Gobineau e a fundação da teoria das raças

Trechos retirados do sétimo capítulo do livro “A Destruição da Razão” de György Lukács, traduzido por Bernard Herman Hess, Rainer Patriota e Ronaldo Vielmi Fortes, publicado pelo Instituto Lukács

Por György Lukács Texto originalmente publicado no site TraduAgindo

Os inícios da teoria das raças no século XVIII


O biologismo, quer na filosofia, quer na sociologia, sempre foi a base de tendências ideológicas reacionárias. Mas isso nada tem a ver com a biologia enquanto ciência; é antes o resultado das condições da luta de classes, que deram às tendências reacionárias conceitos e métodos pseudo biológicos como instrumento adequado de combate à concepção de progresso. Esse emprego de conceitos biológicos desfigurados e deformados ocorre na filosofia e na sociologia no decorrer da história, seja sob uma forma ingênua, seja refinada, a depender das circunstâncias. No entanto, podemos afirmar que a aplicação de analogias entre o mundo orgânico, de um lado, e o Estado e a sociedade, de outro, sempre encerrou a tendência – e não por acaso – a apresentar a estrutura da respectiva sociedade “conforme a natureza”; essa tendência já se verifica claramente, sob forma anedótica, na antiga fábula romana de Menênio Agrippa. Na luta reacionária contra a Revolução Francesa, a comparação como organismo obtém, já em Burke, uma nova nuance, na medida em que ele não se refere somente a uma situação estática, mas também ao desenvolvimento dinâmico, uma vez que considera como natural apenas o “crescimento orgânico”, portanto, a mudança por meio de reformas graduais e diminutas feitas com o consentimento da classe dominante, ao passo que toda reviravolta revolucionária adquire o caráter reprovável de “contrário à natureza”. E essa concepção se desenvolve e se difunde, especialmente, ao longo do desenvolvimento do romantismo reacionário alemão (Savigny, Escola Histórica do Direito etc.). Aqui é onde se engendra a oposição entre “crescimento orgânico” e “fazer mecânico”: trata-se da defesa dos privilégios feudais como resultantes de uma evolução contra a prática da Revolução Francesa, contra as ideologias burguesas que surgem em seu solo, e que são condenadas como abstratas, intelectualistas e mecânicas. Essa oposição a que nos referimos, e que adquire contornos de intensidade extraordinária pela primeira vez na Revolução Francesa, remonta a épocas anteriores.


A ideologia da nascente classe burguesa luta, de acordo com seus próprios interesses de classe, pela igualdade de todos os homens (isto é, pela sua equidade civil, jurídico-formal) e critica violentamente os privilégios feudais existentes, a desigualdade estamental feudal entre os cidadãos. E uma vez que, com o recrudescimento dessas lutas, a dominação da nobreza já havia sofrido um abalo político e econômico, no qual perdera as verdadeiras funções sociais que desempenhara durante a Idade Média, para adquirir um caráter cada vez mais parasitário, surge nela a demanda de fazer a defesa ideológica de seus privilégios.


É dessas lutas que brota a teoria das raças. Os ideólogos da nobreza defendem a desigualdade estamental entre os homens sob o pretexto de que esta consiste apenas na expressão jurídica de uma desigualdade natural que existe entre os tipos humanos, entre as raças, e que portanto trata-se de um “fato natural” que nenhuma instituição pode superar sem colocar em risco os mais altos valores da humanidade. Já no começo do século XVIII o conde de Boulainvilliers (1727) escreveu um livro em que procurava demonstrar que a nobreza francesa descendia da antiga raça dominante dos francos, ao passo que o resto da população descendia dos gauleses subjugados. Portanto, duas raças qualitativamente distintas se enfrentavam, e a superioridade dos francos só podia ser eliminada acabando-se com a própria civilização. Já os publicistas franceses haviam combatido apaixonadamente essa tese. Assim, em 1734, o historiador francês Dubos, para não citar outros, declarou que a conquista da França pelos francos não passava de uma lenda.


