Avaliação do primeiro turno das eleições 2020

Como dissemos ano passado: É a hora do PSOL! Fora Bolsonaro! Uma bandeira necessária para superar a dispersão e derrotar a ultradireita!

Por Mário Azeredo


Os ventos progressistas da Argentina, Bolívia, Chile, Peru e EUA também chegaram ao Brasil. Essas eleições confirmaram algumas tendências, tendo em vista que foram nacionalizadas, anti-sistêmicas e polarizadas. A confluência das crises econômica, ambiental, política, étnica e social foram a tônica expressa nessa realidade. Assim, o novo nessas eleições não foi a direita, mas sim o PSOL; e dentro dessa perspectiva, nos destacamos por sermos os maiores opositores de Bolsonaro e seu desgoverno, e por ocupar a política junto aos setores mais explorados e/ou marginalizados de nossa classe como as mulheres, os negros e negras e a população LGBTQI+. Nessa conjuntura, Bolsonaro sai mais fraco para a corrida presidencial de 2022, que já começou!

1- Bolsonaro é o grande derrotado nestas eleições, e isso abre uma possibilidade concreta de resultado positivo para a esquerda em 2022. O Bolsonarismo, como expressão da ultradireita ou do protofascismo, obteve vitórias medíocres e em alguns casos fragorosa derrota, como nos casos das 13 candidaturas às prefeituras que tiveram apoio direto de Bolsonaro por meio de vídeos e declarações, ou ainda, de Russomano na Capital São Paulo. Além de Crivella, no Rio de Janeiro, que vai para o 2º turno com apenas 21% dos votos válidos.


2- Outras duas vertentes da extrema direita também sofreram derrotas: as candidaturas vinculadas a ala militar ou da segurança pública, que tiveram vitórias muito pequenas, e dos mais de 8 mil candidatos que se identificavam com esse setor, menos de 10% obtiveram vitórias e poucas figuras ganharam em municípios relevantes; e a ala dos evangélicos ligadas a Igreja Universal, que tem projeto de poder, que teve seus dois maiores expoentes, Russomano e Crivella, que também amargaram uma acintosa queda. Por ora, Bolsonaro não tem correlação de forças para impor o fechamento do regime. Assim, o que temos visto são brutais ataques do Congresso Nacional com restrições democráticas e limitações ao acesso aos serviços públicos, direitos e liberdades.


3- Quem ocupa parte do espaço de Bolsonaro é a direita tradicional, viúva do golpe de 2016 e que em 2018 saiu derrotada do processo eleitoral. Mas esse setor está conseguindo se rearticular e avançar sobre posições das bases eleitorais de Bolsonaro, inclusive as fincadas na segurança pública. Dessa maneira, MDB, PP, PSD, PSDB e DEM apresentaram as maiores vitórias nos municípios brasileiros e, somados, vão dirigir 3.076 municípios, obtendo mais de 48 milhões de votos. E esses números crescerão ainda mais, pois disputam o segundo turno em 49 dos 57 municípios.


4- Mais do que números, é necessário entendermos a mudança de localização de setores da população que estavam radicalizadas à direita no espectro político em 2018, e que agora fazem uma inflexão à centro-direita, abandonando as posições mais extremadas dos setores bolsonaristas e da extrema-direita.


5- Nesse sentido, para fazermos uma avaliação mais precisa, não podemos isolar um caso da realidade, porque a situação é muito mais complexa e contraditória. Primeiro, temos que levar em conta de onde partimos, e podemos recuar até o início do governo Bolsonaro, quando desde o começo defendíamos que era necessário enfrentá-lo em todas as frentes de combate. Por isso, diante de tal realidade, propusemos que o partido assumisse o Fora Bolsonaro como bandeira articuladora e organizadora de amplos setores insatisfeitos com a gestão presidencial. E podemos trazer aqui movimentos como o #15M e o #30M em 2019, quando a juventude e os servidores públicos saíram em massa às ruas, em mais de duzentas cidades, para defender a educação, a ciência e a universidade pública, e contra o corte de 30% das verbas do Ministério da Educação que atinge a pesquisa e extensão nas universidades. Já em junho, temos a primeira Greve Geral contra Bolsonaro e seu plano ultraliberal, e em pelo menos 18 Capitais ocorreram paralisações dos transportes públicos, além de dezenas de categorias que se somaram a luta contra a reforma da previdência. Essa foi a primeira greve mais política que unificou amplos setores sociais como o MST, MTST, Terra Livre e Movimento Sindical, com a paralisação de diversas atividade e o trancamento de dezenas de rodovias, levando ao recuo do Ministro Paulo Guedes em seu projeto de regime de capitalização da Previdência. No mês de setembro, a crise econômica dá os primeiros sinais de aprofundamento, e chegamos em outubro no turbilhão da crise ambiental, com o Brasil pegando fogo, período no qual as queimadas na Amazônia chegaram na Avenida Paulista em forma de fumaça e chuva negra. Abrimos o ano político de 2020 com pandemia de COVID-19 e as emblemáticas manifestações antifascistas e antirracistas. Nesse interim, o bolsonarismo chega ao auge de sua crise, quando ocorre a aterradora reunião ministerial de abril de 2020 que desmascara as intenções do governo e expõe a desqualificação de todo o 1º escalão em plena pandemia. Esses fatos aprofundaram a crise do governo e do regime, estourando o número de pedidos de impeachment.


