Considerações sobre o avanço do COVID-19 na África

Este texto propõe apresentar algumas informações bastante introdutórias sobre a situação atual do continente africano, baseada nos dados oficiais disponíveis, que se deve desde o início reconhecer como bastante precários e insuficientes

Por Gilberto Calil

Entendemos que os dados aqui apresentados devem ser lidos e analisados levando-se em consideração sua conexão com os enormes problemas e desafios econômicos, políticos e sociais, e portanto indicamos como referência fundamental o debate “Covid-19 e o continente africano”, com Jean Montezuma, Monicah Gachuki e Waldemar Oliveira, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=NCuvMmD-bFk. Especificamente em relação às fontes de dados, utilizamos um site de acompanhamento internacional, mas referências mais específicas podem ser buscadas nos endereços https://www.afro.who.int/health-topics/coronavirus-covid-19, https://www.hopkinsmedicine.org/coronavirus/ e https://africacdc.org/covid-19/. A situação do continente africano vem se agravando, ainda que na maioria dos países o número de mortes permaneça baixo. Em grande parte deles, os primeiros casos ocorreram apenas entre o final de março e o início de abril, em virtude do menor fluxo internacional, o que determina que até o momento o continente ainda detenha um percentual baixo do total de mortes mundiais (inferior a 1%). Os três países com maior número de casos e mortes são de população árabe e integram a África do Norte, em virtude da maior proximidade com o continente europeu (Argélia e Marrocos) e com o Oriente Médio (Egito), seguidos pela África do Sul, país com expressivo fluxo turístico. No conjunto do continente, o número de mortes nos últimos dez dias cresceu 39%, um índice bastante superior à média mundial, que é de 29% e que se distribui de forma muito desigual no continente. A projeção para os próximos dias, no entanto, é pior, já que neste mesmo período de dez dias, o número de casos teve um crescimento muito superior, de 141%, passando de 19.920 para 48.075, mais de 5 vezes superior ao crescimento do número de casos no mundo (26%) no mesmo período. O quadro a seguir sintetiza algumas informações sobre esta evolução:


Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries, 5.5.2020. (*) Outros países com mortos: Senegal (10), Brazzaville (10),Chade (10), Guiné (9), Togo (9), Serra Leoa (9), Gabão (6), Zimbawe (4), Etiópia (3), Zâmbia (3), Malawi (3), Líbia (3), Guiné Equatorial (3), São Tomé e Príncipe (3), Djibouti (2), Angola (2), Cabo Verde (2), Benin (2), Mauritânia (1), Bostwana (1), Burundi (1), Eswatini (1), Guiné Bissau (1), Gambia (1). Excluímos da conta Ilhas Maurício, que tem 10 mortes e Mayotte (6 mortes), por serem, respectivamente, colônias inglesa e francesa.


Dentre os 18 países com maior número de mortes, quatro mais do que dobraram no período: Nigéria (3x), Sudão (2.56x), Libéria (2.25x) e Somália (2.19x), outros nove cresceram acima da média mundial (1.29x), e apenas 4 cresceram menos que isto. Articulando-se esta informação ao crescimento do número de casos, em ritmo semelhante, desenha-se um quadro de iminente agravamento da situação.


A debilidade dos sistemas de saúdes compromete a confiabilidade dos dados, o que se explicita na baixíssima testagem da maioria dos países. Apenas um país (Djibouti) tem mais de 10.000 testes por milhão e outros cinco tem entre 2.000 e 5.000 testes por milhão. Todos os demais tem um número inexpressivo de testes: 31 tem menos 2.000 testes por milhão, e outros 16 sequer apresentam dados públicos.

Em termos regionais, verifica-se ainda um peso maior dos casos concentrados no Norte da África, apesar do crescimento em outras regiões, em especial a África Ocidental, em países como Nigéria, Burkina Faso, Níger e Mali:



Em países que em sua maioria são extremamente pobres, muitos dos quais sob regimes políticos autoritários e que se utilizam da situação para aprofundar mecanismos de controle e coerção, o estabelecimento e a manutenção dos mecanismos necessários à contenção da pandemia são bastante dificultados e produz diversos impactos. A aceleração da expansão da pandemia e as enormes dificuldades para manutenção por maior período das medidas de isolamento social e/ou lockdown, associados à enorme desigualdade e precariedade dos sistemas de saúde e à quase total ausência de solidariedade e ajuda internacionais, indicam um cenário muito preocupante e que tende a se agravar já nas próximas semanas.

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