Essa polêmica adquire formas especialmente agudas na época da Revolução Francesa. O conde de Volney debocha, em As Ruínas, da pretensão da nobreza de se passar por uma raça escolhida e pura. Ironicamente, ele aponta o quão extensa é a parte da nobreza atual formada por novos ricos, por pessoas que já foram comerciantes, artesãos etc. a quem a monarquia vendeu por dinheiro seus títulos de nobreza, e que, em termos de “raça”, são puros plebeus. E um dos mais destacados ideólogos da burguesia francesa nos inícios da revolução, Sieyès, combate, por razões de princípio, a teoria que fundamenta o direito sobre a base da conquista. O terceiro estado, diz ele, “deve voltar ao ano que precedeu a conquista e, já que ele é hoje forte o bastante para não se deixar conquistar, sua resistência será, sem dúvida, mais eficaz. Por que não restituiria os Bosques da Francônia a todas essas famílias que mantêm a louca pretensão de serem descendentes da raça dos conquistadores e herdeiras de seus direitos?”.


Gobineau e a fundação da teoria das raças


Assim, a teoria das raças – em sua forma primeira e primordial – fora liquidada cientificamente já na época da Revolução Francesa. Porém, como as forças de classe que existiam por detrás dela não desapareceram com a revolução e a luta contra a democracia seguia seu curso e adotava formas constantemente novas, era natural que a teoria das raças ressurgisse sob novas formas. As mudanças sucessivas da teoria das raças são determinadas pelas lutas de classes, em parte pela maior ou menor influência que a reação feudal ou semifeudal obtém no desenvolvimento marcado por crises da democracia burguesa, e em parte pela demanda ideológica que a burguesia reacionária, convertida agora em antidemocrática, sente de apoiar-se politicamente nos resquícios da época feudal e de, com isso, apropriar-se de elementos de sua ideologia. Assim surgem, especialmente na Alemanha, as diferentes teorias “orgânicas” a que nos referíamos mais acima.


No entanto, durante a primeira metade do século XIX a teoria das raças não chega a exercer ideologicamente uma influência digna de menção. Seus representantes dessa época estão hoje completamente esquecidos, apenas os “eruditos” fascistas mantêm sua memória como um ancestral a ser cada vez mais citado; entre eles, figura, por exemplo, um professor de Magdeburgo chamado Karl Vollgraf, autor de uma obra sobre a teoria das raças que veio a público em 1855 e cujo nome hoje mal se faz notar nas mais importantes enciclopédias. A explicação disso reside em que, depois da derrota da Revolução de 1848, o desenvolvimento reacionário da Alemanha adotou formas que não geravam a demanda de justificar os privilégios da nobreza pelo prisma da teoria das raças. O compromisso bonapartista de Bismarck assegurou aos junkers prussianos seu predomínio político, dentro da Alemanha, em condições que favoreciam o desenvolvimento de um capitalismo que não demandava nenhuma democracia burguesa. Portanto, os junkers feudais não viam seus privilégios tão ameaçados a ponto de necessitarem recorrer, para sua defesa, ao argumento ideológico da superioridade racial.


