Guerra Fria Interamericana

Com documentos inéditos, livro revela como a ditadura militar brasileira ajudou a golpear a mais longeva democracia do continente em conluio com os EUA para instalar um regime sanguinário sem precedentes no Chile. Mas, enquanto o apoio de Washington se dava às claras, a intervenção brasileira acontecia no submundo

Por Andre Pagliarini*

Texto originalmente publicado no site Jacobin Brasil


Resenha do livro O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul de Roberto Simon (Companhia das Letras, 2021).


Em 2013, enquanto o Chile marcava quarenta anos do golpe que matou o ex-presidente socialista Salvador Allende, derrubou a exitosa coalizão de esquerda conhecida como Unidade Popular e enterrou a democracia de um país que até então se orgulhava de sua estabilidade política, uma campanha presidencial marcada pela memória da ditadura de Augusto Pinochet se desdobrava. Michelle Bachelet e Evelyn Matthei, duas filhas de generais da Força Aérea chilena que brincavam juntas quando meninas, protagonizam a disputa eleitoral. Como Bachelet explicou ao jornal The Guardian, “meu pai e o pai dela eram bons amigos, mas eram muito diferentes. Meu pai falava muito e ria muito. Eu sou como ele. Matthei é mais alemã. Ela é quieta”. Bachelet, que já havia exercido a presidência entre 2006-2010, primeira mulher a ocupar o cargo no Chile, disse também que “minha família realmente acreditava na justiça social e tinha a mente aberta. Isso era visto como estranho pelos militares da época. É por isso que temos visões completamente diferentes”.


O golpe mudou tudo. Alberto Bachelet, pai da Michelle, participou do governo de Allende. Por isso foi preso logo após a ascensão de Pinochet. Filiada ao Partido Socialista, Michelle Bachelet se colocava “do lado das vítimas, do lado dolorido,” afirmando querer “contribuir para a construção de um país mais democrático.” Matthei representava a Unión Demócrata Independiente, fundado em 1983 por Jaime Guzmán, um advogado que integrou o grupo paramilitar fascista Patria y Libertad antes de colaborar com o regime Pinochet na área jurídica e política (Guzmán foi assassinado em 1991 por integrantes do grupo marxista-leninista Frente Patriótico Manuel Rodríguez). Segundo a jornalista Rocio Montes, Fernando Matthei, pai da Evelyn, “provavelmente não poderia ter feito nada” para ajudar o ex-colega, “mas, mesmo assim, ele ainda tem que conviver com o fato de que não se esforçou mais para salvar seu amigo, que foi torturado apenas alguns metros abaixo de seu escritório”. Alberto Bachelet morreu na prisão aos 51 anos em março de 1974.


Para cobrir o aniversário do golpe que forneceu ingredientes tão azedos para a eleição de 2013, O Estado de S. Paulo enviou o então repórter de política internacional Roberto Simon para Santiago. Simon chegou na capital chilena querendo também puxar outro fio relevante: a participação de militares brasileiros na construção da ditadura de Pinochet. No acervo do Ministério das Relações Exteriores, Simon encontrou farto material. Ele lembra que “havia detalhes sobre a reação de Brasília à vitória da Unidade Popular; planos brasileiros de apoiar uma guerrilha e um golpe em solo chileno; ajuda na construção da ditadura Pinochet; e muito mais. Entrevistei ainda pessoas que haviam sido protagonistas dessa história”. Os vários artigos que Simon produziu chamaram a atenção da historiadora Heloisa M. Starling, coordenadora da coleção Arquivos da Repressão no Brasil publicada pela Companhia das Letras, que convidou o jornalista a escrever um livro. Oito anos depois, o livro chegou.


O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul é um marco na produção sobre o que a historiadora Tanya Harmer chamou de “Guerra Fria Interamericana,” um conflito impulsionado mais por atritos hemisféricos entre Cuba, Chile, Estados Unidos e Brasil, do que pelo antagonismo inveterado de Washington e Moscou. Através de sua pesquisa minuciosa em acervos no Chile, Brasil e Estados Unidos, Simon revela como “a ditadura brasileira ajudou a golpear a mais longeva democracia de seu entorno geográfico e, no lugar, instalar um regime cujas sanguinolência e crueldade praticamente não tinham precedentes na América do Sul moderna”. Mas a intervenção brasileira não foi como aquela organizada a partir de Washington pelo governo de Richard Nixon. Nixon e seu assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, mal disfarçavam a ânsia de derrubar Allende. Mas, como Simon mostra, “o hábitat natural da intervenção brasileira no Chile era o subterrâneo”.


