COVID-19 e o capitalismo de catástrofe

Cadeias mercantis e as crises ecológica-epidemiológica-econômica

Por John Bellamy Foster e Intan Suwandi

Texto publicado originalmente na Monthly Review | Tradução: Hugo Corrêa


A COVID-19 acentuou como nunca a ligação entre as vulnerabilidades ecológica, epidemiológica e econômica impostas pelo capitalismo. Conforme o mundo entra na terceira década do século XXI, assistimos a emergência do capitalismo de catástrofe enquanto a crise estrutural do sistema alcança dimensões planetárias.


Desde o fim do século XX, a globalização capitalista adotou crescentemente a forma de cadeias interligadas de mercadorias controladas por corporações multinacionais, conectando várias zonas de produção, situadas primariamente no Sul Global, mas com o ápice do consumo, das finanças e da acumulação mundiais situados primariamente no Norte Global. Essas cadeias de mercadorias conformam os principais circuitos materiais do capital globalmente, que constituem o fenômeno do imperialismo tardio identificado com a ascensão generalizada do capital monopolista-financeiro.[1] Nesse sistema, rendas imperiais exorbitantes advindas do controle da produção global são obtidas não apenas pela arbitragem global de trabalho – pela qual corporações multinacionais com matrizes no centro do sistema sobreexploram o trabalho industrial na periferia – mas, crescentemente, também pela arbitragem global de terra – na qual multinacionais do agronegócio expropriam terra barata (e trabalho) no Sul Global para produzir culturas exportáveis principalmente para o Norte Global. [2]


Se referindo a esses complexos circuitos de capital na economia global de hoje, administradores das corporações referem-se tanto a cadeias de suprimentos quanto a cadeias de valor, com as cadeias de suprimentos representando o movimento do produto físico e as cadeias de valor se dirigindo ao “valor adicionado” em cada elo da produção, desde as matérias-primas até o produto final. [3 ]Essa dupla ênfase nas cadeias de suprimentos e nas cadeias de valor se assemelham, em certo sentido, à abordagem mais dialética desenvolvida na análise de Karl Marx das cadeias mercantis na produção e na troca, abrangendo valores de uso e valores de troca. No Livro I de O capital, Marx acentuou a dualidade dos valores de uso naturais-materiais (a “forma natural”) e dos valores de troca (a “forma valor”) presente em cada elo da “série geral de metamorfoses do mundo das mercadorias”. [4] A abordagem de Marx foi levada adiante por Rudolf Hilferding em seu O capital financeiro, onde ele escreveu sobre o “elo de uma cadeia de troca de mercadorias”. [5]


Nos anos 1980, os teóricos do sistema-mundo Terence Hopkins e Immanuel Wallerstein reintroduziram o conceito de cadeia mercantil baseado nessas raízes da teoria marxiana. [6] No entanto, o que em geral foi perdido nas posteriores análises marxistas (e do sistema-mundo) sobre as cadeias mercantis, que as trataram como fenômeno exclusivamente econômico/de valor, foi o aspecto material-ecológico dos valores de uso. Marx, que nunca perdeu de vista os limites materiais-naturais nos quais o circuito do capital se realiza, enfatizou “o lado negativo”, i. e. destrutivo, da valorização capitalista no que diz respeito às condições naturais da produção e ao metabolismo de seres humanos e natureza como um todo. [7] A “ruptura irremediável no metabolismo social” (a fenda metabólica) que constituiu a relação destrutiva do capitalismo com a terra, por meio da qual “esgotou a terra” e “levou à aplicação do guano nos campos ingleses”, ficou também evidente nas “epidemias periódicas” que resultam dessas mesmas contradições orgânicas do sistema. [8]


Esse enfoque teórico, que enfatiza a dualidade, a forma contraditória, das cadeias mercantis, que incorporam tanto valores de uso quanto valores de troca, dá base para entender a tendência à crise ecológica, epidemiológica e econômica do imperialismo tardio. Ele nos permite perceber como o circuito do capital no imperialismo tardio está ligado à etiologia da doença pelo agronegócio e como isso gerou a pandemia de COVID-19. Essa mesma perspectiva focada nas cadeias mercantis, além do mais, permite entendermos como a interrupção dos fluxos de valores de uso, sob a forma de bens materiais, e resultando na interrupção dos fluxos de valores, gerou uma severa e duradoura crise econômica. O resultado é o empurrão de uma já estagnada economia ao limite, ameaçando desmoronar a superestrutura financeira do sistema. Finalmente, por trás de tudo isso está uma fenda planetária ainda maior, engendrada pelo atual capitalismo de catástrofe, e exibida na mudança climática e na ultrapassagem de vários limites planetários, das quais a presente crise epidemiológica é apenas outra manifestação dramática.


Circuitos do capital e as crises ecológica e epidemiológica


Notavelmente, durante a última década, uma nova e mais holística abordagem à etiologia das enfermidades apareceu, denominada One Health-One World [Um Mundo, Uma Saúde], principalmente em resposta ao aparecimento de doenças zoonóticas recentes (ou zoonoses) como a SARS, a MERS e a H1N1, transmitidas aos humanos por animais não humanos, selvagens ou domesticados. O modelo One Health integra a análise epidemiológica numa base ecológica, unindo cientistas da ecologia, médicos, veterinários e analistas de saúde pública numa abordagem que tem um escopo global. Contudo, a perspectiva ecológica original que motivou o One Health, representando uma nova e mais abrangente abordagem às doenças zoonóticas, foi recentemente apropriada e em parte negada por organizações influentes como o Banco Mundial, a OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos. Assim, a abordagem multisetorial do One Health converteu-se rapidamente numa moda de juntar interesses tão variados como saúde pública, medicina privada, saúde animal, agronegócio e grandes farmacêuticas para fortalecer as respostas ao que são consideradas epidemias episódicas, significando o aparecimento de uma ampla estratégia corporativista em que o capital, especialmente o agronegócio, é o elemento dominante. O resultado é que as conexões entre as crises epidemiológicas e a economia mundial capitalista são minimizadas no que se propunha ser um modelo holístico. [9]


Assim apareceu uma abordagem nova e revolucionária à etiologia das enfermidades, conhecida como Structural One Health [Uma Saúde Estrutural], partindo criticamente do One Health, mas baseada, ao invés, na ampla tradição do materialismo histórico. Para os proponentes do Structural One Health o importante é investigar como as pandemias da economia global contemporânea estão ligadas aos circuitos do capital, que têm promovido rápida alteração das condições ambientais. Um grupo de cientistas, incluindo Rodrick Wallace, Luis Fernando Chaves, Luke R. Bergmann, Constância Ayres, Lenny Hogerwerf, Richard Kock e Robert G. Wallace, escreveu junto uma série de trabalhos como Clear-Cutting Disease Control: Capital-Led Deforestation, Public Health Austerity, and Vector-Borne Infection e, mais recentemente, “COVID-19 e os circuitos do capital” (de Rob Wallace, Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace) na edição de maio de 2020 da Monthly Review. O Structural One Health se define como “um novo campo, [que] examina os impactos que os circuitos do capital e outras circunstâncias fundamentais, incluindo profundas histórias culturais, têm sobre uma agro-economia regional e se associa à dinâmica de transmissão de doenças entre espécies”. [10]


A abordagem revolucionária materialista histórica representada pelo Structural One Health se diferencia da abordagem mainstream do One Health por: (1) apontar as cadeias mercantis como engrenagens das pandemias; (2) relativizar a abordagem usual da “geografia absoluta”, que se concentra em certos locais nos quais novos vírus emergem e não percebe os canais econômicos globais de transmissão; (3) não ver as pandemias como problemas episódicos ou como “Cisnes Negros”, eventos aleatórios, mas sim como reflexos da crise geral e estrutural do capital, no sentido explicado por István Mészáros em seu Para além do capital; (4) adotar uma abordagem da biologia dialética, associada aos biólogos de Harvard Richard Levins e Richard Lewontin em seu The Dialectical Biologist; e (5) insistir em uma reconstrução radical da sociedade em geral, de modo a promover um “metabolismo planetário” sustentável. [11] Em seu Big Farms Make Big Flu e em outros escritos, Robert G. (Rob) Wallace parte das noções marxianas de cadeia mercantil e de fenda metabólica, assim como da crítica à austeridade e à privatização baseada na noção do Paradoxo de Lauderdale (segundo o qual a fortuna privada é aumentada pela destruição da riqueza pública). Assim, intelectuais dessa tradição crítica se apoiam numa abordagem dialética sobre a destruição ecológica e a etiologia das enfermidades. [12]


