Ludmila Abílio e a uberização antes do Uber

Fenômeno não se inicia com a corporação estadunidense. Revendedoras Natura/Avon já amargavam distopia capitalista de trabalho sob demanda e “gestão corporativa” da precarização. Plataforma só inovou no despotismo algorítmico

Por Redação Outras Palavras

Texto originalmente publicado no site Outras Palavras

O trabalho informal é central ao desenvolvimento capitalista – e a uberização representa uma tendência a uma nova fase de controle, gerenciamento e organização do trabalho de um exército de desocupados. Todos, portanto, passam a ser possíveis uberizáveis, analisa a pesquisadora do CESIT (Unicamp), LudFmila Abílio. Porém, ela aponta, é preciso ter em mente que o fenômeno que chamamos de uberização não se inicia com a Uber, corporação estadunidense fundada em 2009.


“A empresa apenas deu mais visibilidade a esse processo e a expressão uberização carrega uma fragilidade ao dar a impressão que isso acontece por conta das plataformas digitais”, lamenta-se ela.


Autora do premiado Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (Boitempo, 2014), Ludmila Abílio notou elementos centrais da uberização, associados ao trabalho “tipicamente feminino e socialmente invisível”, entre as revendedoras de produtos da Natura e Avon, como o autogerenciamento subordinado e a distopia capitalista do trabalho sob demanda (e sem direitos).


“Minha questão, quando fui fazer a pesquisa, era entender como uma empresa organiza um trabalho que não parece trabalho, encarregando mulheres da distribuição de uma das maiores corporações mundiais, que comprou inclusive a Avon Internacional. Como ela organiza o trabalho, sem a forma de trabalho, de uma multidão?”, questiona ela. “Depois, em 2012, passei a pesquisar o trabalho dos motoboys, com outras questões em mente, e acompanhei a entrada das empresas de aplicativo no setor e a reconfiguração do trabalho dessa categoria. O que vi ali eram características que já estavam postas no trabalho daquelas mulheres, mas que ganharam outra dimensão, se generalizando, pois as plataformas digitais catalisam e organizam racionalizadamente esse processo de generalização da informalização do trabalho. Além disso, há algo novo que é o gerenciamento algorítmico do trabalho, onde tudo é transformado em dados”.


Segundo ela, no Brasil desenha-se uma esteira de derrotas aos trabalhadores: carteira verde-amarela, contrarreformas, trabalhador ganhar por hora – e sempre por dentro do trabalho formal. “As regulações do trabalho, hoje, estão apontando e se desenhando para a consolidação de trabalhadores sob demanda; o Estado está legalizando e promovendo essa condição. Então, isso não está só pelo lado do trabalho informal, e, nesse sentido, olhar para a uberização é olhar para essa tendência, que está costurando o mundo do trabalho hoje. A CLT já foi transformada e já é outra coisa”, analisa ela.


Porém, acredita ela, a pandemia deixa evidente as condições aviltantes dos trabalhadores subordinados às empresas-aplicativo – e também as formas de organização e resistência. “Elas ainda estão sendo tecidas, se iniciando, mas não foi pouca coisa o que aconteceu em julho [de 2020], com o breque nos apps. Uma multidão de trabalhadores informais, sob demanda, estão se organizando. Um breque nessa forma de exploração. E foi uma novidade: uma multidão começa, horizontalmente, a se reconhecer, com diversas caras e a partir de focos de organização”.


Assista, no vídeo acima, a importante fala de Ludmila Abílio. Na quinta-feira, o professor livre-docente da USP, Ruy Braga, autor de importantes trabalhos sobre o precariado brasileiro, mostra as três faces do uberismo.


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