Cinco apontamentos sobre os índices de Bolsonaro, a partir das pesquisas Datafolha e XP

Atualizado: Jun 17

Pesquisas mostram o peso da interrupção e redução do auxílio emergencial e a dialética aprovação e rejeição do presidente

Por Morena Marques*

Texto publicado originalmente no site Esquerda Online


Maio de 2021 aponta como o mês em que o presidente Jair Bolsonaro atingiu o pior índice de avaliação desde o início do seu mandato. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha [1] e XP Investimentos [2] a aprovação do governo – isto é, aqueles que o avaliam como “bom/ótimo” – recuou para 24% em maio e foi à 26% em junho. O perfil de desagrado do governo é bem determinado: mulheres, negros, jovens (faixa etária de 16 a 24 anos) e a região Nordeste protagonizam a rejeição. No que diz respeito à escolarização e estrato social a reprovação se concentra entre os mais escolarizados (57%), melhores rendas (63%) [3] e servidores públicos (58%). Quanto ao contraste entre a metrópole e o interior, incluída nesta primeira as capitais, há um empate entre os 50% que reprovam e os 50% que aprovam o governo, enquanto no interior dos Estados a rejeição é menor, de apenas 41%.


Nos dados de junho, segundo a pesquisa da XP, [4] temos que 22% avaliam o governo atual como “regular” e 50% como “ruim/péssimo”.


Apesar da redução em seu percentual de aprovação, 34% aprovam a maneira como Bolsonaro administra o país. Ou seja, praticamente ⅓ (um terço) da população. Dentre as questões da entrevista realizada pelo Datafolha fazia-se presente uma pergunta bem didática: “Na sua opinião, o Congresso Nacional deveria ou não abrir um processo de impeachment, isto é, um processo para afastar o presidente Jair Bolsonaro?” 49% dos entrevistados demonstraram-se favoráveis e 46% contrários ao impeachment. Se ocorreu um aumento da insatisfação popular, o que os dados exibem é a tensão de uma polarização na sociedade civil. Para termos um bom parâmetro de comparação, figuras questionáveis, num mesmo período de tempo de mandato (e em meio a uma crise econômica/política) possuíam índices muito mais desastrosos de rejeição. José Sarney em 1987 era avaliado como “ruim/péssimo” por 58% da população; Fernando Collor em 1992 por 68%; e Michel Temer em 2018 por 82%.


O que os complexos índices demonstram é para fixação de um campo rígido de apoio acrítico ao presidente que se estabelece na margem de 24% a 26%, na média de ¼ (um quarto) dos brasileiros. A partir do exposto, a despeito da continuidade crescente na avaliação negativa de Bolsonaro, podemos afirmar que é muito incerta e até mesmo improvável um impeachment em curto prazo.


Neste último aspecto, à exceção daqueles empregados no serviço público que são majoritariamente contrários ao atual governo, vejamos como se posiciona o conjunto dos demais trabalhadores. É a faixa econômica com renda familiar mensal de até 2 salários mínimos o setor mais favorável ao impeachment (53%). A notória rejeição a Bolsonaro vem dos grupos mais pauperizados, cuja renda é incerta e os vínculos de trabalho são precários. São justamente os estudantes (64%), os trabalhadores sem registro em carteira (56%); os desempregados à procura de emprego (56%); e os desempregados que desistiram de procurar emprego (59%), os de maior percentual a favor da queda do presidente. Contudo, ao passo que a renda familiar propicia um pouco mais de acesso ao consumo – a partir da faixa dos 2 a 5 salários mínimos – tais percentuais se alteram. Neste segmento, 53% avaliam que não deveria ser aberto um processo de impeachment. E entre as famílias com renda entre 5 e 10 salários este índice sobe para 58%. [5]


A localização política do setor mais empobrecido da classe trabalhadora tem aqui uma razão bem precisa de descontentamento: a redução e o fim próximo do auxílio emergencial. Se formos à pesquisa Datafolha realizada em agosto de 2020, quando o auxílio emergencial encontrava-se no valor de R$ 600 mensais e uma maior cobertura de alcance, os números da avaliação eram um tanto diferentes. Neste período, 42% dos trabalhadores sem registro em carteira consideravam como “bom/ótimo” o governo, enquanto somente 28% o avaliavam como ruim/péssimo”. Tal contraste (maior aprovação x menor rejeição) seguiu um ritmo semelhante entre os desempregados à procura de trabalho (36% x 34%); e, de um modo geral, na população economicamente ativa (40% x 33%). Neste período, a XP Investimentos registra que a aprovação do presidente chegava ao seu patamar máximo: 39%.


Frente à multifacetada crise – econômica, política, social e sanitária – não decorreu por parte deste governo nenhuma medida de fortalecimento do SUS, previdência pública, emprego e renda e muito menos investimento habitacional. Ao contrário, manteve-se uma rígida agenda de austeridade fiscal “à lá Paulo Guedes”. Todavia, apesar de 58% dos entrevistados possuírem uma percepção negativa quanto à condução de Bolsonaro na pandemia,[6] a análise dos dados demonstra que não é a ausência de respostas sanitárias à COVID-19 o grande “peso” da balança para insatisfação popular. Mas sim, a redução de medidas assistenciais frente à crise econômica, mesmo que em caráter pontual.


