Considerações sobre a evolução da pandemia nos últimos dias no mundo e no Brasil

Análise dos dados divulgados pelas organizações de saúde nacionais e internacionais

Por Gilberto Calil Para analisar o quadro atual de evolução da pandemia, tomamos em consideração os dados dos 15 países com mais de mil mortos no período de 14 dias. Em princípio, seria preferível considerar o número de casos, tendo em vista que entre a contaminação e o óbito decorre um período de dias ou semanas, e portanto a evolução dos óbitos retrata uma realidade da contaminação ocorrida muitos dias antes. No entanto, a disparidade de dados da contaminação e o enorme patamar de subnotificação de alguns países (em especial o Brasil) inviabiliza qualquer comparação destes dados. Embora o número de mortes igualmente este subnotificado [1], é menos distante da realidade, e por isto utilizamos este dado para a comparação.

O quadro abaixo reúne os dados de mortes, casos totais e testes dos 15 países com mais mortes registradas, e calcula o crescimento do número de mortes no período de duas semanas. Incluímos também a Coréia do Sul, por já ter estado entre os países com maior número de mortes e ter conseguido controlar sua expansão, a ponto de hoje ser o 32º do mundo em número de mortes.

Crescimento do número de mortes por Covid-19 registrados em duas semanas


A observação mais geral que se pode fazer é que o ritmo de crescimento no mundo (considerando sempre a variação em 14 dias) vem diminuindo de forma consistente. Há duas semanas era de 4.43 vezes, há uma semana era de 3.31 vezes e agora está em 2.22. Isto demonstra de forma inequívoca os efeitos das políticas de isolamento social. As diferenças de ritmo entre os países, por sua vez, expressam as diferenças de enfoque, intensidade e rigor destas políticas.

Todos os países considerados no quadro tiveram diminuição no índice em relação ao cálculo de dois dias atrás. Espanha e Itália tiveram crescimento de 56% e 46% em duas semanas, bem abaixo da média mundial, mas mesmo assim seguem com uma média superior a 500 mortes diárias nas últimas duas semanas. Canadá e Brasil tem a pior situação, com um ritmo de crescimento mais de duas vezes superior à média mundial. Os Estados Unidos seguem com o maior número de mortes e de novos casos, em números absolutos. Nos últimos dias, um terço dos novos casos no mundo vem sendo nos Estados Unidos. A China retificou seus números e reconheceu mais 1.290 mortes ocorridas em fevereiro, mas incorporadas nos dados oficiais apenas agora. Portanto, o índice de crescimento de 39% expressa especialmente estes dados retroativos, pois nas últimas duas semanas o país registrou apenas 11 mortes.

Dentre os países que tem entre 350 e 1.000 mortes, não incluídos no quadro, alguns tiveram crescimento superior a 3 vezes no período, o que indica uma situação muito preocupante. São eles: Rússia (8.6), Peru (4.84), Índia (4.35), Irlanda (3.94) e Polônia (3.55). O Japão, que tinha a situação sob controle e buscou acelerar a retomada das atividades, voltou a ter crescimento muito expressivo (2.85).

O número de testes realizados no Brasil foi atualizado, passando a 1.373 por milhão (291.922 no total). Ainda assim é um índice baixíssimo, mesmo em comparação com os países que menos testam no grupo: o Irã fez 3.3 vezes mais testes, e a França 2.3 vezes. Já países como Alemanha, Itália e Suíça testaram proporcionalmente entre 15 e 20 vezes mais que o Brasil. Em números absolutos, é o 16º do mundo, sendo o Brasil o 6º mais populoso do mundo, estando abaixo da Venezuela, que tem uma população sete vezes menor.

O ritmo de crescimento do número de mortes no Brasil, a despeito da enorme subnotificação e da demora nos resultados dos exames, segue elevadíssimo. Nos últimos dias este índice vem diminuindo (6.02 há quatro dias, 5.31 há dois e 4.59 agora), mas esta diminuição expressa a situação do contágio há duas ou três semanas, quando o grau de isolamento social era maior. Portanto, não é possível ter certeza de que esta diminuição seguirá ocorrendo. Ao contrário, é possível que nos próximos dias venhamos a enfrentar um novo incremento. Se por hipótese considerarmos que este ritmo se mantenha-se o mesmo (4.59 vezes em 14 dias), o número de mortes no Brasil atingiria 11.874 em 4/5, 54.503 em 14/5 e 250.069 em 1.6. Não se trata de uma previsão, mas de uma indicação do que ocorreria caso o ritmo não diminua de forma expressiva.

Um dados especialmente preocupante é que o Brasil já é segundo país com maior número de pacientes internados em estado grave. Enquanto temos 1.6% do total de casos e 1.5% do total de mortes, concentramos hoje 14.5% dos pacientes em estado grave – 8.318 dentre 57.638:


Outro dado igualmente preocupante em relação à evolução da pandemia no Brasil é que há um crescimento do percentual de mortes de pacientes mais jovens, que parece já expressar o início do colapso do sistema de saúde:


Se considerarmos apenas os casos registrados no período entre 11/4 e 20/4, temos que 30.5% dos mortos tinha até 59 anos (314 dentre 1.033), um índice 27% superior ao da semana anterior (30.5/24). É sabido que os jovens são igualmente suscetíveis à contaminação, e que tem taxas de letalidades menores. Mas isto se deve não apenas ao fato de que uma parcela menor dentre eles necessita de internação, mas também que dentre os que necessitam internação, os mais jovens tentem a responder melhor ao tratamento. O que só se efetiva se puderem contar com leitos disponíveis e, sempre que necessário, também com respiradores. Caso contrário, o índice de letalidade aumenta também entre os mais jovens. [2]

Por último, é sempre necessário reafirmar que neste contexto as manifestações de Jair Bolsonaro, clamando repetidamente pela “volta à normalidade”, pelo retorno das aulas, pela reabertura do comércio e pelo fim do isolamento social, são estritamente criminosas e genocidas. Em manifestação no dia 20 de abril, Bolsonaro afirmou que queiram ou não, “70% da população vai ser contaminada”. [3] 70% de 212 milhões de brasileiros significaria 148.400.000 contaminados. Considerando uma taxa de letalidade de 2.2% [4] sobre este número de contaminados, teríamos 3.264.800 mortos. Isto sem considerar o acréscimo decorrente do colapso do sistema de saúde. Não pode restar dúvidas de que se trata de uma política genocida.


NOTAS


[1] Estudo indica que o número real de mortes, calculado no dia 15 de abril, podia ser entre 2 e 9 vezes superior ao dado oficial.


[2] É o que parece ter sido o caso da escrivã de polícia Raquel Albuquerque, 50 anos, morta no carro depois de ter atendimento recusado em vários hospitais em Belém.


[3] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/18/interna_politica,845999/70-da-populacao-vai-ser-contaminada-diz-bolsonaro-a-apoiadores.shtml


[4] De acordo com o wordonetes.info, a letalidade média atual é de 2.8% entre os homens e 1.7% entre as mulheres. No entanto, o cálculo desde índice considera o número de mortos em relação ao total de infectados, e dentre estes há pacientes que estão internados em estado grave. Na conta em relação aos recuperados, o índice sobe para 2.8% entre as mulheres e 4.7% entre os homens. Consideramos aqui o índice mais baixo.

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