Porém, quase no mesmo período em que se publicava o livro do citado professor de Magdeburgo vinha à luz uma obra destinada a colocar – pouco a pouco – a ideia da raça em primeiro plano e em escala mundial: A Desigualdade das Raças Humanas, do francês Gobineau. Também esse livro foi escrito e publicado num período reacionário, durante os anos de Napoleão III; mas as circunstâncias em que apareceu diferem consideravelmente do fenômeno paralelo existente na Alemanha: se aqui os junkers detinham as posições políticas de poder sem que ninguém as disputasse, de tal modo que o avanço do capitalismo na Alemanha não podia ocorrer sem se submeter a seus interesses, na França a reação do Segundo Império acarretou uma desilusão no círculo dos legitimistas-feudais que nos anos da crise revolucionária havia tornado possível a ascensão ao poder de Luís Napoleão, como parte integrante do “partido da ordem”. Entre eles, as melhores cabeças tiraram ao mesmo tempo alguns ensinamentos úteis da revolução acerca das contradições da democracia burguesa. Daí a possibilidade de um novo avanço por parte da ideologia da raça feudal, cujo representante mais influente seria justamente Gobineau. No entanto, na França, por essa mesma época, sua influência não fora grande. Em suas cartas a Tocqueville, ele se queixa que os franceses ignoraram seu livro e que este não havia alcançado influência efetiva a não ser nos Estados Unidos. Tocqueville, mesmo com a amizade pessoal de Gobineau, repudia as ideias de sua obra, e faz notar que aquela influência se deve, simplesmente, ao fato de que o livro vai ao encontro dos interesses dos escravocratas do Sul. Essa primeira grande influência da teoria moderna das raças possui, no entanto, um importante significado histórico-social. Por mais que seu autor partisse, pessoalmente, dos interesses e considerações de classe da nobreza feudal, vivia e apregoava suas ideias no seio de uma sociedade em que os desejos da nobreza de reconquistar suas velhas posições herdadas já havia se tornado uma utopia reacionária, de modo que o centro de suas preocupações era a luta defensiva da burguesia contra os avanços do proletariado (combates de junho de 1848). E os grandes plantadores do sul dos Estados Unidos não eram – apesar da forma escravista de seu modo de exploração – outra coisa que capitalistas, produtores de matéria-prima fundamental para a economia capitalista de então. O que quer dizer que, nas condições dos séculos XIX e XX, a teoria das raças só pode ser renovada eficazmente sempre e quando for convertida numa arma ideológica posta nas mãos da burguesia reacionária. Do mesmo modo, a teoria das raças, desde Gobineau até Rosenberg, teve de seguir a mesma trajetória de aburguesamento que, conforme temos visto, se configurou com o irracionalismo filosófico geral a partir de Schelling, passando por Schopenhauer, Nietzsche, etc.


Ponto de partida e tendência fundamental de Gobineau é a luta contra a democracia, contra a ideia “anticientífica” e “antinatural” da igualdade dos homens. É o que Tocqueville critica nele já desde a primeira leitura de sua obra, assinalando que, segundo Gobineau, todo o mal da história decorre da ideia de igualdade; seu livro – diz – é um livro reacionário, inspirado por um estado de espírito de cansaço da revolução. Além disso, seu efeito é fatalista, como o ópio administrado a um doente. E até observa – o que deixa Gobineau especialmente ofendido–que sua doutrina das raças é incompatível com o cristianismo e o catolicismo.


O famoso historiador Tocqueville, homem de ideias liberais moderadas, assinala corretamente nessas observações alguns dos traços da concepção política de mundo de Gobineau. Elas deixam claro que Gobineau não é senão uma figura de transição na história da teoria das raças. De um lado, ele empresta uma forma nova “adequada aos tempos”, isto é, semiburguesa, a velhas especulações reacionário-feudais sobre a desigualdade “natural” dos homens. Mas, de outro lado, não existe a possibilidade de levar até o fim essa modernização, esse aburguesamento da teoria das raças. Ele posa de naturalista e adota o gesto da “imparcialidade elevada” própria deste; mas, por trás disso, se nota a face contrarrevolucionária. Eis aqui algumas de suas palavras: “A seus olhos [quer dizer, aos olhos da ciência da natureza, G. L.], o rebelde não será outra coisa senão um homem daninho, impaciente, ambicioso. Timoleão, um assassino; Robespierre, um criminoso desalmado”.


Esse dualismo entre uma objetividade “científico-natural” adequada e um panfletismo reacionário-feudal atravessa toda a obra de Gobineau: trata-se de um reacionário militante e sua teoria das raças é uma teoria da luta contra a democracia. Por isso, para ele, o postulado da igualdade entre os homens é um sintoma de abastardamento, de impureza de sangue. Em “épocas normais” a desigualdade é aceita como uma evidência. “Tão logo corra sangue misturado nas veias da maioria dos cidadãos de um Estado, logo estes se sentem motivados, por força do número, a proclamar como uma verdade vigente para todos o que só é verdade para eles, a saber, que todos os homens são iguais”.


Mas Gobineau não tem capacidade para concretizar essa linha combativa, isto é, de mostrar aos partidários de sua doutrina objetivos de luta e, muito menos, métodos de combate. Limita-se a traçar a perspectiva fatalista do naufrágio inevitável da cultura como resultado da mistura de sangue. “A raça branca originária desapareceu da face da Terra…. A raça branca está representada agora somente por bastardos”. Ao fim desse processo de mistura de sangue, ocorre a “queda na nulidade…Os povos, desparecidos numa sombria letargia, como rebanhos humanos, viveram dali em diante paralisados em sua nulidade, como os búfalos ruminantes nos charcos…Não é a morte o que nos traz amargura, mas a certeza de que seremos alcançados pela desonra”.


