Formas elementares da vida política: sobre o movimento totalitário no Brasil (2013- )

Comunidades, estamentos, fraternidades e massas são parte do jogo político. As formas elementares do poder que retornam à cena, longe dos controles modernos. Elas também recolocam a violência, entendida como uso da força armada, na condição de recurso político fundamental

Por Gabriel Feltran

Textos publicado originalmente pelo site Novos Estudos


O capitão Bolsonaro foi eleito com o propósito explícito de quebrar o sistema político realmente existente, chamado por ele de “velha política”. As tentativas de fazê-lo estão em seu projeto de governo, não são retóricas. A estratégia institucional seria a de refundar o Estado, tido como corrupto e ineficiente, para liberar o mercado das amarras da burocracia, da divisão de poderes e do funcionalismo público. Por detrás dessa direção institucional, no entanto, há um movimento moral com ação ideológica em bases bem consolidadas, que ainda é preciso compreender. O adjetivo mais preciso para qualificar esse movimento me parece ser “totalitário”, e ao final do texto espero que esteja claro o porquê. Mas o esforço aqui não é teórico-conceitual, é de análise sociológica.


Muitos colegas têm se dedicado a compreender o fenômeno Bolsonaro, de força inesperada. Ronaldo Almeida fez uma análise preciosa dos múltiplos tabuleiros sendo jogados ao mesmo tempo, na ascensão do capitão à Presidência. Federico Neiburg e Omar Thomaz coordenaram um dossiê que demonstra a força da etnografia para compreender as transformações políticas em curso. Marcos Nobre pensou a guerra de Bolsonaro contra a democracia a partir de diferentes conexões institucionais e internacionais. Piero Leirner trouxe ao debate a noção de Guerra Híbrida, depois de duas décadas estudando o mundo militar. Um conjunto influente de intelectuais usa hoje a palavra “fascismo” para pensar o governo Bolsonaro, e o compara ao movimento integralista brasileiro, que nunca foi governo. Cada um desses textos traz elementos decisivos para a compreensão do que vivemos.


Ainda me faz falta nesse debate, no entanto, uma perspectiva centrada no mundo popular hoje realmente existente. As mudanças em curso no sistema político não me parecem ser a causa, mas a consequência da erosão da promessa dupla (integração social e democracia) que chegaria ao nosso tecido social e nunca chegou muito, sabemos. Quem promete pode não se lembrar, mas quem ouviu a promessa não se esquece. As ações institucionais do governo Bolsonaro tampouco me parecem ser uma perspectiva definitiva para compreender o que se passa. Das margens compreende-se melhor esse novo centro, como é de praxe em muitas outras situações.


Nas etnografias recentes nas periferias, verifica-se que o movimento totalitário que impulsiona o Messias, nome muito utilizado nas suas redes de propaganda, coloca em ação uma outra promessa redentora: limpar a cidade dos bandidos e o Brasil dos corruptos, equacionando o conflito social brasileiro através da eliminação das diferenças. A ideia de limpeza é fundamental, com toda a carga simbólica que ela traz, para quem foi considerado sujo a vida toda. Há ainda emancipação no projeto. Quem se emancipa são os jagunços frente aos coronéis, como Antonio Prata descreveu de modo acurado. O povão assujeitado por jagunços e elites não é, nesse projeto, sujeito de nada. Ele deve assistir à mudança e ser redimido, ao final da guerra “revolucionária” hoje em andamento, mantendo-se confiante e calmo. O povo apenas teria a oportunidade de viver essa comunidade redimida, chamada de “pátria cristã” nessas redes, ponto de chegada das transformações em andamento. Há uma teologia, portanto, que orienta essa teleologia política.


Num universo social extremamente desigual, religioso e conflitivo como o Brasil, uma promessa assim redentora conforta os espíritos. Sobretudo os de baixo. Mas, especialmente, ela significa a luta dos jagunços como guerra justa. Porque os jagunços sabem como os coronéis pensam, e sabem que não há sequer pretensão de justiça em suas ações. Este texto caracteriza o caminho recente desse movimento moral, ao mesmo tempo que procura por suas raízes recentes. Elas estão fincadas empiricamente nas transformações das periferias urbanas e nos movimentos reacionários que surgem dali, muito mais do que no integralismo. Vestígios autoritários persistentes podem, sim, organizar alguns grupos de classe média, das elites. Mas elas embarcaram recentemente no movimento militarista policial e anti-intelectualista evangélico, não o contrário.


O movimento totalitário em curso não é, como por vezes se faz pensar, uma mobilização das elites contra os pobres. Nas frações mais estabelecidas do mundo popular urbano há muitos bolsonaristas e, mais que isso, muitos que estariam com outros governos de aspiração totalitária, caso Bolsonaro deixasse a liderança das massas. Frustradas suas expectativas de integração social e política plenas, próprias da migração e da promessa que construiu assalariamento urbano, policiais e pastores emergentes na política são fundamentais a esse movimento. A busca por integração persiste, agora ressentida e frustrada, porque eles já haviam tentado outras fórmulas.


