voracidade da Rede Globo por se apresentar como representante nacional de tal pauta – vide programas de auditório como os de Fernanda Lima e Luciano Huck –, não nos deixa dúvida de que a disputa sobre o domínio da transgressão resignada tende a ficar ao lado dos proprietários dos meios de produção e da riqueza social.


Por isso mesmo, tais vitórias parlamentares no seio do PSOL estão diante de um grande desafio: organizar a classe trabalhadora. Não basta ganhar mandatos, é preciso disputar a consciência de classe de trabalhadores e trabalhadoras. Para isso, o enraizamento social desta votação minoritária é decisivo no próximo período. Transformar este apreço da juventude por estas pautas representativas em compreensão crítica e ímpeto de luta revolucionária se faz urgente. Em suma, não precisamos de jovens que busquem representatividade compensatória minoritária dentro da ordem, mas sim de jovens que proponham a conquista do poder político em um projeto orgânico aos interesses materiais e objetivos da classe trabalhadora, a ampla maioria social.


Os desafios do PSOL


Como dito anteriormente, uma eleição é apenas uma mensuração parcial e insuficiente da correlação de forças entre as classes na sociedade. Revela algumas coisas e esconde outras. Por isso mesmo, seu resultado precisa necessariamente estar vinculado ao tema da economia e da política, determinantes para a realização de qualquer balanço eleitoral e para definição dos passos seguintes de um partido.


Diante disso, em primeiro lugar, é completamente impossível para qualquer governante se consolidar como figura hegemônica na sociedade diante do nível de profundidade da crise capitalista que vivemos. Todos os governos burgueses estão sendo, e continuarão a ser, administradores de uma ordem capitalista que não oferece absolutamente nada de substancial para a classe trabalhadora para além das migalhas sociais. É impossível, ao menos em um horizonte de uma década, o estabelecimento de uma hegemonia política ampla em torno de uma figura pública ou de um partido, tal qual ocorreu com Lula a partir de 2005, sustentado como foi pela expansão econômica continuada propiciada pelo salto vigoroso dos preços e das exportações brasileiras.


Se o Estado continua tendo grande capacidade de ação por meio de sua força de cooptação da classe em momentos eleitorais, vide a vitória da direita tradicional, isto não permite a consolidação de uma hegemonia política substancial. O período que entremeia as eleições, desta maneira, é de fato decisivo para qualquer partido de esquerda que de fato queira disputar o poder e reverter a ofensiva da classe dominante em seu projeto ultraliberal.


Não faltarão lutas populares nestes anos que seguem. Prefeitos eleitos em 2020 iniciarão a aplicação de ajustes ultraliberais já em 2021. Bolsonaro e os governadores também não haverão de parar a ofensiva no próximo ano, sendo a reforma administrativa e tributária pontos centrais já no próximo semestre. Já as câmaras de vereadores eleitas se somam às assembleias legislativas e ao parlamento nacional como base amplíssima de sustentação deste projeto. Exclusivamente no parlamento, tal como sempre foi na democracia burguesa, não haverá qualquer possibilidade de fazer frente à continuidade da ofensiva burguesa.


Por isso mesmo, diante desta vitória eleitoral da direita tradicional e da perspectiva inexorável de continuidade da ofensiva, é preciso que o PSOL aproveite esta aproximação da juventude para que esta se mobilize, organize e politize no processo real de lutas. De uma minoria na população, é preciso que ela se projete para a conquista da maioria, dotando de alma social expansiva o discurso que hoje está enclausurado na dinâmica representativa de identidades. Sem esta projeção e enraizamento nas lutas populares organizadas, acompanhado de um sólido processo de formação na teoria social alinhada à concepção materialista da história, continuaremos tendo um partido que se comporta como federação de correntes e mandatos.


Com isso, perdemos a capacidade de intervenção articulada que consiga acumular forças significativas para romper o quadro que se anuncia para daqui dois anos: uma disputa entre Bolsonaro e algum candidato da direita tradicional que incorpore as pautas identitárias.


De outro lado, a importante vitória eleitoral de Edmilson Rodrigues em Belém-PA será uma vitrine para o partido. Teremos a possibilidade de barrar a contraofensiva da classe dominante na capital paraense; organizar trabalhadores e trabalhadoras em conselhos populares articulados para fazer este combate; e reverter processos nefastos que hoje invadem os municípios de cima a baixo do país, como é o caso da privatização e precarização do serviço público via Organizações Sociais – OS. Caso adotarmos a prática de governadores petistas eleitos em 2018, que atuaram de forma idêntica a todos os demais governadores, não teremos qualquer capacidade de mudar o quadro atual e nos diferenciarmos aos olhos da classe trabalhadora.


Ao partido, como um todo, é preciso amadurecer e se apresentar como a síntese avançada deste processo histórico que vivemos. Qualquer partido que queira cumprir um papel neste momento deve continuamente atuar para organizar uma contraofensiva da classe trabalhadora. Vincular-se aos interesses da classe é um primeiro passo, por isso é preciso abandonar esta concepção imediatista em torno do resultado eleitoral, que apressadamente caracteriza nosso partido como aquele do ativismo social. Mais do que um partido que abrace as causas, precisamos que ele cumpra sua função de formar e dirigir seus militantes no rumo da conquista da maioria social. Sentido este que só pode ser encontrado não dentro da ordem capitalista, mas sim na luta pela superação desta ordem, na luta pela revolução brasileira.

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