Brasil, brotam bilionários em terra arrasada

Em contradição chocante, dobra o número de super-ricos, no momento em que país definha. Classes dominantes, conservadoras, abraçaram o financismo e produção estagnou. Em breve, escorregarão pelo buraco que ajudaram a cavar

Por Marcio Pochmann*

Texto publicado originalmente no site Outras Palavras O que acontece atualmente com o capitalismo brasileiro? Uma pergunta ausente de respostas da maioria dos analistas que se propõem a acompanhar a situação econômica, política e social do país. O impasse do capitalismo brasileiro pode ser encontrado na disjuntiva de criar riqueza nova ou de abraçar a riqueza velha na forma do dinheiro e títulos de propriedade financeira.


Segundo a Revista Forbes, que monitora a evolução dos ricos no mundo, o Brasil mais que dobrou o número de pessoas com pelo menos US$ 1 bilhão em fortuna, passando de 31, em 2016, para 65, em 2021 (110%). Com isso, a participação dos ricos do Brasil no total de bilionários do mundo saltou de 1,7% em 2016, para 2,4% em 2021.


Para o conjunto da economia brasileira, contudo, a trajetória no período recente tem sido justamente a inversa, regredindo do 9o para o 12o lugar no ranking dos maiores PIB do mundo. Se comparada com a evolução da riqueza global, a participação do Brasil regrediu 33,3%, pois deixou de representar 2,4% do PIB mundial (posição em 2016), para assumir, em 2020, apenas 1,6%.


Também se confirma o comportamento de queda no indicador do PIB por habitante. Na lista de 195 países, o Brasil se encontrava na 85a posição em 2020, ao passo que há seis anos estava na 76a posição, segundo as estatísticas do Fundo Monetário Internacional.


Tudo isso porque a soma anual de toda a riqueza dos brasileiros, contabilizada pelo Produto Interno Bruto (PIB), acumulou o decréscimo de 3,8% entre 2016 e 2020, segundo o IBGE. Para o mesmo período de tempo, o PIB per capita do Brasil acumulou decrescimento de 7,5%.


Também entre 2016 e 2020, a economia global que acumulou crescimento do PIB em 10,7%, registrou o aumento do número de bilionários em 52,2%. Já a China, com elevação do PIB em 31,3%, viu subir a quantidade de bilionários em 295%.


Em síntese, o Brasil assumiu a singularidade internacional de mesmo regredindo a geração de riqueza, conseguir aumentar o número de bilionários. Exemplo inequívoco da trajetória do capitalismo em declínio, cujo subdesenvolvimento acelerado se reproduz no abraço à riqueza velha, em vez da geração de riqueza nova.


O colapso na acumulação de capital no país tem resultado cada vez mais no avanço do conservadorismo das classes dominantes. O abandono do comportamento de espírito animal (animal spirits), conforme denominado por J. M. Keynes, no seu clássico livro de 1936 (A teoria geral do emprego, do juro e da moeda), parece se expressar melhor na desistência histórica praticada por capitalistas atualmente no país.


Sem a confiança futura na obtenção de lucros crescentes nas atividades produtivas, o protagonismo empreendedor em busca da inovação na produção e da quebra da rotina dos processos organizacionais desaparece. Em realidade, dá lugar ao amor preguiçoso do dinheiro fácil.


A perda do sentido pela eficiência marginal do capital tem sido perseguida pela preferência da liquidez. Ou seja, o dinheiro líquido que resulta da transmutação da propriedade imóvel (agropecuária e industrial) para a propriedade móvel (ativos financeiros).


A aplicação do receituário neoliberal constitui parte integrante fundamental da engrenagem, desviando o ímpeto progressista materializado pela geração de riqueza nova para a prática conservadora das juras de amor ao dinheiro consagrado pelo abraço dos capitalistas ao estoque da riqueza velha. O fiscalismo desvairado que se alia à lógica da financeirização, valorizando a riqueza pregressa de quem a tem, erigiu um enorme muro de contenção que impede o retorno do vigor econômico que demarca o capitalismo desde o seu nascimento no Brasil, ainda no final do século XIX.


A regressão no padrão de vida do conjunto dos brasileiros pode ser contrastada somente pela expansão do número de ricos associada ao curso de uma verdadeira economia da despossessão. O exercício da acumulação por despossessão da maior parte dos brasileiros tem sido uma prática imposta pelo golpe de 2016 que restabeleceu o poder de classe aos minoritários habitantes do andar de cima do transatlântico correspondente à dimensão econômica do Brasil no mundo.


O amor ao dinheiro fácil que desmobiliza a riqueza nova passou também a regredir o estoque da riqueza velha, conforme verificado mais recentemente. Nesse sentido, parece indicar o abraço dos afogados no mar do capitalismo em que navega o transatlântico brasileiro.



*Marcio Pochmann é economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.

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