Lukács e “a bela palavra ontologia”: decifrando uma categoria

Atualizado: Jun 10

Os capítulos finais de sua Ontologia defendem a importância de dedicar-se a uma causa, condição para se superar a alienação capitalista

Por Maurício Vieira Martins*

Texto publicado originalmente no site Esquerda Online


Numa entrevista concedida em 1966 a três intelectuais alemães, G. Lukács afirmou, referindo-se ao seu próprio trabalho: “usamos a bela palavra ‘ontologia’, à qual eu mesmo me estou habituando” [1]. Numa visão retrospectiva, a declaração de Lukács tem algo de surpreendente: ele contava com mais de 80 anos quando concedeu esta entrevista, já tinha há muito uma reputação constituída internacionalmente. Seria confortável como que repousar sobre seu nome público, e prosseguir apenas com o desdobramento de temas por ele já explorados. Entretanto, em procedimento nem sempre encontrável em outros intelectuais, um Lukács octogenário [2] declara sua disposição em pesquisar numa área, a ontologia, que até então não aparecia nomeada em sua agenda de investigação.


Neste ano de 2021, que marca os 50 anos de falecimento do filósofo, talvez uma maneira de homenageá-lo seja proceder a um maior esclarecimento dos densos conteúdos desta “bela palavra” a que ele se referia. Sustento a hipótese de que o encontro de Lukács com a ontologia, perspectiva com uma longa história na filosofia, marcou ao mesmo tempo a atribuição de um significado autoral forte, lukácsiano, sobre a abordagem dita clássica da categoria. Com efeito, para o bem ou para o mal, não existe algo como um cartório onde esteja registrado o significado autorizado de uma determinada categoria: cada autor proeminente finda por modificar mais ou menos extensamente o legado recebido da tradição. Se é verdade que Lukács era avesso a um relativismo filosófico equalizador, ele também tinha clareza sobre o embate de significados em torno desta antiga área de investigação filosófica.


Mesmo quando se trata de eleger um exemplo de âmbito bem mais delimitado, acrescento, como os estudos sobre o poema de Parmênides, filósofo pré-socrático, as divergências de interpretações são imensas. É bem conhecido o fato de Parmênides não usar a categoria ontologia em seu poema. E nem poderia: esta última foi criada apenas no século XVII, passando a ser utilizada retroativamente para designar aquelas concepções que abordavam o ser (tido inicialmente como distinto do aparecer, e também do devir). Pois bem, este “poema em busca de um sujeito”, na bela expressão de Pierre Aubenque [3], um de seus mais renomados especialistas, continua recebendo até hoje interpretações mais díspares por parte de seus estudiosos.


Não surpreende então que quando expandimos o perímetro da investigação sobre o que é uma ontologia, e passamos a debater não apenas o poema de Parmênides, mas o sentido que se deve atribuir contemporaneamente a esta categoria, as divergências de posições aumentam exponencialmente. E Lukács não foge a esta regra: também ele atribui um sentido peculiar à sua própria ontologia. Talvez seja em sua polêmica com o positivismo lógico onde fica mais nítido seu entendimento do que seja uma ontologia. Protestando contra a redução drástica da atividade filosófica propugnada por R. Carnap e seus seguidores, Lukács reivindica a importância de uma imagem do mundo (Weltbild), que consiga articular em si as contribuições de diferentes saberes:


Entre eles [os resultados alcançados pelo neopositivismo] está em primeiro lugar a negação de princípio que da totalidade das ciências, das suas inter-relações, da recíproca complementação dos seus respectivos resultados, da generalização filosófica dos métodos e aquisições científicas possa surgir um espelhamento coerente da realidade em si, uma imagem do mundo [4].

A tradução desta imagem do mundo como sendo a ontologia propriamente dita virá logo a seguir, quando Lukács reclama da pretensão do neopositivismo em “criar um meio filosófico que expele do campo do conhecimento toda imagem do mundo, toda ontologia…” [5]. Vemos então que ontologia, na pena de Lukács, é um espelhamento abrangente do mundo em que vivemos, que só pode ser obtido por uma atividade conjunta da filosofia com as diferentes ciências: o filósofo não endossa a existência de uma linha divisória entre os saberes. Adotando uma perspectiva de totalidade, sua ontologia busca sintetizar aquilo que o estágio mais avançado do conhecimento humano conseguiu produzir e, ao mesmo tempo, fornece as necessárias balizas através das quais as pesquisas particulares e especializadas – cada vez mais indispensáveis – ganharão maior produtividade.