Entre os anos 1980 e 1990, o conflito urbano brasileiro foi significado no mundo popular como luta de classes, sob a hegemonia dos partidos trabalhistas; entre os anos 1990 e 2000, a fração mais baixa dessas classes promoveu aquilo que chamamos de “expansão do mundo do crime” nas periferias urbanas. Na esteira da chegada dos mercados ilegais internacionais, essa expansão já demonstrava a crise daquela representação classista, em era pós-industrial. Mas foi na década que agora termina que a violência do conflito social, intensificado pela violência criminal, produziu suas sínteses mais evidentes no mundo público.


A mais bem-sucedida delas foi a ascensão política das formas elementares do exercício de poder, expressos na cruzada moral e guerreira, velho-testamentista, ora em curso no tecido social. Resultante de luta ativa de grupos religiosos e policiais travada nos cotidianos populares (igrejas, grupos de whatsapp de bairro, centros comunitários, delegacias e batalhões, com seus intelectuais orgânicos), esse quadro propiciou ocupação de posições de poder e de controle da violência legítima nos territórios; propiciou também significados novos para uma vida urbana sofrida, através da teologia pentecostal. A guerra original entre “trabalhadores” e “bandidos” produziu como síntese essa visão de mundo avessa às diferenças, na qual os “cidadãos de bem” viveriam em paz e os bandidos, corruptos e esquerdistas, agora umbilicalmente identificados ao mal, seriam extirpados do convívio social. Douglas Santos vem qualificando esse movimento como “a força do bem”.


Capilarizado no tecido social periférico há mais tempo, esse movimento passa a dividir redes de amigos e familiares, na medida em que galga posições e ataca os valores mais fundamentais não apenas da institucionalidade, mas da modernidade, a começar pela própria razão. Nestes dias de junho de 2020, enquanto escrevo estas linhas, morrem no Brasil cerca de 1.300 pessoas por dia por Covid-19, segundo os números oficiais; o capitão Bolsonaro não acredita em números, em infectologistas ou epidemiologistas, no entanto. Trocou dois ministros da saúde durante a pandemia e ordenou uma recontagem dos mortos; ordenou também que na bula da Cloroquina deveria constar sua capacidade de evitar os efeitos do coronavírus. Não importa que a ciência aponte noutra direção. A história, a natureza e a ciência devem seguir seus desejos, ou não existirão. O movimento toma muitas outras esferas, para além da esfera política.


Exemplos como esses são diários, como sabemos. O movimento que sustenta Bolsonaro busca um deslocamento central da narrativa moderna, que deveria ser substituída por formas muito elementares do exercício de poder. Em lugar da mediação dos partidos, o movimento de massas; em lugar da lei, a honra masculina; em vez da representação, a identidade; no lugar do pluralismo, a irmandade; no lugar da Constituição, o Evangelho e, por fim, no lugar da razão comunicativa, a violência crua.


Divido este ensaio em quatro partes pequenas, todas tentando responder à questão arendtiana: “como isso foi possível”? A primeira parte apresenta as linhas gerais do projeto de Bolsonaro, vislumbrando sua característica principal: a aversão à diferença. A segunda parte apresenta o espanto das elites e a surpresa dos setores intelectualizados com o fenômeno Bolsonaro, quando o conheceram. A terceira parte toma a perspectiva fundamentada nas etnografias que venho conduzindo nas últimas duas décadas, junto a colegas pesquisadores, nas periferias de São Paulo; descrevo o que seriam as matrizes discursivas do movimento de massas que impulsionou Bolsonaro, consolidadas desde 2013. A quarta e última parte pontua os elementos centrais da crise conjuntural que vivemos em 2020, e seus possíveis desdobramentos na esfera institucional.


Projeto e movimento


Refundar o sistema político, livrando-se da “velha política”, é também refundar a nação, que hoje estaria degenerada. A ideia de degeneração premente acirra a urgência das medidas excepcionais nos totalitarismos. A “revolução que estamos vivendo”, como disse Bolsonaro em jantar com Donald Trump, vai produzir um novo Brasil: um país no qual a família e a sociedade se livrem das ideologias de classe, de gênero e de raça, que nos dividem. Uma nova nação não terá mulheres se posicionando contra homens, negros contra brancos, patrões contra empregados. A ênfase é toda na nossa unidade. Um só Deus, uma só teologia: o cristianismo de matriz aberta, mas orientada pelo pentecostalismo; o senso de justiça é guerreiro, olho por olho. Não existem “povos indígenas” no Brasil, como lembrou o ministro da Educação ao presidente. Alguém sabe falar as mais de 300 línguas que os antropólogos dizem existir nessa terra? Um só povo, o brasileiro. Há só um idioma, o português, como há um só país, uma só nação, uma só terra, o Brasil. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.