Naturalmente, a nova epidemiologia histórico-materialista não surgiu do nada, mas foi construída sobre uma longa tradição de lutas socialistas e análises críticas de epidemias, incluindo contribuições como: (1) As condições da classe trabalhadora na Inglaterra de Frederick Engels, em que foram exploradas as bases de classe de doenças infecciosas; (2) as próprias discussões de Marx sobre epidemias e condições gerais de saúde em O capital; (3) o tratamento dispensado pelo zoólogo britânico E. Ray Lankester (discípulo de Charles Darwin e Thomas Huxley e amigo de Marx) às origens antropogênicas das doenças e suas bases capitalistas na agricultura, nos mercados e nas finanças, no livro Kingdom of man; e (4) “Is Capitalism a Disease?” [O capitalismo é uma doença?] de Levins. [13]


Especialmente importante nessa nova epidemiologia histórico-materialista associada ao Structural One Health é o reconhecimento explícito do papel do agronegócio global e sua integração em pesquisas detalhadas sobre todos os aspectos da etiologia da doença, focando-se em novas zoonoses. Essas doenças, como Rob Wallace afirmou em seu Big Farms Make Big Flu, foram a “decantação biótica inadvertida dos esforços para dirigir a ontogenia e a ecologia animais de acordo com a lucratividade de multinacionais”, produzindo novos patógenos mortais. [14] A exportação da atividade agropecuária [offshore farming] – consistindo em monoculturas de animais domésticos geneticamente similares (eliminando proteções imunológicas), incluindo vastas fazendas suínas e aviárias, aliadas com o rápido desmatamento e com a mistura caótica de aves e outras criaturas selvagens e de produção animal industrial, inclusive nas feiras – criaram as condições para a disseminação de patógenos novos e mortais como o SARS, a MERS, o Ebola, o H1N1, o H5N1 e, agora, o SARS-CoV-2. Mais de meio milhão de pessoas ao redor do mundo morreram de H1N1 e as mortes por SARS-CoV-2 irão muito provavelmente ultrapassar essa marca em muito. [15] “O agronegócio”, escreve Rob Wallace, “está deslocando suas empresas para o Sul Global para tirar vantagem do trabalho barato e da terra barata” e “espalhando toda sua linha de produção pelo mundo”. [16] Aves, suínos e humanos interagem para produzir novas enfermidades. “Gripes”, Wallace nos diz, “agora emergem por meio de uma rede globalizada de currais industriais de produção e comércio, onde novas cepas começam a evoluir. Com rebanhos movendo-se rapidamente de região para região – tornando a distância uma conveniência just-in-time – múltiplas cepas de gripe são continuamente introduzidas em localidades cheias com populações de animais suscetíveis”. [17] Aves criadas para fins comerciais em larga-escala mostraram ter chances muito maiores de hospedar essas zoonoses virulentas. A análise das cadeias de valor foi usada para recuperar a etiologia de novas gripes como a H5N1 na cadeia mercantil da produção aviária. [18] Mostrou-se que a gripe no sul da China emergiu no contexto de “um ‘presente histórico’ no qual múltiplos vírus se recombinaram a partir de uma mistura de agroecologias originadas em tempos diferentes tanto por sequências diretas quanto por contingência: nesse caso, combinando o antigo (arroz), o recém-moderno (patos semi-domesticados) e o presente (intensificação da produção aviária)”. Essa análise também foi expandida por geógrafos radicais, como Bergmann, trabalhando a “convergência da biologia e da economia para além de uma única cadeia de mercadoria até a fábrica da economia global”. [19]


As cadeias globais de mercadorias interconectadas do agronegócio, que provêm as bases para o surgimento de novas zoonoses, garantem que esses patógenos movam-se rapidamente de um lugar a outro, explorando as cadeias de conexão humana e a globalização, com hospedeiros humanos movendo-se em dias, ou mesmo em horas, de uma parte do globo a outra. Wallace e seus colegas escrevem em “COVID-19 e o circuito do capital”: “Alguns patógenos emergem diretamente de centros de produção... Mas muitas enfermidades, como a Covid-19, originam-se nas fronteiras da produção do capital. Em verdade, pelo menos 60% dos novos patógenos humanos surgem a partir de animais selvagens e migram para comunidades humanas locais (antes dos mais bem-sucedidos se espalharem para o resto do mundo)”. Eles resumem as condições para a transmissão dessas doenças,


Nossa premissa fundamental consiste no fato de que a causa da emergência de patógenos, entre eles, a Covid-19, não se encontra apenas no objeto de qualquer agente infeccioso ou em seu curso clínico, mas também no campo das relações ecossistêmicas construídas pelo capital e outros fatores estruturais para seu próprio proveito. Hoje há uma grande variedade de patógenos com diferentes taxas, hospedeiros, modos de transmissão, cursos clínicos e resultados epidemiológicos. Por conta dos modelos tradicionais, somos obrigados a nos deter de olhos arregalados em cada uma dessas marcações ao ritmo dos novos e múltiplos surtos. Para nós, no entanto, elas são diferentes partes e caminhos ao longo dos mesmos tipos de circuitos de uso da terra e acumulação de valor. [20]

A reestruturação imperial da produção no fim do século XX e início do XXI – o que conhecemos como globalização – foi primariamente o resultado da arbitragem global de trabalho e da sobreexploração (e superexploração) dos trabalhadores do Sul Global (incluindo a contaminação proposital de ambientes locais) em benefício primariamente dos centros do mundo do capital e das finanças. Mas essa reestruturação também foi em parte motivada pela arbitragem global de terra, que ocorreu simultaneamente por meio das corporações multinacionais do agronegócio. Segundo Eric Holt-Giménez em A Foodie’s Guide to Capitalism, “o preço da terra”, em grande parte do Sul Global, “é tão baixo em relação a sua renda (quanto ela valeria pelo que pode produzir), que a captura dessa diferença (arbitragem) entre o baixo preço e a alta renda produzirá ao investidor um belo lucro. Quaisquer ganhos advindos de um eventual cultivo são secundários... As oportunidades de arbitragem com a terra surgem pela incorporação de terras novas – com renda da terra atrativa – no mercado global de terra, onde a renda pode efetivamente ser capitalizada”. [21] Isso foi em grande parte alimentado pelo que é chamado de Revolução Pecuária [Livestock Revolution], que transformou a produção animal numa mercadoria globalizada, baseada em rebanhos gigantescos e monoculturas genéticas. [22]


Essas condições foram promovidas por vários bancos de desenvolvimento num contexto eufemisticamente conhecido como “reestruturação territorial”, que envolve tanto remover fazendas de subsistência e pequenos produtores da terra em nome de corporações multinacionais, especialmente do agronegócio, quanto o rápido desmatamento e a destruição do ecossistema. Isso também ficou conhecido como a apropriação de terras [land grabs] do século XXI, acelerada pela alta dos preços de alimentos básicos em 2008 e, novamente, em 2011, assim como pela riqueza de fundos privados que procuravam bens tangíveis para investir em virtude das incertezas geradas depois da Grande Crise Financeira de 2007-9. O resultado foi a maior onda migratória da história humana, com pessoas sendo arrancadas da terra, num processo global de descampenização, alterando a agroecologia de regiões inteiras, substituindo a agricultura tradicional por monoculturas e empurrando a população para favelas urbanas. [23]


Rob Wallace e seus colegas observam que o historiador e crítico urbano Mike Davis, entre outros, “identificou como essas paisagens recém-urbanizadas agem como mercados locais e centros regionais para a passagem de mercadorias agrícolas globais... Como resultado, a dinâmica das doenças florestais (fontes primárias dos patógenos) não é mais restrita ao interior. As epidemias tornaram-se relacionais e foram aceleradas no tempo e no espaço. Por causa desses novos espaços, uma SARS pode subitamente se espalhar para os seres humanos na grande cidade apenas alguns dias depois de ter saído de sua caverna de morcegos”. [24]


Interrupção da cadeia de mercadorias e o efeito chicote global


Os novos patógenos gerados não intencionalmente pelo agronegócio não são eles mesmos valores de uso naturais-materiais, mas sim resíduos tóxicos do sistema produtivo capitalista, associados à cadeia mercantil do agronegócio como parte de um regime alimentar global. [25] Ainda assim, como uma “vingança” metafórica da natureza já imaginada por Engels e Lankester, o efeito cascata da combinação dos desastres ecológico e epidemiológico, introduzido pelas atuais cadeias globais de mercadorias e pelas ações do agronegócios que permitiram a pandemia do COVID-19, interromperam todo o sistema global de produção. [26] O efeito dos lockdowns e do distanciamento social, fechando setores-chave da produção em todo o mundo, abalou internacionalmente as cadeias de suprimentos e de valor. Isso gerou um imenso “efeito chicote”, irradiado de ambos os polos, da oferta e da demanda, das cadeias globais de mercadorias. [27] Ademais, a pandemia do COVID-19 ocorreu no contexto de um regime global de capital monopolista-financeiro neoliberal, que impôs políticas de austeridade em todo mundo, inclusive para a saúde pública.