Assim, quando Copérnico sustentou, contra uma tradição milenar, que a Terra não é o centro do sistema solar, quando Darwin demonstrou que a espécie humana não foi criada por Deus (sendo o resultado de um longuíssimo processo de evolução das espécies), ou quando Marx evidenciou a luta de classes como realidade histórica incontornável, todas estas foram tomadas de posição ontológicas, que modificaram imensamente a imagem do mundo até então existente. O impacto destas concepções foi tão forte que elas conseguiram em alguns casos penetrar no senso comum – notoriamente conservador – de várias sociedades, passando a fazer parte de um acervo de conhecimento que não se limita apenas aos setores especializados da ciência e da filosofia [6].


A proposta de Lukács recusa portanto a partilha dos objetos do conhecimento que vigora já secularmente no ambiente universitário: sua ontologia tem uma visada para a totalidade da vida social que, por sua vez, deita raízes no intercâmbio orgânico da humanidade com a natureza. A rigor, a preocupação lukácsiana com uma perspectiva de totalidade é bem anterior ao seu contato com a ontologia como área da filosofia, podendo ser localizada como traço forte já em História e consciência de classe. De todo modo, numa entrevista a Franco Ferrarotti em 1970, ao responder a questão que lhe é apresentada acerca de sua posição frente à sociologia como disciplina especializada, Lukács realiza um movimento duplo. Por um lado, reconhece o valor de contribuições específicas advindas da pesquisa sociológica, mencionando seus antigos estudos com M. Weber. Por outro lado, Lukács sustenta uma crítica de fundo à suposição de que exista uma independência da sociologia como campo do saber: “pode realmente haver uma sociologia como ciência autônoma”? (Ferrarotti, 1975, p. 10) [7].


Levando em conta que uma categoria se define também através das demarcações com outras que lhe são correlatas, examinemos agora o contraste entre a ontologia imanente de Lukács e o pensamento religioso, posto que este último é tradicionalmente produtor das ontologias que circulam em amplos setores da população. Tomando o cristianismo como exemplo, não resta dúvida que o livro do Gênesis apresenta uma explícita teoria do ser, que afirma a existência de um Deus que criou o mundo, o primeiro homem e a primeira mulher, reservando o sétimo dia para o seu descanso. Tal ontologia religiosa opera de modo antropomórfico, ou seja, projeta categorias próprias da experiência humana – como o trabalho – mesmo sobre fenômenos independentes dela. Comentando a estrutura subjacente ao Gênesis, Lukács afirma que:


Na história da criação fornecida pelo Antigo Testamento esse modelo [do trabalho] é tão presente que Deus não só revisa continuamente o que fez – como o sujeito humano do trabalho –, mas além disso, concluído o trabalho, se concede um repouso, exatamente como o homem. (Lukács, vol. II*, p. 25) 

Marcante também na ontologia religiosa é a sua estrutura bimundana: ela afirma a existência de um outro mundo, distinto do nosso, que fornece o parâmetro adequado para que se visualize o que se passa entre nós [8]. Impossível não mencionar aqui o enlaçamento histórico entre pensamento religioso e a perspectiva metafísica, pois também esta última recorre a um parâmetro externo e transcendente para fundamentar suas afirmações. Num diálogo clássico de Platão, o Fedro, o lugar inteligível – único capaz de fornecer a verdadeira compreensão do real – se situa “para além dos céus”, restando ao mundo sensorial ser o lugar de aparências e equivocações.


Distanciando-se de tais perspectivas, Lukács escreve repetidas vezes: “Ein ungegenständliches Wesen ist ein Unwesen”. “Um ser não objetivo é um não-ser”, citação de Marx endereçada criticamente a Hegel, que sintetiza exemplarmente sua ruptura com a metafísica hegeliana. Pois enquanto o mestre do idealismo enfatizava o Espírito (Geist) como causa fundamental, a posição materialista reconduz o debate para o mundo real: a objetividade é uma propriedade primária de todos os entes.