Esse pessimismo fatalista é, sobretudo, o que distingue Gobineau de seus importantes continuadores, de Chamberlain e da dupla Hitler e Rosenberg. Nestes, a teoria das raças é, em medida crescente, órgão de uma demagogia reacionária combatente e ativista, demagogia que, além disso, também vai se sobrepondo cada vez mais às limitações feudais da reação para converter-se na ideologia obscurantista do capital monopolista reacionário. E, ao se dizer isso, não se deve esquecer que alguns elementos do pessimismo da teoria das raças de Gobineau se conservam também, de certa forma, em seus continuadores, por exemplo: a concepção de que a evolução constitui sempre uma piora da raça (a mistura das raças contém, necessariamente, segundo tal concepção, uma corrupção do tipo). O ativismo da teoria das raças posterior brota, portanto, da mesma raiz pessimista, antievolucionista de Gobineau; trata-se apenas que em substituição ao desespero fatalista surge um ativismo desesperadamente aventureiro. Essa inflexão coloca como base dois fatores, ainda ausentes em Gobineau: em primeiro lugar, a demagogia social de uma suposta rebeldia anticapitalista como fundamento da atividade (é certo que Gobineau sente também uma profunda antipatia contra a cultura puramente capitalista e sua ideologia, mas essa antipatia é, por seu conteúdo, um sentimento feudal e, do ponto de vista formal, estético-fatalista); em segundo lugar, em seus continuadores, notamos, paralelamente a essa inflexão, o repúdio da ideologia reacionária cristã-feudal, para fazer amplas concessões –igualmente demagógicas – à aversão cada vez mais acentuada de amplas massas pela religião. (Logo veremos como também nesse ponto, assim como em muitos outros, Chamberlain constitui a transição entre Gobineau e Rosenberg).


E essas diferenças não são puramente pessoais, mas historicamente condicionadas. A demagogia social moderna nasce no período imperialista. Suas primeiras formas – primordiais e passageiras – são o antissemitismo de Stöcker, na Alemanha (desde 1878), e o boulangerismo na França (1886-1889); desenvolve-se um pouco mais na propaganda antissemita social-cristã de Lueger na Áustria, que influenciou diretamente Hitler nos anos de sua juventude etc. Depois da Primeira Guerra imperialista, essa demagogia social não deixará de se colocar na ordem do dia. O movimento hitlerista será, simplesmente, sua variante mais desenvolvida, mais desprovida de escrúpulos e mais coroada de êxito.


No entanto, para que pudesse chegar a isso, era necessário um recrudescimento das contradições de classe muito maiores do que as que existiam no tempo de Gobineau. Antes de tudo, será preciso que as grandes massas se sintam muito mais profundamente afetadas pelas contradições da democracia burguesa, desenganadas dos caminhos assinalados pela democracia burguesa e pelo reformismo do movimento da classe trabalhadora etc. A demagogia social da teoria das raças, que é sua essência aristocrático-reacionária e antidemocrática, não aponta já diretamente para o passado feudal como o estado ideal que é preciso restaurar, mas antes se faz passar por uma doutrina que aponta os rumos do futuro. Sob Napoleão III, a oposição aristocrático-feudal ainda se mostrava abertamente feudal, com o rosto voltado para o passado. E as massas trabalhadoras, desenganadas com o regime bonapartista, refazendo-se da falta de perspectiva produzida pela derrota de 1848 e livrando-se da influência da demagogia dos dezembristas, foram se orientando cada vez mais para a esquerda, no rumo da recuperação da democracia e até da luta pelo socialismo. Essa situação é a que define os traços específicos da doutrina de Gobineau e, principalmente, de seu pessimismo fatalista. A negação radical de uma perspectiva de desenvolvimento democrático e o apego desesperado à desigualdade feudal, já definitivamente enterrada, só podiam trazer como consequência esse ímpeto fatalista típico de um mundo em vias de extinção.


