Em plena pandemia, direita internacional produz fake news para atacar Venezuela

Nova campanha difamatória ganha adesão de setores do campo “democrático” do Brasil, com uso de notícia falsa para questionar ações do governo bolivariano

Por Leonardo Fernandes*

Texto publicado originalmente pelo site Diálogos do Sul


O oportunismo da direita internacional para atacar o povo venezuelano parece não ter limites. Uma nova campanha de difamação contra o país vem sendo promovida em plena pandemia do novo coronavírus, com adesão de setores da mídia democrática brasileira, como é o caso da revista Carta Capital, que se prestou a publicar uma matéria de título “Brasil se une à Coreia do Norte e à Venezuela ao omitir dados do coronavírus”, com graves problemas éticos do ponto de vista jornalístico.


A reportagem utiliza como “fonte” a ONG Human Rights Watch (HRW), entre outras “organizações não governamentais” que têm se dedicado nos últimos anos a elaborar informes difamatórios sobre a realidade venezuelana. Em informe publicado em sua plataforma, a HRW coloca em dúvida os números sobre contágio e vítimas da Covid-19 divulgados pelo governo venezuelano, com base em um estudo de 2019, intitulado “Global Health Security Index” (Índice de Segurança Sanitária Global), feito pelo jornal britânico The Economist, em parceria com outras instituições, com a Escola de Saúde Pública John Hopkins Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, a mesma que suspendeu as informações sobre o Brasil, após iniciativas pouco transparentes do governo de Jair Bolsonaro em relação à pandemia.


Meses antes da declaração de pandemia pela OMS, o estudo elaborou uma espécie de primeira avaliação abrangente dos recursos globais de segurança sanitária em 195 países, que descreveria quais seriam aqueles mais preparados para o enfrentamento da doença. Naquele momento, a universidade estadunidense coloca a Venezuela entre os últimos lugares, na 180ª colocação, de uma lista de 195 países.


Dados imprecisos


Para que se tenha uma ideia da imprecisão dos dados apresentados, segundo o trabalho mencionado pela HRW, o país melhor preparado para o enfrentamento da pandemia seria os Estados Unidos, hoje, epicentro mundial da doença, com quase dois milhões de contaminados e uma cifra estarrecedora de mais de 100 mil mortes. O Brasil, hoje considerado um dos epicentros globais da doença, estava entre os 20 países mais bem preparados para o combate à pandemia.


O estudo base para os ataques à Venezuela não levava e não poderia levar em consideração elementos conjunturais que surgiram após sua realização e que foram determinantes para a realidade da pandemia atualmente: a postura inicial de governos como dos Estados Unidos e Brasil em negar a gravidade da crise, a demora em adoção de medidas de distanciamento social, entre outras.


O informe da HRW apresenta supostas fontes “perseguidas pela ditadura venezuelana”, abusa de afirmações genéricas, como as de que “as cifras poderiam ser muito maiores” ou de que “a crise humanitária favoreceria a propagação do vírus”, mas não apresenta em nenhum momento os “números reais” da pandemia no país sul-americano, segundo suas fontes.


Narrativa ficcional


Mas é realmente possível em uma sociedade conectada que a “ditadura” esconda os supostos milhares de mortos pelas ruas em decomposição? Ou a “situação caótica” dos centros de saúde do país? Onde estão os familiares dessas vítimas ocultas? Onde estão as imagens dramáticas do caos, assim como as que assistimos no Equador ou no Brasil?


A articulação da direita internacional para liquidar com o processo revolucionário venezuelano não é uma novidade para os que acompanham esse debate. Estarrecedor é que meios de comunicação e organizações da esquerda mundial reproduzam erros grotescos com absoluta tranquilidade, e façam coro com o imperialismo, enquanto os pobres de todo o mundo padecem de um vírus nada democrático.


A Venezuela, o bloqueio e a pandemia


Até o dia 8 de maio, a Venezuela registrava pouco mais de dois mil contaminados e 22 mortes pelo novo coronavírus. Os dados são atualizados diariamente no site do Ministério do Poder Popular para a Saúde, e são corroborados pelos registros da Organização Mundial da Saúde e da Universidade Jonhs Hopkings, a mesma que participou do estudo citado pela Human Rigths Watch em seu (des)informe.


Mas, porque a Venezuela bolivariana, acossada por um bloqueio econômico criminoso, registra números tão alentadores em meio à tragédia global da pandemia? Quiçá alguns elementos anteriores à pandemia expliquem o sucesso do país no combate à Covid-19.


Desde 2014, a Venezuela vem enfrentando um bloqueio econômico criminoso, que tem produzido efeitos severos sobre a vida da população. Por conta disso, a sociedade venezuelana como um todo tem se mobilizado em ações para o enfrentamento da crise. Nesse sentido, desde então é atualizado permanentemente um censo populacional qualitativo que identifica não somente o número de habitantes de cada localidade, mas agrega informações complexas sobre trabalho, renda, enfermidades existentes, necessidades especiais, entre outras.


Rede CLAP


Além disso, foi criada uma rede de distribuição de alimentos, remédios e produtos de primeira necessidade, chamados popularmente de CLAPs. Essa rede é controlada pelos Conselhos Comunais e Comunas, estruturas organizativas territoriais, localizadas nas milhares de comunidades venezuelanas.


O censo e a rede do CLAP têm permitido ao governo dar respostas rápidas às necessidades da população mais pobre, permitindo que as pessoas fiquem em casa durante o período de isolamento social, que, aliás, foi decretado no país no dia 13 de março, quando foram registrados os dois primeiros casos de contaminação no país.


Fluxo internacional reduzido


Outro elemento que deve ser considerado é que a Venezuela já enfrentava um forte bloqueio fronteiriço, principalmente através do cancelamento unilateral de rotas aéreas ao país por parte de empresas estrangeiras, o que já vinha reduzindo enormemente o fluxo internacional de cidadãos.


Finalmente, informação negligenciada pelo informe da HRW é que o governo venezuelano, diferentemente do Brasil, conta desde o primeiro momento com apoio da OMS, da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), e com a cooperação da China, Rússia e Cuba no combate à pandemia, além de não fazer parte do seleto clube dos negacionistas que tem condenado seus povos ao abandono e à morte.


A verdade às vezes frustra teorias que são absorvidas como fatos. Mas contra fatos, não há teorias conspiratórias que possam prevalecer. A Venezuela resiste ao vírus da Covid-19 e à pandemia da mentira transformada em notícia.



*Leonardo Fernandes é jornalista, ex-correspondente da TeleSUR no Brasil e mestrando em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, pela Universidade Estadual de São Paulo – Unesp.


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