C&T: A quem serve, a quem deveria servir?

A C&T não pode ficar no laissez-faire. Temos de ter controle público e social, cuidados e luta contra o consumismo apenas para reproduzir o capital

Por Antonio Julio de Menezes Neto*

Texto publicado originalmente no site Contrapoder


A C&T (Ciência e Tecnologia) passaram a ser objeto de intenso debate devido a Covid. De uma forma geral, tivemos governos social-democratas defendendo a ciência e governos de ultradireita defendendo métodos alternativos, inclusive com o uso de medicamentos sem eficácia. No campo da esquerda, a defesa da “moderna ciência” foi unânime e, a defesa de métodos alternativos ou “novos conhecimentos tradicionais” perderam força neste campo. Mas, infelizmente, sabemos que a ciência não é neutra. Logo, grandes laboratórios, que são grandes empresas capitalistas, investiram muito nas pesquisas. Grandes multinacionais, como a Pzifer, Jhonson & Jhonson, Oxford, Sinovac e outras, buscaram reproduzir seu capital com o alastramento do vírus. Políticos de direita, como Boris Jhonson, primeiro-ministro do Reino Unido declarou, defendendo, que foi a ganância por dinheiro que possibilitou o desenvolvimento das vacinas e o possível debelamento do vírus. Isto mostra como a ciência está a serviço de interesses. Mas como devemos nos posicionar perante a ciência e tecnologia? Me posiciono, de forma geral, como um iluminista crítico mas, principalmente, dentro da tradição marxista, que defende o desenvolvimento constante da moderna C&T, mas sob controle público e desenvolvida para a perspectiva social.


Somos seres da natureza e esta mesma natureza nos impõe muitas dificuldades para a simples sobrevivência. Por isto, passamos a conhecê-la, a dominá-la e usá-la em nosso favor em busca de uma vida emancipada das necessidades. Este conhecimento deveria garantir a nossa sobrevivência e, logicamente, irmos além da sobrevivência, construindo nossas relações especificamente humanas. Na natureza não é fácil sobreviver. Já temos muitas conquistas para sair da necessidade imposto pela natureza e vivermos com mais plenitude a liberdade humana. Mas as relações sociais de dominação que marcaram, e marcam, as nossas sociedades fazem com que algumas classes dominantes usufruam e outras, sempre a maioria, continuem a lutar pela sobrevivência.


No capitalismo o trabalho é alienado. Mas temos de ir avançando e colocando o sistema do capital em xeque. Hoje, já poderíamos ter trabalhos bem mais humanos em decorrência do desenvolvimento da C&T e de novas relações sociais. A jornada de trabalho já poderia, e deveria ser, bem menor nos dias de hoje. Nas fábricas, na agricultura, no transporte coletivo, na construção civil, nos trabalhos mais pesados, 4 horas, no máximo, de trabalho por dia poderia não ser tão alienado e massacrante. Mas o que impede esta possibilidade é o fato do capitalista, detendo a propriedade material e intelectual das patentes, ter a necessidade de extrair cada vez mais a mais–valia absoluta ou relativa. Saliento que cálculos atuais mostram que 3 horas por dia seria o suficiente em uma produção planejada. Paul Largue, líder operário e genro de Marx, em seu livro “O Direito à Preguiça”, em fins do século XIX, já defendia a jornada de 3 horas. Outros dizem que hoje poderia até ser menor. O próprio Keynes, capitalista, achava que o sistema conseguiria no futuro a jornada de 3 horas. No comunismo, com sociedades planejadas e com o fim da mais-valia, a aplicação da C&T deve ser direcionada para bem estar e a nossa emancipação. Com isso, certamente teríamos uma diminuição enorme da jornada de trabalho. Ou que cada ser humano trabalhasse dentro do lema “de cada um conforme sua capacidade para cada um conforme sua necessidade”.


Sem querer mitificar a C&T, o desenvolvimento desta, principalmente em tempos de mudanças ou necessidades, é muito efetivo. O desenvolvimento da ciência e a tecnologia tem dado conta de muitos problemas colocados (com toda a sua limitação, que sempre existirá). Mas devemos compreender também que existem ciências e ciências. A grande e a pequena. A moderna e a tradicional. Que devem conviver, pois se queremos um sistema social mais justo, não podemos prescindir de nenhuma delas.