A adoção universal da produção just-in-time e da concorrência baseada no tempo, como regulador das cadeias globais de mercadorias, deixaram empresas e instalações como hospitais com poucos estoques – um problema agravado pela estocagem de alguns bens por parte da população. [28] O resultado é um distúrbio extraordinário de toda a economia global.


As cadeias globais de mercadorias – aquilo que chamamos de cadeias de valor-trabalho – são organizadas primariamente para explorar os custos unitários do trabalho mais baixos (considerando os custos salariais e a produtividade) nos países mais pobres do Sul Global, onde agora a produção industrial predominantemente se localiza. Os custos unitários do trabalho na Índia em 2014 eram 37% daqueles nos EUA, enquanto os custos na China e no México eram, respectivamente, 46% e 43%. Na Indonésia eram mais altos, com custos unitários do trabalho em 62% do nível dos EUA. [29] Em grande parte isso se deve aos salários extremamente baixos nos países do Sul, que são apenas uma pequena fração do nível salarial nos países do Norte. Enquanto isso, a produção independente [arm’s length production], realizada em acordo com as especificações de corporações multinacionais, juntamente com a tecnologia avançada introduzida em novas plataformas exportadoras do Sul Global, geram uma produtividade que é, em diversas áreas, comparável à produtividade do Norte Global. O resultado é um sistema global integrado de exploração no qual as diferenças salariais entre países do Norte e do Sul Global são maiores que as diferenças de produtividade, levando os custos unitários do trabalho nos países do Sul a serem muito baixos e gerando grandes margens de lucro bruto (ou excedentes econômicos) no preço de exportação de bens vindos dos países mais pobres.


Os enormes excedentes econômicos gerados no Sul Global são registrados no PIB como valor adicionado no Norte. Contudo, eles seriam mais bem entendidos como valor capturado do Sul. Esse novo sistema internacional de exploração, associado com a globalização da produção, constitui a estrutura profunda do imperialismo tardio no século XXI. Se trata de um sistema mundial de exploração/expropriação formado a partir da arbitragem global de trabalho, resultando numa grande drenagem de valor gerado nos países pobres para os países ricos.


Tudo isso foi facilitado pelas revoluções nos transportes e na comunicação. Custos de navegação despencaram quando containers navais padronizados se proliferaram. As tecnologias de comunicação, como os cabos de fibra ótica, os telefones celulares, a internet, a banda larga, a computação em nuvem e a realização de videoconferências, alteraram a conectividade global. O transporte aéreo barateou as viagens rápidas, crescendo anualmente numa média de 6,5% entre 2010 e 2019. [30] Mais ou menos um terço das exportações norte-americanas é composto por produtos intermediários para bens finais produzidos em outros lugares, como algodão, aço, motores e semicondutores. [31] Foi nesse contexto de rápidas transformações, geradoras de uma estrutura de acumulação internacional crescentemente integrada e hierárquica, que a presente cadeia global de mercadorias emergiu. O resultado foi a conexão de todas as partes do globo em um sistema mundial de opressão, uma conectividade que agora dá sinais de instabilidade, sob os impactos da guerra comercial entre Estados Unidos e China e dos efeitos econômicos globais da pandemia de COVID-19.


A pandemia de COVID-19, com seus lockdowns e o distanciamento social, é “a primeira crise global da cadeia de suprimentos”. [32] Isso levou a perdas de valor econômico, vastos índices de desemprego e subemprego, colapso de empresas, aumentou a exploração e espalhou a fome e a privação. É chave para entender a complexidade e o caos da presente crise o fato de que nenhum CEO de uma corporação multinacional em nenhum lugar tem um mapa completo da cadeia mercantil de sua firma. [33] Normalmente, os financeiros e os representantes comerciais das corporações conhecem seus fornecedores de primeira camada [first-tier], mas não os de segunda camada (isso é, os fornecedores de seus fornecedores), muito menos os de terceira ou mesmo quarta camada. Como Elisabeth Braw escreve, na Foreign Policy, “Michael Essig, professor de gestão da cadeia de suprimentos na Universidade de Munique, calculou que uma companhia multinacional como a Volkswagen tem 5.000 fornecedores (os assim-chamados fornecedores de primeira camada), cada um com em média 250 fornecedores de segunda camada. Isso significa que a companhia tem efetivamente 1,25 milhão de fornecedores – a vasta maioria desconhecida”. E isso ainda desconsidera os fornecedores de terceira camada. Quando aconteceu a explosão do novo coronavírus em Wuhan na China, descobriu-se que 51 mil companhias ao redor do globo tinham ao menos um fornecedor direto em Wuhan, enquanto 5 milhões tinham ao menos um fornecedor de segunda camada. Em 27 de fevereiro de 2020, quando a interrupção da cadeia de suprimentos ainda estava, em boa medida, confinada à China, o Fórum Econômico Mundial declarou, citando um estudo de Dun e Bradstreet, que mais de 90% das corporações multinacionais da Fortune 1000 tinha um fornecedor de primeira ou segunda camada afetado pelo vírus. [34]


Os efeitos do SARS-CoV-2 tornaram urgente para as corporações tentar mapear toda a sua cadeia de mercadorias. Mas isso é incrivelmente complexo. Quando ocorreu o desastre nuclear de Fukushima, descobriu-se que na área de Fukushima era realizada 60% da produção mundial de autopeças fundamentais, grande parte da produção de químicos para pilhas/baterias de lítio e 22% da produção de wafers de silício de 300 milímetros – todos itens fundamentais para produção industrial. Na época, algumas corporações monopolistas-financeiras tentaram mapear suas cadeias de suprimentos. Segundo a revista Harvard Business Review, “executivos de uma fabricante de semicondutores japonesa contaram que uma equipe de 100 pessoas precisou de mais de um ano para mapear a rede de suprimentos da companhia em suas camadas mais profundas [sub-tiers] depois do terremoto e do tsunami [e do desastre nuclear de Fukushima] de 2011”. [35]


Diante de uma cadeia de mercadorias na qual muitos dos elos são invisíveis e que tem se rompido em diversos lugares simultaneamente, as corporações enfrentam as interrupções e incertezas naquilo que Marx chamou de “metamorfoses” na produção, distribuição e consumo dos produtos materiais, simultaneamente ao comportamento errático da demanda geral por suprimentos. Não há precedentes para a escala da pandemia do coronavírus e suas consequências sobre a acumulação mundial, com um custo econômico global ainda em ascensão. No fim de março, mais ou menos 3 bilhões de pessoas no planeta estavam em lockdown ou em distanciamento social. [36] A maior parte das corporações não tem um plano de contingência para lidar com quebras múltiplas em sua cadeia de suprimentos. [37] O tamanho do problema foi mostrado quando, nos primeiros meses de 2020, milhares de declarações de fornecedores, começando na China e se espalhando por outros lugares, indicavam a impossibilidade cumprir os contratos por motivos de força maior, em função de eventos externos extraordinários. Isso foi acompanhado por um grande número de “omissões” [blank sailings] em viagens agendadas de navios cargueiros, canceladas pelo atraso em bens por falta de oferta ou de demanda. [38] No começo de abril de 2020, a National Retail Federation [Federação Nacional de Varejistas] dos EUA indicou que março teve o menor número em cinco anos de embarcações em unidades equivalentes a 20 pés (de containers) nos cargueiros, e com a expectativa de que as embarcações despenquem ainda mais dali por diante. [39] O número de passageiros em voos aéreos, ao redor de todo o mundo, caiu por volta de 90%, levando as maiores empresas aéreas norte-americanas a alavancarem “a barriga e as cabines de passageiros das aeronaves [para redirecioná-las] para voos de carga, frequentemente removendo assentos e utilizando rotas vazias para garantir carga”. [40]