Provas cabais


Historiadores sonham com a possibilidade de achar documentos inéditos para confirmar, complicar, ou refutar análises hegemônicas. Em 1977, a historiadora Jan Knippers Black escreveu “que a continuação da assistência dos Estados Unidos, seja bilateral ou canalizada por meio de agências supostamente multilaterais, fortalece os opressores imediatos do povo brasileiro”. Ao mesmo tempo, ela duvidava da possibilidade de um dia conseguir provas cabais de que o governo dos Estados Unidos agiu para desestabilizar o governo de João Goulart, derrubada pelo golpe civil-militar de 1964. Dois anos depois, em 1979, Phyllis R. Parker publicou Brazil and the Quiet Intervention, 1964, o primeiro livro a confirmar o envolvimento do governo norte-americano na derrubada de Goulart. Parker havia se deparado com documentos recentemente desclassificados na biblioteca presidencial de Lyndon B. Johnson que provavam a existência da Operação Brother Sam. Até então, o governo dos Estados Unidos havia negado as acusações de que sabiam ou estavam envolvidos no golpe.


Simon atinge um feito parecido com seu livro, que inclui inúmeras revelações sobre relações entre militares brasileiros e chilenos que muitos imaginavam existir, mas que não podiam provar. A lição principal é que, segundo o autor, “a imagem do Brasil-servente-fiel, automaticamente alinhado à superpotência capitalista, é um mito e, como tal, esconde muito mais do que revela. Ela relega a ditadura a um papel meramente subsidiário e desprovido de agência, oposto àquele encontrado ao longo da pesquisa para este livro”. De fato, o livro relata a miríade de esforços da ditadura brasileira contra a ordem democrática chilena.


Seis meses depois do golpe de 11 de setembro de 1973, à frente de uma junta militar, mas manobrando intensivamente para conseguir poder absoluto, Pinochet veio até Brasil festejar. A cerimônia no caso foi a posse do Ernesto Geisel, quarto general-presidente da ditadura instaurada no Brasil em 1964. Um legalista ao longo de sua carreira militar, Pinochet estreava no palco mundial como chefe de um regime calcado na violência. Já o Brasil foi o primeiro país a reconhecer o novo regime chileno. Ao prestigiar a posse de Geisel, Pinochet retribuía o afeto. “De certa forma”, Simon sustenta, “essa viagem de Pinochet havia se iniciado no ano de 1970, quando a eleição de Allende subitamente fez a ditadura brasileira ver o Chile como a maior ameaça regional ao seu projeto político”.


Vários atentados


O livro é organizado em três partes que descrevem vários atentados por agentes brasileiros contra a democracia no Chile ao longo dos anos. A primeira parte — “O Brasil contra Salvador Allende” — relata a recepção brasileira da eleição de Allende, uma eventualidade descartada pela embaixada em Santiago até meados de 1970. Subestimaram a potência eleitoral da Unidade Popular e, bem como analistas em Washington, não cogitaram a vitória do médico refinado que prometia uma “via chilena para o socialismo”.


No poder, Allende abriu as portas para exilados brasileiros, que já vinham buscando refúgio no país vizinho. “Conforme crescia a repressão no Brasil”, Simon escreve, “mais inchava a comunidade de dissidentes brasileiros no Chile — a tal ponto que, no final dos anos 1960, falava-se em 3 mil a 5 mil expatriados.” A embaixada brasileira em Santiago então abraçou a missão de evitar a “comunização” do país vizinho, ajudando na construção de “um sofisticado aparato de controle e espionagem dos ‘subversivos’ brasileiros no Chile. A ditadura vigiava de guerrilheiros a professores — todos eram inimigos”. Com a eleição de Allende, o Brasil assumiu uma posição de “aberta inimizade” contra o Chile, segundo Simon, sendo publicamente mais duro contra o velho aliado do que até Washington.


Visitando a Casa Branca em dezembro de 1971, Emílio Garrastazu Médici, terceiro presidente-general da ditadura brasileira, confirmou que “Allende será derrubado pelos mesmos motivos que João Goulart caiu no Brasil.”. Presidente Richard Nixon então perguntou se os militares chilenos davam conta de tamanha operação. Médici respondeu que sim, “e deixou claro que o Brasil estava trabalhando para esse fim [um golpe no Chile]”. Nixon então ressaltou a importância de “impedir novos Allendes e [Fidel] Castros e tentar, onde possível, reverter essas tendências”. O presidente dos Estados Unidos ofereceu dinheiro “ou outra ajuda discreta” para alcançar o objetivo de interesse mútuo.


