Elon Musk e o exemplo do jogo ideológico da violência no capitalismo

É fundamental que se questione os motivos pelos quais qualquer levante popular e qualquer governo anticapitalista seja visto como violento enquanto Elon Musk segue acumulando bilhões às custas de golpes de Estado pelo mundo, e isso seja ignorado como se fosse natural

Por Heribaldo Lopes Maia Neto

Texto publicado originalmente no Blog da Boitempo


Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, CEO da Tesla Motors, fundador da SpaceX, além de participar de diversas outras empresas de alta tecnologias, deu a seguinte declaração: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso”. Na continuidade dos comentários, feitos pela rede social Twitter, Musk deixa claro que o “nós” em questão é o Governo dos Estados Unidos da América e assume o mais recente golpe dado na Bolívia com o intuito de obter Lítio – metal importante na produção de alta tecnologia.


Esse episódio me fez lembrar de que a grande questão que circulava entre a imprensa mundial e até intelectuais sobre a Bolívia, antes do golpe dado com mãos ianques, não eram as relações geopolíticas que podiam determinar a forma do governo Evo ou até mesmo de como políticas implementadas na Bolívia obtiveram sucesso na economia e em questões sociais; mas de como Evo Morales era um ditador que não respeitava as instituições democráticas e que manipulava essas instituições “neutras” da democracia boliviana a fim de se perpetuar no poder.


Porém não se trata de (re)afirmar o caráter imperialista e burguês da mídia a nível mundial e especialmente no Brasil, onde os níveis de monopolização dos meios de comunicação de massa nos colocam em uma situação de escancarada manipulação da opinião pública – basta lembrarmos do mito da “venezualização do Brasil”, que foi amplamente alimentado pela grande mídia. Mas cabe notarmos como as instituições pró-capital fazem circular discursos com palavras-chaves aparentemente emancipatórias, mas vazias de conteúdo, como democracia, instituições democráticas, liberdade, etc.


Rapidamente eu me lembrei, ao me informar com um amigo das declarações criminosas de Elon Musk, de Slavoj Žižek em seu livro Violência. Para o esloveno, a ideologia funciona justamente nesse movimento que, superficialmente, descrevemos: ela faz com que instituições, relações geopolíticas e situações de opressão, exploração e violência constantes, como essas impostas à América Latina pelo imperialismo, sejam naturalizadas subjetivamente nos sujeitos, não num processo de alienação de sua condição, mas como parte constitutiva do próprio processo de construção da gramática social que cria os sujeitos. Esse movimento de neutralizar do campo subjetivo em relação a violência imanente de instituições e relações sociais do capitalismo é o que Žižek chama de “paralaxe da violência” (p. 7): esse efeito “visual” que faz com que uma intervenção militar brutal num país como a Bolívia, seja experienciada quase como um poder incontrolável, inevitável e até justificável, mas não como violência e expressão máxima da brutalidade.


Esse jogo de neutralização da gramática posta, do que é possível e impossível na ação política, da qual o ponto de partida, as regras do jogo, são vistas, a priori, como neutras ou vazias de qualquer elemento ideológico, é justamente onde reside toda a ideologia em pura operação, como afirma Žižek sobre a questão da linguagem:


“a comunicação humana em sua dimensão mais fundamental e constitutiva não traz consigo um espaço de intersubjetividade igualitária (…). [é preciso insistir] no caráter fundamentalmente assimétrico da intersubjetividade: nunca há uma reciprocidade equilibrada em meu encontro com outro sujeito. A aparência de égualité é sempre discursivamente sustentada por um eixo assimétrico de senhor ou mestre versus escravo, de saber portador da universalidade versus o seu objeto, de perverso versus histérico etc. Como é evidente, essa perspectiva se vê como oposta à abordagem ideológica dominante da violência que a entende como ‘espontânea”.

Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais (Boitempo, 2014), p. 60.

