Breque dos Apps em São Paulo

O Breque dos Apps tomou todo o Brasil. Em São Paulo, dentre as várias movimentações, uma concentração em frente ao MASP confirmou novos protagonismos políticos

Por Gavin Adams

Texto publicado originalmente no site Outras Palavras


Saí de bicicleta e fui dar uma olhada na movimentação dos entregadores de aplicativos que estão em greve hoje. A movida é global e inédita no Brasil em vários níveis: é um desafio à “uberização” do trabalho trazida pelas novas tecnologias, é uma iniciativa de defesa trabalhista e de existência numa categoria muito fragilizada e dispersa. Enfim, brechas na nova economia permitindo novas formas de organização e luta, em áreas onde os sindicatos não conseguiram alcançar.


O Breque tinha começado de manhã, com trancamentos e concentrações em vários locais de trabalho, por várias cidades brasileiras. O movimento como um todo foi bem espalhado e não só a ação de entrega de pautas à Justiça.


Eram 13h30 quando atravessei a avenida Paulista. Tinha visto nas redes que iam primeiro para a sede do Tribunal Trabalhista (TRT), que é na Consolação. Passando pela frente do MASP, notei o efetivo da segurança pública, uns 100 homens e mulheres de várias seções da grande família policial, incluindo uma dúzia de cavalos com seus ginetes.


Dobrei à direita ao fim da avenida e ganhei a Consolação. Desci até o TRT, e pertinho vi pesada presença do Choque, com 10 viaturas e seu veículo blindado, o Caveirão, estacionado no quartel dos bombeiros, que dá para a avenida.


A concentração de motocicletas já era grande, e havia um carro de som médio. Vi algumas faixas e bandeiras da UGT e do SINDIMOTOSP. Soube depois que eles entregaram ao tribunal uma paiuta de reivindicações trabalhistas, essencialmente por seu reconhecimento como trabalhadores e não como “colaboradores”.


Logo o cortejo saiu (motocicletata?), mas a PM quis que o carro de som, que estava atrás, viesse à frente, o que ocorreu depois de certa delonga. Aproveitei par olhar em volta.


Tinha mulheres sim, e uma delas trazia à mão um pano impresso com “Motogirl Antifascista”. Mas a grande maioria era de jovens homens, de 20 a 25 anos, a maioria negra. A energia era ótima, alegre, e parte da euforia certamente era induzida pelo gás carbônico e pelos metais pesados que carburadores meio desregulados soltavam no ar. Vi as chamadas “bags” de diferentes empresas, com predominância das grandes. Fora umas 3 bandeiras da UGT, nenhuma outra faixa ou símbolo de agremiação política de grande porte. Mas notei que as bags eram agora os suportes para mensagens políticas visualizadas na rotina do corre por quem vem atrás, em duas ou quatro rodas. Predominavam várias versões da chamada para ao ato, o “Breque das Apps”, mas vi várias mensagens como “Respeite quem te dá lucro”, e um dos motoboys imprimiu uma foto dele mesmo com seu filho pequeno, talvez buscando sensibilizar os motoristas no dia-a-dia e humanizar sua própria presença no fluxo.


Subimos a Consolação sem maiores problemas mas com mjito barulho, exceto uma moça, que não tinha relação com o ato e estava desmaiada na faixa de pedestre. Ela recebia socorro à altura do restaurante Sujinho.


Já na avenida Paulista, minutos depois, notei que os cavalos que faziam sentinela em frente à lanchonete America estavam muito nervosos com o grande rumor dos motores. Um deles refugava muito e deixava os cavaleiros nervosos.


Chegamos ao MASP com grande alarido e fizemos o contorno para ocupar a via que leva à Consolação, concentrando ali no asfalto, onde aguardavam muitos fotógrafos, inclusive A e também S. Essa era a hora do retrato e do detalhe, e os fotógrafos certamente buscavam a “cara” desses novos protagonistas. Além das bags e das poucas bandeiras, notei alguns estandartes: “ZN no Breque”, “ZS no Breque”, “Fim do bloqueio”. Eram feitos de cano de pvc marrom e plástico preto pintado, à maneira das bandeiras que vemos às costas dos samurais em filmes japoneses: a bandeira é retangular e vertical, fixada ao mastro em forma de L invertido. O pano assim preso não tremula, mas fica sempre legível. Foi a primeira vez que vi um pavilhão assim em manifestação de rua.


A energia era ótima, ainda muito barulho de motor e alguma buzina. O carro de som estava lá, e os oradores falavam, mas achei que os discursos não dominavam o ambiente.


Abriram uma faixona grande, preta, com “Motoboys unidos contra a precarização”. A galera erguia ao alto suas bags e suas bicicletas, além de muitos punhos cerrados. A certa altura, o fumacê colorido tingiu o ar e a clicagem dos fotógrafos atingiu o frenesi.


Duas moças abriram um faixão laranja com “Vidas Negras Importam”. Vi uma moça da OAB.