E aqui está o ponto central da nossa (infeliz) hipótese. O marco de 480 mil óbitos por COVID-19; a escassez de vacinas; o precário acesso à saúde pública; os níveis alarmantes de desemprego e o trabalho desprotegido são incômodos importantes, mas não o suficiente para configurar entre os trabalhadores altos índices de rejeição ao presidente. O fim do auxílio emergencial sim.


A verdade é que a Seguridade Social (saúde, previdência e assistência social) e os direitos de cidadania tornaram-se algo muito distantes do cotidiano dos trabalhadores, inalcançável em sua vida desprotegida. É a precariedade que assume o lugar-comum: trabalho precário e o acesso precário aos serviços públicos, onde os direitos sociais somem da paleta real de opções. Agora, o que se impõem em plano imediato é a sobrevivência: a possibilidade de “comida no prato” e um “teto”. Daí que a execução de benefícios assistenciais configure um impacto político determinante para os índices de aprovação do presidente e, até mesmo, para uma futura reeleição. [7]


Esta breve reflexão nos conduz a cinco apontamentos:


1. Se há um setor que não titubeou quanto à rejeição à Bolsonaro ao longo deste período, são os estudantes (16 a 24 anos) e os servidores públicos. Não é por menos que ambos se destacam enquanto os principais agentes de organização e base dos últimos atos que ocorreram no país (o 29M). Frente ao profundo desencanto dos trabalhadores, se faz necessário ampliar a mobilização da juventude e impulsioná-la às ruas. Apenas assim, será possível conquistar uma nova geração para um projeto de sociedade que ultrapasse a lógica estrita do consumo e a pragmática sobrevivência.


2. Os trabalhadores precisam sonhar. O amortecimento da consciência de classe promovida nas duas primeiras décadas do século XXI, a adesão à uma cidadania mercantil, somada às contrarreformas resultaram num verdadeiro desastre para a classe trabalhadora e uma verdadeira crise em sua identidade classista. Logo, a luta pela permanência do auxílio emergencial deve caminhar ao lado da politização de pautas como a revogação da Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência e a EC-95 que, apesar dos seus desastrosos impactos materiais, ainda permanecem distantes do imaginário da maioria dos trabalhadores.


3. Mulheres e negros são os mais impactados pelo bolsonarismo, configurando as maiores taxas de letalidade da pandemia, vítimas da violência e da pobreza extrema. Ao mesmo tempo, também são a maioria contra o governo. As lutas/mobilizações devem manter a pluralidade e a prioridade das suas pautas, sobretudo, no que diz respeito ao extermínio da juventude negra, aumento das taxas de feminicídio e da mortalidade materna.


4. Os 24% – 26% de apoiadores de Bolsonaro são um campo plural, hegemonizado pelo seu segmento mais fiel: o empresariado, principal beneficiado pelo desmonte dos direitos trabalhistas e previdenciários. Ao que se segue a ampla adesão de categorias vinculadas às forças armadas e políticas de segurança. Todavia, diferentes contingentes de trabalhadores mantêm em seu estrato de classe 26% ou mais de apoio à Bolsonaro: é o caso dos assalariados com registro em carteira (26%), autônomos e profissionais liberais (28%), donas de casa (26%) e aposentados (26%). Parte deste apoio é devido às raízes político-ideológicas de cunho reacionário, sobre as quais o bolsonarismo encontra a sua adesão em sociedade. É possível que os impactos da crise econômica possam conduzir a uma redução nesse percentual de apoio, mas esta é uma probabilidade ainda duvidosa.


5. Tudo que é sólido desmancha no ar. Não há certezas no atual cenário, nem de um impeachment ou mesmo da derrota eleitoral de Bolsonaro, apesar das últimas pesquisas demonstrarem a preferência de Lula já no primeiro turno das eleições de 2022. Mas estamos cientes que a partir de maio deste ano o governo alcançou os seus piores índices de aprovação. Os dados estão lançados e é a hora de intensificar o desgaste deste governo, com a prioridade absoluta pela unidade no “Fora Bolsonaro”.



*Morena Marques é Professora da Escola de Serviço Social da Unirio e militante da Resistência/PSOL.



Notas


[1] – Cf.<http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2021/05/13/574c277a171a64f166dee28d083f08cfavbc.pdf>.


[2] – Cf.<https://conteudos.xpi.com.br/politica/pesquisa-xp-junho-2021-avaliacao-negativa-do-governo-jair-bolsonaro-atinge-maior-indice-desde-maio-de-2020/>


[3] – Trata-se do percentual acima de 10 salários mínimos.


[4] – Fonte: XP Investimentos – Junho/2021


[5] – Fonte: Pesquisa Datafolha – Maio/2021.


[6] – Fonte: XP Investimentos – Junho/2021.


[7] – O total de solicitações ao auxílio emergencial entre março e abril de 2020 ultrapassou a marca de 107 milhões de pessoas, pouco mais da metade da população brasileira, dos quais 67,9 milhões tornaram-se beneficiados. Nos reportamos a praticamente ⅓ do total da população brasileira.

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