De que ri Bolsonaro?

O deboche, a falta de solidariedade, a ausência completa de apenas um resquício do mais tosco humanismo que se exigiria a um ser, foram propagados como uma piada típica dos quartéis que em ditaduras ou fora delas praticam torturas aos considerados inimigos

Por Sara Granemann


Milhares de pessoas, quase 20 mil na contagem oficial, morreram pela Covid-19 no Brasil. Os profissionais de saúde que trabalham nas UTI - habilitados e formados para enfrentar este que é, dentre os espaços do ambiente hospitalar, talvez o mais difícil - têm informado do sofrimento atroz por afogamento que as complicações da doença causam aos contaminados.


Sabemos que uma parte significativa das pessoas adoecidas supera a doença; e esta é uma excelente notícia. Entretanto, de que matéria é feita um ser que debocha do padecimento, que faz piada com os processos sofridos por aquelas e aqueles que tiveram esta dolorosa morte em casa ou nos hospitais, caso tenham tido a “sorte” de ter encontrado um leito?


Mais grave ainda: o deboche, a falta de solidariedade, a ausência completa de apenas um resquício do mais tosco humanismo que se exigiria a um ser, foram propagados como uma piada típica dos quartéis que em ditaduras ou fora delas praticam torturas aos considerados inimigos; uma destas torturas - seja qual for a sua macabra denominação - é a que se aplica por afogamento em água.


O afogamento fatal pela doença Covid-19 foi sugerido de modos abjeto e imoral, desrespeitoso e cínico pelo presidente da república (a quem nem me dou o trabalho de referir com letras maiúsculas) ao que pode ser designação da técnica de tortura por afogamento. Se a palavra para nomear a tortura por afogamento em água é ou não esta; se o governante mencionava a tortura explicitamente ou como uma senha, por toda a gravidade, já nem teria sido a primeira vez. Choca-nos a miséria de atos e da retórica de alguém que ao ocupar o cargo máximo de comando do país aparece fagueiro e risonho enquanto trabalhadoras e trabalhadores (sim aqui a mortalidade assumiu um traço seletivo, marcadamente de classe social.


Certo e infelizmente é que dentre os óbitos estão apoiadores do governo. Infelizmente porque lamento e sofro com cada morte ainda que seja daqueles e daquelas que nos levaram por seu voto a esta insuportável situação social. Bolsonaro nem dos seus apoiadores têm compaixão; nem dos mortos e nem das suas famílias; destas mortes sorri em deleite ao compará-las (e ameaçar seus opositores) com aquilo que lhe dá prazer: o escárnio, a tortura! Também não tem misericórdia com os vivos que o seguem quando os incita aos comícios e carreatas da morte e os estimula à perversidade.


Conhecia o fascismo pela história, pelo estudo, de modo suficiente para saber que esta não pode e não deve ser elencada dentre as alternativas para a humanidade livre.


Conhecia expressões aparentadas ao fascismo no extermínio seletivo dos pobres que compõem a classe trabalhadora em nosso país e em outros vários pelo mundo.


Choramos diariamente o extermínio direcionado às populações trabalhadoras das periferias, das favelas, negros e negras, mulheres, jovens, crianças, LGBT+, acidentados pelo trabalho, famintos, povos originários. Poderia continuar esta lista longamente como elogio fúnebre a todas e todos os que foram vitimados pelo eugenismo praticado pela burguesia, por seu estado e, nestes meses, por meio da necropolítica do governo de Bolsonaro e de todos os outros que nos seguem matando e aos nossos e nossas como classe social.


A lista seria dolorosamente numerosa e extensa.


O resumo para este longo lamento, faço-o numa frase: ao mesmo tempo em que Bolsonaro tripudia dos mortos e de seus familiares, nós os lamentamos todos como se nossos mortos fossem, seja quem for, qualquer que tenha sido sua ideologia, seu voto, ou local de sua morte.


Em Antígona de Sófocles, a personagem é castigada com a morte por ter enterrado um de seus irmãos; este, o proscrito havia sido morto por um outro irmão de ambos quando cada um defendia um estado e um reino numa guerra, como todas, especialmente no capitalismo, são travadas por riqueza e poder.


Em seu julgamento ANTÍGONA responde o seguinte ao Rei CREONTE:


“Então por que esperas? Nada do que disseres poderá me agradar e tudo o que eu disser só poderá te ser agradável. A glória que eu buscava eu tenho e ninguém mais me tira - a de dar ao meu irmão um enterro digno. Todos aqui se apressariam em concordar com o que eu fiz se não tivessem a língua travada pela covardia. Mas essa é a vantagem dos tiranos - impor pelo medo tudo o que dizem e fazem”.


Sua condenação por chorar seu irmão morto desencadeia tragicidades cada vez mais aprofundadas e complexas no evolver da obra. O tirano que desrespeitou os mortos alcançará desgraçado final, recitado pelo coro:


CORO: “A vida é curta e um erro traz um erro. Desafiado o destino, depois tudo é destino. Só há felicidade com sabedoria, mas a sabedoria se aprende é no infortúnio. Ao fim da vida os orgulhosos tremem e aprendem também a humildade. Já tarde Creonte se oferece em holocausto. Tebas morre com ele. O inimigo avança”


Nestes dias ruins, a literatura (neste texto conjugada à filosofia e teoria do estado) tem sido meu abrigo. Das várias lições desta memorável obra aparecida no ano 442 AC, assinalo uma que nos é de grande atualidade: o respeito aos mortos e aos que choram sua ausência é um traço humano, demasiado humano.


Ao governante cabe subordinar guerras e disputas ao pesar profundo por vidas ceifadas.

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