China: tão distante do imperialismo quanto do sul global

O caráter imperialista dos Estados Unidos é um fato indiscutível da geopolítica contemporânea. A extensão desse adjetivo à China, por outro lado, suscita debates acalorados

Por Claudio Katz

Texto publicado originalmente no site Lavra Palavra


Nosso enfoque destaca a assimetria entre os dois contendores, o perfil agressivo de Washington e a reação defensiva de Pequim. Enquanto a primeira potência busca restaurar seu domínio mundial decaído, o gigante asiático tenta sustentar um crescimento capitalista sem confrontos externos. Enfrenta, além disso, sérios limites históricos, políticos e culturais para intervir com atos de força em escala global. Por essas razões, não integra, atualmente, o clube dos impérios (Katz, 2021).


Essa caracterização contrasta com abordagens que descrevem a China como uma potência imperial, predatória ou colonizadora. Também define qual é o grau de proximidade eventual a esse status e quais as condições deveria cumprir para se colocar naquele plano.


Nossa visão também indica que a China deixou para trás sua antiga condição de país subdesenvolvido, e atualmente integra o núcleo das economias centrais. Desse novo lugar, capta grandes fluxos de valor internacional e comanda uma expansão que aproveita os recursos naturais fornecidos pela periferia. Por conta desta localização na divisão internacional do trabalho, não faz parte do Sul Global.


Nossa visão compartilha das várias objeções que foram levantadas à identificação da China como um novo imperialismo. Porém, questiona a apresentação do país como um ator meramente interessado na cooperação, inclusive na globalização ou na superação do subdesenvolvimento de seus parceiros.


Uma revisão de todos os argumentos em debate ajuda a esclarecer o complexo enigma contemporâneo do status internacional da China.


COMPARAÇÕES INADEQUADAS


As teses que postulam o alinhamento imperial total da China, atribuem esse posicionamento à virada pós-maoísta iniciada por Deng nos anos 80. Elas avaliam que essa virada fortaleceu um modelo de capitalismo expansivo, que reúne todas as características do imperialismo. Elas observam, como uma afirmação deste comportamento, a subjugação econômica imposta ao continente africano. Também denunciam que, naquela região, a velha opressão europeia se repete com retóricas hipócritas mascaradas. (Turner, 2014: 65-71).


Mas essa caracterização não leva em conta as diferenças significativas entre as duas situações. A China não envia tropas para países africanos – como a França – para validar seus negócios. Sua única base militar, em um nevrálgico cruzeiro comercial (Djibouti), contrasta com o enxame de instalações que os Estados Unidos e a Europa montaram.


O gigante asiático evita se envolver nos explosivos processos políticos do continente negro, e sua participação nas “operações de paz da ONU” não definem um status imperialista. Inúmeros países manifestamente alheios a essa categoria (como o Uruguai) contribuem com tropas para as missões das Nações Unidas.


A comparação da China com a trajetória seguida pela Alemanha e pelo Japão durante a primeira metade do século 20 (Turner, 2014: 96-100) é igualmente discutível. Não é um curso corroborado pelos fatos. A nova potência oriental evitou, até agora, seguir o caminho belicista de seus predecessores. Alcançou um expressivo papel econômico internacional, aproveitando as vantagens competitivas que encontrou na globalização. Não compartilha da compulsão à conquista territorial que afligia o capitalismo alemão ou japonês.


A China desenvolveu, no século XXI, formas de produção globalizadas que não existiam no século anterior. Essa novidade deu-lhe uma margem sem precedentes para expandir sua economia, com pautas de prudência geopolítica inconcebíveis no passado.


As analogias erradas também se estendem ao que aconteceu com a União Soviética. Diz-se que a China repete a mesma implantação do capitalismo e a consequente substituição do internacionalismo pelo “social-imperialismo”. Essa modalidade é apresentada como uma prévia das políticas imperialistas convencionais (Turner, 2014: 46-47).


Mas a China não seguiu o exemplo da URSS. Introduziu limites à restauração econômica capitalista e manteve o regime político que ruiu em seu vizinho. Como um analista corretamente aponta, toda a gestão de Xi Jinping foi guiada pela obsessão de evitar a desintegração sofrida pela União Soviética (El Lince, 2020). As diferenças, atualmente, se estendem ao terreno militar externo. A nova potência asiática não realizou nenhuma ação semelhante à implantada por Moscou na Síria, Ucrânia ou Geórgia.