De acordo com as estimativas do início de abril da Organização Mundial do Comércio, o efeito colateral na economia da pandemia de COVID-19 poderia levar a uma queda no comércio mundial em 2020 de 13% no cenário mais otimista e de 32% no cenário mais pessimista. Neste caso, o colapso do comércio mundial igualaria, em um ano, aquilo que ocorreu em três anos da Grande Depressão dos anos 1930. [41]


Os terríveis efeitos da interrupção da cadeia global de suprimentos durante a pandemia foram particularmente evidentes no que diz respeito aos equipamentos médicos. A Premier, uma das principais organizações de compras para hospitais nos Estados Unidos, indicou que normalmente comprava até 24 milhões de máscaras N95 por ano para as organizações e o pessoal médico associados, enquanto, apenas em janeiro e fevereiro de 2020, seus membros usaram 56 milhões de máscaras. No fim de março, a Premier estava encomendando entre 110 e 150 milhões de máscaras, enquanto seus associados, como hospitais e asilos, indicavam que seus estoques mal seriam suficientes para pouco mais de uma semana. A demanda por máscaras de proteção disparou enquanto a oferta global ficou congelada. [42] Os kits de teste para COVID-19 também estavam com uma deficiência crônica e global de oferta até a China acelerar a produção no fim de março. [43]


Muitos outros bens também têm oferta insuficiente, enquanto, em um caos generalizado, armazéns estão lotados com bens como roupas de grife, cuja demanda despencou. No mundo da produção just-in-time e da concorrência baseada no tempo, estoques são geralmente reduzidos ao mínimo para reduzir custos. Sem nenhuma folga, automóveis e muitas outras cadeias de oferta varejista nos Estados Unidos provavelmente assistirão uma falta crônica de suprimentos no início de maio. Como dito por Peter Hasenkamp, que foi responsável pela gestão de suprimentos da Tesla e atualmente comanda as compras para a Lucid Motors: “É preciso ter 2.500 partes para construir um carro, mas não ter apenas uma para não construir”. Os kits de teste para COVID-19 ainda eram escassos nos Estados Unidos em parte por causa de uma escassez de cotonetes. [44] No meio de abril de 2020, 81% das firmas manufatureiras globais estava com falta de suprimentos, algo evidenciado pelo aumento de 44% das declarações de força maior em março com relação ao ano anterior à emergência do novo coronavírus e pelo aumento de 38% no fechamento de estabelecimentos de produção. O resultado não é apenas escassez de materiais, mas uma crise no fluxo de caixa e, assim, um enorme “pico nos riscos financeiros”. [45]


Para as empresas multinacionais de hoje, que pouco se importam com os valores de uso que vendem desde que gerem valor de troca, o impacto econômico real da interrupção das cadeias de suprimentos é seu efeito nas cadeias de valor – isso é, nos fluxos de valor de troca. Embora o efeito total sobre o valor na interrupção da cadeia global de suprimentos só possa ser conhecido daqui a algum tempo, uma indicação da crise gerada para acumulação pode ser vista nas perdas de valor que as empresas estão experimentando. Centenas de companhias, incluindo firmas como a Boeing, a Nike, a Hershey, a Sun Mincrosystems e a Cisco, já conheceram rupturas críticas na cadeia de mercadorias nas últimas décadas. Estudos baseados em algo como 800 casos mostraram que, em média, o efeito sobre as firmas de tais rupturas na cadeia de abastecimento incluem: “perdas de 107% das receitas operacionais; queda de 114% do retorno sobre vendas; queda de 93% no retorno dos ativos; crescimento das vendas 7% menor; aumento dos custos de 11%; e 14% de aumento nos estoques”, com os efeitos negativos normalmente durando por dois anos. O mesmo estudo indica que “empresas que sofrem com a interrupção da cadeia de suprimentos experimentam retorno sobre as ações entre 33 e 40% menor em relação à referência da indústria por um período de três anos, começando um ano antes e terminando dois anos depois da data do anúncio da interrupção. Além disso, a volatilidade do preço das ações no ano após a interrupção é 13,50% maior quando comparada à volatilidade no ano anterior à interrupção. [46]


Embora ninguém saiba como as coisas vão se desenrolar, mesmo para uma firma individual, o capital tem todos os motivos para temer as consequências sobre os processos de valorização e acumulação. Por toda parte, a produção está caindo e o desemprego/subemprego está disparando conforme as firmas dispensam trabalhadores que, nos Estados Unidos, são simplesmente deixados a sua própria sorte. As corporações estão correndo para abastecer suas cadeias de mercadorias e aparentar alguma estabilidade em meio ao que parece ser uma crise generalizada. Ademais, a interrupção de toda a cadeia de metamorfoses envolvida na arbitragem global de trabalho ameaça engendrar uma crise financeira em um mundo ainda caracterizado pela estagnação, pela dívida e pela financeirização.


Não menos importante, entre as vulnerabilidades expostas, está o que é chamado de financiamento da cadeia de suprimentos, que permite às empresas adiar pagamentos a fornecedores, com a ajuda do financiamento bancário. Segundo o Wall Street Journal, algumas empresas têm obrigações para financiar suas cadeias de suprimentos que fazem sua dívida líquida reportada parecer pequena. Essas dívidas com fornecedores são vendidas por outros sob a forma de notas de curto-prazo. A Credit Suisse tem notas de dívida de grandes empresas norte-americanas como a Kellog e a General Mills. Com uma interrupção geral das cadeias mercantis, essa intrincada cadeia financeira, que é em si alvo de especulação, entra ela mesma em crise, criando vulnerabilidades adicionais em um sistema financeiro já fragilizado. [47]


Imperialismo, classe e a pandemia


A SARS-CoV-2, como outros patógenos perigosos que emergiram ou reemergiram nos últimos anos, está relacionada com um conjunto complexo de fatores, incluindo: (1) o desenvolvimento do agronegócio global e sua expansão das monoculturas genéticas que aumentam a suscetibilidade de seres humanos e animais domesticados à contração de doenças zoonóticas vindas de animais selvagens; (2) a destruição dos habitats selvagens e a interrupção das atividades de espécies selvagens; e (3) a existência de seres humanos vivendo em proximidade. Há poucas dúvidas de que as cadeias globais de mercadorias, e os tipos de conectividade que elas produzem, tornaram-se vetores para a rápida transmissão da doença, pondo em questão esse padrão de exploração global. Como Stephen Roach da Yale School of Management, antigo economista chefe da Morgan Stanley e o principal responsável por cunhar o conceito de arbitragem global de trabalho, escreveu no contexto da crise do coronavírus, o que os setores financeiros das corporações queriam era “bens de baixo custo independentemente das implicações que essa eficiência de custo significasse em termos de investimento (ou falta de investimento) em saúde pública ou, também diria, em termos de investimento (ou falta de investimento) em proteção ambiental e na qualidade do clima”. Os resultados de uma abordagem tão insustentável sobre as “eficiências de custo” são as crises ecológica e epidemiológica globais contemporânea e suas consequências financeiras que desestabilizam ainda mais um sistema que já exibia um “aumento excessivo” típico de bolhas financeiras. [48]


Atualmente, os países ricos estão no epicentro da pandemia de COVID-19 e de suas consequências financeiras, mas a crise em geral, incluindo seus efeitos econômicos tanto quanto os epidemiológicos, atingirá os países mais pobres com ainda mais força. O modo como se lida com uma crise planetária desse tipo é em última instância filtrado pelo sistema de imperialismo e classe. Em março de 2020, a Equipe de Resposta ao COVID-19 do Imperial College de Londres lançou um documento indicando que num cenário global em que o SARS-CoV-2 não fosse mitigado, sem distanciamento social ou lockdowns, 40 milhões de pessoas no mundo morreriam, com taxas de mortalidade mais altas nos países ricos do que nos pobre, por causa da maior proporção das pessoas com mais de 65 anos quando comparada aos países pobres. Essa análise levou em consideração ostensivamente o maior acesso a cuidados médicos nos países ricos. Mas deixou de considerar fatores como a desnutrição, a pobreza e a maior suscetibilidade a doenças infecciosas nos países pobres. Ainda assim, as estimativas do Imperial College, baseadas nessas hipóteses, indicam que em cenário sem mitigação o número de mortes estaria na casa dos 15 milhões no leste da Ásia e no Pacífico, 7,6 milhões de pessoas no sul da Ásia, 3 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe, 2,5 milhões de pessoas na África subsaariana e 1,7 milhões no Oriente Médio e no Norte da África – comparado com 7,2 milhões na Europa e na Ásia Central e por volta de 3 milhões na América do Norte. [49]