Nesse sentido, o que se percebe é que a ideologia dominante funciona não como um processo de enturvecer nossa visão, mas de criar campos de visibilidade e de invisibilidade. Como diria Foucault (1987, p. IX e X), mutatis mutandis, o poder (como a ideologia dominante) funciona de modo a influir na “distribuição do visível e do invisível, na medida em que está ligada à separação entre o que se enuncia e o que é silenciado”. Se trata portanto de uma espécie de “manipulação” dos “conteúdos visíveis” – talvez por isso o termo paralaxe, retirado da astronomia, seja tão preciso; afinal ele significa um deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação. A ideologia funciona como esse efeito de paralaxe que desloca nosso campo de visão. Mais uma vez Foucault parece ter intuído bem esse efeito, ao analisar o poder do discurso da clínica moderna: “O olho torna-se o depositário e a fonte da clareza; tem o poder de trazer a luz uma verdade que ele só recebe à medida que lhe deu à luz; abrindo-se, abre a verdade de uma primeira abertura” (1987, p. XI e XIII).


Esse movimento ideológico caracterizado pela paralaxe muda todo campo de visão do que significa o horizonte do que é atuação política, reivindicações, resistências, etc. Toda práxis é suprimida a uma neutralidade (que no fundo não é neutra), afinal as regras do que é possível já foram previamente estabelecidas, suprimindo a imaginação política ao respeito teológico às instituições que insistem em “falhar” em suas promessas, já vencidas, de emancipação (é válido que não há registro na história da humanidade, uso a frase com um proposital exagero, de golpes de Estados internos ou intervenções externas patrocinadas pelos comunistas, ou seja, ainda que não seja nenhum problema se vier a acontecer, até hoje os comunistas nunca golpearam qualquer democracia consolidada) – basta rememorar que a OEA (Organização dos Estados Americanos), que havia fornecido o relatório que endossou o discurso de fraudes eleitorais na Bolívia em 2019, confessou, impunemente e com amplo silêncio da mídia, ter mentido sobre tal relatório.


É assim que o discurso ideológico vai neutralizando qualquer possibilidade de ruptura e criação de uma gramática contra-hegemônica: como toda estrutura institucional e de imaginação política é colonizada pela linguagem do império do capital, tudo que aparece como “outro” é repelido imunologicamente via a taxação de violência, totalitarismo, autoritarismo, antidemocrático e demais adjetivos quase sempre vazios. O Estado deixa de ser o “comitê executivo da burguesia” e passa a assumir um caráter técnico apartado das questões políticas e sociais (Pierre Dardot e Christian Laval, A nova razão do mundo, p. 380). É por isso que governos como os de Evo Morales, Hugo Chávez e Nicolás Maduro são tão perigosos para o discurso liberal – afinal, eles rompem o tênue limite do possível que foi imposto previamente à América Latina pelo imperialismo, e fazem isso justamente quando evocam uma outra gramática de ação política, outras possibilidades de arranjos institucionais e outras formas de articulação da soberania popular – como nos lembrou Jones Manoel em vídeo chamado “Por que eles odeiam Hugo Chávez?”



Dito isso é fundamental perceber o cinismo com que tal ideologia funciona. Esse mesmo discurso que escancara qualquer erro de experiências de ruptura com o capital e se coloca como arauto da liberdade e portadores do universal, são os mesmos que jamais fizeram nenhuma autocrítica pela forma como o capitalismo se estabeleceu: sob a violência da acumulação primitiva, o genocídio indígena nas Américas, a escravidão negra que esfacelou a África, o neocolonialismo na Ásia e na África que sustentou o Bem-estar social europeu. É nesse sentido que Jones Manoel faz uma importante questão à Theodor W. Adorno, justamente no intuito de interrogar sobre a invisibilidade da violência que o liberalismo considera como “natural”:


“A dominação imperial de África e Ásia significou o extermínio de milhões de pessoas e a criação das técnicas mais bárbaras e avançadas de dominação. O filósofo alemão Theodor W. Adorno perguntou se era possível escrever poesia após Auschwitz; mas, na realidade, para grande parte da população mundial, foi impossível escrever poesia durante toda modernidade!”.

Jones Manoel, “A luta de classes pela memória: raça, classe e Revolução Africana”, em: Revolução Africana: uma antologia do pensamento marxista (Autonomia Literária, 2019), p. 34.

