EUA fecham consulado da China em novo round da guerra fria

A provocação de conflitos com “inimigos externos”, reais ou imaginários, inclusive guerras, tem sido reincidentemente feita por presidentes candidatos à reeleição nos EUA, no sentido de estimular o sentimento nacionalista em seu favor

Por Jorge Almeida*


Os Estados Unidos fecharam o consulado da China em Houston, Texas - alegando que dois indivíduos não identificados foram vistos queimando papeis numa caixa no pátio do prédio do consulado e práticas de espionagem por diplomatas - “para proteger a propriedade intelectual americana” [1]. Além da embaixada, a República Popular da China (RPC) China tem cinco consulados nos EUA.


É a continuação de uma escalada de conflitos entre os Estados Unidos e a China, fortemente presentes desde o início do governo Trump.


Na terça-feira, o Departamento de Justiça dos EUA já tinha acusado a China de estar patrocinando hackers para invadir laboratórios estadunidenses de pesquisa de vacinas da Covid-19. Dois cidadãos chineses foram acusados de espionagem e de ter obtido ajuda de funcionários dos Estados Unidos para crimes.


A China também foi acusada pelo porta voz do departamento de interferir nas questões internas dos Estados Unidos, promovendo violações à sua soberania, agindo contra o povo estadunidense e praticando “deslealdade comercial” e “roubo de empregos”.


O Departamento de Estado também acusou a RPC de promover operações ilegais massivas, coagir líderes empresariais americanos e ameaçar famílias sino-americanas nos EUA.


A China contra-ataca


A resposta chinesa veio num release publicado pela agência oficial da RPC, Xinhua, que inicia dizendo que a “China condena veementemente o pedido irracional dos EUA para fechar seu Consulado Geral em Houston” e acrescenta que o Ministério das Relações Exteriores disse que, se “não houver uma revisão da decisão, haverá contramedidas” [2].


O diário oficial do Partido Comunista da China, People Daily, disse que a atitude do governo dos EUA é um upgrade “que aumenta as tensões entre a China e os EUA para um nível sem precedentes” [3]. A partir do release oficial, esse foi o tom geral que repercutiu nos sites dos principais jornais chineses.


Segundo o China Daily, o fechamento do consulado foi considerado pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da RPC, Wang Wenbin, como uma “provocação unilateral” contra a China, uma “violação das leis internacionais e dos acordos consulares bilaterais” e uma “sabotagem deliberada das relações sino-americanas”, agravada pelo curto prazo dado para o fechamento do consulado, de apenas 72 horas [4].


Os chineses negam qualquer interferência nos negócios internos dos EUA e afirmam que têm obedecido a convenção de Viena sobre relações diplomáticas e consulares e têm facilitado as funções do pessoal diplomático dos EUA, enquanto a embaixada dos EUA em Pequim tem publicado artigos atacando a China e a embaixada do país no território adversário recebeu recentemente ameaças de bombas e de morte.


Wang Wenbin declarou que o ato foi “ultrajante e injustificado” e uma “escalada sem precedentes” para estigmatizar a China. Afirmou também que os EUA têm maior número de consulados e pessoal na China que vice-versa e mandou mensagem aos estudantes chineses residentes nos Estados Unidos para ficarem alertas, pois o governo norte-americano estaria tomando medidas arbitrárias, como interrogatórios, assédio, detenções e confisco de objetos pessoais.


O jornal oficioso e geralmente mais contundente, Global Times, publicou editorial em que acusa Washington de estar sendo “enlouquecido” pelas eleições presidenciais. O jornal lembrou que, desde 2019, os EUA têm imposto “várias restrições a diplomatas e jornalistas” chineses. Alertou também que a medida acaba prejudicando ambos os lados pois seria fácil à China retaliar fechando também um consulado estadunidense. Acrescentou ainda que os norte-americanos têm milhares de funcionários nos consulados de Hong-Kong e Macau e que estes se tornaram fortalezas para atacar a China [5].


Como de costume, não houve declarações pessoais de Xi Jinping nem do ministro das relações exteriores. A resposta veio institucionalmente, em pronunciamento do porta voz do ministério.


Mas a estatal CGTN, principal rede de TV e Internet do país, além de repercutir o release da Xinhua, trouxe também trechos de uma entrevista pessoal do cônsul em Houston, dizendo, no mesmo tom do release oficial, que instou os EUA a "revogar imediatamente a decisão errônea de fechamento ", ou a China “terá que responder com ações legítimas” [6].