Baseando sua análise na abordagem do Imperial College, Ahmed Mushfiq Mobarak e Zachary Barnett-Howell da Universidade de Yale escreveram um artigo para a revista Foreign Policy intitulado “Países pobres precisam pensar duas vezes sobre o distanciamento social”. Em seu artigo, Mobarak e Barnett-Howell foram bem explícitos, argumentando que “os modelos epidemiológicos deixam claro que o custo de não intervir, nos países ricos, seria de centenas de milhares ou de milhões de mortos, um resultado muito pior do que a mais profunda recessão econômica imaginável. Em outras palavras, as intervenções de distanciamento social e as políticas agressivas de fechamento, apesar de seus custos econômicos, são esmagadoramente justificadas nas sociedades de alta renda” – para salvar vidas. Contudo, o mesmo não é verdade, eles sugerem, para os países pobres, já que estes possuem relativamente menos indivíduos idosos em sua população, fazendo com que, segundo as estimativas do Imperial College, a taxa de mortalidade seja de apenas aproximadamente a metade da taxa daqueles. Esse modelo, os autores admitem, “não considera a maior incidência de doenças crônicas, doenças respiratórias, da poluição e da desnutrição nos países de baixa renda, coisas que aumentariam as taxas de fatalidade do surto de coronavírus”. Mas, em grande medida ignorando isso, em seu artigo (e em outro estudo relacionado no Departamento de Economia de Yale) os autores insistem que seria melhor, dados a pobreza e o grande desemprego/subemprego nesses países, que a população não praticasse o distanciamento social ou políticas agressivas de fechamento e testagem, e colocassem seus esforços na produção econômica, mantendo presumivelmente intacta a cadeia global de suprimentos que se inicia em países com baixos salários. [50] Sem dúvida as mortes de milhões de pessoas no Sul Global é considerada por esses autores um tradeoff razoável pela manutenção do crescimento do império do capital.


Como argumenta Mike Davis, o século XXI aponta para “uma triagem permanente da humanidade... condenando parte da raça humana a uma eventual extinção”. Ele indaga:


Mas o que acontecerá quando a COVID se espalhar entre populações com acesso mínimo a serviços médicos e níveis dramaticamente maiores de má nutrição, de problemas de saúde não tratados e de sistemas imunológicos prejudicados? A vantagem etária valerá muito pouco aos jovens pobres das favelas da África e do Sul da Ásia. 

Também há alguma possibilidade de que a infeção em massa nas favelas e cidades pobres possa transformar o modo de infeção do coronavírus e remodelar a natureza da doença. Antes da emergência do SARS, em 2003, epidemias de coronavírus altamente patogênicos estavam confinadas a animais domésticos, sobretudo porcos. Pesquisadores rapidamente reconheceram duas vias distintas de infecção: a fecal-oral, que atacava os tecidos do estômago e do intestino; e a respiratória, que atacava os pulmões. No primeiro caso, havia normalmente alta mortalidade, enquanto o segundo geralmente resultava em casos leves. Uma porcentagem pequena daqueles que atualmente testam positivo, especialmente abordo de cruzeiros, apresentam diarreia e vômito e, citando um relatório, “a possibilidade de transmissão do SARS-CoV-2 via esgoto, lixo, água contaminada, sistemas de ar condicionado e aerossóis não deve ser subestimada”.

A pandemia chegou agora às favelas da África e do Sul da Ásia, onde a contaminação fecal está por toda parte, na água, nos vegetais cultivados em casa, na poeira que o vento sopra. (Sim, tempestades de merda existem.) Isso favorecerá a via entérica da enfermidade? Ela será, como no caso dos animais, uma infeção mais letal, possivelmente em todos os grupos etários? [51]

O argumento de Davis deixa claro a imoralidade de uma posição que diz que o distanciamento social e as políticas agressivas de supressão das transmissões do vírus são respostas à pandemia que deveriam acontecer nos países ricos mas não nos pobres. Tais estratégias epidemiológicas imperialistas são ainda mais malignas ao tomar a pobreza das populações do Sul Global – o produto do imperialismo – como justificativa para uma abordagem malthusiana ou social-darwinista, na qual milhões morreria para manter a economia global crescendo, primariamente em benefício daqueles no alto do sistema. Contraste-se isso à abordagem adotada na Venezuela socialista, o país na América Latina com menor número de mortes per capita de COVID-19, onde o distanciamento social coletivamente organizado e a provisão social foi combinada com exames sistemáticos, personalizados e de grandes proporções para determinar quem é mais vulnerável, testagem maciça e expansão dos hospitais e dos sistemas de saúde, a partir dos modelos cubano e chinês. [52]


Economicamente, o Sul Global como um todo, independentemente dos efeitos diretos da pandemia, está destinado a pagar os maiores custos. A quebra das cadeias globais de suprimento, em função do cancelamento de pedidos do Norte Global (assim como das políticas de distanciamento social e dos lockdowns ao redor do mundo), e a remodelação da cadeia de mercadorias que se seguirá deixarão países e regiões inteiras devastadas. [53]

Aqui, é crucial reconhecer também que a pandemia de COVID-19 apareceu no meio de uma guerra econômica pela hegemonia global, declarada pela administração Trump contra a China, que foi responsável por algo em torno de 37% do crescimento cumulativo da economia global desde 2008. [54] Isso é visto pela administração Trump como uma guerra por outros meios. Como resultado da guerra tarifária, muitas empresas norte-americanas já retiraram a China de sua cadeia de suprimentos. A Levi’s, por exemplo, reduziu suas manufaturas na China de 16%, em 2017, para 1-2%, em 2019. Graças à guerra tarifária e à pandemia de COVID-19, dois terços entre 160 executivos entrevistados de várias indústrias nos Estados Unidos indicaram recentemente que já haviam movido, pretendiam mover ou estavam considerando mover suas operações da China para o México, onde o custo unitário do trabalho é atualmente comparável e onde estariam mais próximos do mercado norte-americano. [55] A guerra econômica de Washington contra a China é atualmente tão destrutiva que a administração Trump recusou-se a reduzir tarifas de equipamento de proteção individual, essenciais para os profissionais da saúde, até o fim de março. [56] Trump, enquanto isso, indicou Peter Navarro, o economista encarregado de sua guerra econômica pela hegemonia com a China, como diretor do Defense Production Act [Lei da Produção para a Defesa] para lidar com a crise do COVID-19. Desempenhando seus papeis de dirigir a guerra comercial norte-americana contra a China e de coordenador da política da Lei da Produção para a Defesa, Navarro acusou a china de introduzir um “choque comercial” que “acabou com 5 milhões de empregos industriais e 70 mil fábricas” e “matou dezenas de milhares de americanos” ao destruir seus empregos, suas famílias e sua saúde. Ele agora tem dito que isso foi seguido do “choque do vírus chinês”. [57] Sobre essa base propagandística, Navarro continuou a integrar as políticas norte-americanas a respeito da pandemia com necessidade de lutar contra o chamado “vírus chinês” e de retirar as cadeias de suprimento norte-americanas da China. Ainda assim, como mais ou menos um terço de todos os bens industriais intermediários são atualmente produzidos na China, especialmente nos setores de alta tecnologia, e considerando o que continua a ser fundamental para a arbitragem global de trabalho, a tentativa de tal reestruturação será altamente perturbadora, supondo que seja realmente possível. [58]


Algumas multinacionais que retiraram sua produção da China aprenderam do jeito mais difícil que essa decisão não “os livrou” de sua dependência daquele país. A Samsung, por exemplo, migrou suas fábricas de componentes eletrônicos da China para o Vietnã – um destino de várias empresas ansiosas para escapar da guerra tarifária. Mas o Vietnã também é vulnerável, pois depende pesadamente da China para obter materiais e partes intermediárias. [59] Casos semelhantes ocorreram outros países vizinhos do sudeste asiático. A China é o maior parceiro comercial da Indonésia, algo entre 20% e 50% das matérias-primas industriais do país vêm da China. Em fevereiro, fábricas em Batam, na Indonésia, já tinham que lidar com a redução das matérias-primas chinesas (necessárias para 70% do que era produzido na região). As empresas que estavam lá afirmaram que consideraram adquirir os materiais de outros países “mas isso não é exatamente fácil”. Para muitas fábricas, a única opção possível era “cessar completamente as operações”. [60] Capitalistas como Cao Dewang, o bilionário chinês que fundou a Fuyao Glass Industry, prevê o enfraquecimento do papel da China na cadeia de suprimentos global depois da pandemia mas conclui que, ao menos no curto-prazo, “é difícil encontrar uma economia para substituir a China na cadeia industrial global” – citando muitas dificuldades com a “deficiência na infraestrutura” do sudeste asiático, os altos custos salariais no Norte Global e os obstáculos que os “países ricos” têm de enfrentar se quiserem “reconstruir a indústria interna”. [61] A crise do COVID-19 não deve ser tratada como o resultado de forças exógenas ou como um evento imprevisível (um “cisne negro”), mas sim como algo que está dentro de uma complexa tendência à crise que é altamente previsível, embora não em termos de sua data efetiva. Hoje, o centro do sistema capitalista confronta-se com uma estagnação secular em termos de investimento e produção dependendo para se expandir e concentrar riqueza de taxas de juros historicamente baixas, grandes níveis de endividamento, da drenagem de capitais do resto do mundo e da especulação financeira. A desigualdade de renda e riqueza está alcançando níveis sem precedentes. A fenda ecológica mundial atingiu proporções planetárias e está criando um ambiente em que o planeta deixa de ser um lugar seguro para a humanidade. Novas pandemias se levantam sobre a base de um sistema de capital monopolista-financeiro global que se tornou o maior vetor de disseminação. Os sistemas estatais, por toda parte, regridem a níveis elevados de repressão, seja sob o manto do neoliberalismo ou do neofascismo.


