Bolsonaro e os Quartéis: a loucura com método

Texto expõe os principais elementos do neoconservadorismo norte-americano dos anos 1980, e como esse pensamento foi o embrião da atual alt-rigth (extrema direita) americana, além de analisar a linha de ação dos militares durante a crise econômica, política e institucional em curso, desde 2015, que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro para o posto de presidente da república

Por Eduardo Costa Pinto

Texto originalmente publicado pelo Instituto de Economia da UFRJ


Introdução


No discurso de posse no parlatório, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o “[...] povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. Muitos analistas argumentaram que essa afirmativa seria uma retórica ainda presa à campanha eleitoral ou que seria uma estratégia de cortina de fumaça para tirar o foco das questões centrais.


Pretende-se argumentar aqui que essas duas interpretações são limitadas e que essa frase representa a síntese estratégica do governo Jair Bolsonaro, sobretudo de dois importantes centros de poder do atual governo: 1) o núcleo familiar-ideológico (Jair Bolsonaro e seus filhos sob influências do guru Olavo de Carvalho e de pastores) que indicaram diretamente os Ministros da Educação (Ricardo Vélez Rodríguez), das Relações Exteriores (Ernesto Araújo) e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos; e 2) o núcleo militar (que tem nos generais Augusto Heleno, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Edson Leal Pujol e Hamilton Mourão seus principais comandantes) que possui hoje mais ministro do que no primeiro governo do regime militar (governo Castelo Branco entre 1964 e 1967 [1]). Esse núcleo é influenciado pelas ideias (econômicas e ideológicas) do Gal. Avellar Coutinho.


Os outros dois importantes núcleos de poder do governo Bolsonaro são: o núcleo econômico liberalizante conduzido pelo Ministro da Economia Paulo Guedes; e o núcleo judiciário lavajatista (mais especificamente a “República de Curitiba” [2] ) comandando pelo Ministro da Justiça Sergio Moro [3].


Mas como assim libertar o Brasil do socialismo? De onde o presidente Jair Bolsonaro retirou esse argumento? Como se dá a articulação entre os núcleos familiar-ideológico do Bolsonaro e dos militares? Essas questões somente conseguem ser respondidas de forma articulada quando identificamos a origem das principais ideias (diagnósticos e estratégias) desses dois núcleos de poder do atual governo.


Diante disso, este texto tem como objetivos (i) apresentar a visão do Bolsonaro (e seu clã) e, sobretudo, do núcleo militar de seu governo a respeito do que eles entendem por socialismo (“marxismo cultural” e “politicamente correto”) em sua vertente paranoica dos neoconservadores americanos da década de 1980 (os paleoconsertives hoje mais conhecidos como alt-right) ; e (ii) identificar a linha de ação dos militares durante a crise econômica, política e institucional em curso. Crise esta que possibilitou a vitória eleitoral do Capitão reformado Jair Bolsonaro para presidente da República.


Além da introdução, o artigo apresenta mais quatro seções. Na segunda, expõe-se, de forma sintética, os principais elementos do neoconservadorismo norte-americano dos anos 1980, especialmente a sua vertente paranoica do “marxismo cultural”, e como esse pensamento foi o embrião da atual alt-rigth (extrema direita) americana que ganhou enorme impulso com a vitória eleitoral de Trump. Na terceira, descreve-se as ideias do Gal. Avellar Coutinho, fortemente influenciadas pelos neoconservadores dos EUA e pela “teoria da guerra revolucionária”, e como elas foram o eixo para a doutrina das Forças Armadas, em especial para o exército. Na quarta, analisa-se a linha de ação dos militares durante a crise econômica, política e institucional em curso, desde 2015, que culminou com a eleição do Capitão reformado Jair Bolsonaro para o posto de presidente da república. Por fim, na seção cinco, procura-se alinhavar algumas ideias a título de conclusão.


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Notas:


[1] Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,numero-de-militares-no-1-escalao-e-omaior-desde-1964,70002647839


[2] O “lavajatismo” é um movimento que não aponta um projeto político claro, mas apresenta o combate a corrupção como fim em si mesmo, que levaria a salvação e o desenvolvimento do país. Com isso, esse movimento comporta-se como uma espécie de partido da classe média alta brasileira (PINTO et.al., 2017).


[3] Para uma discussão a respeito dos núcleos de poder do governo Bolsonaro ver Nassif (2018). Disponível em: https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-governo-bolsonaro-por-luis-nassif



*Eduardo Costa Pinto é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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