Perceba que não se trata, obviamente, de menosprezar os acontecimentos na Alemanha nazista; pelo contrário, é justamente por percebê-los como tão bárbaros e brutais que é preciso torná-los inadmissíveis do ponto de vista de uma humanidade genérica – ou seja, torná-los inaceitáveis a quaisquer povos do mundo. Além do mais, trata-se também de questionar os motivos que fazem do holocausto no Congo, promovido pelo Rei Leopoldo II da Bélgica, o genocídio indígena nas Américas ou a escravidão negra não se tornaram também paradigmas de violência, como é, com razão, o holocausto promovido pelo nazismo? Certamente se trata de perceber que no jogo ideológico há algumas vidas que importam mais que outras, há vidas pelos quais nós sentimos sua perda e outras não, como muito bem nos provoca Judith Butler:


A perda de algumas vidas ocasiona luto; de outras não; a distribuição desigual do luto decide quais tipos de sujeitos são e devem ser enlutados, e quais tipos não devem; opera para produzir e manter certas concepções excludentes de quem é normativamente humano: o que conta como uma vida visível e como uma morte passível de ser enlutada?.

Judith Butler, Vida precária: os poderes do luto e da violência (Autêntica, 2019), p. 13.

Veja que é essa paralaxe que redireciona nosso campo de visão, neutralizando uma violência que estrutura a totalidade das relações políticas, institucionais e sociais das democracias liberais e que produz subjetivamente sujeitos que não mais a percebem, é que torna possível que enormes ações violentas, como as que são cometidas sistematicamente pelo Governo dos EUA – como essa que foi patrocinada por Elon Musk e que golpeou um governo legítimo na Bolívia –, sejam vistas como algo bom, as vezes como apenas um acidente de percurso para corrigir a “marcha do progresso” ou como algo irrelevante.


O capitalismo, como diz João Carvalho, “falhou, falha e falhará em cada uma das sociedades onde ele colocar seus tentáculos”. E isso não ocorre por conta de algum tipo de dicotomia pela qual os comunistas insistem em argumentar contra um imperialismo em abstrato, mas pela própria factualidade histórica: quantas intervenções externas foram promovidas pelos comunistas? Quantas vezes seremos golpeados e ainda sim precisar ouvir sobre a importância de confiar nas instituições democráticas (que sempre na história foram cúmplices dos golpes)? Quantos Allendes devem morrer para que o povo latino-americano perca a vergonha de se defender (independente de o chamarem de violento)?


É preciso questionar não mais as promessas de liberdade imanentes às instituições das democracias liberais, mas se essas instituições realmente podem cumpri-las – levando em consideração todo o sangrento histórico que elas possuem; levando em consideração que essas instituições, zelosas pela liberdade, dispostas a derrubar “ditadores” latinos, guardam, silenciosas, Guantánamo, que os EUA “alegaram não estar submetidos às convenções de Genebra” (Butler, Quadros de guerra, p. 139) e, portanto, não precisam justificar o que fazem com quem para lá vai, ainda que tudo indique que há torturas, estupros, abusos psicológicos e nenhum direito a defesa formal. A defesa a priori das instituições, sem analisar seu conteúdo, sua história e sua ação prática pode resultar numa violência ética: quando se impõe um éthos, que não mais compreende as particularidades socioculturais, que se torna violento.


É fundamental que se questione os motivos pelos quais qualquer levante popular e qualquer governo anticapitalista seja visto como violento enquanto Elon Musk segue acumulando bilhões às custas de golpes de Estado pelo mundo, enquanto existe Guantánamo, enquanto casos como o de George Floyd são cotidianos e enquanto o financiamento de guerras pelo mundo por motivos torpes é simplesmente ignorado como se fosse algo natural. Por que precisamos passar séculos tendo que pacificamente “lidar” com golpes e mortes, que expõe as veias abertas da América Latina, enquanto a nós cabe apenas oferecer a outra face? Lembremos de Bertold Brecht e saibamos entender que “do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violenta as margens que o comprimem”.



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