A natureza extraordinariamente exploradora e destrutiva do sistema é evidente no fato de que trabalhadores de colarinho azul foram em todos os lugares declarados essenciais [essential critical infrastructure workers] (um conceito formalizado nos Estados Unidos pelo Departamento de Segurança Interna) e devem continuar a produzir, na maior parte das vezes sem equipamento de proteção, enquanto classes mais privilegiadas e dispensáveis praticam o distanciamento social. [62] Um verdadeiro lockdown seria muito mais extenso e exigiria provisão e planejamento estatais, garantindo que toda a população fosse protegida, ao invés de se concentrar no socorro a interesses financeiros. É exatamente por causa da natureza de classe do distanciamento social, assim como do acesso a renda, moradia, recursos e atendimento médico, que a morbidade e a mortalidade por COVID-19 nos Estados Unidos estão recaindo primariamente sobre a população negra, onde as condições de injustiça econômica e ambiental são mais severas. [63]


Produção social e metabolismo planetário


Para a visão materialista de Marx é fundamental o que ele chamou de “hierarquia de... necessidades”. [64] Isso significava que seres humanos eram seres materiais, partes de mundo natural, ao mesmo tempo em que criavam seu próprio mundo social em seu interior. Como seres materiais precisavam satisfazer suas necessidades materiais antes de tudo – comer, beber, prover comida, abrigo, vestimentas e condições de uma existência saudável, antes de perseguir necessidades mais desenvolvidas, necessárias para a completa realização do potencial humano. [65] Ainda assim, nas sociedades de classe o que sempre ocorreu é que a vasta maioria, os produtores reais, foi relegada a condições nas quais era aprisionada numa batalha incessante para satisfazer suas necessidades mais básicas. Não houve mudanças significativas nisso. Apesar da enorme riqueza criada nos últimos séculos de crescimento, milhões e milhões de pessoas, mesmo na sociedade capitalista mais rica, continuam a ter condições precárias de acesso a coisas tão básicas quanto segurança alimentar, moradia, água limpa, assistência médica e transporte – num contexto em que três bilionários nos Estados Unidos são tão ricos quanto a metade mais pobre da população.


Enquanto isso, os ambientes locais e regionais estão em perigo – assim como todo os ecossistemas mundiais e a Terra em si enquanto um lugar seguro para a humanidade. Uma ênfase nas “eficiências de custo” globais (um eufemismo para terra barata e trabalho barato) levou capitais multinacionais a criar um sistema complexo de cadeias globais de mercadorias, desenhadas em cada elemento para maximizar a sobre/superexploração do trabalho numa escala mundial, enquanto também transformavam todo o mundo em um mercado imobiliário, em grande parte para se tornar campo de operação para o agronegócio. O resultado foi uma grande drenagem de excedente da periferia do sistema global e uma pilhagem dos bens comuns do planeta. Na estreiteza da contabilidade de valor empregada pelo capital, a maior parte da existência material, incluindo toda Terra e as condições sociais dos seres humanos, com tanto que não entrem no mercado, é considerada como externalidades, a serem roubadas e saqueadas em nome dos interesses da acumulação de capital. O que foi erroneamente caracterizado como a “tragédia dos comuns” é mais bem entendido, como Guy Standing notou em Plunder of the Commons, como “a tragédia da privatização”. Hoje, o famoso Paradoxo de Lauderdale, introduzido pelo Conde de Lauderdale no início do século XIX, segundo o qual a riqueza pública é destruída para expandir as riquezas privadas, tem todo o planeta como campo de atuação. [66]


Os circuitos do capital do imperialismo tardio levaram essas tendências às últimas consequências, gerando em pouco tempo uma crise ecológica planetária que ameaça engolir a civilização humana como conhecemos; uma tempestade perfeita catastrófica. Isso vem a completar um sistema de acumulação já divorciado de qualquer ordenamento racional das necessidades da população independente do nexo monetário. [67] A acumulação e a concentração de riqueza em geral são crescentemente dependentes da proliferação de todo tipo de desperdício. Em meio ao desastre, uma Nova Guerra Fria e a crescente probabilidade de uma destruição termonuclear surgiu, com a instabilidade crescente e a agressividade norte-americana em sua vanguarda. Isso levou o Bulletin of Atomic Scientists a ajustar seu famoso Relógio do Apocalipse para 100 segundos para meia-noite, o mais perto de meia-noite que o relógio já esteve desde que começou a ser feito em 1947. [68]


A pandemia de COVID-19 e a ameaça de mais e mais mortais pandemias é um produto desse mesmo desenvolvimento do imperialismo tardio. As cadeias de exploração e expropriação globais desestabilizaram não só a relação entre o ambiente e as espécies mas também as relações das espécies entre si, criando um fermento tóxico para novos patógenos. Tudo isso pode ser encarado como resultado da introdução do agronegócio e de suas monoculturas genéticas; da destruição maciça do ecossistema envolvida na mistura descontrolada de espécies; e no sistema de valorização global baseado na ameaça à terra, aos corpos, às espécies e aos ecossistemas entendidos como “amostras grátis” a serem expropriadas, sem se preocupar com limites naturais ou sociais.


Nem é possível dizer que os novos vírus são os únicos novos problemas de saúde global. O abuso de antibióticos no agronegócio e a medicina moderna levaram ao crescimento nocivo de superbactérias, aumentando o número de mortes, que em meados do século superaria as mortes anuais por câncer, levando a Organização Mundial da Saúde a declarar uma “emergência de saúde global”. [69] Considerando que as doenças contagiosas, devido às condições desiguais da sociedade de classes capitalista, afetam esmagadoramente a classe trabalhadora, os pobres e a população da periferia, o sistema que gera essas doenças em sua busca por riqueza quantitativa pode ser acusado, como foi por Engels e pelos Cartistas nos século XIX, de assassinato social. Como sugeriram os desenvolvimentos revolucionários na epidemiologia representados pela Uma saúde e a Uma saúde estrutural, a etiologia da nova pandemia pode ser encontrada no problema geral da destruição ecológica conduzida pelo capitalismo.


Aqui, a necessidade de “reconstituição revolucionária da sociedade em geral” vem mais uma vez à tona, como tantas vezes no passado. [70] A lógica do desenvolvimento histórico contemporâneo aponta para a necessidade de um sistema de reprodução social metabólica mais baseado no comunal-comum, em que os produtores associados racionalmente regulem seu metabolismo social com a natureza, de modo a promover o desenvolvimento livre de cada um como base do desenvolvimento livre de todos, enquanto conserva a energia e o meio ambiente. [71] O futuro da humanidade no século XXI não está no crescimento da exploração/expropriação econômica e ecológica, no imperialismo, nem na guerra. Ao contrário, o que Marx chamou de “liberdade em geral” e a preservação de um “metabolismo planetário” viável são as necessidades mais urgentes hoje para determinar o presente, o futuro e, até mesmo, a sobrevivência da humanidade. [72]


Notas:


[1] Ver John Bellamy Foster, “Late Imperialism,” Monthly Review, v. 71, n. 3, jul.–ago. 2019. pp. 1–19; Samir Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital, and Marx’s Law of Value. Nova York: Monthly Review Press, 2018.