Esse país sem diferenças já teria inclusive existido em algum lugar de nossa história autoritária. Mas uma guerra cultural foi produzida por bandidos (que a gente conhece de perto aqui nos bairros, somados aos corruptos lá de longe e sobretudo a esquerda, outras unidades homogêneas na visão desse movimento) e estava nos levando para uma revolução comunista. Nosso caminho natural de raça mestiça se viu ameaçado. Nosso futuro fora desviado; “nossa bandeira não é vermelha”, dizem os apoiadores de Bolsonaro, com patriotismo. O capitão-presidente concebe seu povo à sua imagem e semelhança. O povo são as pessoas honestas, como ele sempre diz ser. O projeto de Bolsonaro prevê apoiadores que operam como massas, não como classes ou grupos de interesse. Massas, exatamente como as descritas por Hannah Arendt durante os anos 1930 na Alemanha: instiladas por clichês morais e notícias falsas, autodeclaradas homogêneas e combatendo inimigos comuns, e sobretudo incapazes de pensamento, dada sua tendência incontrolável a reagir, superficial e coletivamente, frente a qualquer estímulo que lhes pareça contrário às suas certezas fúteis.


Esses movimentos incorporaram setores médios e mesmo elites às massas, no Brasil como na Alemanha dos anos 1930; mais do que isso, também têm tido acesso progressivo aos recursos de violência institucional: são as frações policiais e militares, mobilizadas ideologicamente no seio das igrejas, e agindo como grupos políticos autônomos nas esferas de disputa de poder, as lideranças concretas desses movimentos hoje, no Brasil. Afinal, para enfrentar os inimigos da revolução que está em curso, diz o presidente, é preciso estar armado. “Um povo armado jamais será escravizado”, repete Bolsonaro entre palavrões, durante uma reunião ministerial.


Os grupos ideológicos de extrema direita, rearticulados em escala internacional ao menos desde 2013, assumiram a direção programática de células dessas massas, frações delas, algumas armadas. Mas eles seguiriam irrelevantes em escala nacional se essas massas não tivessem as bases econômicas que têm, em primeiro lugar, nos mercados de proteção [1] e, em seguida, nos mercados religiosos. Mercados que se ramificam até chegar às associações de empresários conservadores e aos agentes do mercado financeiro, bem como ao mundo profissional liberal, que embarcaram no movimento bem mais tarde. Esse projeto de país, finalmente em curso com todos juntos, não devemos esquecer, é também um projeto de mobilidade econômica dos próprios atores.


Um país novo deve dar passos livres, a começar pelo livre empreendimento e pelo livre mercado, diz a retórica. Um país no qual apenas o mérito de cada um seria critério de sucesso ou fracasso; mas se não der certo, há armas na retaguarda. Antes de rumar nessa direção, diz o capitão, é preciso destruir o que está errado: benefícios estatais que estimulam a vagabundagem, ações afirmativas que promovem o racismo, universidades públicas que fazem doutrinação marxista, ambientalistas que impedem o desenvolvimento. É preciso retomar, no plano simbólico, os costumes e valores próprios de nosso povo, de nossa cultura, de nossas tradições, de nossa terra. Que esse governo seja apenas um ponto de inflexão, diz o presidente “humildemente”, às suas massas.


A surpresa e o equívoco


Intelectuais, artistas, empresários progressistas, analistas de esquerda e especialistas em política institucional consideravam, até o começo de 2018, que Bolsonaro e seus apoiadores eram uma piada. Vídeos de falas homofóbicas, racistas, ou de louvação dos heróis da ditadura militar circulavam como absurdo, como loucura, nos nossos círculos intelectualizados. Bolsonaro jamais se elegeria num país industrializado há quase um século, que alguns anos antes figurava como a oitava maior economia mundial, com classes médias urbanas consolidadas e formadoras de opinião, com mulheres há décadas no mercado de trabalho, com uma democracia institucional sólida desde 1985, e que passara recentemente por uma sensível diminuição da pobreza. Os pobres saberiam em quem votar, se não pudermos confiar nas elites.


Meses mais tarde, quando as pesquisas apontavam Jair Bolsonaro como possível vencedor das eleições presidenciais, esses mesmos analistas diziam que a rejeição de Bolsonaro seria muito alta no segundo turno, que não havia chance de vitória. Diziam ainda que as falas francamente totalitárias de Bolsonaro, de tão caricatas, eram retórica de uma campanha eleitoral polarizada; mas que ele já moderava seu discurso em alguns contextos, que ficaria progressivamente mais moderado durante o governo. A máquina do “presidencialismo de coalizão”, bem como a burocracia pública já consolidada em carreiras, forçaria essa figura grotesca a fazer acordos, a respeitar a Constituição Federal e o Superior Tribunal Federal. O Brasil teria um Ministério Público conservador, mas atuante. As pressões dos outros poderes, enfim, levariam o governo Bolsonaro mais ao centro do espectro político. “Checks and balances”, falavam, em inglês, os cientistas políticos.


