Capitalismo está diante de uma parede, diz Chesnais

Entrevista com o economista marxista francês François Chesnais, professor emérito da Universidade de Paris XIII e autor de "A mundialização do Capital"

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena

Texto originalmente publicado pelo site Tutaméia

A crise mundial que vivemos hoje pode ser comparada com a provocada pela Grande Depressão de 1929 nos Estados Unidos. Mas há diferenças cruciais. A pandemia do Covid 19 é consequência das relações do capitalismo com a natureza. Trata-se de um choque exógeno, enquanto a crise de 1929 foi resultado das contradições internas do movimento de acumulação do capital. Além disso, nos anos 1930, o capitalismo ainda estava em expansão. «Hoje, o capitalismo mundial está diante de uma parede. Ele está sendo confrontado por suas consequências sociais, mas também pelas econômicas, pelo aquecimento global e pelas tecnologias dominantes».

A análise é de François Chesnais, economista marxista francês, em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima a leitura da entrevista, feita em programa especial do TUTAMÉIA TV no Primeiro de Maio). Professor emérito da Universidade de Paris XIII e autor de «A Mundialização do Capital» (Syros, Paris, 1994) e «Finance Capital Today» (Brill, Leiden, Boston, 2016), ele é um dos expoentes mundiais da crítica ao neoliberalismo, com foco no mundo das finanças.

Nesta entrevista por e-mail, ele aponta os impactos econômicos e sociais da crise em curso e avalia as mudanças que a pandemia vai provocar no arranjo produtivo capitalista. Na sua visão, as desigualdades não diminuirão quando o grande confinamento for reduzido. «Uma reversão dessa situação só seria possível se um bloco social muito grande fosse formado entre os estratos pobres e o que é chamado de ‘classe média’”, afirma. E existe risco de caos nas sociedades:

“A pobreza e a insegurança no emprego podem se intensificar ainda mais como resultado dessa crise. Haverá revoltas em muitos países, mas é somente em países onde lutas sociais anteriores e/ou muito recentes deixaram traços em termos de condições subjetivas e organizacionais que podem levar a modificação do equilíbrio de poder político entre o(s) explorado(s) e o capital”.

Sobre o jogo de poder global, Chesnais declara: “Tudo o que se pode dizer com certeza é que o lugar central da China aumentará». E sublinha: «Na década de 1930, a obrigação de cada país de se defender sozinho dos efeitos da crise deu aos grandes países semicoloniais da América do Sul, Brasil e Argentina, uma oportunidade, com Vargas e, um pouco mais tarde, com Perón, para se libertar um pouco da dominação dos Estados Unidos e de se envolver num primeiro período de industrialização, de construção de uma economia nacional. Hoje, ao contrário, esses países estão enredados em formas de dependência do mercado mundial (exportação de matérias primas) e da finança (fuga de capitais) que os tornam muito vulneráveis».

A seguir, a íntegra da entrevista, que foi traduzida por Eleonora de Lucena, com revisão da professora Rosa Marques.

Tutaméia — Quão grande é a crise? A comparação com 1929 faz sentido? Há outra comparação possível para este momento?

François Chesnais — A comparação com 1929 é cada vez mais pertinente. Antes de chegar a esse ponto, é necessário começar por enumerar as mudanças nos parâmetros em comparação com a crise econômica e financeira de 2007-2009, que começou sob a forma de uma crise financeira colossal (com a falência do Lehman Brothers sendo o seu momento mais dramático), antes de se espalhar para a produção e o comércio mundiais.

Primeiro, agora, em 2020, há uma fraqueza das ferramentas monetárias que foram tão importantes em setembro de 2008; a perda de eficácia das intervenções dos bancos centrais e o nível já elevado das dívidas públicas no início da pandemia. Em 2009, o declínio da produção e do comércio mundial foi interrompido pelos enormes investimentos em infraestrutura feitos pela China. Em 2020, isso já não ocorre e nem há a tendência de isso acontecer, em razão dos ataques que o país sofre para desempenhar aquele mesmo papel.

No plano das relações internacionais, o regime interestatal relativamente cooperativo de 2008-2009, que viu a criação do G20, deu lugar a uma intensa rivalidade comercial e a um grande aumento do protecionismo. Hoje, populistas irresponsáveis estão no poder nos Estados Unidos, no Brasil e em diversos países europeus. Observem o abismo que existe entre Henry Paulson, que era de fato o comandante dos Estados Unidos em 2008, e Donald Trump. Por fim, ainda que as economias ditas emergentes tenham escapado amplamente da crise financeira de 2008 e tenham se recuperado em 2009 (lembremos do triunfalismo de Lula), agora elas foram atingidas de forma imediata.