Existem ciências locais, que servem mais a determinados locais e a determinada cultura. São importantíssimas, mas localizadas, de menor impacto. Importantes de serem utilizadas, mas não bastam e muitas são inacessíveis para as grandes cidades, onde se concentram grande parte da população mundial. Assim, a grande e moderna ciência torna-se imprescindível no mundo atual. Mas, atente-se: não podem ficar sob controle de grandes empresas, não podem visar o lucro e o dinheiro, mas devem ter a perspectiva social de tornar a vida mais agradável e menos pesada.


Na minha dissertação de mestrado, no início dos anos 1990, fiz uma pesquisa sobre o “embate” homens x máquinas no agronegócio sucro-alcooleiro. Vi que o capitalista do agronegócio usava o que fosse mais lucrativo ou para evitar greves. Hoje, o uso de colheitadeiras está disseminado, o que mostra a vitória das máquinas para o capitalista. Mas, perguntemos, o ser-humano deveria cortar cana existindo máquinas que façam este trabalho? Posteriormente, aprofundei-me nos debates das “novas tecnologias” e vi que, no campo, esta questão era muito presente. Inclusive sendo um grande poupador do trabalho pesado. E a C&T desenvolvia máquinas e manipulação genética (transgênico) para ser aplicado no processo produtivo mas, quase sempre a favor da reprodução do capital e não para uma vida humana mais digna. Não podemos desprezar este conhecimento acumulado em nome dos “conhecimentos tradicionais”. Todos são importantes. Temos de lutar é para a apropriação social dos meios de produção.


Os “conhecimentos tradicionais” não teriam importância? Claro. Aliás, toda a ciência começa no senso-comum. Vivemos no senso-comum e temos soluções para muitos problemas. E a ciência é integrada aos conhecimentos tradicionais. Por exemplo, se uma nação indígena usa uma planta que sabe curar dores, a ciência estuda esta planta, isola o elemento anestésico e produz remédios em larga escala. Mas em diversas situações não temos como desconhecer a moderna ciência de “laboratório”. Se formos construir um carro, um metrô ou um avião, fazermos uma operação médica sofisticada, precisaremos da moderníssima e grande ciência.


Dentre a ciência local importante e tradicional, podemos citar a agroecologia, o artesanato, a pequena produção caseira, dentre muitas outras. A grande ciência moderna e a pequena ciência localizada devem conviver. Mas o fundamental é disputar os meios de produção, conquistá-los e transformá-los em propriedade coletiva. Com isso, poderíamos, inclusive, planejar socialmente as relações sociais de produção e o consumo, evitar o desperdício e, logicamente, a destruição da natureza com sentido apenas para a reprodução do capital.


Por exemplo, hoje, não temos como proibir a exploração de minérios. Precisamos do ferro e aço para coisas básicas, como construção de casas e transporte. Mas podemos planejar a extração. Atualmente, o preço disparou no mercado e a extração ficou desenfreada, causando os desastres e crimes ambientais e humanos que temos visto em meu estado, Minas Gerais. Isto tem de ser contido e planejado. O problema é social, prioritariamente. Por isso, não podemos ter a visão “ecológica” apenas quando os pobres aumentam o poder de consumo, numa visão neomathusiana. Malthus dizia que a terra não crescia, mas a população sim. Assim, a fome seria inevitável, a menos que fizéssemos um planejamento social: controle da natalidade dos pobres.


Não existem alternativas no capitalismo, devemos dizer. Não existem alternativas sem planejamento social para todos usufruírem. A C&T não pode ficar no laissez-faire. Temos de ter controle público e social, cuidados e luta contra o consumismo apenas para reproduzir o capital. Esta é a nossa saída, pois conhecer e modificar a natureza sempre iremos, pois esta é uma característica humana. O problema, repito, é o capitalismo, a sociedade da mercadoria. Este sistema só sobrevive fabricando mais e mais mercadorias. Poderemos, sim, ter fartura, mas sem a necessidade de consumismo. Podemos avançar sempre, sem receios, no desenvolvimento da C&T. Mas temos de fazer a opção de qual sociedade queremos: Socialismo ou Barbárie.



*Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo e doutor em educação.

18 visualizações0 comentário