Agentes do mercado financeiro embarcaram tardiamente na campanha de Bolsonaro, dada sua vitória iminente. O candidato lhes havia repetido que não sabia nada de economia, mas que tinha já definido seu ministro, seu homem forte, Paulo Guedes, ideólogo ultraliberal que preconizava privatizações totais. Esses mesmos agentes, por isso, também apostavam que o presidente seria controlável. O mercado internacional, a cotação do dólar, as reações da Bolsa de Valores, as pressões dos acordos internacionais já firmados, tudo isso controlaria Bolsonaro. Medidas econômicas irracionais estavam fora de questão, mesmo que o mercado pudesse sofrer com ataques verbais aos chineses e outras maluquices. As sanções econômicas resolveriam o problema. Bolsonaro atenderia ao mercado nacional e internacional e, afinal, o mercado se autorregula. Qualquer coisa, os militares estavam ao seu lado para orientá-lo. Seriam eles a garantia de algum Estado, sempre necessário a essa noção peculiar de autorregulação do mercado.


As elites brasileiras tradicionais, como esses analistas e agentes de mercado, também não levavam Bolsonaro a sério. Um animal, um chucro, seria útil nesse momento para afastar o Partido dos Trabalhadores, considerado uma organização criminosa, do governo federal. Diante do incômodo com a mobilidade social de parte dos pobres, e com a corrupção deslavada do período dos governos Lula e Dilma, ao qual se uniu o dos militares com a Comissão Nacional da Verdade, essas elites consideraram que Bolsonaro era “um mal necessário”. “O menos pior”. Votariam no Amoedo, mais civilizado, caso ele estivesse no segundo turno.


Outras elites, ainda menos responsáveis pelo país, como os advogados, médicos e engenheiros, deram de ombros. Bolsonaro representaria uma passagem de bastão. Já havia inclusive nomes mais adequados à transição futura: Sérgio Moro, o super-homem anticorrupção, era um ídolo entre eles. Para essas elites, o plano de retomada do Brasil apenas começava em 2018, com Bolsonaro, mas se completaria em 2022. A casa-grande falava como se soubesse o que estava fazendo, como se tudo estivesse sob controle. Só que se esqueceu de combinar com seus jagunços, os policiais e militares, os pentecostais empreendedores, já espraiando-se pelas massas há tempos via whatsapp, facebook, instagram, twitter…


O movimento de massas se tornou governo federal sem imprensa, sem partidos e sem mediação importante dessas mesmas elites, que estavam acostumadas a ser consultadas. A diversidade (e desigualdade) da composição interna desse movimento é obliterada pela ideologia de unidade. As três matrizes discursivas comuns: i) o militarismo das Forças Armadas e das polícias militares, que agem como seu braço armado e orientam as ações de seus jagunços; ii) o anti-intelectualismo evangélico, que há muito é majoritário nas periferias e mobiliza moralmente as massas em direção contrária à da racionalidade moderna, dos argumentos, e a orienta na direção do totalitarismo; iii) o empreendedorismo monetarista de parcelas do mundo popular que consideram que você é o que você tem, simplificando bastante a teoria dos capitais.


Grupos que puderam ascender socialmente nas últimas décadas, seja por mercados formais, informais ou ilegais; ou grupos que se sentem piorando de vida, tendo ocupado posições médias no corpo social desigual, são igualmente mobilizados. As elites patrimonialistas, conservadoras ou neoliberais, compuseram depois o que resta dessa coalizão ampla, conjuntural, que se estima ter 30% dos votos do país, mas que alcançou maioria absoluta nas últimas eleições.


Força centrípeta


O prisma das periferias urbanas, e sobretudo das etnografias urbanas, parece produtivo para verificar a formação dessas massas. Nos anos 1990, enquanto os jornais discutiam a “consolidação democrática” do Brasil, lá nessas periferias o rap cantava o “Holocausto urbano”. As taxas de homicídios eram crescentes, o “mundo do crime” se fortalecia com a chegada dos mercados transnacionais de cocaína, havia mais dinheiro do que nunca; a guerra entre o crime e com as polícias era muito letal. Guerra marcada por drogas, traições, cadeias de vendeta, sangue, tiros, corrupção policial. Nos anos 2000, a expansão das facções criminais foi notável, estabilizando esses ambientes de conflito especialmente em São Paulo, mas também em muitos outros estados. Muitos e muitos trabalhadores que antes “ajudavam” policiais – justiceiros, matadores, “pés-de-pato” – a controlar os bairros, agora podiam contar com as facções para colocar ordem nos territórios. A polícia parecia estar em baixa, deslegitimada, tida como violenta e corrupta. As igrejas pareciam estar muito longe da política, preocupadas apenas com o dinheiro fácil de fiéis envolvidos em redes proselitistas, amparadas por operações psicológicas comportamentais, que pensavam o conflito urbano como manifestação do diabo.