CRITÉRIOS ERRADOS


A China também é situada ao lado imperialista, a partir de avaliações inspiradas em um texto clássico do marxismo, muito difundido (Lenin, 2006). Afirma-se que a nova potência atende às características econômicas indicadas naquele livro. A gravitação de capitais exportados, a magnitude dos monopólios e a incidência de grupos financeiros confirmam o status imperialista do país (Turner, 2014: 1-4, 25-31, 48-64).


Mas essas características econômicas não fornecem parâmetros suficientes para definir a posição internacional da China no século XXI. Certamente, o peso crescente dos monopólios, bancos ou capitais exportados, aumenta as rivalidades e as tensões entre as potências. Porém, esses conflitos comerciais ou financeiros não explicam os confrontos imperiais, nem definem o status específico de cada país na dominação mundial.


Suíça, Holanda ou Bélgica ocupam lugar importante no ranking internacional de produção, câmbio e crédito, mas não desempenham papel de destaque na esfera imperial. Por sua vez, a França ou a Inglaterra desempenham um papel de destaque neste último campo, que não deriva estritamente de sua primazia econômica. Alemanha e Japão são gigantes da economia, com intervenções proibidas fora desta área.


No caso da China, é muito mais singular. A preeminência dos monopólios em seu território apenas confirma a usual incidência desses conglomerados em qualquer país. O mesmo ocorre com a influência do capital financeiro, que gravita menos do que em outras grandes economias. Ao contrário de seus concorrentes, o gigante asiático galgou posições na globalização, dispensando a financeirização neoliberal. Além disso, não tem nenhuma semelhança com o modelo bancário alemão do início do século XX, estudado por Lênin.


É verdade que a exportação de capitais – apontada pelo líder comunista como um fato marcante de sua época – é uma característica marcante da China hoje. Mas essa influência apenas ratifica a conexão significativa do gigante oriental com o capitalismo global.


Nenhuma das analogias com o sistema econômico prevalecente no século passado contribui para definir o status internacional da China. No máximo, facilitam a compreensão das mudanças registradas no funcionamento do capitalismo. O que aconteceu na geopolítica global é esclarecido com outros tipos de reflexões.


O imperialismo é uma política de dominação exercida pelos poderosos do planeta por meio de seus estados. Não constitui um estágio duradouro ou final do capitalismo. O escrito de Lênin esclarece o que aconteceu há 100 anos, mas não o curso dos eventos recentes. Ele foi criado em um ambiente muito distante, de guerras mundiais generalizadas.


O apego dogmático a este livro nos leva a buscar semelhanças forçadas do atual conflito entre os Estados Unidos e a China, com as conflagrações da Primeira Guerra Mundial (Turner, 2014: 7-11). A principal luta contemporânea é vista como uma mera repetição das rivalidades entre as guerras interimperiais.


Essa mesma comparação é usada atualmente para denunciar a militarização chinesa do Mar do Sul da China (Mar da China Meridional). Estima-se que Xi Jinping persiga os mesmos propósitos que a Alemanha mascarou para tomar a Europa Central, por exemplo, ou os motivos quais o Japão disfarçou para conquistar o Pacífico sul. Mas omite-se que a expansão econômica da China foi consumada, até agora, sem disparar um único tiro fora de suas fronteiras.


Também se esquece que Lênin não pretendia elaborar um guia classificatório para o imperialismo, baseado na maturidade capitalista de cada potência. Ele apenas sublinhou a dimensão catastrófica de guerras de sua época, sem especificar as condições que cada participante daquele conflito deveria cumprir para se localizar no universo imperial. Colocou, por exemplo, uma potência economicamente atrasada como a Rússia dentro desse grupo devido ao seu papel ativo no sangramento militar.


A análise de Lênin do imperialismo clássico é uma herança teórica altamente relevante, mas o papel geopolítico da China no século 21 pode ser esclarecida com outro instrumental.


SOMENTE UM STATUS POTENCIAL


Noções marxistas básicas de capitalismo, socialismo, imperialismo ou anti-imperialismo, não são suficientes para caracterizar a política externa da China. Esses conceitos fornecem apenas um ponto de partida. Noções adicionais são necessárias para dar conta do curso do país. A simples dedução de um status imperialista, da conversão do gigante oriental na “segunda economia do mundo” (Turner, 2014: 23-24), não permite elucidar os enigmas em jogo.