Vamos para 1929. Sim, é claro. Na medida em que a crise se agrava, a comparação com a grande depressão dos anos 1930 se impõe: há o declínio da produção e do comércio mundial e o aumento bem visível do desemprego –de forma até espetacular em alguns países. Mas é igualmente importante observar o que há de diferente em relação a 1929 em termos qualitativos.

A diferença crucial se deve a dois fatores. Em primeiro lugar, a crise do Covid 19 é uma consequência das relações do capitalismo com a natureza. É uma crise sanitária da era do Antropoceno. Representa um choque exógeno, enquanto a crise de 1929 foi resultado das contradições internas do movimento de acumulação do capital. Em seu relatório de 14 de abril, o FMI denomina a crise do Covid 19 como «The Great Lockdown», o grande confinamento. Para combater a pandemia, os locais de produção foram fechados, fazendo explodir o número de desempregados da noite para o dia, o que provocou o encolhimento da demanda, de forma brutal nos países sem benefícios para os desempregados (como os EUA) e de maneira mais moderada em outros países. Em 1929, a economia mundial era internacionalizada, mas não globalizada. Demorou mais de um ano para que a crise chegasse à Europa. Em 2020, foram necessárias apenas algumas semanas para que a paralisação da produção na China se transformasse em crise global.

A segunda diferença entre a crise 1929 e a nossa é que, contraditoriamente, o capitalismo ainda estava em expansão nos anos 1930 e experimentaria, a partir do início dos anos 1940, um longo ciclo de acumulação (ciclo de Kondratiev), impulsionado, em grande parte, pela tecnologia, mas também pela tarefa de completar a expansão mundial das relações de produção capitalistas. Hoje, o capitalismo mundial está diante de uma parede. Ele está sendo confrontado por suas consequências sociais e econômicas, pelo aquecimento global e pelas tecnologias dominantes em razão da inteligência artificial.

Todos esses fatores têm impacto políticos e sociais colossais, mas não são propícios a um renascimento da acumulação. A tecnologia do processo de produção (process tecnology) é dominada pela robótica, o que reduz drasticamente a necessidade de mão de obra em muitas indústrias e setores de serviços. Quanto à tecnologia materializada nos produtos (la produt technology), sua capacidade de servir como impulsionador da retomada de acumulação depende da importância dos investimentos que a sua utilização supõe. Isso tanto em relação aos ramos industriais onde nascem como em atividades adjacentes. Também dependem da ampliação da demanda criada pela sua utilização social. Segundo o economista estadunidense Robert Gordon, grande especialista nessa área, as tecnologias que surgiram nos últimos quinze anos não têm absolutamente essa capacidade.

Gostaria de acrescentar uma última coisa. Na década de 1930, a obrigação de cada país de se defender sozinho dos efeitos da crise deu aos grandes países semicoloniais da América do Sul, Brasil e Argentina, uma oportunidade, com Vargas e, um pouco mais tarde, com Perón, para se libertar um pouco da dominação dos Estados Unidos e de se envolver num primeiro período de industrialização, de construção de uma economia nacional. Hoje, ao contrário, esses países estão enredados em formas de dependência do mercado mundial (exportação de matérias primas) e da finança (fuga de capitais) que os tornam muito vulneráveis.

Tutaméia — Quais são os impactos da crise na economia mundial?


François Chesnais — No futuro imediato e nos próximos meses, o grande confinamento continuará arrastando os países, um após o outro, de forma mais profunda para uma recessão dentro de uma economia totalmente globalizada, mas fortemente hierarquizada. O colapso dos preços do petróleo devido à forte queda da demanda a acelerou. Em suas previsões para a economia mundial, publicadas no início de abril e considerando a hipótese de uma diminuição da pandemia de Covid 19 no segundo semestre deste ano, o FMI prevê uma contração de 3% no PIB mundial e de 11% no comércio mundial. A OMC é muito mais pessimista e prevê um recuo do comércio mundial de até 32%. A hierarquia dos países é decisiva. Em 2019, a participação dos EUA no PIB mundial era de 15%; a da União Europeia, de 16% e a da China, de 18%. A China teve a maior parcela das exportações mundiais, com 17%, seguida pela UE com 16% e os EUA com 14%. No lado das importações, tivemos os seguintes números: EUA, 18%, UE, 15% e China, 12%.