As periferias eram lidas como o atraso, como um lugar onde as ruínas do regime militar “ainda” existiam, aonde a democracia “ainda” não tinha chegado. Lugar, portanto, que seria transformado com a “extensão da cidadania” às classes populares. Falamos muito em direitos, em democracia participativa, nos anos 1990 e 2000, no Brasil. As periferias pobres seriam lugares a ser transformados pelas “políticas públicas”, vindas de um mundo estatal em transformação democratizante. Esferas públicas não estatais, orçamentos participativos, conselhos gestores tinham papéis formadores. Falávamos disso. O centro do regime político democrático se estenderia, conforme o tempo passasse e as instituições amadurecessem, às margens da vida institucional e pública. Haveria, portanto, uma força centrífuga de democratização do país.


Mais uma vez, faltou combinar com os jagunços. Desde aquele período, no cotidiano das periferias, as mães dos filhos assassinados pelas guerras do mundo do crime tiveram suporte das igrejas evangélicas, não das políticas públicas. Os trabalhadores e estudantes que voltavam para casa à noite também não contaram com políticas públicas de segurança. Contavam ora com a segurança dos traficantes locais, ora com policiais dos próprios bairros, que faziam bicos como segurança privada. Ou ainda com a dos que montavam suas próprias milícias, a depender do estado do país.


Se a guerra pelo lucro dos mercados ilegais opunha polícia e ladrão nas favelas e quebradas, como tese e antítese, as igrejas evangélicas de práticas disciplinares mais estritas se tornavam a síntese redentora. Nelas, policiais corruptos e bandidos arrependidos, ameaçados ou reformados poderiam aceitar Jesus e, convertidos, esquecer o passado de guerras. As igrejas pentecostais se apresentaram como aptas a refundar uma vida degenerada e torná-la uma nova vida, ritualizada a cada novo testemunho na igreja. Formas elementares. Os evangélicos eram 9% da população no Censo de 1991, atingiram 16% no Censo de 2000, 22% em 2010, e são mais de 30% dos brasileiros em 2020. Em mais quatro ou cinco anos, irão se tornar a maior religião do país, superando os católicos, e sendo também exportada para muitos países do mundo. Cada um dos fiéis paga à igreja 10% de seu salário. As elites achavam uma piada esse mundo evangélico, cheio de pastores fanáticos e gente ignorante, explorada, falando do diabo o tempo todo. Bolsonaro não achava, e se converteu ao pentecostalismo durante o rito de impeachment de Dilma Rousseff, ainda em 2016.


As polícias também não estavam satisfeitas com a forma como eram tratadas pelos governos e, sobretudo, pelo debate público. Se havia, sim, policiais corruptos, a maioria deles era formada por homens trabalhadores, de origem pobre, honrados, que arriscavam a vida em uma guerra contra o crime, mas que não eram valorizados. Internamente aos governos, desde os anos 2000 as polícias passaram a se organizar politicamente e foram muito bem-sucedidas. O orçamento da segurança pública nos estados cresceu muito nas duas últimas décadas. No estado mais rico do país, São Paulo, a área de Segurança Pública (somando Secretarias de Segurança, Administração Penitenciária e Fundação Casa) tem mais recursos do que a Educação. Secretarias de Segurança municipais também foram criadas, foram armadas, e as polícias militares ganharam equipamentos modernos, novas viaturas e muito poder de fogo.


A contratação de policiais cresceu enormemente, e muitos ex-policiais, aposentados na casa dos 40 ou 50 anos de idade, investiram em mercados de proteção privada. Ao menos dez anos antes da eleição de Jair Bolsonaro, já era nítida a presença de policiais ideologizados ocupando – para destruí-los – conselhos locais de Direitos Humanos, de direitos de crianças e adolescentes, de diversidade e políticas da diferença, bem como cargos no segundo escalão de governos. Suas ideologias nacionalistas, negacionistas e autoritárias no plano local não foram muito notadas, até 2018, por quem fazia a “construção democrática” brasileira desde os escritórios de partidos políticos de Brasília.


Jair Bolsonaro, que, ao longo de sua carreira política, iniciada ainda nos anos 1980, sempre defendeu a bravura e grandeza dos policiais brasileiros, e homenageou com medalhas de honra os policiais que integravam milícias e matavam ilegalmente, unificou as bases policiais e evangélicas à sua candidatura, desde sua conversão ao pentecostalismo. Tendo recebido também o apoio de militares antipetistas, que consideraram uma afronta à instituição a criação da Comissão Nacional da Verdade por Dilma Rousseff, em 2012, Bolsonaro estruturou sua rede de apoiadores mais fiéis, mais institucionalizados, mais ricos e mais armados. Durante os anos de 2017 e 2018, rodou o país já em campanha, conversando com muitos outros setores conservadores, aproximando-se de Steve Bannon e da direita internacional, sobretudo das redes norte-americanas, apoiadoras de Donald Trump.