Mais bem-sucedida é a busca por conceitos que registrem a coexistência de uma grande expansão econômica na China, muito distante da primazia dos Estados Unidos. A fórmula do “império em formação” tenta retratar este local de gestação, ainda distante do domínio norte-americano.


Mas o conteúdo específico dessa categoria é controverso. Alguns pensadores atribuem a ela um escopo mais avançado do que embrionário. Eles entendem que a nova potência está se encaminhando rapidamente para adotar um comportamento imperial comum. Eles destacam a reviravolta introduzida com a base militar do Djibouti, a construção de ilhas artificiais no Mar do Sul e a reconversão ofensiva das forças armadas.


Esse olhar postula que, após várias décadas de intensa acumulação capitalista, a fase imperial já está começando a amadurecer (Rousset, 2018). Essa avaliação se aproxima do contraste típico entre um polo imperial dominante (Estados Unidos) e um polo imperial ascendente (China) (Turner, 2014: 44-46).


Mas, ainda existem diferenças qualitativas muito significativas entre as duas potências. O que distingue o gigante oriental de sua contraparte norte-americana não é o percentual de maturidade do mesmo modelo. Antes de embarcar nas aventuras imperiais que seu rival desenvolve, a China deve completar sua própria restauração capitalista.


O termo “império em formação” poderia ser válido para indicar o caráter embrionário dessa gravidez. Porém, o conceito só assumirá outro sentido, de maturidade crescente, se a China abandonar sua estratégia defensiva atual. Essa tendência está presente no setor capitalista neoliberal, com investimentos no exterior e ambições expansivas. Mas o predomínio dessa fração exigiria subjugar o segmento oposto, o que favorece o desenvolvimento interno e preserva a atual modalidade de regime político.


A China é um império em formação apenas em termos potenciais. Administra o segundo maior produto interno bruto do planeta, é a primeira fabricante de bens industriais e recebe o maior volume de recursos do mundo. Mas, essa gravitação econômica não tem correlato equivalente na esfera geopolítico-militar que define o status imperialista.


TENDÊNCIAS NÃO RESOLVIDAS


Outra avaliação considera que a China tem todas as características de uma potência capitalista, mas com um contorno imperial defasado e não hegemônico. Descreve o crescimento espetacular de sua economia, apontando os limites que enfrenta para alcançar uma posição vencedora no mercado mundial. Detalha, também, as restrições que enfrenta no campo tecnológico em comparação com os concorrentes ocidentais.


Desta situação ambígua, ela deduz a validade de um “estado capitalista dependente com características imperialistas”. A nova potência combinaria as restrições de sua autonomia (dependência), com projetos ambiciosos de expansão externa (imperialismo) (Chingo, 2021).


Mas o registro correto de um lugar intermediário inclui, neste caso, um erro conceitual. Dependência e imperialismo são duas noções antagônicas, que não podem ser integradas em uma fórmula comum. Elas não se referem – como centro-periferia – à dinâmicas econômicas de transferência de valor ou hierarquias na divisão internacional do trabalho. Por isso, excluem o tipo de misturas que incorporam a semiperiferia.


A dependência supõe a vigência de um Estado sujeito a ordens, demandas ou condicionamentos externos, e o imperialismo implica o contrário: supremacia internacional e alto grau de intervencionismo externo. Os conceitos não devem ser misturados na mesma fórmula. Na China, coexiste a ausência de subordinação a outra potência, com muita cautela na interferência sobre outros países. Não se verifica dependência, nem imperialismo.


A caracterização da China como potência que completou seu amadurecimento capitalista – sem poder saltar para a próxima etapa do desenvolvimento imperial – supõe que o primeiro curso não forneça sustentação suficiente para consumar os avanços rumo à dominação mundial. Mas esse raciocínio se apresenta como duas etapas de um mesmo processo, um conjunto de ações econômicas e geopolítico-militares de diferentes naturezas. Essa importante diferenciação é omitida.


Uma visão semelhante da China como um modelo capitalista completo – navegando no escalão inferior do imperialismo – é exposta por outro autor com dois conceitos auxiliares: capitalismo burocrático e dinâmica sub-imperial (Au Loong Yu, 2018).