Isso não significa que a China não esteja fazendo espionagem nos EUA. Por óbvio, deve estar fazendo, da mesma forma que os EUA fazem. Mesmo porque todas as potências imperialistas, como EUA, China, Reino Unido, Rússia, França, Alemanha, Japão etc, utilizam seu corpo diplomático como braço de espionagem.


O contexto dos conflitos


Isso acontece no bojo de uma escalada dos EUA contra a China. Desde o início do Governo Trump, foram diversas medidas estatais com vistas a compensar a sua perda de competitividade econômica e enfraquecimento relativo de sua capacidade tecnológica e científica, perda de influência diplomática no mundo e diminuição gradual da ainda enorme diferença de poder militar. Mas, de fato, já havia começado de uma maneira menos ostensiva antes do seu governo.


Em crise e incapaz de responder à competição de modo puramente econômico, os EUA tem se utilizado do seu estado para tomar medidas protecionistas em favor de suas empresas e suas mercadorias industrializadas, tanto promovendo aumento de tarifas de importação como pressionando aliados e empresas nacionais e estrangeiras a restringirem seus negócios com a China.


Mas, a principal preocupação diz respeito ao avanço tecnológico chinês, especialmente no setor de telecomunicações, onde ficou claro seu objetivo de barrar o avanço do oligopólio chinês Huawei e sua tecnologia 5G, contra a qual os norte-americanos ainda não tem uma alternativa própria.


Para isso, acusam a empresa chinesa, mesmo sem mostrar provas, de servir como instrumento de espionagem para seu estado. Têm conseguido fazer alguns dos seus aliados, como Austrália e Reino Unido, a abandonar seus contratos com a Huawei. Isso afeta diretamente o Brasil, que ia tomar uma decisão sobre qual tecnologia de 5G a ser usada no país agora em 2020 e, com alegação da pandemia, o governo adiou para 2021.


O governo brasileiro se encontra entre dois lobbies. De um lado, as pressões políticas do imperialismo do Norte e, de outro, os negócios do grande capital brasileiro com o gigante do Leste Asiático, que é o principal parceiro comercial do setor primário-exportador, e com quem o Brasil também mantém uma relação de dependência econômica. Pela vontade de Bolsonaro e do neofascismo local, a opção pelos EUA seria total. Mas a tutela militar civil burguesa sobre o seu governo equilibra as ações em favor dos negócios da China [7].


Além disso, estão na pauta dos conflitos a interferência dos Estados Unidos na situação interna da China, particularmente sobre Hong-Kong e na região de maioria muçulmana de Xinjiang, as provocações navais no Mar do Sul da China e os conflitos em torno da pandemia do coronavírus, chamado repetidamente por lideranças estadunidenses, inclusive o presidente Trump, de “vírus chinês”.


Outro fator estratégico de conflito, tem sido a Nova Rota da Seda, ou Belt and Road Iniciative (BRI), que é o maior projeto de infraestrutura de transporte e telecomunicações global da história e é dirigido e controlado pelos chineses.


Enfim, o pano de fundo geral de tudo isso é o contexto de bipolarização imperialista entre os EUA e a China aliada com a Rússia. A partir das reformas de mercado de sentido capitalista, iniciadas após a morte de Mao Tsé-tung, no final da década de 1970, o antigo Império do Meio realizou um grande crescimento econômico e avanço tecnológico, se convertendo ao sistema capitalista em sua fase monopolista. Em decorrência, recentemente, especialmente desde o pico da crise estrutural em 2008, se transformou numa grande potência econômica de tipo imperialista e principal desafiante dos EUA.


Portanto, não se trata de um conflito entre dois sistemas com modos de produção econômicos diferentes. É uma disputa interimperialista pela hegemonia do capitalismo global.


Com a nova depressão econômica atual, que é o resultado da convergência do aprofundamento da crise econômica mundial, que já estava em andamento em 2019, com a pandemia da Covid 19, todos os países do mundo estão sendo profundamente afetados.

A China está conseguindo se recuperar e sair da pandemia na dianteira da corrida mundial e deve conseguir um PIB ainda positivo em 2020. Mesmo que pequeno, de 1% ou pouco mais, e um forte crescimento em 2021.