Vi na calçada um pessoal de jaleco branco do SUS. Eram do SIMESP e do SINDESP, e traziam álcool gel que ofereciam às pessoas, e alguns portavam cartazes com “Apoio ao trabalhador precarizado” e “Saúde não se vende, se defende”. Vi também uns moços e moças com camisa do Palmeiras distribuindo água. Peguei uma. Outro moço trazia um cartaz feito à mão: “Os trabalhadores da USP apoiam a greve dos entregadores. SINTUSP”. Vi um estandarte do “Basta!”.


Vi várias camisetas de coletivos e organizações de esquerda, como do PCO e do Juntos!, incluindo uma faixa do CSP, que é ligado ao PSTU: “Brecar tudo para que os de cima sintam o que a gente sente todo dia”.


Mas me pareceu que as organizações e coletivos prestavam apoio e não compunham os entregadores propriamente. Achei, até onde vi, que respeitaram a movida que não era sua e colaboraram sem hegemonizar. O orador inclusive disse que “o sindicato tinha conduzido até aqui”, mas que “o pessoal do Treta no Trampo ia levar daqui”. Não sei de muitos detalhes da organização, mas me pareceu que o sindicato atuou na entrega das pautas ao Tribunal, e quem mobilizou foram outros coletivos basistas, notadamente os Entregadores Antifascistas e esse Treta no Trampo.


Imagens: Alice Vergueiro


Fui ouvir os oradores no carro de som e achei as falas boas, basistas e não comunicados da direção sindical. Ele depois pôs em votação a proposta de ir até a Ponte Estaiada. O povo decidiu que sim, e depois de algum tempo se movimentaram para sair. Uma moça falou em seguida e disse que “sem a nossa mão-de-obra o aplicativo não gira”.


Eram 14h30 quando o cortejo saiu em direção à avenida Rebouças. Eu segui com eles até a Praça do Ciclista observei toda movida – mas decidi que não ia aguentar pedalar a ida e a volta. Contei umas 1200 pessoas no total, uma bela presença.


Achei o dia um sucesso. Ainda teve o tranca do jantar, mas já deu pára ver que a movimentação de fato mobilizou novos atores, isso num momento onde os movimentos populares estão com dificuldade de se fazer visíveis e relevantes. O pessimista dirá que ainda é pouco, mas o realista admitirá que os ganhos foram expressivos.


Talvez a maior conquista tenha sido trincar a narrativa da uberização da vida como projeto de vida. A julgar pelos pedestres e pelas redes, o movimento evadiu a polarização política atual sem deixar de ser claramente político e de luta social. Mostraram que é possível se organizar sem ou apesar de um ambiente sindicalista em crise, abrindo novas avenidas políticas, recolocando a cidade como palco de lutas. Os metroviários de São Paulo estão em processo de deflagração de greve, de novo trazendo a circulação urbana e a cidade pós-capitalista à pauta.


A própria agilidade fluida permitida pelas motocicletas reunidas sugere um outro tipo de aparição política nas ruas. A presente tática de abafamento por envelopamento de passeatas, por parte da polícia de São Paulo, não poderia ter sido utilizada contra os entregadores hoje.


Os entregadores também conseguiram atenuar sua invisibilidade de “serviço essencial” mal remunerado e de pouco prestígio. Quem já participou de greves universitárias conhece as agruras que é o paredismo isolado dentro do campus murado. E também os agentes de saúde, endeusados em loas nas mídias mas essencialmente invisíveis e maltratados – até a internação!


A quarentena recortou a sociedade em termos de classe muito fortemente, mas a própria configuração da economia digitalizada no contexto da pandemia permitiu hoje uma configuração muito potente, que é a concertação entre trabalhadores e usuários. Parte do Breque hoje se deu pela participação de usuários dos aplicativos.


Resulta que os consumidores confinados, hoje, detém grande poder que é o de recusar serviço aos aplicativos de entrega, e, além disso, podem atuar sobre o algoritmo que governa a economia interna da empresa. Já vi muita força nas alianças entre usuários e funcionários de equipamentos públicos. À semelhança de escolas e suas associações de pais e mestres, existem associações de funcionários e usuários de serviços da saúde pública, e também em algumas unidades do sistema prisional. Há mesmo quem teorize que a luta hoje em dia não se dá mais na esfera do produção mas sim na esfera da circulação.


A última reflexão do dia na rua foi em torno da diferença entre esta motociletata e as carreatas da extrema direita que venho acompanhando. A composição etária, social e étnica era gritantemente diferente, e também a relação dos manifestantes com seus veículos. As motos são abertas e deixam o corpo mais exposto, ao contrário dos carrões extremistas, e, mesmo descontando um forte viés de simpatia pelos motocas de hoje, a energia que vi hoje era de alegria determinada, meio desesperada também, mas não de ódio e ressentimento. Sempre me chamam a atenção as lives irradiadas de celulares bolsonaristas: muitas vezes são do tipo arrebatamento ou ira santa. Já aqui a selfie e filmagem ocorriam também, mas em outra chave.


Era belo ver a moçada se vendo e se reconhecendo em números nunca antes conseguidos, furando a capa de invisibilidade social em inéditas possibilidade políticas.


Deixei passar as quatro viaturas da PM que fechavam o cortejo e pedalei até minha casa enquanto o movimento se espalhava por toda a cidade.

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