Visões mais realistas da política brasileira, calcadas em pesquisas de campo, portanto, não se surpreenderam tanto com a ascensão de Jair Bolsonaro. O pouco de nossa surpresa se deve mais ao nosso elitismo, estrutural, do que ao que víamos em pesquisa. Sobretudo porque sabíamos há anos que o capitão representa setores policiais, militares e evangélicos politicamente ativos há ao menos uma década, com legitimidade construída ao longo do tempo, em um projeto de trabalho de base e de ideário de nação que pode sobreviver, facilmente, mesmo sem ele. Mais, sabemos que esses grupos já tinham bases materiais relevantes e que podiam sustentar esse projeto revolucionário, ora em curso, com ou sem Bolsonaro. Quando setores dos mercados financeiro, do agronegócio, das elites religiosas e rurais se associaram a essa força centrípeta, possivelmente sem se darem conta do que faziam, já devíamos ter muito claro o que aconteceria.


Ao menos desde os protestos massivos de junho de 2013, os setores dominantes nas periferias já se sentiam muito mais representados por esses movimentos totalitários do que pelos antigos sindicatos, partidos e movimentos de esquerda, que não apareciam tanto pelas favelas, raras exceções, desde 2003. A figura do capitão Jair Bolsonaro ressuscitava a força política desses setores policiais e militares, muitos deles convertidos ao mundo evangélico, que também se candidatavam havia anos para o legislativo municipal e estadual. Se eles até então ocupavam segundo e terceiro escalões de prefeituras, subprefeituras, governos estaduais e legislativo, agora ganhavam um programa ideológico mais explícito, com capacidade de unificação.


Bolsonaro ressuscitou ainda o papel político da maçonaria, dos círculos masculinos de pequenos agentes de mercado e os coronéis locais, sem falar dos pequenos e médios proprietários arrivistas e ultraconservadores religiosos. O “pai de família”, a essa altura, já não via com bons olhos o que vinha acontecendo no Brasil: ações afirmativas, políticas de igualdade de gênero e raça, mudança significativa no emprego doméstico. Mas estava ainda sem representação explícita, em escala nacional. Esses homens sabiam que Bolsonaro não era apenas um homem branco e conservador, mas um símbolo do poder que eles queriam ter. Estava planejada a reação. O movimento de massas agora em curso é reacionário, sem dúvida, a essas mudanças que tiravam poder desse homem branco; mas é também uma reação de jagunços institucionalizados contra outros homens brancos ricos. É por isso que Doria não controla as polícias de São Paulo, em insurreição justamente contra o tipo de elite que um almofadinha representa.


A aliança entre um deputado sem grandes pretensões como Bolsonaro, há 26 anos no Congresso homenageando torturadores, e essas massas armadas controlando recursos nada desprezíveis, é o que veio a público desde então. Parecia loucura as coisas que eles diziam, parecia nonsense. Mas não era. Inflamados por esses grupos ideológicos, muitos milhões de brasileiros sentiram que o “mito” Bolsonaro, sem mediação de partidos ou instituições, era a forma de fazer com que “suas” vozes viessem a público. Ele gravava vídeos diretamente às massas, que os replicavam. Dispensava a mediação da imprensa. Com estratégias de comunicação bem definidas, organizaram-se as linhas de fala das associações da “nova direita”, amplificadas pela capilaridade de igrejas e quartéis, mas também da “família brasileira”.


Recém-chegados ao debate político receberam milhares de mensagens em seus celulares, com uma única ideia, dita de muitas maneiras: o nosso mundo está se degenerando em corrupção e violência por causa da esquerda, mas nós, unidos, cidadãos de bem, podemos vencê-los. Vamos retomar esse Brasil para Cristo, para Deus, colocar ordem nessa terra e salvar a nossa pátria. Unidos. Milhões e milhões de trabalhadores manuais, donas de casa e informais, aposentados e até profissionais liberais que nunca haviam se interessado por política, foram assim convidados para compor um movimento moral, virtuoso, de limpeza do país. Frações das elites proprietárias, pouco educadas e pouco alfabetizadas politicamente, também se juntaram a eles conforme crescia a publicidade de seus discursos. Famílias e grupos de amigos antigos se cindiram, porque a política passou a ser assunto, literalmente, do conjunto da população.


Vencedores ou perdedores em sua vida, geralmente contida nos universos familiares, religiosos, no máximo comunitários, esses homens e mulheres do povo agora seriam, finalmente, bem-vindos para opinar sobre a vida política do país. Eles gostaram dessa nova posição, munidos de seus celulares. O “mito” dizia para os políticos o que eles queriam dizer. Que o certo seria explodir o Congresso, matar 30 mil pessoas, defender o trabalhador e não os “direitos humanos de bandidos”. Que o ensino religioso deveria voltar à escola, que um país se constrói com ordem, que a honestidade é o principal valor na política.