Um segundo contraste que especifica a ontologia lukácsiana é sua diferença em face de uma gnosiologia, ou teoria do conhecimento. É próprio desta última investigar a presença do sujeito do conhecimento na constituição da ciência e da filosofia. Não resta dúvida que tal investigação é um antídoto indispensável contra a crença ingênua de que o conhecimento fornece uma mimese fotográfica do real, postura que marca ainda hoje as aproximações empiristas da realidade. Ocorre que ao longo dos séculos XX e XXI amplos setores intelectuais procederam a um inchaço de tal ordem da subjetividade que findaram por afirmar que nenhum conhecimento objetivo é possível: teríamos apenas uma pluralidade de perspectivas particulares, refratárias a qualquer critério de verdade (critério nomeado não só como ultrapassado como também “autoritário”).


Em contrapartida, a abordagem ontológica se põe deliberadamente como tarefa alcançar a melhor visada possível do objeto, da efetividade histórica conflitual. É claro que esta efetividade atravessa os diferentes sujeitos, gerando uma complexa dialética entre categorias objetivas e subjetivas que é particularmente relevante para uma ontologia social. Aliás, uma das maiores especificidades desta última é que precisamente o seu objeto vem a ser uma configuração histórica formada por sujeitos humanos capazes de realizar posições que modificam a eles mesmos e ao seu meio. Assim, enquanto a abordagem gnosiológica deve “torcer sobre si mesma a direção da consciência”, já a ontologia busca, ao contrário, endereçar-se ao ser social, para apreendê-lo em suas marcas distintivas. Na límpida formulação de N. Hartmann (autor com quem Lukács estabelece uma interlocução), é característica da perspectiva ontológica “o endereçar-se ao que vem de encontro, acontece e se apresenta ao sujeito ou, em resumo, a direção para o mundo no qual o sujeito vive e do qual é parte. [9]


Se buscarmos na obra de Marx exemplos que confirmem a tese lukácsiana da importância de uma rede categorial que capture o movimento da própria realidade, os exemplos serão vários. Num momento decisivo da categorização do trabalho socialmente necessário – indiferente a qualquer conteúdo particular -, Marx escreve: “Ora, no interior do processo essa indiferença salta-nos à vista de maneira activa. Já não somos nós que a estabelecemos – é ela que se estabelece a si própria no processo de produção” (Marx, 1975, p. 48, grifos adicionados). Passagens como esta indicam o esforço de Marx em aceder àquelas categorias que, para além da subjetividade do pesquisador (sem dúvida incontornável), capturem o melhor contorno possível dos complexos objetuais sob análise.


Reiteramos: esta ênfase no registro de um ser processual que ultrapassa a subjetividade humana em nada se relaciona com qualquer tipo de empirismo ou de interdição da importância do agir humano. Bem ao contrário: é apenas a correta visualização deste último que permite de fato potencializá-lo. Prova disso é o extenso capítulo da Ontologia de Lukács que se intitula precisamente “O trabalho”. É ali que, a partir das indicações fornecidas por Marx, Lukács demonstra o gigantesco impacto que a objetivação do trabalho humano exerce sobre o mundo real e sobre a própria subjetividade humana. Através dele, surgem relações e momentos categoriais novos no ser material, que não podem ser derivados diretamente da natureza: agora, “uma posição teleológica se realiza no âmbito do ser material como surgimento de uma nova objetividade”. (Lukács, 1976, vol. II*, p. 19)


Esta é a razão que leva Lukács a predicar como social a ontologia por ele proposta. Tal ocorre pelo filósofo entender que, mesmo fundado sobre a natureza, o mundo social humano adquire características próprias, que não se deixam esgotar pela sua fundação primeira. Diferentemente do que supõe a sociobiologia contemporânea (que Lukács não chegou a conhecer), a transposição de categorias de análise de outras espécies animais para a espécie humana é um procedimento marcado pelo reducionismo teórico. O que a sociobiologia desconsidera são os processos de complexificação e emergência de novas relações no âmbito do ser social: a sociedade se funda sobre a natureza, sim, mas transforma em profundidade as determinações naturais sobre as quais se erige. No nosso século XXI, a pandemia do coronavírus é uma demonstração eloquente desta íntima fusão entre determinações naturais e sociais.


