Bolsonaro e a indústria farmacêutica: o fetiche da Cloroquina

Presidente cria a falsa ideia de que há condições de retomada das atividades econômicas e reingresso das pessoas ao trabalho. Trata-se de uma ação governamental vinculada aos interesses da indústria monopólica farmacológica e, por óbvio, aos interesses de mercado e da família Bolsonaro

Por Joana das Flores Duarte* Texto originalmente publicado pelo site Esquerda Online Com a saída de Mandetta, Bolsonaro não hesitou em colocar o empresário Nelson Teich. Se o médico Luiz Mandetta era financiado pelos planos de saúde e a oligarquia do Mato Grosso do Sul, Teich estava assumindo em nome da grande indústria farmacêutica e maior produtora de cloroquina no mundo: a Sanofi. No Brasil essa organização tem fusão com o grupo Medley. Em sua primeira declaração como ministro da Saúde, Teich, diferente de Mandetta, assumiu publicamente o discurso de flexibilização da quarentena, e para isso colocou como premissa a realização de testes em massa. Conforme matéria de capa do jornal Valor Econômico, do dia 17 de abril, Teich não negava ser um médico-empresário ligado a grandes empresas da área de saúde, e disse: “É preciso flexibilizar o isolamento social para haver a retomada da atividade econômica e que, para isso, as políticas públicas serão baseadas em ampla pesquisa sobre a covid-19.” Teich estava colocando o grupo Safoni-]Medley como centro de referência farmacológica no combate ao coronavírus, ainda que isso não fosse explícito. Esse grupo liderou a aplicação de testes nos EUA e na França. A Medley conduziria a produção de testes no Brasil, política adotada pelo então ex-ministro. O grupo Sanofi-Medley no Brasil é o maior no mercado de capitais em genéricos, e o grupo francês Sanofi o maior no mundo na produção de insumos da hidroxicloroquina. Esse grupo, segundo dados divulgados pela consultoria americana IMS Health, superou em vendas de unidades sua principal concorrente: EMS Pharma. A Medley encerrou o mês de março com participação de 7,4% do mercado e receita de R$ 262,2 milhões, contra 7,1% da EMS Pharma, que faturou R$ 250,6 milhões no mesmo mês. Mas quem é EMS Pharma? Esse grupo tem como CEO Carlos Sanchez, mais conhecido como o bilionário dos genéricos, cuja fortuna está avaliada em 2,5 bilhões. Empresa 100% nacional e de fundação familiar desde 1950, mas que em 1988 ganhou um novo perfil após ficar sob o comando de Sanchez. De expansão do mercado de genéricos, até a formação da “superfarmacêutica”, em 2012, pela união de acionistas dos laboratórios Aché, EMS, União Química e Hypermarcas. Conhecida como Bionovis, esse monopólio farmacológico desenvolve medicamentos biológicos e biossimilares, tendo como principal comprador (60%) de produtos biológicos o Governo Federal. No dia 26 de março, o Governo Federal zerou o imposto de importação de cloroquina, hidroxicloroquina e insumos. No dia seguinte (27/03), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o início dos estudos clínicos apoiados pela EMS para uso de Hidroxicloraquina em pacientes com coronavírus. E o conflito entre Bolsonaro e Teich começa aí. O suposto decreto de “flexibilização” da quarentena, nada mais era que “ganhar tempo” de negociação. Trata-se de uma disputa de gigantes do mercado farmacológico, em que a pressão sobre o governo vem do Grupo EMS, que esteve nas duas últimas conferências (20/03 e 14/05) de empresários organizadas por Paulo Skaf, presidente da Fiesp/Ciesp, com Jair Bolsonaro. Portanto, é preciso colocar em xeque o discurso de Jair Bolsonaro sobre o uso indiscriminado de Cloroquina. Política essa adotada em razão da ausência de testagem, e que portanto, não viabiliza dados reais sobre o número de infectados e mortos pela covid-19 no país. Com isso Bolsonaro cria a falsa ideia de que há condições de retomada das atividades econômicas e reingresso das pessoas ao trabalho. Trata-se de uma ação governamental vinculada aos interesses da indústria monopólica farmacológica e, por óbvio, aos interesses de mercado e da família Bolsonaro. Se Trump tem sua participação na Sanofi, o Messias exige uma fatia no grupo EMS. Não há outro interesse nesse jogo que não seja a possibilidade de ganhos via produção de cloroquina em massa no pais. Por isso os “investimentos” do governo federal na compra de insumos e isenção fiscal para a EMS e a propagada diária dos “benéficios” do medicamento. O Governo Bolsonaro tem tudo, absolutamente tudo, que o III Reich teve, a citar como exemplo, o controle da indústria farmacêutica e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A face explícita é a de um Ministério da Saúde que tem como política o teste da morte. Se Hitler teve seu projetista de drogas – lícitas – Orzechowski, cujo legado era “fazer do homem um predador”, Bolsonaro tem a EMS. *Joana das Flores Duarte é professora Doutorada em Serviço Social pela PUC/RS. Membro do Grupo de Trabalho Feminismos, resistencias y emancipación de CLACSO.

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