Benjamin Netanyahu: o senhor das guerras

Comentário sobre a trajetória política do primeiro-ministro israelense

Por Flavio Aguiar*

Texto publicado originalmente no site A Terra é redonda


Quando se leem, no noticiário, palavras como “Israel”. “Hamas”, “Palestinos” e outras ao redor, a impressão que fica é a de estarmos diante de coisas compactas, como se fossem tijolos, socados e unitários. Nada mais enganoso. Em verdade espelham mosaicos de tensões e contradições, desuniões e desalinho. Neste artigo vamos explorar algumas delas, a começar por esta fonte contínua de tensão, contradição, desunião e desalinho, chamada Benjamin Netanyahu.


O primeiro-ministro israelense me lembra do jogo de xadrez tridimensional da série “Jornada nas Estrelas”, em que era exímio o marciano orelhudo, Dr. Spock. Consta que a série motivou a construção de um jogo real. Fora da série, no mundo nosso, Netanyahu comprova ser um exímio jogador de um xadrez multidimensional, em que se articulam várias guerras, das quais ele teima em ser o senhor e do meu ponto de vista, um maléfico senhor. Há pelo menos três dimensões em que Netanyahu joga, com grande maestria, desde que entrou no jogo, desde o século passado: a complicadíssima política interna de Israel; o conturbado cenário do Oriente Médio, com a questão palestina e o relacionamento com os países do mundo muçulmano; e o cenário geopolítico, sobretudo o da política interna dos Estados Unidos e também o correlato que envolve a União Europeia.


Netanyahu nasceu em 1949, em Tel Aviv: é o primeiro chefe de estado israelense nascido no Israel independente. Antes dele, Yitzhak Rabin nasceu em Jerusalém, em 1922, mas quando a Palestina era um “protetorado” britânico. Na sua formação, o atual primeiro-ministro israelense misturou longos períodos em Israel com outros longos períodos nos Estados Unidos, quando se familiarizou com a cultura e a política norte-americanas. Desde sempre manifestou clara preferência pelo lado mais conservador da política dos Estados Unidos, ou seja, o Partido Republicano.


Esta preferência se cristalizou quando se aproximou de Arthur Finkelstein (1945-2017), o principal articulador publicitário de campanhas da direita norte-americana. Ao ingressar na política israelense, Netanyahu tornou-se cliente dele, que também orientou as campanhas, entre outros, de Richard Nixon, Ronald Reagan (nos Estados Unidos), Ariel Sharon e Avigdor Lieberman (em Israel), Viktor Órban (na Hungria), além de ter atuado na Romênia, no Azerbaijão, na Bulgária, no Kosovo, na República Tcheca, e junto a dezenas de outros políticos norte-americanos, sempre à direita.


Netanyahu, na verdade, um cliente preferencial, importou, para a política israelense, o sumo do estilo preconizado por Finkelstein, agressivo, estigmatizando os adversários, fixando tenazmente objetivos para cujo alcance acordos feitos com outras partes não são senão degraus intermediários, a serem abandonados assim que a circunstância permitir um passo além. Finkelstein privilegiava o uso de alvos ou palavras-chave a serem repetidos à exaustão, como, por exemplo, nos anos 80/90, ele fez com o termo “liberal”, tentando torná-lo sinônimo de algo “maléfico”, “incompetente”, “frouxo”.


Pode-se ver o traço deste estilo na obsessão de Netanyahu por estigmatizar o “potencial nuclear” do Irã, quando é Israel o principal suspeito na região de ter um arsenal de armas atômicas, ou, do lado, positivo, na insistência em reivindicar um “espaço vital de caráter defensivo” para Israel, mas com características expansionistas, contrariando resoluções da ONU (cuja resolução de 1947 garantiu a existência do país, com a sua independência proclamada em 1948) anexando de facto territórios reivindicados pelos palestinos para pertencer ao seu Estado. Netantayhu não inventou as anexações ilegais diante do Direito Internacional, feitas a partir da Guerra de 1967, mas deu-lhes mais realce, inclusive por ter o apoio do ex-presidente norte-americano Donald Trump, e incrementou-as com a promoção do estabelecimento de novas “colônias” nos territórios ocupados.


Uma das características que Netanyahu importou para a política israelense a partir do estilo de Finkelstein, foi a de ser implacável não apenas com seus inimigos ou adversários, mas também com seus correligionários e aliados. Foi deslocando-os e marginalizando-os de seu reino, como aconteceu com Avigdor Lieberman, um de seus principais aliados no passado, dentre outros, incluindo Yair Lapid, hoje seu rival mais importante.