6- Por outro lado, e somando-se a isso, as relações perigosas do presidente e sua família são expostas com a morte do miliciano Adriano, chefe do Escritório do Crime. Além disso, a CPI e as investigações das Fake News que apontaram os computadores de dentro do governo, a crise e a demissão de Moro, levaram a um enorme desgaste da figura de Bolsonaro.


7- Outros elementos de caráter internacional como: o apoio incondicional a Trump; a recusa a acatar as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde) em relação a pandemia; a postura beligerante em relação aos países vizinhos como a Argentina e a Venezuela; as provocações aos governantes da União Europeia em relação ao clima, ao desmatamento e as queimadas na Amazônia; e, mais recentemente, a tentativa de não reconhecer a vacina Coronavac de procedência Chinesa. Esses elementos de conjunto, ao longo desses dois primeiros anos do desgoverno Bolsonaro, levaram ao desgaste que o Bolsonarismo está amargando nesse processo eleitoral. Ainda que, contraditoriamente, tenha tido um suspiro durante a vigência do auxílio emergencial, este durou pouco. Todavia, é importante que se tenha clareza que o bolsonarismo não está morto, pelo contrário, ele fará de tudo para disputar e consolidar uma fatia do povo brasileiro para seu projeto protofascista de guerra aos pobres, aos negros, às mulheres, a população LGBTQI+, aos movimentos sociais e na defesa da destruição da natureza, para manter os lucros dos grandes capitalistas.



O Futuro da reorganização da esquerda brasileira


8- As eleições de 2020 foram a antessala de uma guerra anunciada para 2022. Neste sentido, no campo da esquerda, o PT perde o protagonismo mesmo que tenha tido uma votação importante de 6.971.136 votos no 1º turno, e disputando o 2º turno em mais 15 cidades. Após o tombo de 2016, no qual reduziu seu eleitorado em menos 60% entre 2012 e 2016, saindo de 17 milhões para 6,8 milhões de votos, o PT vem numa dinâmica de estagnação e retrocesso nos grandes centros. Lula, sua figura principal, não participou do processo eleitoral e onde esteve presente, como no caso de São Paulo, amargou uma grande derrota do candidato Tatto, que ficou em 6º lugar. O que fica evidente é que o PT deixou de ser o polo dinâmico do bloco progressista nas disputas eleitorais no país depois de muitas décadas, demonstrando que está desconectado de sua base eleitoral, em particular da juventude, abrindo espaço para novos atores pela direita e pela esquerda.


9- No final de 2019, defendíamos um artigo sob o título “É a hora do PSOL! Fora Bolsonaro! Uma bandeira necessária para superar a dispersão”, e essa orientação segue muito atual. Em primeiro lugar, acreditamos que o PSOL está se tornando o embrião de uma nova reorganização dos setores democráticos e de esquerda. Não é à toa que o PSOL chega ao segundo turno em duas capitais, sendo a grande surpresa a cidade de São Paulo com a dupla Boulos/Erundina, nos quais os setores partidários foram consequentes no enfrentamento ao bolsonarismo e luta anti-sistêmica. Milhões de pessoas veem no PSOL o novo, o partido necessário, uma esquerda renovada em contrapartida ao desgaste do PT e demais partidos desse campo. Não é à toa também que Marcelo Freixo, a principal figura de oposição de esquerda na segunda maior cidade do país (Rio de Janeiro), perdeu uma oportunidade ímpar de reproduzir o processo de São Paulo. Dessa forma, comparativamente entre o PT e o PSOL, tivemos um crescimento mais robusto nas Câmaras de Vereadores das Capitais da região Sul e Sudeste, em que o PT em 2016 tinha 19 vereadores e o PSOL 16, e agora o PT alcançou 22 vereadores e o PSOL 23. Em todas as capitais o partido teve um crescimento de 50% de uma eleição para outra. Só em São Paulo, a bancada de vereadores triplicou suas cadeiras, demonstrando uma dinâmica de crescimento muito importante e superior aos demais partidos da esquerda e progressistas.


10- É importante salientar que o fenômeno que garantiu o fortalecimento do PSOL em nível nacional como a expressão do novo e de uma esquerda renovada, está diretamente conectado ao enfraquecimento do PT como alternativa real de poder. O “reformismo de baixa intensidade” e a conciliação de classes sem reformas estruturantes no sistema, abriram espaço para uma nova geração de lutadores sociais.


11- Nesse sentido, acertamos desde o início do governo Bolsonaro, quando fomos às ruas na semana seguinte a sua posse, quando defendemos a consigna de Fora Bolsonaro, como política de reorganização dos setores sociais que estavam dispersos e quando defendemos que o PSOL deveria se preparar para as eleições mobilizando os lutadores sociais. As manifestações antifascistas e antirracistas, assim como a greve dos aplicativos demonstraram o acerto dessa linha política e colocaram os bolsonaristas na defensiva, pois como afirmávamos, as ruas têm que ser nossas e não dos fascistas.


12- Portanto, esse fortalecimento do PSOL, essa vitória do partido, está também diretamente condicionado à leitura que fazemos dessa etapa da luta de classe no Brasil e no mundo. As vitórias da Bolívia, Chile e a derrota de Trump nos EUA abrem um cenário no qual os povos no mundo reagem (e vem reagindo) ao protofascismo e ao ultraliberalismo. Nesse contexto de lutas e enfrentamentos, o Congresso Argentino acaba de votar imposto sobre as grandes fortunas e reabre o debate de legalização do aborto. Com isso o fantasma da ultradireita está afastado da América Latina? Não, pois a etapa de resolução da confluência de crises é de maior polarização, se não houver experiências exitosas à esquerda, a direita volta com mais força.

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