O primeiro termo indica a fusão da classe dominante com a elite dominante, e o segundo retrata uma política limitada de expansão internacional. Mas, como o país também se supõe que o país atua como uma superpotência (em competição e colaboração com o gigante estadunidense), a passagem para a plenitude imperial é observada somente como uma questão de tempo.


Esta avaliação ressalta que a China completou sua transformação capitalista, sem explicar os atrasos à sua conversão imperialista. Todas as limitações expostas neste segundo campo também poderiam ser apontadas no primeiro campo.


Para evitar esses dilemas, é mais simples verificar que as contínuas insuficiências da restauração capitalista explicam as restrições à assinatura imperial. Como a classe dominante não administra as fontes do Estado, deve aceitar a cautelosa estratégia internacional promovida pelo Partido Comunista.


Ao contrário dos Estados Unidos, Inglaterra ou França, os grandes capitalistas da China não costumam exigir a intervenção político-militar de seu Estado, em face das adversidades empresariais. Não têm tradição de invasões ou golpes de Estado em países que nacionalizam empresas ou suspendem o pagamento de dívidas. Ninguém sabe com que rapidez o Estado chinês adotará (ou não) esses hábitos imperialistas, e não é correto considerar essa tendência como certa.


PREDADORES E COLONIZADORES?


A representação da China como uma potência imperial é frequentemente exemplificada com descrições de sua presença impactante na América Latina. Em alguns casos, postula-se que atue no Novo Mundo, com a mesma lógica predatória que a Grã-Bretanha implantou no século XIX (Ramírez, 2020). Em outras análises, são feitos alertas contra as bases militares que estariam construindo na Argentina e na Venezuela (Bustos, 2020).


Mas nenhuma dessas caracterizações faz uma comparação sólida com a intromissão avassaladora das embaixadas dos Estados Unidos. Este tipo de intervenção ilustra o que significa o comportamento imperial na região. A China está a uma distância quilométrica dessa intromissão. Lucrar com a venda de produtos manufaturados e a compra de matérias-primas não é a mesma coisa que enviar fuzileiros navais, treinar policiais e financiar golpes de Estado.


Mais sensata (e discutível) é a apresentação do gigante oriental como um “novo colonizador” da América Latina. Nesse caso, estima-se que a hegemonia ascendente tende a acertar, com seus parceiros da área, um Consenso de Commodities, semelhante ao anteriormente firmado pelos Estados Unidos. Essa rede, com Pequim, complementaria a estabelecida por Washington, e fortaleceria a inserção internacional da região como fornecedora de insumos e compradora de produtos manufaturados (Svampa, 2013).


Essa abordagem retrata com precisão como a atual relação da América Latina com a China aprofunda a primarização da região ou sua especialização nas linhas básicas da atividade industrial. Pequim está emergindo como o primeiro parceiro comercial do continente, e usufrui dos benefícios deste novo lugar.


Por outro lado, a América Latina foi seriamente afetada por transferências de valor em favor da poderosa economia asiática. Não ocupa o lugar privilegiado que a China atribui à África, nem é uma área de realocação manufatureira como o Sudeste Asiático. O Novo Continente é cortejado pela dimensão de seus recursos naturais. O atual esquema de abastecimento de petróleo, mineração e agricultura, é muito favorável a Pequim.


Mas esse aproveitamento econômico não é sinônimo de dominação imperial ou incursão colonial. O último conceito se aplica, por exemplo, a Israel, que ocupa territórios estrangeiros, desloca a população local e se apodera da riqueza palestina.


A emigração chinesa não desempenha um papel semelhante. Está dispersa por todos os cantos do planeta, com significativa especialização no varejo. Seu desenvolvimento não é controlado por Pequim, nem devido a projetos subjacentes de conquista global. Um segmento da população chinesa simplesmente emigra, em estrita correspondência com os movimentos contemporâneos da força de trabalho.


A China consolidou um comércio desigual com a América Latina, mas sem consumar a geopolítica imperial que continua a ser representada pela presença da Marinha, da DEA, do Plano Colômbia e da IV Frota. A mesma função cumpre o lawfare ou os golpes de Estado.


Quem desconhece essa diferença, tende a denunciar a China e os Estados Unidos igualmente como potências agressoras. Eles colocam os dois competidores no mesmo plano e enfatizam seu desprezo naquele conflito.


