Fascismo: a face (não mais) oculta do capital

O fascismo é a face medonha de um sistema que já não se sustenta como forma de convívio social.

Por Valdete Souto Severo


O horror que alguns de nós sentimos ao ver pessoas amontoadas em pleno domingo, em frente ao palácio do planalto, sem proteção ou distanciamento, emulando Jair Bolsonaro como um ídolo, pode fazer com que pensemos que estamos diante de algo totalmente novo. Não se trata disso. Em realidade, estamos apenas vivendo consequências produzidas pelo modelo de sociedade que temos, em sua versão mais atual e cruel.


O sistema do capital produz a espécie de fascismo que hoje ocupa o poder, como produziu no Século XX Hitler, Mussolini e seus adoradores, parte deles posteriormente arrependidos, porque sabiam haver viabilizado, com seu fanatismo distópico, toda a estrutura estatal dos campos de concentração que eliminaram cerca de seis milhões de pessoas. O que hoje vivemos no Brasil não se confunde com a experiência nazi-fascista, nem tampouco com a ditadura civil-midiático-militar que, igualmente apoiada por “homens de bem”, sustentou a máquina estatal que torturou e matou cerca de 20 mil pessoas. Mas tem semelhanças que não podem ser ignoradas.


É resultado de uma cultura colonialista e patriarcal, pela qual as mesmas famílias revezam-se no poder. Uma cultura racista que marginaliza e desqualifica quem vive do trabalho. Uma cultura misógina que ignora o trabalho de reprodução social e incentiva a violência de gênero.


O caminho para chegarmos até aqui foi pavimentado pela lógica que naturaliza a escravização, a produção de equipamentos tecnológicos com trabalho infantil, a destruição ambiental. Por programas estilo Big Brother, em que pessoas vendem sua intimidade, seus sentimentos e seus corpos, em troca de fama e dinheiro. Pela minimização da indecência de tragédias anunciadas e propositadamente não evitadas como aquela que vitimou 259 famílias em Brumadinho ano passado [1]. Pela naturalização do horror da fome que atinge 820 milhões de pessoas no mundo [2] e mata, em média, 15 pessoas por dia no Brasil [3].


Trata-se, portanto, do resultado do aguçamento das características objetivas desse sistema. Quanto mais segrega, quanto mais exalta a aparência em detrimento da essência; quanto mais exige consumo; quanto mais explora pessoas e recursos naturais, quanto mais naturaliza o fato de que seres humanos vivam em condições de absoluta indigência, mais condições cria para um ambiente de autoritarismo fascista, cuja principal característica é justamente o discurso do ódio em que o diferente deve ser eliminado.


É exatamente essa naturalização da perversidade de um sistema em que poucos se beneficiam do sofrimento da maioria, que torna possível a eleição de um discurso representado em falas como: “eu jamais estupraria você, porque você não merece” [4]; “pela memória do Coronel Carlos Alberto Almirante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff” [5]; “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”6; “brasileiro tem que ser estudado, ele não pega nada, você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele” [7].


No dia 28 de abril, quando atingimos o número de 5.000 mortos por COVID-19, o presidente falou ““E daí? Lamento, quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre” [8]. Até o dia 18 de maio já chorávamos mais de 16.000 mortos e contávamos com mais de 241.000 pessoas infectadas [9].


Tamanho descaso com vidas humanas só é assimilado como algo tolerável, porque já estamos há tempo demais sob uma forma de convívio social que neutraliza nossa capacidade de alteridade.


Se hoje uma parte minoritária, mas assustadora, da população brasileira reconhece como ídolo um sujeito para quem corpos empilhados não importam, alguém capaz de se divertir andando de jet sky, enquanto mais de 16.000 famílias choram seus mortos, enterrados sem a possibilidade do luto compartilhado, é porque criamos, como sociedade, condições para a barbárie.


É porque aceitamos conviver com a miséria, com a superexploração e com a destruição de pessoas e da natureza, como se fosse possível sustentar essa lógica por muito tempo.


Nosso modelo de sociedade deixa à margem das possibilidades de vida minimamente digna um número de pessoas que em 2019 atingiu seu recorde: quase 13 milhões de desempregados; 4,7 milhões de desalentados, 31,1 milhões de pessoas sem acesso à água encanada; 74,2 milhões de pessoas (37% da população) vivendo em áreas sem coleta de esgoto e 5,8 milhões sem banheiro em casa [10].


A lógica fascista está presente também na forma como empilhamos pessoas em nossas prisões, triplicando a população carcerária na última década, e tem como máxima expressão a ideia absolutamente perversa de que é possível utilizar containers como depósitos de gente [11].


A grande lição do nosso tempo, portanto, não é compreender como alguém pensa e diz frases tão radicalmente perversas. A questão é como a sociedade brasileira tolera e endossa esse discurso, não apenas através do voto depositado por mais de 57 milhões de pessoas nas urnas em 2018, mas também pela incapacidade de dar um basta em uma situação que, sob qualquer perspectiva de humanidade, é insuportável.