Era difícil para esses novatos, confrontados com grupos estabelecidos na cena política, ganhar as discussões nos argumentos. Faltava-lhes repertório argumentativo e ferramentas de interpretação do jogo político. Esses outsiders, então, optaram por professar valores. Passaram a ser combatidos por “gente radical, que não tem respeito por nossas opiniões, mas se acha democrática”. Os mesmos esquerdistas que, nas escolas – eles ficam sabendo pelo Facebook –, ensinavam as crianças a ser gays. Por isso, está claro, há tantos “homossexuais” andando pelas ruas livremente hoje, e tantas pessoas falando em aborto. Mas isso vai contra a natureza e a vida, diz-se no Whatsapp da igreja, na porta das creches, nas reuniões de família, nas novelas da Rede Record. Bom mesmo era antigamente, não havia isso de preto contra branco. Todo mundo era igual. “Um absurdo o que estamos vivendo hoje em dia.” O absurdo representado por eles inverte o sinal.


Não é preciso mestrado ou doutorado, é preciso “ter as manha”. Para além das palavras bonitas, de quem pôde estudar, deve haver humildade porque todos somos iguais; é preciso falar com a verdade do coração, não com essas que se aprendem para humilhar os outros. Também a igualdade tem sinal invertido, agora. Amor, temor a Deus, boa intenção, ajudar o próximo, são coisas muito mais importantes do que bons argumentos. Sem argumentos, portanto, mas lidando em plataformas de relacionamento social que produzem polarização em escala global, espraiou-se a ideia de que as universidades seriam grandes plantações de maconha; que os jantares no Judiciário e no Legislativo eram regados a lagosta e champanhe francesa, que Bolsonaro iria acabar com aquela farra.


Os vídeos que vinham da igreja também mostravam estudantes dando tapa na cara de professores, nas escolas do PT, e estudantes disciplinados e ordeiros nas escolas militares. As postagens que vinham dos policiais, que organizavam informalmente a segurança dos bairros, diziam que as famílias de presos ganhavam pensões e salários, enquanto as famílias de trabalhadores não eram indenizadas nem mesmo quando assaltadas. Haveria uma inversão de valores muito clara em jogo.


“Meio radical, às vezes”, diziam os eleitores de Bolsonaro. “Mas a vontade que ele tem de mudar o Brasil” compensaria o risco. Não era mais possível seguir com o PT, ficou claro. “Vamos dar essa oportunidade para ele.” O movimento de massas ganhou um programa político e foi coadjuvante nas eleições presidenciais de 2014, vencida pelo PT por margem muito pequena. Reforçou-se, nas postagens desse movimento, a circulação do trabalho de Olavo de Carvalho, que preconizava ação rápida, antes que o comunismo se implementasse de vez no Brasil. O movimento tornou-se um ator relevante nas eleições municipais de 2016, quando a extrema direita já recebeu votação muito melhor. Foi na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, entretanto, que a candidatura de Jair Bolsonaro se construiu como alternativa, e novidade, àquela cena política corrompida e degenerada, polarizada entre PT e PSDB no cenário nacional havia tantos anos.


Era preciso romper com isso. Fundadas na teologia cristã, nos valores da família e da comunidade, mas sobretudo na guerra à degeneração social que seria representada por comunistas e pelo “marxismo cultural”, essas massas abriram espaço até para terraplanistas e criacionistas. Ressentido com a desqualificação constante promovida pelos grupos mais estabelecidos, o movimento se fortaleceu e aquilo que parecia impossível começou a ser observado no cotidiano: policiais, antes considerados, nas periferias, cruéis e corruptos, passaram a ser vistos orando e oferecendo serviços gratuitos para colocar ordem nos bairros. Pastores, antes considerados charlatães que só exploravam os pobres, passaram a ser olhados como pessoas respeitáveis, que ascendiam social e politicamente. Trabalhadores informais, que antes queriam “carteira assinada” (formalização), agora diziam explicitamente que não queriam patrão. A luta de classes também foi incorporada, em sinal invertido. Agora eles queriam ser “empreendedores” (informais).


A crise em 2020


As elites proprietárias se juntaram às massas bolsonaristas apenas em 2018. Reconhecendo o capitão como baixo, vulgar, mas com muito apelo popular, essas elites julgaram poder utilizá-lo, controlá-lo, no bojo de seu próprio projeto conservador. Profissionais liberais, empresários ascendentes e elites financeiras aderiram à campanha presidencial apenas quando seu candidato natural, Geraldo Alckmin, demonstrou-se inviável pelas pesquisas. Ainda assim, essas elites – mesmo juntando-se a latifundiários – imaginavam que a baixeza violenta de Bolsonaro seria útil para controlar as massas, na direção do projeto conservador que elas sempre defenderam. O combate bolsonarista aos partidos e governos de esquerda era-lhes útil, como já havia sido demonstrado dois anos antes.