Porém, esse neutralismo omite quem é o principal responsável pelas tensões que estão abalando o planeta. Ignora que os Estados Unidos enviam navios de guerra à costa de seu rival e intensifica o tom das acusações para gerar um clima de conflitos crescentes.


As consequências desse posicionamento são especialmente graves para a América Latina, que tem um histórico tempestuoso de intervenções dos EUA. Ao igualar essa trajetória a um comportamento equivalente da China no futuro, as realidades são confundidas com as eventualidades. Se desconhece, além disso, papel de potencial contrapeso à dominação estadunidense que a potência asiática poderia desempenhar em uma dinâmica de emancipação latino-americana.


Por outro lado, os discursos que colocam China e Estados Unidos no mesmo plano são permeáveis ​​à ideologia anticomunista de direita. Essas reflexões refletem a combinação de medo e incompreensão que predomina em todas as análises convencionais do gigante oriental.


Os porta-vozes latino-americanos dessa história geralmente incluem ataques simultâneos contra o “totalitarismo” chinês e o “populismo” regional. Com a velha linguagem da Guerra Fria, eles alertam sobre o perigoso papel de Cuba ou da Venezuela, como peões de uma iminente captura asiática de todo o hemisfério. A chinofobia incentiva todos os tipos de absurdos.


LONGE DO SUL GLOBAL


As abordagens que, acertadamente, rejeitam a caracterização da China como potência imperialista, incluem muitas nuances e diferenças. Um amplo espectro de analistas – que corretamente se opõe à classificação do colosso oriental do lado dos dominadores – apenas costuma deduzir, dessas análises, a localização do país no Sul Global.


Esse olhar confunde geopolítica defensiva no conflito com os Estados Unidos com pertencer ao segmento das nações economicamente atrasadas e politicamente subjugadas. Até agora, a China dispensou a ação das potências imperialistas, mas esse comportamento não a coloca na periferia, nem no universo das nações dependentes.


O gigante asiático se diferencia até do novo grupo de grupos “emergentes”, para atuar como um novo centro da economia global. Basta observar que exportava menos de 1% do total das manufaturas em 1990 e, atualmente, gera 24,4% do valor industrial agregado (Mercatante, 2020). A China absorve ganhos de capital por meio de empresas localizadas no exterior e lucra com o fornecimento de matérias-primas.


Nesse contexto, consuma sua ascensão ao pódio das economias avançadas. Quem continua identificando o país com o conglomerado do Terceiro Mundo, desconhece essa transformação monumental.


Alguns autores mantêm a velha imagem da China como uma área de investimento para empresas multinacionais, que exploram a grande força de trabalho oriental para posteriormente transferir seus lucros para os Estados Unidos ou Europa (King, 2014).


Essa drenagem esteve realmente presente na decolagem da nova potência e persiste em determinados segmentos da atividade produtiva. Mas a China alcançou seu crescimento impressionante, nas últimas décadas, retendo o grosso desse excedente.


Atualmente, a massa de fundos capturada por meio do comércio e do investimento estrangeiro excede em muito os fluxos reversos. Basta observar o valor do superávit comercial ou das dívidas financeiras para mensurar esse resultado. A China deixou para trás as principais características de uma economia subdesenvolvida.


Os estudiosos que postulam a continuidade dessa condição tendem a relativizar o desenvolvimento das últimas décadas. Eles tendem a destacar características de atraso que ficaram em segundo plano. Os desequilíbrios que a China enfrenta derivam de processos de superinvestimento e superprodução ou superacumulação. Deve lidar com as contradições de uma economia desenvolvida.


O gigante oriental não sofre o afogamento típico que assola os países dependentes. Está isento de desequilíbrio comercial, falta de tecnologia, falta de investimento ou sufocamento de poder de compra. Nenhum dado da realidade chinesa sugere que seu poder econômico chocante constitua uma mera ficção estatística.


A nova potência ascendeu na estrutura econômica mundial. Não é correto situá-la em um local semelhante às antigas periferias agrícolas, subordinadas às indústrias metropolitanas (King, 2014). Essa inserção corresponde, atualmente, ao grande conjunto de nações africanas, latino-americanas ou asiáticas, que fornecem insumos básicos para manufatura fabril em Pequim.