O caso de Sharon é curioso. Foi em seu mandato como primeiro-ministro que o governo israelense reconheceu, como parte do avanço em direção a acordos de paz, em 2005, a necessidade de desalojar os colonos israelenses estabelecidos na Faixa de Gaza. Eram 21 assentamentos, que foram transferidos, um a um, para outros territórios, dentro de Israel. A decisão, tomada dentro de um governo conservador do partido Likud, provocou forte reação contrária dentro de suas próprias hostes.


A atitude liderada por Sharon chegou a ser apontada como a ponta-de-lança de uma disposição para recuar da ocupação por Israel de territórios reivindicados pelos palestinos. Hoje, com sua política agressiva em relação à ocupação de novos territórios, Netanyahu capitaliza aquela insatisfação, enterrando a herança do antigo aliado. Pode-se até ler na implacável destruição de prédios civis da Faixa de Gaza, com os bombardeios atingindo moradias, hospitais e escolas uma espécie de “vendetta” diante daquele “recuo” de Sharon, sob o argumento de destruir a infraestrutura do Hamas (que, assinale-se de resto, subsiste, apesar dos danos).


A menção a um ex-aliado de Netanyahu, Ariel Sharon (hoje já falecido), traz à tona a complicação que é o emaranhado da política interna de Israel. No parlamento unicameral do país, a Knesset, de 120 cadeiras, convivem, ou melhor, se acotovelam 7 partidos ou tendências governistas e 16 de oposição. Compõem este mundo um aglomerado complexo de tendências e partidos de expressão pragmática, nacionalistas, nacionalistas-messiânicos, diferentes ortodoxias religiosas, representação étnica, conservadores, socialdemocratas, enfim, algo que está mais para um mosaico multifacetado e fragmentário do que para um tijolo sólido. Faz tempo que o Likud, partido de Netanyahu, tem o maior número de cadeiras, mas não consegue definir uma maioria clara e estável.


Hábil e sinuoso, Netanyahu conseguiu sobreviver em meio a esta confusão, tornando-se o líder principal de um nacionalismo israelense exacerbado, expansionista, aliando-se com a extrema-direita religiosa ao mesmo tempo em que realizou a proeza de tornar-se um campeão neoliberal em economia sem afrontar a aura socialdemocrata de alguns dos serviços sociais básicos no país, como nas áreas de educação e saúde, herança ainda do trabalhismo e de sonhos com uma utopia socialista, que nortearam a construção dos primeiros kibbutzim, ajudando muitos judeus de esquerda a acorrerem para Israel. Além de apoiar e de apoiar-se nas Forças Armadas Israelenses, Netanyahu consegue também apoiar-se firmemente nos três braços do serviço de inteligência de Israel, o Shin Bet (interno), o Aman (militar) e o Mossad (externo), serviço que tem uma política extremamente agressiva e onipresente dentro e fora do país.


Sem maioria estável e consolidada, Netanyahu foi fazendo alianças cada vez mais à direita para manter-se no governo, ao mesmo tempo em que conseguia impedir que as forças fragmentárias de oposição formassem também uma frente unida contra ele.


Neste último episódio da repressão aos palestinos em Jerusalém Oriental, com o ataque à mesquita de Al-Aqsa, na Margem Ocidental, e com o bombardeio da Faixa de Gaza, Netanyahu conseguiu até agora impedir que seu adversário, Yair Lapid, ex-Likud e hoje líder do partido Yesh Atid, forme um novo governo. Netanyahu não o conseguiu, depois da última eleição; o presidente Reuven Rivlin chamou Lapid, dando-lhe prazo até o começo de junho para formar o novo governo. Este estava para consegui-lo, quando o estado de beligerância começou. Alguns dos partidos que tomariam parte na nova coalizão recuaram, e o futuro mostra-se incerto.


Acuado por diversas acusações de improbidade administrativa e corrupção, já havendo processos formados contra ele, Netanyahu vem dependendo cada vez mais de sua imagem de “senhor da guerra” para garantir sua sobrevivência política. Se cair do governo, poderá até mesmo ir parar na cadeia; certamente, cairá num ostracismo político, pelo menos num primeiro momento. Faz dois anos que as eleições israelenses terminam num impasse, o que fornece tempo para que Netanyahu permaneça à testa do governo.


Há analistas que dizem que o Hamas, que comanda a política palestina em Gaza, é um precioso “auxiliar” de Netanyahu, com seus foguetes lançados contra populações civis. Não sei até que ponto isto pode ser confirmado. Mas chamo a atenção para um ponto importante. O noticiário midiático internacional corrobora uma imagem – também do Hamas – como um bloco monolítico, o que, na verdade, está muito distante da realidade.


Fundado em 1987, a partir de uma ramificação da Irmandade Muçulmana do Egito, que tinha presença em Gaza, o Hamas (sigla do “Movimento Islâmico de Resistência”) tem dois grandes braços, pelo menos: o Dawah, de serviço social, e as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam (referência a um líder muçulmano na Palestina morto durante a resistência aos ingleses, em 1935), que são seu braço militar, de grande autonomia e composto também por diferentes tendências. O Dawah foi responsável por uma política cerrada de combate ao tráfico de drogas e de exploração da prostituição em Gaza, o que catapultou a popularidade do Hamas.