A posição que Gobineau ocupa no desenvolvimento da teoria das raças é determinada, como vimos, pelos seguintes elementos: ele foi o primeiro que, depois de uma longa pausa, difundiu de novo a ideia da raça em amplos círculos da opinião pública, voltando a colocá-la em moda, pelo menos entre os intelectuais decadentes. E desenvolveu aquele método arbitrário que posteriormente, por meio de Chamberlain, se imporia em Hitler e em Rosenberg: a mistura de uma suposta exatidão científico-natural com uma mística exaltada, que, em meio a uma atmosfera de completa arbitrariedade, de uma rede de contradições não resolvidas e insolúveis, procurava fazer da velha teoria feudal das raças algo aceitável e palatável para o leitor moderno.


A velha teoria das raças não pode ser mais simples, e até se poderia afirmar que mal chega a ser uma teoria; ela parte do fato de que todo mundo sabe quem é aristocrata. Como o aristocrata pertence à raça pura e descende de uma raça superior (dos francos, por exemplo, em oposição aos celtas plebeus da Gália). A teoria das raças modernizada não pode mais sustentar, em vista do desenvolvimento da ciência, essas posições tão simples. Ela se vê obrigada a um recuo tático. Hoje, é um fato geralmente conhecido da ciência moderna que não há nem houve nunca (pelo menos nos tempos históricos) uma única raça pura. E hoje todo mundo sabe e reconhece que as características objetivas para a diferenciação das diversas raças existem num número extremamente limitado e que, além disso, esses critérios gerais falham totalmente quando se trata da determinação racial de um povo histórico, de uma nação, para não falar do próprio indivíduo.


Parece que, assim, a teoria das raças, como método de explicação da história, deveria ter sido liquidada. O “mérito” de Gobineau, quanto ao desenvolvimento dessa ideologia reacionária, consiste em haver encontrado os caminhos para a renovação da teoria das raças, caminhos que mais tarde culminarão em Hitler. No que se refere ao primeiro desses dois complexos, a teoria da pureza da raça, Gobineau constitui claramente uma figura de transição. Abraça – mesmo que empregue algumas frases falsas da ciência da natureza, extremamente abstratas – o caminho do mito histórico puramente intuitivo e irracionalista; ou seja, se dedica a fabular e a construir especulativamente, a partir da chamada base racial, uma nova história universal, para a qual, agindo de um modo totalmente ingênuo e seguindo a tradição aristocrático-feudal, aborda a questão das raças e da mistura das raças como se fosse algo perfeitamente evidente, que não requer nem esclarecimentos nem análise (Nessas tendências, converge com muitos outros sociólogos franceses de seu tempo, também pseudocientistas da natureza, que falam das raças, assim como Gobineau, como se o conteúdo e o alcance desse conceito estivessem já determinados pela ciência ou fossem, pelo menos, algo determinável, ainda que seja certo que em nenhum de seus contemporâneos a teoria das raças ocupe uma posição metodológica tão central e tão exclusiva como nele. Em Taine, em Renan etc. o conceito de raça, também confuso e desprovido de explicação científica, não passa de uma base explicativa dentre muitas outras).


Essa apoditicidade, pseudocientífica e ao mesmo tempo intuicionista de Gobineau constitui um elemento essencial de sua influência; por outro lado, também determinou suas próprias limitações. Os teóricos das raças conscientes e militantes do futuro, que prepararam o caminho para o fascismo, também consideravam um demérito essa ostensiva falta de cientificidade. Chamberlain, que se apoia muito em Gobineau sem confessá-lo, repudia categoricamente a obra desse autor, que acusa de não ter a menor ideia do que seja a ciência da natureza. Nas suas palavras: “Uma teoria da raça realmente útil e digna de ser levada a sério não pode ser construída com base nas fábulas de Sem, Cam, Jafé, nem sobre uma série de intuições, por mais engenhosas que sejam, misturadas a hipóteses absurdas, mas apenas sobre os conhecimentos extensos e profundos que as ciências naturais nos fornecem”.Nessa crítica também se deixa entrever uma oposição de caráter religioso, já que Gobineau, como católico ortodoxo e crente que era, se orgulhava de colocar sua construção histórica da teoria das raças em consonância com o Antigo Testamento, obra que Chamberlain recusa como uma criação judaica.