Os países mais afetados pela recessão de 2020 serão os da zona do euro, com uma contração de -7,5% (-7,2% para a França), seguida pelo Reino Unido (-6,5%) e pelos Estados Unidos (-5,9%). O desemprego poderá aumentar em 40% neste ano na zona do euro, passando de 6,6% da população ativa em 2019, para 9,2% em 2020, e até triplicar nos EUA, para 10,4%. Somente os países emergentes da Ásia terão um crescimento positivo de +1%, incluindo a China, que pode esperar um aumento de 1,2% em seu PIB, marcando, no entanto, um declínio muito acentuado após o 6,1% de 2019. A África Subsaariana experimentará um crescimento negativo de -1,6%, com risco de uma crise alimentar. A possibilidade de eles sofrerem uma recessão ainda mais brutal não está excluída.

Tutaméia — Muitos apontam que a crise atual vai enterrar as ideias neoliberais e que o estado vai voltar a ser considerado essencial na condução do enfrentamento da crise. Isso faz sentido?

François Chesnais — Atualmente isso é verdade, sem dúvida. Em todos os aspectos sanitários da crise, a grande maioria dos governos foi forçada a intervir, abandonando suas abordagens neoliberais. Na introdução e no capítulo 1 do relatório de abril (inteiramente consagrado ao combate à pandemia), o FMI pede, de forma imperativa, que os governos assim procedam. Os países em que essa intervenção não teve o vigor necessário ou sequer ocorreu foram penalizados pelos mercados financeiros, como no caso do Brasil e do México. No plano econômico, na introdução do relatório, o FMI (os capítulos seguintes serão publicados no início de maio) exorta os governos dos países avançados a usar a política fiscal o quanto for necessário para financiar a luta contra a pandemia, tanto do lado da oferta, para ajudar as empresas e evitar que haja muitas falências, quanto do lado da demanda (compensações pelo desemprego decorrente do confinamento).

Tutaméia — O atual arranjo produtivo da globalização (com a fragmentação da produção e trabalho precarizado) resistirá a essa catástrofe?

François Chesnais — Há muitos aspectos e temporalidades nessa pergunta. Em primeiro lugar, o tema da globalização. Ela é fundada no objetivo de um triplo movimento de liberalização dos fluxos financeiros, das trocas comerciais e dos investimentos estrangeiros diretos. A China conseguiu evitar quase completamente esses movimentos, mas o objetivo foi plenamente alcançado na Europa, na forma institucional da União Europeia. Desconstruir isso levará tempo. O referendo do Reino Unido para a saída da UE ocorreu há quatro anos e a redação de um novo tratado entre o Reino Unido e a UE ainda está em andamento. Assim, os tratados que estabelecem a UE (Maastricht, Nice, Lisboa) resistirão, o que não significa que não haverá interferência no comércio e no investimento intraeuropeu. Os defensores da liberalização do comércio já estão preocupados com as restrições à exportação de medicamentos e dispositivos médicos adotadas por muitos governos. Quatorze países europeus já possuem um mecanismo para monitorar o investimento estrangeiro nesses setores e o Parlamento Europeu adotou um regulamento destinado a monitorar esse investimento na UE, que entrará em vigor no final de 2020.

É certo que as cadeias globais de suprimentos (global supply chains) mudarão devido à crise (https://sloanreview.mit.edu/article/is-it-time-to-rethink-globalized-supply-chains/). Mas na direção de uma aceleração de tendências já em funcionamento. Já antes da pandemia, os especialistas consideravam, para citar um estudo, que a «globalização tinha atingido o seu pico em 2012 e desde então as cadeias de suprimentos estavam se tornando mais domésticas do que mais regionais ». A crise atual, portanto, aprofundará uma tendência que começou há anos. A Unctad, de Genebra, no seu monitor de tendências de investimento publicado em março, escreve: “Assim, o surto de Covid 19 potencialmente acelerará as tendências existentes de dissociação (o afrouxamento dos laços das cadeias globais de valor) e a reorientação motivada pelo desejo da parte das empresas multinacionais para tornar as cadeias de suprimentos mais resistentes”. Os perigos de depender de um número muito pequeno ou mesmo de um país (China, para penicilina) pressionarão alguns governos a repatriar algumas indústrias consideradas estratégicas.

Tutaméia — É possível prever uma crise financeira que resulte no encolhimento do poder das finanças na economia mundial? Ou as finanças serão fortalecidas?