Com isso, a China, que já tem o maior PIB mundial no critério utilizado pelo Banco Mundial, poderá antecipar sua ultrapassagem dos EUA também no critério mais utilizado internacionalmente (FMI), antes de 2025. Evidentemente, isso acende ainda mais os sinais de alerta e o nervosismo nos EUA.


Assim é que, em 19 de junho, Mike Pompeo, radical de direita que comanda a poderosa Secretaria de Estado, declarou que os EUA estão articulando uma ofensiva ao PCCh inédita nos últimos 20 anos [8].


Mas, além das questões estratégicas globais, há a conjuntura doméstica dos Estados Unidos, que tem eleições presidenciais marcadas para 3 de novembro. Por enquanto, Trump tem menores intenções de voto nas pesquisas e está procurando criar fatos políticos, mesmo que artificiais, que possam alavancar sua candidatura à reeleição. E a provocação de conflitos com “inimigos externos”, reais ou imaginários, inclusive guerras, tem sido reincidentemente feita por presidentes candidatos à reeleição nos EUA, no sentido de estimular o sentimento nacionalista em seu favor. Assim, o esperado é uma continuidade de provocações extras até as eleições.


Olho por olho


Como regra geral, a China tem respondido no mesmo nível aos ataques recebidos. Por exemplo, ao aumento de tarifas econômicas responde com aumento equivalente de tarifas. Quanto a declarações políticas ou ações diplomáticas, responde com atitudes correspondentes políticas ou diplomáticas e da mesma forma em relação a movimentação de tropas militares perto de seu território. Em casos como o da prisão de Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, pelo governo do Canadá, a pedido dos EUA, respondeu com a prisão de dois canadenses, que foram acusados de ameaça à segurança nacional chinesa.


Isso vale tanto para os EUA como para outros países, como vimos no caso do Brasil. Quando muitos, equivocadamente, achavam que a China responderia aos ataques verbais feitos por Eduardo Bolsonaro, Ernesto Araújo e Abraham Weintraub com o retaliações econômicas, as respostas ficaram no nível retórico [9].


O Global Times apresentou uma pesquisa indicando que a maioria dos chineses seriam supostamente favoráveis ao fechamento do Consulado dos EUA em Hong-Kong. Outras especulações falam que seria o de Wuhan. Se isso ocorrer, será a demonstração de uma radicalização da China. Mas não é o que deve acontecer pois, no caso de Hong-Kong, poderia ser visto como mais uma agressão autoritária contra a região autônoma. No caso de Wuhan, seria interpretado como um modo de dificultar investigações sobre as origens do coronavírus.


Assim, o mais provável é o fechamento de um consulado em outra grande cidade. E, pelo menos por enquanto, bem aquém do sensacionalismo de certas mídias de direita e de “esquerda” que, a todo momento, imaginam um “confronto final”, não deve ir muito além disso. Será mais um movimento de peças na guerra de posições dentro da “guerra fria” entre as duas potências.



*Jorge Almeida é Professor do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA. Tem pós-doutorado como Visiting Scholar na SOAS-University of London.



Notas


[1] Chinese consulate in Houston ordered to close by US. https://www.bbc.com/news/world-us-canada-53497193


[2] China strongly condemns unreasonable U.S. request to close Chinese Consulate General in Houston 22/07/2020 http://www.xinhuanet.com/english/2020-07/22/c_139232445.htm


[3] China strongly condemns U.S. requirement to close Chinese consulate in Houston. http://en.people.cn/n3/2020/0722/c90000-9713626.html


[4] Beijing will react if Washington request to close Houston consulate not revoked http://www.Chinadaily.com.cn/a/202007/22/WS5f17ee6ba31083481725b5b2.html


[5] US presidential election driving Washington mad: Global Times editorial https://www.globaltimes.cn/content/1195360.shtml


[6] Chinese Consul General in Houston urges the U.S. to revoke 'erroneous' decision https://news.cgtn.com/news/2020-07-23/Chinese-Consul-General-urges-U-S-side-revoke-erroneous-decision-SlVYKG7pfi/index.html


[7] Ver nosso artigo “Tutela militar civil burguesa”. https://aterraeredonda.com.br/tutela-militar-civil-burguesa/


[8] China Consulate Fight Shows Trump’s Hardliners Are in Charge https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-07-22/china-consulate-fight-shows-trump-s-hardliners-are-in-charge-now


[9] Ver, nosso artigo “As relações Brasil-China em tempos de Pandemia”. https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/as-relacoes-brasil-china-em-tempos-de-pandemia/

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