O impeachment em 2016 havia sido apoiado por bolsonaristas; a liderança, contudo, coube a uma aliança de partidos conservadores e liberais (PMDB e PSDB). Mas o movimento totalitário que sustenta Bolsonaro destrói essas certezas: travado simultaneamente nos planos da cultura, da violência, da política e da economia, tem até aqui engolfado tudo o que se junta a ele. Vindo das elites das periferias, o fortalecimento das bases do bolsonarismo não apenas ocupou o centro do espectro político, como parece hoje escapar ao controle de elites e coronéis. Grandes fazendeiros, grandes proprietários e banqueiros têm ainda a esperança de que o ministro da Economia, que prometeu entregar-lhes todo o espólio da pilhagem do Estado nacional – as privatizações –, cumpra sua promessa.


Bolsonaro parece cada vez mais defender-se entre suas massas, no entanto. Eis a ideia de uma força centrípeta. Das margens do processo político, de onde prosperou a promessa de integração dos trabalhadores, depois frustrada, emergem as consequências inesperadas da pretensa democratização social. Passados 18 meses desde a ascensão de Bolsonaro, sua popularidade caiu e há muitos eleitores decepcionados com suas medidas impopulares, bem como com sua ignorância, agressividade e incapacidade explícitas. O movimento de massas que o sustenta, entretanto, manteve-se fiel e hoje representa 30% da população. Com os recursos à violência, e o acesso direto aos fundos públicos de uma economia do tamanho da brasileira, não é fácil detê-lo.


Em plena pandemia, há manifestações pró e contra Bolsonaro nas ruas das capitais do Brasil, e há massas mobilizadas. Nas ruas, movimentos antifascistas, com jovens vestidos de preto, prontos para o confronto, carregam faixas a favor da democracia, recebem bombas de gás, balas de borracha, e são presos pelas polícias militares. Movimentos vestidos de verde-amarelo, gritando frases racistas, carregando tacos de beisebol e pedindo o fechamento tanto do Congresso Nacional como do Supremo Tribunal Federal, recebem proteção dos mesmos policiais. Nas redes, famílias e redes de amigos seguem divididos.


O destino político de Jair Bolsonaro ainda é incerto. É certo, porém, que, com ou sem ele, teremos que lidar com uma parcela significativa da população organizada como massa, e muito mobilizada politicamente, pedindo um programa totalitário que as represente. Teremos também que lidar com polícias autônomas politicamente e com um projeto de pátria cristã. Nos próximos meses, Bolsonaro pode seguir liderando essas massas ou, no caso de um impeachment, ser substituído por um governo militar eleito. Motivos não faltariam. Mas o impeachment não traria de volta ao poder as mesmas elites tradicionais. Por isso, parte delas, lideradas pelo PSDB, aposta numa cassação da chapa eleita em 2018. Seria a chance de uma retomada da disputa institucional direita versus “esquerda”, há anos inoperante na política nacional.


A tentativa dessas elites não é simples. A grande imprensa nacional, que também já embarcou na luta contra Bolsonaro, não parece estar de acordo com outro golpe parlamentar. A esquerda organizada em torno de partidos políticos desapareceu: uma palavra mágica de Lula segue sendo esperada, mas o líder parece preocupado apenas com as próximas eleições, sem compreender minimamente o que se passa. Setores populares estão confusos, divididos. Muitos dos trabalhadores que votaram em Lula por décadas, pela mesma capacidade de comunicação direta, hoje votam em Jair Bolsonaro. De um lado, o racismo, o sexismo e as medidas explicitamente pró-patrão, como a Reforma da Previdência e a autorização do corte de salários, decepcionam parte das massas que viam em Bolsonaro uma luta “contra o sistema”. De outro lado, sua postura anti-imprensa e anti-intelectual, seus palavrões e sua defesa da própria família, acima de qualquer princípio público, são características lidas como mostras de autenticidade e de desejo de ruptura com o elitismo dominante.


O que mais importa hoje, ao que parece, é conceber a política como exercício posto em marcha em outros termos, deslocado do plano moderno que a organizou nas últimas décadas. A institucionalidade estatal hoje é apenas uma das esferas – e um dos regimes de poder – em que se produz a política contemporânea. Comunidades, estamentos, fraternidades e massas são parte do jogo político. As formas elementares do poder que retornam à cena, longe dos controles modernos. Elas também recolocam a violência, entendida como uso da força armada, na condição de recurso político fundamental.



*Gabriel Feltran é professor do departamento de sociologia da UFSCar e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap. É autor de Irmãos: uma história do PCC (Companhia das Letras, 2018) e The Entangled City: Crime as Urban Fabric (Manchester University Press, 2020).


Notas


[1] Mercados de proteção oferecem segurança à operação de outros mercados, legais e ilegais. Com a autonomia política das polícias, abundam tanto os recursos públicos e privados ligados à segurança de mercados legais quanto as extorsões dos mercados ilegais, para policiais, que então se organizam politicamente de modo autônomo.

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