François Chesnais — Como eu disse acima, ao contrário de 1929 e 2008, o grande confinamento não começou com um grande crash do mercado de ações como em 1929 ou uma colossal crise financeira multifacetada como em 2008. Aqueles que esperavam que a propagação da pandemia e a crise econômica desencadeariam uma crise financeira importante esperaram em vão. A pandemia começou em 31 de dezembro de 2019) (ainda chamada de epidemia), mas foi somente a partir de 8 de março que ocorreu em Wall Street, após o colapso do preço do petróleo, um episódio de pânico no mercado. Mas a forte queda nos preços se estabilizou no final do mês. Robert Schiller, a quem devemos o índice que compara o preço das ações das empresas listadas com seus lucros (o índice de ganho de preço ou PER ou CAPE, Cyclically Adjusted Price to Earnings, ajustado pela inflação) e que leva o nome de “índice Shiller”, publicou sobre isso um artigo em 4 de abril (https://www.nytimes.com/2020/04/02/business/stock-market-predictions-coronavirus-shiller.html) .Ele lembrou que, nesse momento, o índice havia atingido 31 em janeiro 2020 (alcançou 33 em 1929 e 44 em 2008). Em abril, caiu para 23. Como o nível médio do índice é de 17 desde 1881, Schiller conclui que o mercado de ações “ainda é caro e oferecerá retornos moderados e não desastrosos nos próximos 10 anos” e que as pessoas têm mais que se preocupar com o crescimento da Covid19 do que com sua carteira de títulos. Os dividendos pagos necessariamente diminuirão significativamente este ano, mas a doutrina e a prática da prioridade do acionista (shareholder value) não são questionadas no momento.

Como em 2008, não haverá aumento da concentração no setor bancário. O oligopólio bancário global permanecerá igual, com a diferença de apenas alguns detalhes. No entanto, esse não será o caso em outros setores de serviços, principalmente nas companhias aéreas e de frete marítimo, assim como em muitos outros setores em que a crise relançará a concentração.

Mas três fatores ajudarão a consolidar a força das finanças, mais especificamente o dos fundos de investimento (fundos de hedge).

Primeiro, há as configurações nacionais de mercados e rendimentos (níveis de taxa de juros) favorecendo investimentos especulativos e episódios de fuga maciça de capital (o caso do Brasil e do México diante das inadequações da política de saúde do governo e a aceleração do número de mortes devido à pandemia). Depois, há a dívida dos países pobres, que é largamente mantida por capital privado, e não por empréstimos governamentais. A Unctad estima que essa parte atinja quase três quartos https://unctad.org/en/PublicationsLibrary/gdsinf2020d3_en.pdf. Sob o título “uma questão de vida ou dívida”, a Unctad divulgou um relatório em 23 de abril dirigido aos governos. Ele observa 1) que, para os anos 2020 e 2021, os pagamentos dos países em desenvolvimento somente de sua dívida pública externa atingirão entre 2,6 trilhões de dólares e 3,4 trilhões de dólares, 2) que os apelos à solidariedade internacional somente resultaram até agora em um apoio tímido e 3) que um organismo internacional será necessário para supervisionar programas de alívio da dívida para os países em desenvolvimento. Finalmente, o terceiro fator é a crescente dívida pública dos países avançados. Na França, passará de 100% para 115% do PIB. Isso explica o “apoio tímido” dos países avançados aos países mais pobres e endividados. A luta pelo cancelamento de dívidas públicas agora se refere tanto aos países avançados quanto aos em desenvolvimento.

Tutaméia — As crises recentes têm ampliado as desigualdades. Isso acontecerá novamente? Ou é possível imaginar ou outro desdobramento, no sentido da redução da concentração de renda?

François Chesnais — Na França, a atual crise lançou uma luz crua sobre um conjunto de desigualdades (renda, educação, equipamento digital, acesso à Internet), sem falar em desigualdades de riqueza patrimonial. Certamente não diminuirão à medida que a crise se desenrole e o desconfinamento começar. Uma reversão dessa situação só seria possível se um bloco social muito grande fosse formado entre os estratos pobres e o que é chamado de “classe média”.

Tutaméia — O desenvolvimento capitalista das últimas décadas resultou em pobreza e trabalho precário para milhões. Isso será intensificado agora? É possível prever revoltas decorrentes dos efeitos da crise para a maioria da população, especialmente nos países mais pobres? Existe risco de caos nas sociedades?

François Chesnais – Sim, infelizmente. E a pobreza e a insegurança no emprego podem se intensificar ainda mais como resultado dessa crise. Haverá revoltas em muitos países, mas é somente em países onde lutas sociais anteriores e/ou muito recentes deixaram traços em termos de condições subjetivas e organizacionais que podem levar a modificação do equilíbrio de poder político entre o(s) explorado(s) e o capital. No caso francês, penso no movimento dos coletes amarelos de novembro a dezembro de 2019.

Tutaméia — Quais formas o capitalismo vai encontrar para se reorganizar nessa crise? Haverá novas formas de acumulação?

François Chesnais— No que diz respeito à reorganização, tudo o que se pode dizer com certeza é que o lugar central da China aumentará. O processo de reprodução expandida do capital enfrenta uma parede que está ligada às características da tecnologia apresentadas acima e às consequências negativas, mesmo para a acumulação, das mudanças climáticas.

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