Bolsonaro entre o “operacional” Braga Neto e a perda de apoio dos praças

A suposta capacidade técnica dos militares é a carta na manga de Jair Bolsonaro para superar sua incapacidade pessoal. Mas não há como agradar a todos

Por Carlos Tautz*

Texto originalmente publicado pelo blog Córtex Político

A vida ficou muito mais fácil para os teóricos da conspiração, em 30 de março. Nessa data, às vésperas do aniversário de 56 anos do golpe de 64, o site defesanet.com.br, voz informal da elite militar, dava um “furo” que repercutiu internacionalmente. Segundo o Defesanet, o General de Exército Braga Neto, interventor no Rio de Janeiro entre 16 de fevereiro e 31 de dezembro de 2018, e Ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, dera um golpe e virara “presidente operacional”. Para quem gosta de explicações rasas, a tese era um prato cheio.

O fato é que o general-ministro Braga Neto já possuía àquela altura, por força do cargo, papel central em um governo cujo Presidente manifesta incapacidade técnica e até cognitiva. Sem projeto e apenas com objetivos difusos, Bolsonaro sempre recorre à suposta capacidade técnica das Forças Armadas para superar sua incapacidade pessoal. À elite militar, que patrocina Bolsonaro desde pelo menos 2014, resta apenas evitar o naufrágio de seu rebento, para não afundar com ele.

A função do General como Ministro é “assistir, direta e imediatamente o Presidente da República no desempenho de suas atribuições, especialmente na coordenação e na integração das ações do Governo federal”. Sua importância já é enorme em um cenário misto de pandemia com duradoura crise econômica (2015-20).

Pelas circunstâncias evidentes (ou por algum segredo entre Braga Neto e Bolsonaro), é enorme e crescente a importância do General na manutenção do governo. Essa importância aumentou ainda mais em 13 de abril, quando ele passou a acumular o Grupo de Trabalho para a Coordenação de Ações Estruturantes e Estratégicas para Recuperação, Crescimento e Desenvolvimento do País, no âmbito do Comitê de Crise da Covid-19. Esse GT pode quase tudo (a administração de crises costuma legitimar qualquer coisa).

Com o novo cargo, o general-Ministro pode “propor [e aprovar] medidas voltadas à alocação e distribuição da atuação estatal de modo a promover a redução das disparidades regionais causadas pelos impactos econômicos e sociais da covid-19; propor diretrizes para a destinação de emendas parlamentares por meio de articulação com o Congresso Nacional; propor medidas com o objetivo de garantir a cadeia de suprimentos de setores estratégicas; e propor medidas que promovam a desburocratização de procedimentos administrativos por meio do uso da tecnologia da informação, da simplificação de procedimentos relativos aos registros cartoriais, às contratações públicas, à criação e extinção de pessoas jurídicas, a aspectos regulatórios e de licenciamento ambiental, dentre outros”, segundo a Resolução do ato que criou o GT.

Ele propõe e os membros do GT, todos escolhidos por ele mesmo, decidem.

Ou seja, não é crível que a elite militar tenha conseguido que o ególatra Presidente engolisse a quartelada. Ao contrário, os fatos mostram que todos concordam entre si e estão muito coesos. A única dúvida repousa sobre o que farão os militares quanto aos filhos do Presidente, que não estavam no pacote. O Superior Tribunal de Justiça acabou de destravar as investigações da Polícia do Rio (chefiada pelo Governador Wilson Witzel, inimigo dos Bolsonaro) sobre o senador Flávio Bolsonaro, argumentando que “há fortes indícios de crimes” na investigação do envolvimento dele com a milícia de Rio das Pedras através de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e amigo do peito de Jair. Além disso, Eduardo Bolsonaro pode perder o cargo porque seu gabinete na Câmara dos Deputados é comprovada fonte das notícias falsas investigadas pela Comissão Parlamentar Mista das Fake News.

Além dessas, o Presidente tem outras preocupações imediatas – incluindo um bem elaborado pedido de mandado de segurança contra as recorrentes manifestações públicas do Presidente, em contrariedade ao isolamento social preconizado pelo Ministério da Saúde,e a ordem para que ele torne público o seu teste para COVID-19.

Trata-se da queda no apoio por parte de praças e a baixa oficialidade, que até o ano passado compunham a maior, mais fiel e mais mobilizada base bolsonarista. Incluindo militares na ativa, na reserva, pensionistas, suas famílias e amigos, todo esse público alcançaria, segundo estimativas das entidades de classe dos praças, quase 10 milhões de eleitores em nível nacional.

Os “graduados” (como praças e suboficiais se denominam) racharam com o Presidente quando Bolsonaro aprovou no Congresso uma Reestruturação da Carreira Militar que privilegiou oficiais superiores e prejudicou as patentes baixas. Suas lideranças, garantem: foram traídos em 2019 e, assim, em 2020 não votam nas eleições municipais em nenhum candidato apoiado por Bolsonaro. De imediato, a decisão ameaçaria a reeleição de Marcello Crivella, que conta com os votos cativos de Bolsonaro para superar a alta rejeição pela péssima gestão na saúde e se reeleger prefeito carioca.

Os “graduados” criaram até um movimento (o “Praça Vota em Praça”) que já tem representantes em todos os Estados e vai lançar no mínimo 55 candidatos a vereador em 16 Estados, através por uma ampla gama de partidos de direita, e o PDT. Treinam para as eleições federais de 2022 e se espelham na Bancada da Bala, que possui 70 integrantes predominantemente oriundos das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Estaduais.

Aliás, se os cálculos do eleitorado militar estiverem corretos, o Rio, berço político de Bolsonaro, transformou-se em ponto de interrogação para o Presidente. O Estado tem o maior contingente de militares (273 mil, ativa e reserva, cerca de 85% de graduados e pensionistas) que possuem inserção em diversas religiões e seitas conservadoras (base principal de Crivella). Todos esses votos chegariam ao milhão, entre os 4,8 milhões de eleitores da Cidade.

A maioria dos integrantes do “Praça” se opõe à reeleição de Crivella, e principalmente se o candidato a vice for, como se especula, o Subtenente do Exército e deputado federal mais votado em 2018 (com 345 mil votos), Hélio Lopes (PSL), o “Hélio Negão do Bolsonaro”, que avalia mudar seu domicílio eleitoral de Mesquita (RJ) para a capital. Quando da votação da reestruturação de carreira, Hélio Lopes, apesar de ser oficial inferior, rejeitou apoiar os praças e confirmou a fidelidade a Bolsonaro.

Para quem não liga o nome à pessoa: Hélio Lopes é aquele que, apesar de ser parlamentar, aparece sempre atrás do Presidente em viagens (inclusive à China) e, até, em jogos em que o autodeclarado palmeirense Bolsonaro finge torcer para o popular Flamengo, time de maior torcida no Brasil.

Apesar desses reveses, ainda não há sinal de motim geral nas legiões de Bolsonaro. O que a dinâmica indica é fragilidade da estratégia bolsonarista de sempre dobrar a aposta em todas as diatribes. Em tese, o campo de batalha estaria cheio para a esquerda liderar movimentos massivos, na rua, contra o mar de incoerências que Bolsonaro encerra. O problema é outro – e muito mais grave. A esquerda, ao priorizar o Parlamento como palco de lutas, desistiu de desejar. *Carlos Tautz é editor do Córtex Político, doutorando em História e membro do Grupo de Trabalho e Orientação.

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