Por fim, é preciso lembrar que na história da filosofia existiram aqueles que entenderam que afirmar uma ontologia era também sucumbir a uma “imersão enlouquecedora e despersonalizante no Ser”. Mas este é um risco bem alheio ao projeto de Lukács. Os capítulos finais de sua Ontologia defendem a importância de dedicar-se a uma causa, condição para se superar a alienação capitalista. Se fechar-se sobre si mesmo é um projeto eticamente indefensável, a causa que Lukács defende, conforme é sabido, é a da fundação de uma sociedade socialista, condição para a expansão das potencialidades humanas recalcadas pela lógica mercantil. O desenvolvimento das forças produtivas e a formação de classes sociais contestadoras são pressupostos bem conhecidos para tal projeto; além deles, porém, é preciso dispor de uma perspectiva (Perspektive) de ação. Poderíamos supor que Lukács designasse tal perspectiva com o nome de esperança, tal como é feito tradicionalmente por vários autores. Mas isso não ocorre: aqui, uma inesperada marca de Baruch de Espinosa intervém na obra tardia de Lukács [10]. Pois o fato é que o filósofo holandês – contra toda uma tradição anterior – havia definido a esperança, sempre expectante de um porvir para o qual afinal se exime de agir, como uma “paixão triste”. Já o engajamento com uma causa desvenda tendências existentes na própria história e promove uma atividade real para levá-las à sua prossecução. Assim, o olhar lukácsiano sobre a sociedade burguesa é matizado: aponta com clareza para suas gritantes contradições, mas consegue também capturar as tendências emancipatórias geradas no seu interior. Contra os derrotistas de plantão, mas também contra os eternos voluntaristas de esquerda, Lukács nos lembra que “está dada socialmente a perspectiva de um processo de libertação ainda longo e cheio de contradições e retrocessos. Não vê-la em absoluto significa estar cego, assim como esperar realizá-la imediatamente com alguns happenings é estar iludido” [11].



*Maurício Vieira Martins é professor do ICHF da Universidade Federal Fluminense. Doutorou-se em Filosofia com a tese Por uma ontologia imanente: a contribuição de G. Lukács



Notas


[1] Lukács, 2014, p. 31.

[2] A rigor, os biógrafos de Lukács costumam datar do início da década de 60 o interesse mais explícito do filósofo por uma ontologia social.

[3] Conferir especialmente Aubenque, 1987.

[4] Lukács, 1976, vol.I, p. 31.

[5] Idem, ibidem, p. 34.

[6] Mas esta absorção de enunciados científicos por parte de segmentos do senso comum não é de forma alguma definitiva ou a-histórica. No Brasil de J. Bolsonaro, defensores do criacionismo bíblico são indicados para cargos relevantes nas áreas de Educação e Ciência.

[7] A título de contraste, mencione-se a posição do sociólogo P. Bourdieu, sempre preocupado em proclamar a irredutibilidade da sociologia frente aos demais saberes para, ato contínuo, sustentar sua superioridade. Em seu livro Questões de sociologia, é a ciência política quem torna-se objeto de seu desprezo. (Bourdieu, 1983, pp. 16-29)

[8] Por questões de espaço, não será possível desenvolver aqui a importantíssima questão, recorrentemente frisada por Lukács, das funções práticas também desempenhadas pela ontologia religiosa, relativas à orientação da atividade humana em sociedade.

[9] Apud Lukács, 1976, vol. I, p. 117, grifo adicionado.

[10] Lukács, 1976, vol. II**, p. 718.

[11] Idem, ibidem, p.725.



Referências


Aubenque, Pierre (direction) – Études sur Parménide (2 vols). Paris: J. Vrin, 1987.


Bourdieu, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco zero, 1983.


Ferrarotti, Franco Colloquio con Lukács: la ricerca sociológica e il marxismo. Milano: Franco Angeli, 1975.


Lukács, Georg. Conversando com Lukács (Entrevista a Léo Kofler, Wolfgang Abendroth e Hans Heinz Holz). São Paulo: Instituto Lukács, 2014.


Lukács, György. Per l’ontologia dell’essere sociale, 2 vols. Roma: Editori Riuniti, 1976.


Marx, Karl. Capítulo inédito d’O capital: resultados do processo de produção imediato. Porto: Escorpião, 1975

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