Deixemos morrer quem nos destrói

A pretexto de “salvar a economia e os empregos”, governos socorrem grandes corporações e bancos que quebraram, por especular demais. Muito melhor seria abandoná-los — resgatando o planeta e as chances de transformar a sociedade

Por George Monbiot Texto originalmente publicado no site Outras Palavras Favor, não ressuscitar. Essa etiqueta deveria ser atrelada às companhias de petróleo, de linhas aéreas e indústrias de automóveis. Os governos deveriam dar o suporte financeiro a seus trabalhadores, enquanto reformulam o sistema econômico para oferecer novos empregos em setores diferentes. Governos deveriam apoiar, exclusivamente, aqueles setores que irão colaborar para garantir a sobrevivência da humanidade e de todo o restante do planeta que tem vida. Deveriam, inclusive, comprar as indústrias poluentes e transformá-las com tecnologia limpa, ou fazer aquilo que tanto gostam de pregar mas que, na verdade, não querem: deixar o mercado decidir. Em outras palavras, deixar que essas companhias quebrem. Esta é nossa segunda chance para mudar as coisas. Talvez seja a última. A primeira, em 2008, foi terrivelmente desperdiçada. Enormes quantias de dinheiro público foram gastas reestruturando a velha e suja economia, garantindo ao mesmo tempo que a riqueza permanecesse nas mãos dos ricos. Hoje, muitos governos parecem determinados a repetir o mesmo erro catastrófico. O “livre mercado” sempre foi um produto das políticas de governo. Quando as leis antitruste são fracas, uns poucos gigantes sobrevivem, enquanto todo mundo cai. Se as indústrias sujas fossem rigorosamente regulamentadas, as limpas floresceriam. Caso contrário, os parasitas ganham. Mas a dependência das empresas em relação às políticas públicas raramente tem sido maior nas nações capitalistas. Muitas das grandes indústrias dependem hoje do Estado para sobreviver. Os governos estão salvando a indústria do petróleo — salvando centenas de milhões de barris de um produto invendável, para ser mais preciso — exatamente como fizeram com os bancos em 2008. Após a crise, não usaram seu poder para erradicar as práticas socialmente destrutivas do setor e reconstruí-las em prol das necessidades humanas. Hoje, voltam a cometer o mesmo erro. O Bank of England resolveu comprar a dívida de companhias petroleiras como BP, Shell e Total. O governo concedeu um empréstimo de 600 milhões de libras à easyJet, apesar da empresa ter desperdiçado 171 milhões de libras em dividendos poucas semanas atrás: o lucro é privatizado; os riscos, socializados. Nos EUA, o primeiro resgate envolve 25 bilhões de dólares para as companhias aéreas. O governo está sugando e transferindo tudo o que puder de petróleo para reservas petroleiras estratégicas, ignorando as leis de poluição, enquanto congela as energias renováveis. Vários países europeus procuram salvar suas companhias aéreas e seus fabricantes de automóveis. Não acredite quando lhe disserem que fazem isso por nós. Uma pesquisa feita recentemente pela Ipsos, ao longo de 14 países, sugere que, em média, 65% das pessoas desejariam uma recuperação ecológica. No mundo todo, os eleitores precisam lutar para persuadir os governos a agir a favor dos interesses do povo, e não das empresas, nem dos bilionários que os financiam e pressionam. O eterno desafio democrático é romper os laços com os políticos e os setores econômicos que eles deveriam regular ou, no caso, fechar. Mesmo quando os legisladores tentam representar essas preocupações, seus esforços costumam ser fracos e ingênuos. A mais recente carta de um grupo de parlamentares para o governo, pedindo que as companhias aéreas só recebam auxílio com a condição de “fazer mais para enfrentar a crise climática” poderia ter sido escrita em 1990. As viagens aéreas são inerentemente poluentes. Não existem medidas realistas que, mesmo a médio prazo, possam fazer uma grande diferença. Agora sabemos que a condição exigida pelos parlamentares é inútil — todos os setores econômicos precisariam maximizar os cortes nos gases de efeito estufa. Passar essa responsabilidade de um setor para outro não resolve nada. A única mudança significativa seria fazer menos voos. Mas qualquer coisa que impeça a contração da indústria da aviação, impedirá a redução de seus impactos. A pandemia nos dá um sinal do quanto ainda precisamos fazer para sair de nossa desastrosa trajetória. As grandes mudanças que fizemos em nossas vidas, provavelmente, só reduzirão as emissões globais de dióxido de carbono em 5,5% este ano. Um relatório da ONU mostra que, para ter uma chance razoável de evitar 1,5°C ou mais do aquecimento global, precisamos reduzir as emissões em 7,6% ao ano na próxima década. Em outras palavras, o bloqueio expõe os limites da ação individual. Viajar menos ajuda, mas não o suficiente. Para fazer os cortes necessários, precisamos de mudanças estruturais. Isso significa uma política industrial completamente nova, criada e guiada pelo governo. Governos como o do Reino Unido deveriam abandonar seus planos de construção de novas estradas. Em vez de expandir os aeroportos, precisam apresentar planos para reduzir as vagas de aterrissagem. Devem se comprometer com políticas explícitas de reduzir ao máximo o uso de combustíveis fósseis. Durante a pandemia, muitos de nós começamos a descobrir quantas de nossas viagens são desnecessárias. Governos poderiam aproveitar essa chance para criar planos de redução da necessidade de deslocamento — e investir no incentivo a caminhadas, ciclismo e, quando necessário, transporte público. Isso significa calçadas mais largas, melhores ciclovias, ônibus que prestem serviços e não lucro. Deveriam investir massivamente em energia limpa e, ainda mais, na redução da demanda de energia, por meio, por exemplo, de um melhor isolamento arquitetônico, melhor aquecimento e iluminação. A pandemia expôs a necessidade de um melhor planejamento da vizinhança, com menos espaço público para os carros e mais para as pessoas. Também, mostra o quanto precisamos do tipo de segurança que uma economia desregulada e pouco taxada jamais poderá oferecer. Em outras palavras, precisamos ter o que muitos já pediam bem antes do desastre: um novo acordo verde. Mas paremos de descrevê-lo como um pacote de estímulos. Estimulamos demais o consumo ao longo do século passado, motivo pelo qual enfrentamos um desastre ambiental. Vamos chamá-lo de pacote de sobrevivência, cujo objetivo é fornecer renda, distribuir riqueza e evitar catástrofes, sem estimular o crescimento econômico perpétuo. Ajude as pessoas, não as corporações. Resgate o mundo vivo, não seus destruidores. Não desperdicemos nossa segunda chance.

Tradução: Simone Paz Hernández

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