A China é classificada periodicamente, ao lado dos Estados Unidos, no pódio do G-2, que define a agenda estabelecida pelo G-7 das grandes potências. Esta avaliação é incompatível com a localização do país no Sul Global. Não poderia se desenvolver, daquela esfera retraída, a batalha contra seu rival norte-americano pela liderança da revolução digital. Nem poderia ter desempenhado o papel principal que exibiu durante a pandemia.


Após um desenvolvimento acelerado, a China foi colocada em uma posição de economia credora, em potencial conflito com seus clientes no sul. Os sinais dessas tensões são numerosos. O medo da propriedade chinesa dos ativos, que garantem seus empréstimos, gerou resistência (ou cancelamentos de projetos) no Vietnã, Malásia, Mianmar ou Tanzânia (Hart-Landsbergs, 2018).


A controvérsia sobre o porto de Hambantota, no Sri Lanka, ilustra esse típico dilema do grande credor. O não pagamento de uma dívida elevada resultou no arrendamento dessas instalações por 99 anos em 2017. Com base nessa experiência, a Malásia revisou seus acordos e questionou os acordos que localizam as melhores atividades de trabalho em território chinês. O Vietnã levantou objeções semelhantes à criação de uma zona econômica especial, e os investimentos envolvendo o Paquistão estão reacendendo disputas de todos os tipos.


A China começa a lutar com um status oposto a qualquer pertencimento ao Sul Global. No final de 2018, temia-se o eventual controle chinês do porto de Mombaça, caso o Quênia incorresse na suspensão do pagamento de uma obrigação (Alonso, 2019). O mesmo medo começa a surgir em outros países que carregam altos valores de compromissos de cobrança duvidosa (Iêmen, Síria, Serra Leoa, Zimbábue) (Bradsher; Krauss, 2015.)


OLHARES INDULGENTES


Outra corrente de autores, que registra o papel atual sem precedentes da China, elogia a convergência com outros países e a transição virtuosa para um bloco multipolar. Essa corrente apresenta esses cenários com descrições simples dos desafios que o país enfrenta para sustentar seu curso ascendente.


Mas esses retratos bem-sucedidos omitem que a consolidação do capitalismo acentua, na China, todos os desequilíbrios já gerados pelos bens excedentes e pelo capital excedente. Essas tensões, por sua vez, acentuam a desigualdade e a deterioração do meio ambiente. O desconhecimento dessas contradições, impede que se perceba como a estratégia defensiva internacional da China é minada pela pressão competitiva imposta pelo capitalismo.


A apresentação do país como “um império sem imperialismo” – que opera centrado em si mesmo – é um exemplo desses olhares condescendentes. Postula que a nova potência oriental desenvolve um comportamento internacional respeitoso, de modo a não humilhar seus adversários ocidentais (Guigue, 2018). Mas, essa análise esquece que essa coexistência não é apenas quebrada pelo assédio de Washington a Pequim. A existência, na China, de uma economia cada vez mais sujeita aos princípios do lucro e da exploração, amplifica esse conflito.


É verdade que o âmbito atual do capitalismo é limitado pela presença regulatória do Estado e pelas restrições oficiais à financeirização e ao neoliberalismo. Porém, o país já sofre com os desequilíbrios impostos por um sistema de rivalidade e desapropriação.


A crença de que uma “economia de mercado” governa o universo oriental – qualitativamente diferenciada do capitalismo e alheia às perturbações desse regime – é o mal-entendido duradouro semeado por um grande teórico do sistema mundial (Arrighi, 2007: cap 2). Essa interpretação omite que a China não poderá escapar das consequências do capitalismo se garantir a restauração inacabada desse sistema.


Outras visões ingênuas do desenvolvimento atual tendem a ponderar a política externa chinesa de “globalização inclusiva”. Elas destacam o tom pacífico que caracteriza uma expansão baseada nos negócios, e baseada em princípios de benefícios compartilhados por todos os participantes. Essas apresentações também destacam a “aliança Inter civilizacional” gerada pelo novo vínculo global de nações e culturas.


Porém, é possível forjar uma ‘globalização inclusiva” sob o capitalismo? Como o princípio de ganhos mútuos poderia ser incorporado em um sistema governado pela competição e lucro?


Na verdade, a globalização implicou lacunas dramáticas entre vencedores e perdedores, com o consequente aumento da desigualdade. A China não pode oferecer remédios mágicos para tais adversidades. Ao contrário, potencializa suas consequências ao expandir sua participação nos processos econômicos regidos pela exploração e pelo lucro.