Simon introduz novos detalhes sobre o papel que a ditadura brasileira reservava para si como potência hemisférica, incentivando golpistas chilenos e, depois, buscando guiar os esforços da Operação Condor, a parceria entre Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia que permitia a troca de informações e livre trânsito para perseguir, torturar e matar opositores no continente inteiro. Como disse Nixon a Médici, “havia muitas coisas que o Brasil como país sul-americano poderia fazer e os EUA não”.


A segunda e terceira parte — “O apoio ao golpe” —e“Do entusiasmo à cautela” — tratam da aproximação e do eventual distanciamento entre os regimes ditatoriais. Simon mostra que oficiais brasileiros treinaram agentes da Dirección de Inteligencia Nacional (DINA), a temida polícia secreta da ditadura que obteve recursos quase que ilimitados do Estado chileno baseado na ideia alucinante de que inimigos internos representavam uma ameaça existencial à sociedade. “No auge, a DINA tornou-se uma instituição enorme e difícil de controlar,” segundo Luz Arce, ex-militante do Partido Socialista presa depois do golpe que acabou se tornando uma agente da DINA (a alto patente da ditadura brasileira aprenderia a mesma lição sobre seu aparato repressivo durante a Abertura).


O mundo dá voltas. A pressão popular no Brasil e o colapso econômico forçaram os militares brasileiros a contemplarem uma saída discreta e impune da política. João Figueiredo, o último general-presidente, buscou balançar o relacionamento com Pinochet com a distensão negociada que marcou a transição democrática brasileira, processo ainda hoje incompleto em vários sentidos. Não deu certo. Ao se desassociar dos brutais desmandos autoritários da ditadura chilena, o governo brasileiro gerou tensões profundas com um regime que ajudou a criar. Como aponta Simon, “a normalidade entre Brasil e Chile requeria um fator adicional: governos democráticos, eleitos pelo povo, em ambos os países”. Demoraria anos para que tal reconciliação acontecesse.


Qual passado e qual futuro?


Aeleição de 2013 no Chile foi uma disputa entre duas visões do passado e do futuro. Perguntada por um jornalista se ela acha que a Força Aérea, e em particular o pai de Evelyn Matthei, poderia ter feito mais para ajudar seu pai, Alberto, Michelle Bachelet disse que o problema não se resumia à animosidades pessoais. “Se eles não nos tivessem visto como inimigos, provavelmente nunca teriam torturado e violado nossos direitos humanos como fizeram,” colocou a ex e futura presidente. “O problema era que a política de segurança nacional significava que as pessoas de esquerda eram vistas como inimigas, não adversárias… Eles poderiam ter feito mais [para ajudar]? Sim. Eles poderiam não tê-lo levado para a prisão, poderiam não tê-lo torturado. Mas mais do que isso, eu quero saber como evitamos repetir o que aconteceu no passado.”


Com 62% dos votos no segundo turno contra os 38% da Matthei, Bachelet ganhou relativamente fácil, o que não quer dizer que os golpistas e seus descendentes perderam de vez no Chile e muito menos na América Latina como um todo. Cinco anos depois, o maior país do continente elegeria um homem que enxerga o passado ditatorial não como uma excrescência abominável mas como um capítulo louvável da história nacional. Simon trata com sutileza qualquer comparação com o cenário atual. Mesmo assim, fica claro a constatação de que o momento sombrio que o Brasil vive hoje reflete uma relação mal resolvida com o passado.


A situação do Chile, onde a constituição legada pelo período ditatorial deve começar a ser reescrita ainda nesse ano, é talvez mais promissora do que a brasileira, mas ainda bastante incerta considerando os ventos soprando em diversas direções no hemisfério como um todo. O epigrafe do livro remete à tendência histórica dos danos passados raramente passarem de fato na América Latina, “como certos rios que se escondem dentro da terra para ressurgir um pouco mais longe, mostrando as mesmas águas a novas margens”. O futuro depende do passado que escolhemos ver.



*Andre Pagliarini foi professor assistente visitante de história moderna da América Latina na Brown University em 2018–19 e começará uma palestra no Dartmouth College neste outono. Atualmente, ele está preparando um livro sobre o nacionalismo brasileiro do século XX.

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