Os líderes militares do Hamas alegam que suas ações são de retaliação diante da “agressão israelense”. A partir de 1993 passaram a valer-se de ataques suicidas contra alvos militares, mas logo passaram também a ataques contra civis. Alegam que este último passo se deu somente após o chamado “Massacre do Hebron”, ocorrido quando, em 1994, um extremista de direita americano-israelense, Baruch Goldstein, atacou uma mesquita naquela cidade, matando 29 palestinos e ferindo outros 125. Na sequência ele foi morto a pauladas por sobreviventes do massacre, e o governo israelense, na ocasião, tomou uma série de medidas contra grupos extremistas de Israel. Hoje sua tumba é motivo de peregrinação para extremistas de direita, que o consideram um mártir da luta por Israel.


A partir de 2001 as brigadas do Hamas começaram a utilizar foguetes contra a população civil, como fizeram agora nestes últimos episódios. Defensores dos foguetes alegam que eles são uma resposta legítima do povo palestino contra agressões israelenses. Críticos sublinham que os foguetes atingem, sobretudo, a população civil e são a justificativa para que vários países considerem o conjunto do Hamas como uma organização terrorista, o que prejudica o movimento palestino como um todo.


No contexto atual a diferença dos números fragilizou a posição política israelense no exterior. Todas as mortes são lamentáveis, mas a disparidade é gritante. Somente em Gaza morreram desta vez pelo menos 212 pessoas, entre elas 61 crianças e dezenas de mulheres. Dezenas de prédios civis e escolas foram destruídos, hospitais foram danificados, deixando desabrigados milhares de palestinos. Na chamada Margem Ocidental (West Bank) morreram 20 palestinos devido à repressão israelense. Os feridos e detidos sobem à casa dos milhares.


Do lado israelense contam-se 12 mortos, incluindo 2 crianças. A repressão aos palestinos concentrados na mesquita de Al-Aqsa para celebrar os ritos e o fim do Ramadã também chocou muita gente pelo mundo afora. O argumento dos militares israelenses de que em Gaza estavam destruindo a infraestrutura do Hamas, inclusive sua rede de túneis, perdeu força diante do número de civis mortos.


Entretanto nada disto demoveu Netanyahu de seguir adiante e defender o bombardeio contra Gaza, destruindo inclusive o prédio que abrigava agências internacionais de notícias, afirmando que prosseguiria a ofensiva até atingir seus objetivos militares. Não se sabe como, mas deve ter havido alguma pressão por parte do governo norte-americano sobre o governo israelenses para que o bombardeio fosse interrompido, chegando-se a um cessar-fogo com o Hamas. Assim mesmo, a situação continua ameaçadora, também porque Netanyahu tem um estilo de governar que vê, em eventuais acordos, apenas um degrau a mais para prosseguir depois na tentativa de realizar seus objetivos próprios e prévios ao acordo.


Netanyahu move-se com grande desenvoltura no também complicado tabuleiro da política norte-americana. Contou com o irrestrito apoio do ex-presidente Donald Trump e da grande maioria, para dizer o mínimo, dos republicanos. Mas em nome da defesa do Estado de Israel conta também com o apoio dos democratas e do presidente Joe Biden, que depende da concessão deste apoio para o equilíbrio de sua posição na política interna dos Estados Unidos e de sua posição de liderança perante aliados no tabuleiro geopolítico, sem o que sua liderança dentro do próprio establishment do Partido Democrata ficaria enfraquecida. Netanyahu sabe disso, e sabe jogar com isso, o que contrabalança sua posição de dependência em relação aos Estados Unidos no plano militar, mediante a venda por parte destes e compra por parte de Israel de armamentos, além da dependência política.


Existe uma esquerda israelense e movimentos pacifistas comprometidos com a solução dos dois Estados, o israelense e o palestino, para redefinir um equilíbrio não-beligerante na região. Têm, inclusive, um partido – considerado de centro-esquerda, o Meretz, com 6 cadeiras no atual parlamento, filiado à Internacional Socialista e ao Movimento da Aliança Progressista, fundado em Leipzig, na Alemanha, em 2013. Reclamam que com frequência as críticas ao governo de Israel se ampliam para uma crítica generalizante contra o país como um todo e todos os seus cidadãos, podendo descambar imediatamente para formas de antissemitismo dirigido contra o povo judeu. Não deixam de ter razão. Entretanto, é forçoso reconhecer que este estigma negativo tende a permanecer reforçado enquanto Israel continuar liderado por políticos como Netanyahu, o senhor de todas as guerras.



*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

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