Gobineau, no entanto, se viu obrigado a se colocar a questão da pureza das raças. Segundo ele, a pureza da raça é um estado ideal que nunca chega a se realizar completamente. “Seria um equívoco –diz ele –se nos empenhássemos em sustentar que toda mistura é ruim. Caso os três grandes tipos fundamentais das raças tivessem se mantido totalmente separados, sem nunca terem chegado a misturar-se, não há dúvida de que teriam afirmado sua superioridade os ramos mais belos da raça branca e que o tipo racial negro e o amarelo teriam sucumbido para sempre sob as nações inferiores daquelas raças. Isso teria sido uma espécie de estado ideal, o que a história nunca nos mostrou. E só podemos formar uma ideia dele fixando-nos na superioridade indiscutível daqueles grupos de nossa raça que têm permanecido menos misturados…Em todo caso, é evidente que as raças humanas vivem desde tempos históricos em situação de mistura”.


A essa concessão necessária de Gobineau ao desenvolvimento científico de seu tempo, corresponde a mística histórica. Gobineau não sabe o que é a raça, não é capaz de determinar suas características distintivas, sabe que os povos que conhecemos da história são fruto de misturas raciais; porém, “sabe” quando, como e em que medida as misturas entre as raças são benéficas ou funestas. Não faria sentido deter-se aqui nas montagens históricas absurdas e sem nexo de Gobineau, nem que fosse para refutá-las. Daremos apenas um exemplo para ilustrar a falta de seriedade de seu método. Gobineau se arrisca a afirmar que o nascimento da arte é, em toda parte, uma consequência da mistura com a raça negra. Embora diga que a poesia épica é um dos méritos da família dos povos arianos, acrescenta em seguida: “também dentro desse ramo de povos vemos que o fogo e o brilho da épica só se desenvolvem plenamente nas nações que não permanecem isentas da contaminação com os negros”. E continua, para fundamentar sua tese: “O negro possui em grau muito alto aquelas capacidades sensíveis sem as quais a arte seria inconcebível. Mas, por outro lado, a carência de capacidades espirituais o incapacita para o refinamento das artes… Para que aqueles talentos possam dar frutos, tem de misturar-se com a raça capacitada de outro modo”.


Vemos, pois, como, segundo Gobineau, a mistura de raças, a união com raças inferiores (e os negros são para ele a mais ínfima de todas) resulta funesta para toda a cultura; para ele, é dessa mistura bastarda que brota a sabida perspectiva apocalíptica da extinção fatal do mundo. Porém, ao mesmo tempo e por outro lado, sustenta que um fator tão decisivo da cultura como a arte só pode nascer pela mistura da raça branca com a raça negra, quer dizer, com a mais inferior de todas. Por um lado, diz que os heróis racialmente puros de Homero ou das sagas escandinavas estão muito acima “das raças 100 vezes misturadas dos tempos atuais”. Por outro lado, entende que a Ilíada ou a Canção dos Nibelungos só poderão nascer daquela mistura com o sangue negro. E Gobineau sabe naturalmente, com exatidão, quando, como, onde e até que ponto uma mistura de raças pode produzir os frutos culturais mais elevados ou, pelo contrário, condenar uma cultura à destruição.