[2] Sobre a arbitragem global de trabalho e as cadeias de mercadorias, ver Intan Suwandi, Value Chains. Nova York: Monthly Review Press, 2019, pp. 32–33, 53–54. Nossa análise estatística sobre os custos unitários de trabalho foi feita em colaboração com R. Jamil Jonna e publicada em “Global Commodity Chains and the New Imperialism,” Monthly Review. v. 70, n. 10, mar. 2019, pp. 1–24. Sobre a arbitragem global de terra, ver Eric Holt-Giménez, A Foodie’s Guide to Capitalism. Nova York: Monthly Review Press, 2017, pp. 102–4.

[3] Evan Tarver, “Value Chain vs. Supply Chain,” Investopedia, 24 de março, 2020.

[4] Karl Marx, “The Value Form,” Capital and Class. v. 2, n. 1, 1978, p. 134; Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, v. 36. Nova York: International Publishers, 1996, p. 63. Ver também Karl Marx, Capital, L. 1. Londres: Penguin, 1976, pp. 156, 215; Marx, Capital, L. 2. Londres: Penguin, 1978, pp. 136–37. [NT: Marx, K. O capital, Livro 2. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 43]

[5] Rudolf Hilferding, Finance Capital. Londres: Routledge, 1981, p. 60. [NT: Hilferding, R. O capital financeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 65]

[6] Terence Hopkins and Immanuel Wallerstein, “Commodity Chains in the World Economy Prior to 1800,” Review, v. 10, n. 1, 1986, p. 157–70.

[7] Marx, Capital, L. 1, p. 638. [NT: Marx, K. O capital, Livro 1, tomo 2. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 133, nota 323]

[8] Karl Marx, Capital, L. 3. Londres: Penguin, 1981, p. 949–50 [ NT: Marx, K. O capital, Livro 3. São Paulo: Boitempo, 2017, p.873] ; Marx, Capital, L. 1, p. 348–49 [NT: Marx, K. O capital, Livro 1, tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 353].

[9] Robert G. Wallace, Luke Bergmann, Richard Kock, Marius Gilbert, Lenny Hogerwerf, Rodrick Wallace e Mollie Holmberg, “The Dawn of Structural One Health: A New Science Tracking Disease Emergence Along Circuits of Capital”, Social Science and Medicine, n. 129, 2015. pp. 68–77; Rob [Robert G.] Wallace, “We Need a Structural One Health”, Farming Pathogens, ago. 3, 2012; J. Zinsstag, “Convergence of EcoHealth and One Health”, Ecohealth 9, n. 4, 2012, pp. 371–73; Victor Galaz, Melissa Leach, Ian Scoones e Christian Stein, “The Political Economy of One Health”, STEPS Centre, Political Economy of Knowledge and Policy Working Paper Series, 2015.

[10] Rodrick Wallace, Luis Fernando Chavez, Luke R. Bergmann, Constância Ayres, Lenny Hogerwerf, Richard Kock e Robert G. Wallace, Clear-Cutting Disease Control: Capital-Led Deforestation, Public Health Austerity, and Vector-Borne Infection. Cham, Suíça: Springer, 2018, p. 2.

[11] Wallace et al., “The Dawn of Structural One Health”, pp. 70–72; Wallace, “We Need a Structural One Health”; Rob Wallace, Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace, “COVID-19 and Circuits of Capital”, Monthly Review, v. 72, n.1, maio 2020, p. 12; István Mészáros, Beyond Capital. Nova York: Monthly Review Press, 1995; Richard Levins e Richard Lewontin, The Dialectical Biologist. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985.

[12] Rob Wallace, Big Farms Make Big Flu. Nova York: Monthly Review Press, 2016, pp. 60–61, 118, 120–21, 217–19, 236, 332; Rob Wallace, “Notes on a Novel Coronavirus,” MR Online, jan. 29, 2020. Sobre o Paradoxo de Lauderdale, ver John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York, The Ecological Rift. Nova York: Monthly Review Press, 2010, p. 53–72.

[13] Ver John Bellamy Foster, The Return of Nature. Nova York: Monthly Review Press, 2020, pp. 61-64, 172-204; Frederick Engels, The Condition of the Working Class in England. Chicago: Academy Chicago, 1984; E. Ray Lankester, The Kingdom of Man. Nova York: Henry Holt, 1911, pp. 31–33, 159–91; Richard Levins, “Is Capitalism a Disease?,” Monthly Review, v. 52, n. 4, set. 2000, p. 8–33. Ver também Howard Waitzkin, The Second Sickness. Nova York: Free Press, 1983.

[14] Wallace, Big Farms Make Big Flu, p. 53.

[15] Wallace, Big Farms Make Big Flu, p. 49.

[16] Wallace, Big Farms Make Big Flu, pp. 33–34.

[17] Wallace, Big Farms Make Big Flu, p. 81.

[18] Mathilde Paul, Virginie Baritaux, Sirichai Wongnarkpet, Chaitep Poolkhet, Weerapong Thanapongtharm, François Roger, Pascal Bonnet e Christian Ducrot, “Practices Associated with Highly Pathogenic Avian Influenza Spread in Traditional Poultry Marketing Chains”, Acta Tropica, n. 126, 2013: pp. 43–53.

[19] Wallace, Big Farms Make Big Flu, p. 306; Wallace et al., “The Dawn of Structural One Health”, pp. 69, 71, 73.

[20] Wallace et al., “COVID-19 and Circuits of Capital”, p. 11. [NT: Trecho traduzido por Beatriz Santos e Maria Carolina Sanglard (com revisão de Rhaysa Ruas), disponível em GONÇALVES, G. L. (Org.). Covid-19, Capitalismo e Crise: bibliografia comentada. Rio de Janeiro: LEICC/Revista Direito e Práxis, 2020, pp.61-62].

[21] Holt-Giménez, A Foodie’s Guide to Capitalism, pp. 102–5.

[22] Philip McMichael, “Feeding the World”, in: Leo Panitch and Colin Leys (Ed.). Socialist Register 2007: Coming to Terms with Nature. Nova York: Monthly Review Press, 2007, p. 180.

[23] Farshad Araghi, “The Great Global Enclosure of Our Times”, in: Fred Magdoff, John Bellamy Foster e Fredrick H. Buttel (Ed.). Hungry for Profit. Nova York: Monthly Review Press, 2000, pp. 145–60.

[24] Wallace et. al., “COVID-19 and Circuits of Capital”, p. 6 [NT: Trecho traduzido por Beatriz Santos e Maria Carolina Sanglard (com revisão: Rhaysa Ruas), disponível em GONÇALVES, G. L. (Org.). Covid-19, Capitalismo e Crise: bibliografia comentada. Rio de Janeiro: LEICC/Revista Direito e Práxis, 2020. p.57]; Mike Davis, Planet of Slums. Londres: Verso, 2016; Mike Davis em entrevista concedida a Mada Masr, “Mike Davis on Pandemics, Super-Capitalism, and the Struggles of Tomorrow”, Mada Masr, 30 de março, 2020.

[25] Wallace, Big Farms Make Big Flu, p. 61. Sobre o significado dos conceitos de residual e de resíduo na dialética, ver J. D. Bernal, “Dialectical Materialism”, in: Hyman Levy et. al (Ed.) Aspects of Dialectical Materialism. Londres: Watts and Co., 1934, pp. 103–4; Henri Lefebvre. Metaphilosophy. Londres: Verso, 2016, pp. 299–300.

[26] Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, v. 25. Nova York: International Publishers, 1975, pp. 460–61; Lankester, The Kingdom of Man, p. 159.

[27] Matt Leonard, “What Procurement Managers Should Expect from a Bullwhip on Crack,” Supply Chain Dive, 26 de março, 2020.

[28] Sobre a concorrência baseada no tempo e a produção just-in-time, ver “What Is Time-Based Competition”, Boston Consulting Group.

[29] Suwandi, Value Chains, pp. 59–61; John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century. Nova York: Monthly Review Press, 2016.

[30] Walden Bello, “Coronavirus and the Death of ‘Connectivity’”, Foreign Policy in Focus, 22 de março de 2010; “Annual Growth in Global Air Traffic Passenger Demand from 2006 to 2020”, Statista, acesso em 22 de abril de 2020.

[31] Shannon K. O’Neil, “How to Pandemic Proof Globalization,” Foreign Affairs, 1o de April de 2020.

[32] Stefano Feltri, “Why Coronavirus Triggered the First Global Supply Chain Crisis,” Pro-Market, 5 de março de 2020.

[33] Elisabeth Braw, “Blindsided on the Supply Side,” Foreign Policy, 4 de março de 2020.