Até agora, conseguiu limitar os efeitos tempestuosos dessa dinâmica, mas as classes dominantes e as elites neoliberais do país estão determinadas a romper todos os laços. Eles estão pressionando para embarcar em Pequim contra as crescentes assimetrias impostas pelo capitalismo global. Fechar os olhos para essa tendência implica um auto ocultamento da realidade.


O próprio governo chinês elogia a globalização capitalista, exalta as cúpulas de Davos e exalta as virtudes do livre comércio, com elogios vazios ao universalismo. Algumas versões tentam reconciliar essa afirmação com os princípios básicos da doutrina socialista. Afirmam que a Rota da Seda sintetiza as modalidades contemporâneas de expansão econômica, que, em meados do século XIX, o Manifesto Comunista ponderou.


Mas os críticos dessa interpretação incomum lembraram que Marx nunca aplaudiu esse desenvolvimento (Lin Chun, 2019). Pelo contrário, denunciou suas terríveis consequências para as maiorias populares de todo o planeta. Com a alquimia teórica, o irreconciliável não pode ser harmonizado.


CONTROVÉRSIAS SOBRE A COOPERAÇÃO


Outra visão complacente do curso atual enfatiza o componente de cooperação da política externa chinesa. Ressalta que o país não é responsável pelas desventuras sofridas por seus clientes da periferia, e destaca a natureza genuína do investimento impulsionado por Pequim. Também lembra que a força das exportações está baseada em aumentos de produtividade, que, por si só, não afetam as economias relegadas (Lo dez, 2016).


Mas, essa idealização dos negócios omite o efeito objetivo da troca desigual, que marca todas as transações realizadas sob a égide do capitalismo mundial. A China captura superávits de economias subdesenvolvidas pela própria dinâmica dessas transações. Tem grandes lucros porque sua produtividade é superior à média desses clientes. O que se apresenta em tom ingênuo como mérito peculiar do poder asiático, é o princípio da desigualdade generalizada que prevalece no capitalismo.


Ao afirmar que “a China não prioriza” seus parceiros na América Latina ou na África, postula-se a responsabilidade única do sistema mundial neste infortúnio. Omite-se que o protagonismo da nova potência é um fato central do comércio internacional.


Sugerir que a China “não tem culpa’ pelos efeitos gerais do capitalismo equivale a encobrir os benefícios que as classes dominantes desse país obtêm. Esses setores lucram com o aumento do peso na produtividade (por meio de mecanismos de exploração dos assalariados) e materializam esses ganhos nas trocas com economias defasadas.


Quando se elogia uma expansão chinesas “mais baseada na produtividade do que na exploração” (Lo, dez, 2018), omite-se que ambos os componentes retroalimentem o mesmo processo de apropriação do trabalho dos outros.


O contraste entre a produtividade elogiada e a exploração objetada é típico da teoria econômica neoclássica. Essa concepção imagina a confluência no mercado de diferentes “fatores de produção”, omitindo que todos esses componentes se baseiam na mesma extração de mais-valor. Essa expropriação é a única fonte real de todos os lucros.


A mera reivindicação do perfil produtivo da China também tende a destacar o contrapeso que ela introduziu à primazia internacional da financeirização e do neoliberalismo (Lo Dez, 2018). Mas, os limites impostos ao primeiro processo (correntes internacionais de especulação), não diluem o apoio dado ao segundo (abusos dos capitalistas contra os trabalhadores).


A reintrodução do capitalismo na China tem sido o grande incentivo para a realocação de empresas e o consequente barateamento da força de trabalho. Essa reviravolta ajudou a reconstruir a taxa de lucro nas últimas décadas. Para que o gigante asiático desempenhe um papel efetivo na cooperação internacional, deve adotar estratégias internas e externas para reverter o capitalismo.


CENÁRIOS E DISJUNTIVOS


A China deixou para trás sua antiga condição de território dilacerado por incursões estrangeiras. Ela não vive mais a situação dramática que enfrentou nos últimos séculos. Ela enfrenta o agressor norte-americano de uma condição muito distante do desamparo prevalecente na periferia. Os estrategistas do Pentágono sabem que não podem tratar seu rival como Panamá, Iraque ou Líbia.