Acreditamos que este exemplo é suficiente para ilustrar as contradições crassas e arbitrariedades do método de Gobineau. Tanto mais porque, para não cair em contradição com o cristianismo, ele se vê obrigado a aceitar que toda a humanidade descende do mesmo tronco, ou melhor dizendo, aceita num momento, e em outros deixa indefinido, ou então opera com a trindade bíblica dos filhos de Noé, Sem, Cam e Jafé. Por outro lado, constrói toda a sua teoria com base na desigualdade essencial qualitativa fisiológica ou psicológica das raças, sem se preocupar em cair em contradições insolúveis com a premissa antes citada. Ao sustentar essa desigualdade de princípio – e já vimos como os escravocratas dos estados norte-americanos do sul o aclamaram entusiasmados – ele proclama por exemplo a incapacidade de princípio da população originária da Ásia Menor para a civilização: “não eram suscetíveis de serem civilizados, pois careciam da capacidade de visão necessária para isso… se contentavam em obrigar seus membros a realizar um trabalho útil como máquinas viventes”. Mas ao afirmar isso Gobineau se dá conta de que a Igreja Católica aspira a uma expansão universal, o que o obriga a reconhecer que todos os homens, pelo mero fato de sê-los, possuem a capacidade necessária para abraçar o cristianismo. Mas, segundo ele, disso não resulta nenhuma conclusão sobre a igualdade das raças: “no estudo desse problema deve-se, portanto, deixar completamente de lado o cristianismo”. Quer dizer que, por um lado, Gobineau sustenta que o cristianismo constitui o fenômeno mais alto da cultura e que todos os homens, qualquer que seja a raça a que pertençam, são capazes de participar dessa cultura superior, ao passo que, por outro lado e ao mesmo tempo, sustenta que as raças inferiores não são, por princípio, passíveis de abraçar a civilização, e só servem para trabalhar como escravos, como máquinas animadas, como bestas de carga a serviço das raças superiores.


Em pontos como esses Gobineau se mostra um pensador atrasado em comparação com os representantes modernos da teoria das raças e é, de fato, desautorizado por estes. E nessa oposição se destaca muito claramente o caráter de barbárie definitiva da teoria moderna das raças. Percebe-se como essa teoria converte todos os resultados do desenvolvimento do pensamento contemporâneo em instrumentos de um obscurantismo sem precedentes colocado a serviço dos fins imperialistas. Se nos séculos XVIII e XIX, a luta ideológica contra o cristianismo fora travada em nome do progresso e da liberdade, nas mãos dos representantes imperialistas da teoria das raças, a crítica da religião é apenas um instrumento a serviço da reação mais extrema. Os teóricos modernos da raça combatem precisamente o princípio que constitui o elemento histórico progressista do cristianismo: o reconhecimento –ainda que abstrato –da igualdade de todos os homens perante Deus. Gobineau, aos olhos desses teóricos, se mostra atrasado porque busca, nesse ponto, um compromisso (que Tocqueville, com razão, encarava como hipocrisia). Os representantes imperialistas posteriores da teoria das raças rompem completamente com o cristianismo.


Apesar desse atraso de Gobineau, a herança que ele deixa a seus sucessores é mais importante do que estes reconhecem. Antes de tudo, ele deixou o primeiro panfleto pseudocientífico realmente eficaz contra a democracia e contra a igualdade baseado na teoria das raças. O livro de Gobineau constitui o primeiro intento ambicioso de reconstruir toda a história universal com a ajuda da teoria das raças, reduzindo a simples problemas raciais todas as crises da história, todos os conflitos e diferenças sociais. O que equivale, em termos práticos, a sustentar que toda modificação da estrutura social é contrária à natureza, provoca a decadência da humanidade e, desse modo, não pode representar um progresso. Gobineau se expressa nos seguintes termos a propósito dessa situação ideal do ponto de partida: “Já vimos como toda ordem social se baseia em três classes originárias, cada uma delas representando uma variedade racial: a nobreza, imagem mais ou menos fiel da raça vencedora; a burguesia, constituída por miscigenados, próxima da raça principal; e o povo, que vive escravizado ou pelo menos em situação de opressão, pertencente a uma raça inferior surgida no Sul pela mistura com os negros e, no Norte, com os finlandeses”. Essa forma ideal que podemos contemplar nas castas indianas ou no feudalismo europeu foi realizada exclusivamente pelos arianos. Os semitas não se elevaram nunca ao mesmo nível. Também essa tendência de Gobineau, voltada exclusivamente para o passado, é rechaçada pela teoria das raças posterior; no entanto, sua suposta perspectiva de futuro não é outra coisa senão a renovação de velhas realidades bárbaras somada a todos os horrores do imperialismo. Os racistas posteriores, apesar de sua atitude de repúdio, que tem a ver com o desenvolvimento posterior das tendências reacionárias no período imperialista, permanecem em muitos aspectos no mesmo terreno que os fundadores da teoria moderna das raças.