[34] Francisco Betti e Per Kristian Hong, “Coronavirus Is Disrupting Global Value Chains. Here’s How Companies Can Respond”, Fórum Econômico Mundial, 27 de fevereiro de 2020; Braw, “Blindsided on the Supply Side”.

[35] Braw, “Blindsided on the Supply Side”; Thomas Y. Choi, Dale Rogers e Bindiya Vakil, “Coronavirus is a Wake-Up Call for Supply Chain Management”, Harvard Business Review, 27 de março de 2020.

[36]Nearly 3 Billion People Around the Globe Under COVID-19 Lockdowns”, Forum Econômico Mundial, 26 de março de 2020.

[37] Lizzie O’Leary, “The Modern Supply Chain Is Snapping”, Atlantic, 19 de março de 2020.

[38] Choi et. al., “Coronavirus is a Wake-Up Call for Supply Chain Management”; Willy Shih, “COVID-19 and Global Supply Chains: Watch Out for Bullwhip Effects”, Forbes, 21 de fevereiro de 2020.

[39]Estimated March Imports Hit Five Year-Low, Declines Expected to Continue Amid Pandemic”, National Retail Federation, 7 de abril de 2020.

[40] Emma Cosgrove, “FAA Offers Safety Guidance for Passenger Planes Ferrying Cargo”, Supply Chain Dive, 17 de abril de 2020.

[41]Trade Set to Plunge as COVID-19 Pandemic Upends Global Economy”, Organização Mundial do Comércio, 8 de abril de 2020; S. L. Fuller, “WTO: 2020 Trade Levels Could Rival the Great Depression”, Supply Chain Dive, 9 de abril de 2020.

[42] Deborah Abrams Kaplan, “Why Supply Chain Data is King in the Coronavirus Pandemic”, Supply Chain Dive, 7 de abril de 2020; O’Leary, “The Modern Supply Chain Is Snapping”; Chad P. Bown, “COVID-19: Trump’s Curbs on Exports of Medical Gear Put Americans and Others at Risk”, Peterson Institute for International Economics, 9 de abril de 2020; Shefali Kapadia, “From Section 301 to COVID-19”, Supply Chain Dive, 31 de março de 2020.

[43] Finbarr Bermingham, Sidney Leng e Echo Xie, “China Ramps Up COVID-19 Test Kit Exports Amid Global Shortage, as Domestic Demand Dries Up”, South China Morning Post, 30 de março de 2020.

[44] Kapadia, “From Section 301 to COVID-19”; “Companies’ Supply Chains Vulnerable to Coronavirus Shocks”, Financial Times, 8 de março de 2020; Bermingham, Leng e Xie, “China Ramps Up COVID-19 Test Kit Exports”.

[45]COVID-19: Where Is Your Supply Chain Disruption?,” Future of Sourcing, 3 de abril de 2020.

[46] Thomas A. Foster, “Risky Business: The True Cost of Supply-Side Disruptions,” Supply Chain Brain, 1o de maio de 2005; Kevin Hendricks and Vinod R. Singhal, “The Effect of Supply Chain Disruptions on Long-Term Shareholder Profitability, and Share Price Volatility”, junho de 2005, disponível em <http://supplychainmagazine.fr.>.

[47] “Supply-Chain Finance is New Risk in Crisis”, Wall Street Journal, 4 de abril de 2020; “CNE/CIS Trade Finance Survey 2017”, BNE Intellinews, 3 de abril de 2017.

[48] Stephen Roach, “This Is Not the Usual Buy-on-Dips Market”, Economic Times, 18 de março de 2020.

[49] Equipe de Resposta ao COVID-19 do Imperial College, Report 12: The Global Impact of COVID-19 and Strategies for Mitigation and Suppression. Londres: Imperial College, 2020, pp. 3–4, 11.

[50] Ahmed Mushfiq Mobarak e Zachary Barnett-Howell, “Poor Countries Need to Think Twice About Social Distancing”, Foreign Policy, 10 de abril de 2020; Zachary Barnett-Howell e Ahmed Mushfiq Mobarak, “The Benefits and Costs of Social Distancing in Rich and Poor Countries”, ArXiv, 10 de abril de 2020.

[51] Davis, “Mike Davis on Pandemics, Super-Capitalism, and the Struggles of Tomorrow.”

[52]President Maduro: Venezuela Faces the COVID-19 With Voluntary Quarantine Without Curfew or State of Exception”, Orinoco Tribune, 18 de abril de 2020; Frederico Fuentes, “Venezuela: Community Organization Key to Fighting COVID-19”, Green Left, 9 de abril de 2020.

[53] “Analysis: The Pandemic Is Ravaging the World’s Poor Even If They Are Untouched by the Virus”, Washington Post, 15 de abril de 2020; Matt Leonard, “India, Bangladesh Close Factories Amid Coronavirus Lockdown”, Supply Chain Dive, 26 de março de 2020; Finbarr Bermingham, “Global Trade Braces for ‘Tidal Wave’ Ahead, as Shutdown Batters Supply Chains”, South China Morning Post, 3 de abril de 2020; I. P. Singh, “Punjab: ‘No Orders, No Raw Material,'” Times of India, 1o de abril de 2020.

[54] Roach, “This Is Not the Usual Buy-On-Dips Market”.

[55] Kapadia, “From Section 301 to COVID-19”

[56] Bown, “COVID-19: Trump’s Curbs on Exports of Medical Gear”.

[57] David Ruccio, “The China Syndrome”, Occasional Links and Commentary, 14 de abril de 2020; Alan Rappeport, “Navarro Calls Medical Experts ‘Tone Deaf’ Over Coronavirus Shutdown,” New York Times, 13 de abril de 2020; John Bellamy Foster, Trump in the White House . Nova York: Monthly Review Press, 2017, pp. 84–85.

[58] Cary Huang, “Is the Coronavirus Fatal for Economic Globalisation?”, South China Morning Post, 15 de março de 2020; Frank Tang, “American Factory Boss Says Pandemic Will Change China’s Role in Global Supply Chain,”South China Morning Post, 15 de abril de 2020.

[59] John Reed e Song Jung-a, “Samsung Flies Phone Parts to Vietnam After Coronavirus Hits Supply Chains”, Financial Times, 16 de fevereiro 2020; Finbarr Bermingham, “Vietnam Lured Factories During Trade War, but Now Faces Big Hit as Parts from China Stop Flowing”, South China Morning Post, 28 de fevereiro de 2020.

[60] Fadli, “Batam Factories at Risk as Coronavirus Outbreak Stops Shipments of Raw Materials from China”, Jakarta Post, 18 de fevereiro de 2020; “Covid-19: Indonesia Waives Income Tax for Manufacturing Workers for Six Months”, Star, 16 de março de 2020.

[61] Tang, “American Factory Boss Says Pandemic Will Change China’s Role in Global Supply Chain”.

[62] Christopher C. Krebs, “Advisory Memorandum on Identification of Essential Critical Infrastructure Workers”, U.S. Department of Homeland Security, 28 de março de 2020.

[63] Lauren Chambers, “Data Show that COVID-19 is Hitting Essential Workers and People of Color Hardest”, Data for Justice Project, American Civil Liberties Union, 7 de abril de 2020.

[64] Karl Marx, Texts on Method. Oxford: Basil Blackwell, 1975, p. 195.

[65] Frederick Engels, “The Funeral of Karl Marx”, in: Philip S. Foner (Ed.). Karl Marx Remembered. São Francisco: Synthesis, 1983, p. 39.

[66] Guy Standing, Plunder of the Commons: A Manifesto for Sharing Public Health. Londres: Pelican, 2019, p. 49; John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature. Nova York: Monthly Review Press, 2020, pp. 167–72.

[67] John Bellamy Foster e Robert W. McChesney, The Endless Crisis. Nova York: Monthly Review Press, 2012.

[68]It’s Now 100 Seconds to Midnight”, Bulletin of Atomic Scientists, 23 de janeiro de 2020.

[69] “Microbial Resistance a Global Health Emergency”, UN News, 12 de novembro de 2018; Ian Angus, “Superbugs in the Anthropocene”, Monthly Review, v. 71, n. 2, jun. 2019.

[70] Karl Marx e Frederick Engels, The Communist Manifesto. Nova York: Monthly Review Press, 1964, p. 2.

[71] Karl Marx, Capital, v. 3, p. 949.

[72] Karl Marx e Frederick Engels, Collected Works, v. 1. Nova York: International Publishers, 1975, p. 173; Wallace et al., “COVID-19 and Circuits of Capital.”





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