Mas esta consolidação da soberania está ligada ao abandono das tradições anti-imperialistas. O regime pós-maoísta se afastou da política internacional radicalizada, patrocinada pela Conferência de Bandung e pelo Movimento dos Não-Alinhados. Enterrou, também, qualquer gesto de solidariedade com as lutas populares do mundo.


Essa virada constitui a outra face de sua cautela geopolítica internacional. A China evita conflitos com os Estados Unidos, sem interferir nos ultrajes consumados por Washington. A elite dominante enterrou todos os vestígios de simpatia com a resistência ao principal opressor do planeta.


Mas essa virada enfrenta os mesmos limites da restauração e do salto em direção ao status internacional dominante. Está sujeito à disputa não resolvida sobre o futuro interno do país. O curso capitalista promovido pelos neoliberais tem consequências pró-imperialistas tão contundentes quanto o curso anti-imperialista promovido pela esquerda. O conflito com os Estados Unidos afetará diretamente essas definições.


Quais são os cenários que se aproximam na luta com o concorrente norte-americano? A hipótese de uma distensão (e consequente reintegração de ambos os poderes) foi diluída. Os sinais de um impulso duradouro são avassaladores e desmentem os diagnósticos de assimilação da China à ordem neoliberal, como parceira dos Estados Unidos, que alguns autores postulam (Hung, Ho-fung, 2015).


O contexto atual também dissipa as expectativas na gestação de uma classe capitalista transnacional com membros chineses e americanos. A escolha asiática por um curso diferenciado do neoliberalismo não é o único motivo para esse divórcio (Robinson, 2017). A associação de “China-América” ​​- anterior à crise de 2008 – não incluía amálgama entre classes dominantes ou esboços do surgimento de um estado compartilhado.


No curto prazo, se verifica um forte crescimento da China em face a um óbvio declínio nos Estados Unidos. O gigante oriental está vencendo a disputa em todos os terrenos, e sua gestão recente da pandemia confirmou esse resultado. Pequim rapidamente conseguiu controlar a extensão da infecção, enquanto Washington enfrentou um estouro que colocou o país no topo do ranking de mortes.


A potência asiática também se destacou por sua ajuda internacional à saúde, contra um rival que exibia um egoísmo lúgubre. A economia asiática já retomou sua alta taxa de crescimento, enquanto a sua contraparte americana enfrenta uma recuperação duvidosa do nível de atividade. A derrota eleitoral de Trump culminou com o fracasso de todos os agentes dos EUA em subjugar a China.


Mas, o cenário de médio prazo é mais incerto, e os recursos militares, tecnológicos e financeiros que conservam o imperialismo norte-americano nos impedem de antecipar quem sairá vitorioso do confronto.


Em termos gerais, três cenários diferentes podem ser concebidos. Se os Estados Unidos ganharem o cabo de guerra, podem começar a reconstituir sua liderança imperial, subordinando parceiros asiáticos e europeus. Se, ao contrário, a China tiver sucesso com um estrategista capitalista de livre comércio, consolidará sua transformação em uma potência imperial.


Mas uma vitória do gigante oriental, conquistada em um contexto de rebeliões populares, modificaria completamente o cenário internacional. Esse triunfo pode induzir a China a retomar sua postura anti-imperialista em um processo de renovação socialista. O perfil do imperialismo do século XXI é estabelecido em torno dessas três possibilidades.


20-04-2021


RESUMO


As controvérsias sobre o status geopolítico da China se intensificaram. Sua apresentação como império é baseada em analogias errôneas, que ignoram como a expansão produtiva se alia à prudência geopolítica. O perfil imperialista é definido por ações internacionais de dominação, e não por parâmetros econômicos.


A China incuba, apenas em forma embrionária, os traços de um império em formação. Os limites da restauração capitalista afetam sua imaturidade imperial. Lucra com a primarização da América Latina, mas está longe do intervencionismo norte-americano.


As tensões geradas pelo capitalismo na China são mascaradas por olhares indulgentes, que ignoram a incompatibilidade desse sistema com uma globalização inclusiva. Os negócios em andamento contradizem os apelos à cooperação. O país não faz parte do Sul Global. Lida com os desequilíbrios de uma economia desenvolvida e as tensões de um credor. Três cenários estão surgindo no médio prazo.


Traduçao: Marcelo Bamonte.


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