Precisamos, portanto, compreender que esse modelo de sociedade que nos coloca em situação de competição constante e utiliza nossos corpos e mentes para a produção de valor através do trabalho, mas nega a fruição de seu resultado, precisa ser superado.


Não há mais espaço para medidas de conciliação ou para o disfarce representado especialmente por nossas instituições republicanas, que supostamente deveriam servir para conter essas características do sistema, impedindo a desumanização intolerável das relações sociais, mas que, por razões óbvias, não dão conta dessa tarefa. As conquistas obtidas ao longo do Século XX, capazes de criar tensão e limites à miséria e à exclusão social, estão sendo facilmente neutralizadas.


A realidade é que não há, hoje, um Estado capaz de proteger direitos fundamentais, porque sua estrutura de funcionamento e aqueles que ali atuam foram adestrados, disciplinados em seus corpos e mentes, para - diante da crise de esgotamento desse modelo de organização social - assumir a defesa despudorada do capital. E, como a lógica capitalista é fascista, isso significa destruir a legislação social ou aplicá-la de modo a esvaziar seu conteúdo, significa utilizar a máquina estatal para segregar, torturar e matar a população negra e pobre.


Essa percepção de que gestamos e alimentamos o fascismo, com nossa inércia e passividade diante de um modelo social absolutamente insustentável, pode parecer desesperadora, mas não deve ser assim compreendida. Em realidade, ela nos habilita a pensar alternativas, antes que seja tarde demais.


A crise de humanidade aprofundada pelo surgimento de uma nova doença letal é a oportunidade que temos de evitar o que poderá significar o fim da raça humana na terra. No Brasil, ainda mais concretamente, o que nos está sendo demonstrado através do aprofundamento de uma lógica fascista, mesmo diante da radicalidade da pandemia, é que insistir no sistema do capital significará, em breve, o fim de qualquer possibilidade de construção de uma sociedade em que seja possível viver.


Reconhecer que o fascismo é produto do capital nos impõe reconhecer, portanto, que não é mais possível contemporizar, conciliar ou simplesmente seguir em negação.


A COVID-19 abrevia o tempo que talvez ainda teríamos para flertar com nossos limites. É a preservação da vida, portanto, que se impõe diante de formulações que há muito buscam justificar o injustificável.


E a luta pela vida hoje significa, de modo imediato, instituir renda básica universal, taxar grandes fortunas, reconhecer o direito à proteção contra a despedida, não permitir a realização de horas extras, fixar um salário mínimo que atenda o custo da cesta básica (de R$ 4.673,06 em abril deste ano [12]); desencarcerar. Revogar a EC 95 e investir no SUS e nas universidades públicas. Determinar o redirecionamento de nossas indústrias para produção de equipamentos necessários ao enfrentamento não apenas da COVID-19, mas de todas as doenças que são potencializadas, ainda que de modo indireto, pela pandemia, e dos hospitais privados para atendimento público. Construir moradias populares, com rede de esgoto e água encanada.


Essas medidas, indispensáveis para que continuemos vivos, precisam ser adotadas na perspectiva do enfrentamento urgente do desamparo em que se encontra a maioria das brasileiras e brasileiros.


Em nosso horizonte, porém, deve estar a construção de uma sociedade radicalmente diversa, em que haja divisão igualitária da riqueza, da terra e da comida. Uma sociedade em que a produção seja orientada para o consumo sustentável e a natureza seja respeitada. Algo que pode e deve ser construído na materialidade concreta das relações sociais e que se impõe como uma condição de futuro pra nós.


NOTAS


[1] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/26/veja-quem-sao-as-vitimas-da-tragedia-em-brumadinho.ghtml, acesso em 18/5/2020.


[2] https://news.un.org/pt/story/2019/07/1680101, acesso em 16/5/2020.


[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/em-media-15-pessoas-morrem-de-desnutricao-por-dia-no-brasil.shtml, acesso em 16/5/2020.


[4] https://www.youtube.com/watch?v=RAuUtFRguxQ, acesso em 17/5/2020.


[5] https://www.youtube.com/watch?v=xiAZn7bUC8A, acesso em 17/5/2020.


[6] https://www.youtube.com/watch?v=p0eMLhCcbyQ, acesso em 17/5/2020.


[7] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/26/brasileiro-pula-em-esgoto-e-nao-acontece-nada-diz-bolsonaro-em-alusao-a-infeccao-pelo-coronavirus.ghtml, acesso em 17/5/2020.


[8] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/30/veja-frases-de-bolsonaro-durante-a-pandemia-do-novo-coronavirus.ghtml, acesso em 17/5/2020.


[9] https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-15/evolucao-dos-casos-de-coronavirus-no-brasil.html, acesso em 18/5/2020.


[10] https://economia.ig.com.br/2020-03-28/desafios-brasil-tem-313-milhoes-de-pessoas-sem-agua-encanada-e-casas-lotadas.html, acesso em 14/5/2020.


[11] http://depen.gov.br/DEPEN/noticias-1/noticias/nota-a-imprensa-1, acesso em 18/5/2020.


[12] https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html, acesso em 17/5/2020.

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