No plano da fundamentação da “metodologia” da história da teoria das raças, Gobineau também cria algo destinado a manter-se no desenvolvimento posterior. Ao insistir na desigualdade de princípio dos homens, repudia necessariamente a concepção da humanidade e com ela desaparece uma das mais altas conquistas da ciência dos tempos modernos: a ideia do desenvolvimento dos homens como uma unidade e uma legalidade. Os ataques contra essa concepção ocorriam já de há muito. Mesmo assim, é sabido que o processo de desenvolvimento unitário da humanidade pode ser desfeito por outras vias que não a da teoria das raças (é o caso, por exemplo, da doutrina de Spengler). Mas o significado específico da teoria das raças na história do pensamento reacionário da época contemporânea reside no fato de que a negação da história mundial concentra todos os momentos essenciais do ataque à razão: ao negar a história da humanidade como um processo unitário, nega-se ao mesmo tempo a igualdade dos homens, o progresso e a razão. Para Gobineau só existe uma história da raça branca. E esse absurdo reacionário se manterá como patrimônio permanente da teoria das raças posterior. Escreve ele: “no mundo oriental a luta contínua das forças raciais se deu apenas entre o elemento Ariano, de um lado, e, de outro, o princípio negro e amarelo. E não é preciso dizer que ali onde as raças negras se limitam a combater-se umas às outras, ou onde as raças amarelas se moveram dentro de sua própria órbita, ou ainda onde lutam entre si as misturas raciais negras e amarelas, não há história possível. Essas lutas foram essencialmente estéreis, como as forças motrizes étnicas que provocaram. Nada criaram, nem deixaram a menor recordação… A história só surge no contato mútuo entre as raças brancas”.


Essa concepção da história resulta numa “teoria” muito peculiar da pré-história que perdura na teoria das raças. As diferenças nas fases da cultura não significam para as teorias das raças etapas de desenvolvimento percorridas sucessivamente pelo mesmo povo, pela mesma sociedade, mas, antes, cada uma dessas fases se equipara a determinadas raças e se entrelaça com elas de um modo perene, metafísico. Certas raças são sempre bárbaras, ao passo que outras não passaram jamais pela fase da selvageria ou da barbárie. Assim, para Gobineau, a passagem da Idade da Pedra para a Idade do Bronze significa simplesmente uma mudança de raça. E diz sobre a raça branca: “chama-nos a atenção sobre tudo o fato de que a raça branca não se mostre nunca naquelas situações primordiais, como as outras duas. Desde o primeiro dia (!) já a vemos relativamente cultivada e dotada dos elementos originários mais importantes para o desenvolvimento de uma condição de superioridade, a qual, mais tarde, iria se desenvolver em alguns de seus ramos e criar as diferentes formas da civilização”. Gobineau afirma que as raças brancas lutaram desde o primeiro momento contra seus inimigos com carros de combate e que conheciam desde o primeiro dia o trabalho artesanal com metais, madeira e couro. “As raças brancas originárias sabiam fazer roupas para vestir-se e viviam em grandes aldeias, adornadas com pirâmides, obeliscos e túmulos de terra ou pedra. Domavam cavalos… Suas riquezas consistiam em rebanhos abundantes de touros e vacas”. A Gobineau não ocorre, evidentemente, se perguntar uma só vez como semelhante cultura pôde nascer. E considera o mero fato de se fazer essa pergunta como sinal psicológico do bastardo. A essa descrição da raça branca podemos contrapor as observações a que mais acima nos referimos, em que Gobineau fala da incapacidade dos povos originários da Ásia Menor para a civilização.


Como se pode ver, a destruição da ciência da história já está muito avançada em Gobineau. Em sua concepção expressa-se, ao lado das tradições feudais, o orgulho racial do colonizador europeu frente à gente “de cor”, tida como “desprovida de história” e incivilizada. Fica claro que semelhante construção da história teria necessariamente que encontrar nos arianos, como mostramos, não só a culminação, mas também o fim da história. O pessimismo fatalista era inevitável para Gobineau. Algumas décadas mais tarde, isso lhe renderia uma grande popularidade junto à intelectualidade decadente e igualmente pessimista do fim de século. Porém, isso o tornaria dispensável quando o obscurantismo da teoria imperialista das raças se fizesse combativo e ativista, lançando-se em seu ataque final contra a cultura humana.

33 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo