Como fazer um lápis: se a gente quiser, o capitalismo acaba

Em vez de esperar que uma descoberta em inteligência artificial alcance essa meta por nós, deveríamos começar a desenvolver hoje os protocolos do futuro

Por Aaron Benanav*

Texto publicado originalmente no site DigiLabour


Como seria uma economia socialista? As respostas a essa questão variam, mas a maioria delas envolve a noção de planejamento. Uma economia capitalista é organizada por meio da interação entre preços e mercado. Uma economia socialista, por contraste, seria “conscientemente regulada (…) de acordo com um plano estabelecido”, para tomar emprestada uma frase de Marx. Porém, como tal plano seria feito e implementado? Essa tem sido uma questão de debate acirrado entre socialistas por mais de um século.


Um dos campos do debate colocou particular ênfase nos computadores. Esses “socialistas digitais” enxergam os computadores como a chave para administrar uma economia planejada. Seu foco está nos algoritmos: eles querem projetar softwares que possam receber informações sobre as preferências do consumidor e as capacidades de produção industrial – como uma peneira gigantesca alimentando um moedor de dados – e determinar as alocações ótimas dos recursos.


Ao longo dos anos, ocorreram alguns experimentos seguindo essas linhas. Nos anos 1960, o matemático soviético Victor Glushkov propôs uma rede nacional de computadores para ajudar os planejadores a alocar os recursos. Com o auxílio do ciberneticista inglês Stafford Beer, a administração de Salvador Allende no Chile tentou algo similar nos anos 1970, chamado de Cybersyn. Nenhum dos projetos chegou muito longe. A ideia de Glushkov encontrou resistência das lideranças soviéticas, enquanto o golpe de Pinochet eliminou o Cybersyn antes dele estar completamente implementado. De qualquer modo, o sonho continua vivo.


Hoje obviamente o socialismo digital pode fazer muito mais. A internet possibilitaria canalizar grandes quantidades de informação de todas as partes do mundo para sistemas de planejamento, quase instantaneamente. Saltos gigantescos na capacidade de computação tornariam possível processar todos esses dados rapidamente. Enquanto isso, o aprendizado de máquina e outras formas de inteligência artificial poderiam vasculhá-los, para descobrir padrões emergentes e ajustar a alocação de recursos apropriadamente. Em A República Popular do Walmart (The People’s Republic of Walmart), Leigh Phillips e Michal Rozworski argumentam que grandes empresas como Walmart e Amazon já usam essas ferramentas digitais para planejamento interno – e que agora elas precisam apenas ser adaptadas para uso socialista.


Embora certamente existam potenciais emancipatórios aqui, elas estão longe de ser adequados à tarefa de planejar a produção num mundo pós-capitalista. O foco do socialismo digital nos algoritmos apresenta um sério problema. Ele corre o risco de restringir os processos de tomada de decisão de uma futura sociedade socialista a focar estritamente na otimização: produzir o máximo possível usando o mínimo de recursos. Percorrer esse caminho é ignorar e descartar vastas quantidades de informação qualitativa, que permanecem cruciais para alcançar muitos dos fins e objetivos de uma sociedade socialista.


Afinal de contas, as sociedades do futuro desejarão fazer mais do que apenas produzir o máximo possível usando o mínimo de recursos. Elas terão outros objetivos, que são mais difíceis de quantificar, como querer abordar temas sobre justiça, equidade, qualidade do trabalho e sustentabilidade – e essas não são apenas questões de otimização. Isso significa que, não importa quão poderoso seja o algoritmo de planejamento, permanecerá uma dimensão irredutivelmente política para as decisões de planejamento – para as quais os cálculos algorítmicos, não importa quão inteligentes, podem servir apenas como um pobre substituto. Os algoritmos são essenciais para qualquer projeto de planejamento socialista porque eles podem ajudar a esclarecer as opções dentre as quais precisamos escolher. Mas, os seres humanos, não os computadores, devem, em última instância, ser aqueles a fazer essas escolhas. E eles devem fazê-las juntos, de acordo com os procedimentos acordados.


É aí que entram os protocolos de planejamento. Eles agilizam a tomada de decisões ao esclarecer as regras pelas quais as decisões são tomadas. Implementadas conjuntamente com os algoritmos, os protocolos permitem que uma variedade de considerações – além daquelas disponíveis para um programa de otimização – entrem no processo de planejamento. Poderíamos dizer que há uma divisão de trabalho entre algoritmos e protocolos – os primeiros descartam opções irrelevantes ou duplicadas, esclarecendo as decisões a serem tomadas por meio dos últimos.


Colocando algoritmos e protocolos para trabalhar, as pessoas podem planejar a produção com computadores de maneira a permitir que seus conhecimentos práticos, assim como seus valores, fins e intuitos se tornem integrantes das decisões de produção. O resultado é algo que nem o capitalismo nem o socialismo soviético permitiram: um modo de produção verdadeiramente humano.


O preço está certo


Qualquer tentativa séria de planejamento socialista tem que lidar com os problemas colocados pelo “debate do cálculo socialista”, uma discussão de décadas que influenciou o modo como gerações de socialistas imaginaram um futuro pós-capitalista. O economista austríaco de direita Ludwig von Mises deu o pontapé inicial do debate em 1920 com o texto “O cálculo econômico sob o socialismo”, um ataque frontal à viabilidade do planejamento socialista.


À época, essa não era apenas uma questão teórica. A revolução estava bem encaminhada, não apenas na Rússia, mas também na Alemanha, e bem próxima na Itália e em outros países. Os socialistas afirmavam que, com os capitalistas postos de lado, eles poderiam usar as máquinas modernas para construir um novo tipo de sociedade, orientada em torno das necessidades humanas em vez do lucro. Todos teriam acesso aos bens e serviços de que necessitavam, enquanto trabalhavam menos.


Mises argumentou que os socialistas estavam errados em ambos os aspectos. Em vez disso, as pessoas em uma sociedade socialista trabalhariam mais horas e receberiam menos por isso. Isso se daria porque, em sua visão, a eficiência das economias modernas estava inextricavelmente conectada com sua organização por meio do mercado, com suas instituições associadas do dinheiro e da propriedade privada. Livre-se dessas instituições, e, então, as tecnologias desenvolvidas durante o curso da era capitalista tornariam-se fundamentalmente inúteis, forçando as sociedades a regredir a um estado tecnológico menos avançado.


Para ilustrar o ponto de Mises, vamos tomar um simples exemplo: a fabricação de um lápis. O gerente de uma fábrica de lápis deve tomar muitas decisões de produção, porque há muitas maneiras de fazer um lápis com seus componentes. Como um fabricante de lápis decide como fazer seu “produto final”, o lápis, a partir de todos os “produtos intermediários” possíveis, os vários tipos de grafite, madeira, tinta e demais coisas que entram em sua fabricação?


Numa sociedade capitalista, ele começa verificando o catálogo de preços, onde ele descobre que o grafite A custa 35 centavos por grama, enquanto o grafite B custa 37 centavos. Se os dois funcionarem, sua escolha é clara. Esse gerente pode realizar o mesmo teste de preços para todos os insumos relevantes, a fim de chegar, de maneira rápida e acurada, ao caminho mais racional de se fazer um lápis. Ele não precisa entender como todas as atividades da sociedade se somam a uma economia geral.


Os preços permitem que os fabricantes de lápis rapidamente ponham de lado numerosos procedimentos para a produção de um lápis que resultariam em lápis funcionais, mas ao custo de desperdiçar recursos naturais ou mão de obra que seriam melhor empregados em outro lugar. Se recebessem toneladas de madeira de cocobolo ou de pau d’arco de alta qualidade, os fabricantes de lápis poderiam sem dúvidas fazer bons lápis. Porém, isso seria um desperdício se alguma outra árvore, como o humilde cedro, fornecesse madeira que funcionasse tão bem quanto as demais.


É claro que os preços que os fabricantes de lápis usam para tomar decisões de produção não são apenas números aleatórios. Eles são expressão de uma sociedade de mercado viva, caracterizada pela tomada de decisões descentralizada, envolvendo um grande número de produtores e consumidores. Os mercados pressionam todos os produtores a ajustarem os preços. Se for possível, por exemplo, fazer lápis mais barato sem sacrificar a qualidade ao usar uma nova técnica, a empresa que assim o fizer ganhará um lucro considerável. As novas informações sobre as possibilidades de produção aparecerão no sistema como um preço mais baixo de lápis.


Cada produtor pode tomar decisões racionais sobre o que e como produzir, apenas porque uma luta pela supremacia do mercado força os produtores a maximizar suas receitas e minimizar seus custos. Todos esses produtores dependentes do mercado absorvem informações com o melhor de suas habilidades, tomam decisões e assumem riscos em busca de novas possibilidades de produção e recompensas monetárias correspondentes. Os planejadores socialistas possivelmente não poderiam reproduzir um sistema tão complexo, acreditava Mises, porque eles nunca teriam mais informações do que os participantes do mercado mediados pelo mecanismo de preço.


Em última instância, os preços dizem aos produtores quais possibilidades de produção têm alguma chance de gerar lucro. Sem os preços, argumentou Mises, a alocação racional de ativos se torna impossível.


Erros fatais


O que impressiona na descrição que Mises faz do capitalismo é que ele já se mostra como altamente algorítmico. Em sua explicação, os gerentes da fábrica de lápis se comportam como um programa de computador. Eles coletam informações de preços sobre insumos intermediários e, então, seguem uma regra simples: escolher a opção mais barata para cada insumo que não prolongue o tempo de produção ou leve a uma inaceitável redução na demanda.


Muitos socialistas responderam ao desafio de Mises aceitando sua premissa básica e então buscaram escrever o seu próprio algoritmo. Em outras palavras, eles queriam mostrar que os planejadores poderiam criar um substituto para o sistema de preços que poderia gerar informações suficientes a fim de chegar às decisões de produção corretas para uma sociedade socialista.


O economista polonês Oskar Lange e o economista russo-britânico Abba Lerner foram os primeiros a desenvolver essa ideia. Suas propostas, elaboradas ao longo das décadas de 1930 e 1940, envolviam planejadores socialistas “sentindo” seu caminho rumo aos preços adequados por meio de tentativa e erro. Por exemplo, os planejadores podem definir o preço de um bem intermediário essencial para se fazer um lápis e, na sequência, ajustar esse preço conforme necessário, até que a oferta do produto final corresponda à demanda do consumidor. Uma série de aproximações chegaria cada vez mais perto do resultado verdadeiro, bem parecido com um computador calculando 𝝅 por meio de uma sequência de pequenas adições ou subtrações.


Quando Lange e Lerner estavam escrevendo, a computação digital moderna não existia. Mas, ao fim da vida de Lange, à medida que os computadores surgiram, ele discutiu a possibilidade de que eles pudessem realizar esse trabalho de adivinhação de preços bem melhor do que os humanos. Essa linha de pensamento foi adotada por socialistas digitais contemporâneos, que apontam para desenvolvimentos na matemática aplicada como evidência de que poderíamos acabar com o sistema de preços, calculando, em vez disso, as alocações ótimas dos recursos com formas avançadas de programação.


Afinal de contas, temos mais dados do que nunca, assim como uma quantidade sem precedentes de poder de processamento para realizar cálculos (computation) com esses dados. Empresas gigantescas como Walmart e Amazon já usam algoritmos avançados para colocar todos esses dados trabalhando para planejar suas operações internas. Então, a promessa do socialismo algorítmico pode finalmente ser realizada?


Não tão rápido. Os defensores do socialismo algorítmico interpretam erroneamente a posição de Mises no debate do cálculo socialista e, assim, falham em responder adequadamente às suas críticas. Para Mises, o desafio está em como alocar bens intermediários para os produtores de bens finais. Isso não é algo que empresas como Walmart e Amazon façam, pela simples razão de que essas empresas distribuem produtos em vez de fabricá-los. As firmas que fornecem lápis para Amazon e Walmart ainda dependem dos sinais de mercado para descobrir a melhor maneira de fazer seus produtos.


Como Friedrich Hayek, aluno de Mises, mais tarde enfatizou, uma economia não é um conjunto de equações esperando ser resolvido, seja com um sistema de preços capitalista ou um computador socialista. É melhor entendida como uma rede de tomadores de decisão, cada qual com suas próprias motivações, usando as informações para tomar decisões e gerando, por sua vez, informações. Mesmo em uma economia capitalista altamente mediada digitalmente, essas decisões são coordenadas por meio da concorrência de mercado. Para que qualquer sistema alternativo seja viável, os seres humanos ainda precisam estar diretamente envolvidos na tomada de decisões de produção, mas coordenado de uma maneira diferente.


Como observou Hayek, dirigir uma empresa envolve raciocínio prático, adquirido ao longo de anos de existência. Para reproduzir o trabalho do gerente numa fábrica de lápis, um algoritmo de planejamento teria que saber não apenas sobre a oferta e a demanda para cada tipo de grafite usado na fabricação de um lápis, mas também sobre as implicações detalhadas em escolher um tipo de grafite e não outro naquele local específico de produção, com suas máquinas e forças de trabalho específicas. É possível que se possa formalizar todo esse conhecimento em regras explícitas que um computador poderia executar. Contudo, as dificuldades envolvidas em articular essas regras em todos os locais de trabalho, em todos os setores, são simplesmente atordoantes.


Mises e Hayek estavam corretos ao observar que a participação das pessoas nas tomadas de decisões permanecerá essencial para o funcionamento de qualquer economia. Ainda assim, a visão deles também estabelece limites estritos sobre quem tem a oportunidade de exercer essa agência. No capitalismo, as pessoas envolvidas na tomada de decisões de produção são gerentes. Eles representam apenas uma pequena fração no número total de pessoas envolvidas na produção e eles não necessitam consultar todas aquelas outras pessoas quando tomam decisões – exceto na medida em que são forçados a fazê-lo dessa maneira por lei ou contrato.


Desse modo, os gerentes estão livres para visar economizar dentro de limites amplamente definidos. Caso suas decisões requeiram que um extenso número de trabalhadores de uma cidade perca seus empregos – porque, por exemplo, a fábrica de lápis está sendo transferida para um lugar com custos de mão-de-obra mais baixos – essa é uma decisão, assim, que o gerente pode tomar sem perguntar à população da cidade. Para que o mercado funcione, portanto, o poder de tomar decisões deve estar concentrado em relativamente poucas mãos.


Em uma sociedade socialista, entretanto, toda a população controlaria a produção. O poder de tomar decisões seria democratizado e isso quase certamente levaria a diferentes maneiras de tomar decisões. Caso as pessoas começassem a gerir seus próprios locais de trabalho, provavelmente elas decidiriam introduzir todo tipo de mudança, tais como aquelas relacionadas às condições de trabalho, por exemplo, ou a maneira como as tarefas são organizadas e atribuídas. A eficiência, quer seja calculada em termos de uso de energia, consumo de recursos ou tempo de trabalho, permaneceria uma preocupação, mas não seria mais a única. Ela seria simplesmente uma dentre várias. Outras considerações – dignidade, justiça, comunidade, sustentabilidade – também comporiam o quadro.


Essas outras considerações não poderiam ser facilmente absorvidas em um algoritmo de otimização unidimensional, não obstante, pela simples razão de que não há uma maneira confiável de reduzi-las a uma única e quantitativa unidade de cálculo. Mesmo unidades naturais, como toneladas de ferro ou gramas de penicilina, se provariam inadequadas. Qual a unidade natural de justiça? Dadas essas restrições, o computador mais avançado no planeta ainda não conseguiria determinar o plano correto de produção porque as diferentes escolhas estão enraizadas em valores e visões do bem em disputa – em outras palavras, elas são escolhas políticas.


Se o planejamento socialista é puramente algorítmico, ele executa decisões de maneira similar às empresas capitalistas. Ele reitera a lógica do capitalismo em outro registro: o que importa é a extração de informação quantitativa relevante em relação à confusão da vida qualitativa. Porém, é somente nessa confusão que o conteúdo do socialismo pode ser encontrado.


Construindo protocolos


Como uma maior variedade de objetivos qualitativos pode se tornar parte do processo de planejamento, a ser buscada para o próprio bem? Para responder a essa questão, precisamos nos voltar ao trabalho do filósofo vienense Otto Neurath.


Neurath foi um dos alvos originais do ataque de Mises contra o planejamento nos anos 1920. Ele é lembrado hoje como o teórico do planejamento total – uma frase que incorretamente conjura a imagem de engenheiros sociais administrando a economia de uma sala de controle. Nada poderia ser mais distante da visão de Neurath. Ao contrário, Neurath defendia que uma economia socialista teria que ser altamente democrática – precisamente porque ela não pode ser puramente algorítmica.


Para Neurath, o caráter algorítmico do sistema de preços era um problema a ser superado, ao invés de algo que os socialistas deveriam tentar replicar. Em uma economia capitalista, os gerentes só são capazes de tomar decisões bem definidas com relação ao custo-benefício porque eles podem ignorar todos os custos não-econômicos delas, os quais incluem a destruição de comunidades, a miséria dos trabalhadores, o esgotamento de recursos não renováveis e o enchimento de lixo no mundo. Decisões economicamente racionais no nível da empresa fazem parte da configuração de uma sociedade cada vez mais irracional.


Então, em vez de somente otimizar visando eficiência, os socialistas precisam descobrir como incorporar múltiplos critérios qualitativos diretamente em seu mecanismo de planejamento. A questão que os socialistas enfrentam não é a quantificação como tal. Eles poderiam provavelmente quantificar muitos dos critérios relevantes para seu processo de produção – estabelecendo índices de sustentabilidade e segurança, por exemplo. Entretanto, destilar todos esses indicadores relevantes para uma unidade de medida sugere um grau de comensurabilidade entre metas que é exatamente o que os socialistas gostariam de superar.


Uma sociedade capitalista que quer reduzir a poluição precisa definir limites jurídicos sobre quanto cada fábrica pode poluir, permitindo que essas empresas continuem a otimizar suas estratégias produtivas, mas agora sob novas restrições. Isso, por sua vez, cria incentivos para que as fábricas de lápis contornem essas restrições – e elas podem ter grandes lucros, se descobrirem como poluir sem serem pegas. Por contraste, uma sociedade socialista gostaria de ter a redução da poluição como um objetivo a ser atingido para seu próprio bem. Ela buscaria maneiras não só para limitar a poluição na fábrica de lápis, mas para melhorar positivamente o ambiente – aumentando a qualidade do ar, plantando árvores e assim por diante – onde quer que isso não exclua a busca por outras metas.


Tal abordagem requer muito mais do que mera otimização. Ao invés de tentar converter todas as qualidade e quantidade da vida para uma métrica unificadora que possa ser algoritmicamente otimizada, nós precisamos encontrar uma forma de lidar com aquelas qualidades e quantidades em suas próprias medidas. Precisamos ser capazes de tomar decisões de planejamento com base em critérios múltiplos e incomensuráveis e coordenar essas decisões através da sociedade. Para fazer isso, precisamos ter procedimentos previamente estabelecidos para tomar tais decisões coletivamente: os protocolos.


Há muitas maneiras de se projetar um protocolo de planejamento. Ele poderia ser tão simples como o voto de toda a população, com a maioria decidindo o resultado, ou ele poderia assumir a forma de um procedimento de licitação complexo, como um leilão. Um protocolo poderia até ser um jogo, com um conjunto de regras que especifiquem quem pode jogar, quais ações cada jogador pode realizar e quais alocações na vida real resultam de diferentes resultados. Há muitas possibilidades, mas o tema unificador é a necessidade de elaborar protocolos que permitam que seres humanos reais tomem decisões holísticas levando uma variedade de critérios em consideração.


Neurath expôs sua versão do protocolo de planejamento – um termo que ele próprio não usou – em Economic Plan and Calculation in Kind [Plano Econômico e Cálculo em Espécie], um ensaio que ele escreveu em 1925. O planejamento começa com planejadores especialistas reduzindo o “número ilimitado de planos econômicos” que são “possíveis” para alguns “exemplos característicos”. Esses planejadores fazem os cálculos algorítmicos, os quais esclarecem as opções dentre as quais as pessoas devem decidir. Eles avaliam alguns planos diferentes em múltiplos critérios e decidem qual preferem: ouvindo os comentários, expressando suas preocupações e votando.


Neurath acreditava que tal processo permitiria emergir um tipo particular de racionalidade. Ele defendia que nós poderíamos decidir racionalmente mesmo onde fosse provado ser impossível fazer cálculos claros e precisos. Entretanto, a racionalidade que implantarmos será uma prática e política, ao invés de uma puramente algorítmica. As pessoas terão a chance de expressar tanto suas preocupações como seus desejos, antes de chegar a uma decisão coletiva sobre como moldar, restringir e direcionar o processo produtivo. Elas irão equilibrar quanto querem consumir em comparação a quanto querem trabalhar. Elas pesarão a necessidade de energia para o aquecimento de suas casas e o funcionamento de seus locais de trabalho em comparação a valores como sustentabilidade ecológica e justiça intergeracional. Elas decidirão quanto tempo e recursos seriam reservados para a expansão ou transformação produtiva e quanto para atividades culturais, atléticas e intelectuais.


No modelo de Neurath, as decisões tomadas coletivamente, no nível mais alto, seriam, então, filtradas pelo resto da economia para serem implementadas em várias indústrias e locais de trabalho. Mas, como exatamente isso funcionaria? Como são tomadas as decisões de produção locais? O que acontece se surgem conflitos ou colisões – por exemplo, entre decisões da sociedade como um todo e demandas de trabalhadores em fábricas de lápis, produzindo bens para atender às necessidades da sociedade?


Essas complexidades sugerem que o que nós precisamos não é um protocolo único para toda a sociedade, mas muitos protocolos – muitas formas de comunicação estruturadas, que permitam que as pessoas cheguem a decisões juntas. Os algoritmos teriam um importante papel a desempenhar. Eles codificariam o que o filósofo John O’Neill descreve como “regras práticas, procedimentos padrão e arranjos institucionais que podem ser seguidos irrefletidamente e que reduzem o escopo para julgamentos explícitos”, simplificando o processo de planejamento para que ele não se torne uma série de reuniões sem fim. Ao mesmo tempo, nós precisaríamos de algum conjunto de regras para unir todos os protocolos e integrá-los com os algoritmos, a fim de criar um aparato unificado de planejamento baseado em software que sejafácil de usar, transparente em seus resultados e aberto a modificações.


Afinal, mesmo que incorporemos metas qualitativas em nosso planejamento, nós ainda temos que resolver o problema do cálculo socialista. Os produtores ainda têm que tomar decisões que resultem em um plano de produção coerente.


Produtores Livremente Associados


A ênfase de Neurath na tomada democrática de decisão era essencial. Mas, ao propor a ideia do protocolo, ele levantou mais questões que podia responder, especialmente com a limitação das tecnologias disponíveis para ele naquele tempo. Rumo ao final de sua vida, Neurath gastou anos tentando demonstrar como camponeses semialfabetizados e trabalhadores urbanos poderiam ser incorporados em um protocolo de planejamento através da distribuição de representações gráficas simples, que ele chamou de isótipos.


Hoje, a alfabetização está disseminada ao redor do mundo e celulares são comuns mesmo em áreas remotas. As possibilidades de um socialismo de protocolo são, correspondentemente, maiores. Entretanto, para que tomadas de decisão sobre a produção sejam verdadeiramente democráticas, elas não podem simplesmente ser uma questão de um plebiscito de mídias sociais infinito rolando pela tela de cada celular – pela simples razão de que muitos indivíduos não têm o conhecimento prático necessário para tomar a maioria das decisões sobre a produção.


A participação na tomada de cada decisão, portanto, geralmente precisa ser limitada àqueles envolvidos na e afetados por cada decisão sendo tomada, com somente decisões que dizem respeito a todos sendo levadas para a sociedade como um todo. A coordenação deve se localizar, em outras palavras, majoritariamente dentro e entre associações. Essas associações podem ser formadas por produtores, consumidores ou outros grupos de pessoas com identidades e interesses comuns.


Neurath viu esse futuro vagamente, através das lentes das mobilizações sociais de seu tempo. Durante a Primeira Guerra Mundial, massas de trabalhadores juntaram-se a movimentos militantes de base na demanda por democracia no local de trabalho, incluindo o Industrial Workers of the World [Trabalhadores Industriais do Mundo] nos Estados Unidos, o Shop Stewards Movement [Movimento de Administradores de Lojas] no Reino Unido, os conselhistas [councilists] na Alemanha e os anarcossindicalistas na Espanha, França e Itália. Uma questão que surgiu nessas organizações era sobre como coordenar a produção entre locais de trabalho controlados por trabalhadores. Muitas vezes, para obter uma resposta, os teóricos se voltavam para os preços de mercado ou cálculos semelhantes aos preços como o trabalho-tempo, antecipando o posterior modelo de Lange-Lerner de um socialismo algorítmico.


Neurath esperava que os conselhos, as guildas e outras associações poderiam encontrar outra maneira de avançar. Em particular, ele especulava que eles poderiam ser capazes de usar os protocolos de planejamento para fazer suas próprias comparações diretas entre diferentes “formas de trabalhar” – levando em consideração muitos e variados critérios que não poderiam “ser reduzidos a uma única unidade” -, enquanto colaboravam uns com os outros para ajudar a cumprir as metas de toda a sociedade.


As tecnologias digitais de hoje podem tornar mais fáceis que ocorram tais comparações e colaborações. Podem ser algoritmicamente atribuídos tokens ou “pontos” à associação de produtores de lápis – como no modelo de socialismo digital do economista Daniel Saros – em que a associação usa para fazer lances em grafite, madeira e outros bens intermediários, em um esforço para encontrar a melhor maneira de fazer um lápis. Periodicamente, a associação de produtores de lápis encontraria, então, com outras associações que consumam grafite. Elas examinariam os padrões de alocação existentes, levariam em consideração as metas sociais mais amplas e alterariam o protocolo de alocação de grafite adequadamente. O que, de outra forma, teria sido uma série de reuniões impossivelmente longas, se não intermináveis, pode se tornar, com a ajuda dos algoritmos e dos protocolos, algo mais administrável – um processo de planejamento simplificado, capaz de empreender ajustes complexos em múltiplos critérios.


Saindo de qualquer ponto de partida, os socialistas do futuro podem então começar a alterar a forma geral de seu aparato produtivo. Por exemplo, eles podem se comprometer com a redução da semana de trabalho em 10% nos próximos cinco anos, sem uma perda significativa na capacidade produtiva. As associações de trabalhadores e consumidores considerariam, então, as opções disponíveis para melhorarem os níveis produtivos nas áreas específicas que os preocupam. As novas tecnologias podem aumentar a produtividade do trabalho em fábricas de lápis, mas requerem um maior rápido esgotamento das reservas florestais. Enquanto isso, uma nova forma de organização dos hospitais pode resultar em menos trabalho para as enfermeiras, mas ao custo de menor qualidade no cuidado com idosos. Qual a posição das diferentes associações de trabalhadores e consumidores nessas questões?


As associações fariam recomendações e chegariam a decisões através da comparação direta de planos disponíveis, considerando as consequências que cada inovação que o aumento da produtividade teria sobre outras questões com as quais seus membros se importam, como sustentabilidade e justiça. Em um determinado ponto, um comitê poderia comparar as metas de toda sociedade com a redução do trabalho às realizações reais, olhando para os pontos críticos, teorizando soluções e ajustando os incentivos para priorizar adequadamente certos tipos de trabalho.


Desta perspectiva, é fácil ver que um processo de planejamento não surgiria totalmente formado com o aperto de um botão em um painel algorítmico. Nem a produção seria constantemente revolucionada – ao custo de deslocar vidas humanas e da destruição do ambiente. Em vez disso, ajustes passo a passo tornariam o processo de produção sempre mais racional – no sentido neurathiano, não no capitalista – em uma variedade ampla de critérios. As próprias pessoas proporiam, debateriam e implementariam melhorias para si mesmas.


O aparato produtivo teria mais em comum com uma “floresta de alimentos” do que com uma fábrica – um jardim de plantas comestíveis, cultivadas por centenas de anos e projetadas para prover uma multiplicidade de necessidades, tanto espirituais como materiais. Ele conectaria o passado ao futuro, através de gerações. Seria uma herança comum que tornou possível que as massas da humanidade vivam e trabalhem como quiserem. Para além desse reino compartilhado de obrigações mútuas, um reino ampliado de liberdade abrhow progressivamente espaço para experimentações radicais, que poderiam ser exploradas por todos, sem colocar em risco a segurança material ou a liberdade individual de ninguém.


Uma Boate para Produtores de Lápis


As tecnologias digitais ajudarão na construção de uma sociedade socialista, mas o papel que elas desempenharão precisa ser esclarecido. Nós não queremos que softwares substituam o mecanismo de preços. Não importa quão digitalmente mediada a sociedade socialista se torne, ela nunca será capaz de escapar da necessidade de deliberação democrática em todos os níveis. Os seres humanos nunca serão simples seguidores de regras. Eles olham além das regras, às vezes para o benefício social, às vezes para vantagens pessoais e, frequentemente, para ambos.


Ao mesmo tempo, nós temos que aceitar que deliberar indefinidamente é indesejável e fadado ao fracasso. Para funcionar, uma sociedade que substitua o foco único no controle de custo pela tomada de decisão baseada em múltiplos critérios, deve usar algoritmos para ajudar a esclarecer as escolhas a serem feitas e protocolos para ajudar a estruturar a forma como ela faz essas escolhas. Nós não podemos depender de um mecanismo único e unificado para esse propósito; nós precisaremos de muitos. E um debate aberto deve modificar esses mecanismos quando eles gerarem maus resultados ou ameaçarem dar origem a novas formas de dominação.


Ao projetar nossos protocolos e algoritmos, é crucial lembrar que o ponto desse processo de transformação social não é apenas tornar o trabalho melhor, mas também trabalhar menos. Muitas vezes os socialistas viram o trabalho como a mais alta realização da liberdade humana. Na verdade, o trabalho nunca será uma atividade totalmente livre, mas, em mundo não mais submetido ao imperativo capitalista de crescer, as tecnologias avançadas podem reduzir substancialmente a quantidade de trabalho exigida de cada indivíduo. Com mais tempo livre e espaço disponível, todos os indivíduos serão capazes de desenvolver suas personalidades fora de uma identidade centrada no trabalho.


Os produtores de lápis do mundo poderiam então ser livres para se dedicarem a uma maior variedade de objetivos, seja começar uma academia especializada ou uma boate, se unir a uma trupe de teatro ou formar uma sociedade científica amadora. Uma rica e variada vida além do trabalho somente é possível se o trabalho for organizado de uma forma que seja justa, racional e resistente a quaisquer forças que possam emergir para subjugar os seres humanos novamente. Em vez de esperar que uma descoberta em inteligência artificial alcance essa meta por nós, deveríamos começar a desenvolver hoje os protocolos do futuro.



*Aaron Benanav é pesquisador da Humboldt University em Berlin e autor de Automation and the Future of Work


Tradução: Manoel Dourado Bastos e Guilherme Bernardi

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