As UTI’s da Casa Grande e o genocídio na Senzala

Enquanto avança o genocídio na senzala, a casa grande vai “passando a boiada”, mantendo o ritmo das mortes em nível adequado para que existam UTI’s disponíveis, em caso de que seus membros necessitem de algumas delas

Por Euclides Mance


De cada cem pessoas infectadas pelo novo coronavírus, ao menos uma delas morrerá. O grande temor da Casa Grande brasileira, dos que vivem no andar de cima da injusta apropriação da riqueza socialmente produzida em nosso país, não é quantos brasileiros despossuídos morrerão em consequência da covid-19 nas periferias urbanas, prisões e aldeias indígenas, nos bairros de classe média ou onde quer que estejam, no interior do semiárido nordestino ou nas margens dos rios que cruzam a amazônia brasileira. O temor dos que vivem no andar de cima, usufruindo da boa vida que lhes é propiciada, direta ou indiretamente, pelos lucros acumulados com a exploração do trabalho alheio, é que algum deles contraia essa doença e não tenha uma UTI disponível para ser atendido no sistema de saúde.


Por isso, as políticas adotadas pelos governos do capital em nosso país, não são destinadas a evitar a propagação do vírus, com testagem massiva, rastreamento dos infectados, isolamento e tratamento dos doentes. Pois isso pouco importa para os que estão no andar de cima. O que lhes importa é assegurar que haja UTI’s disponíveis para o caso de algum deles necessitar de atendimento médico que exija terapia intensiva. Assim, as medidas referentes a liberar ou não atividades que possam acelerar a propagação do vírus, giram sempre em torno do grau de ocupação desses equipamentos.


É duro chegar a essa conclusão, de que a vida dos mais pobres pouco vale para a chamada “elite brasileira”, que manipula a opinião de uma grande parte da sociedade com o domínio dos meios de comunicação social ao sabor de suas conveniências – mesmo para fazê-la crer na “Solidariedade S.A.”, espécie de merchandising em que grandes empresas fazem caridade, noticiada em rede nacional, com verbas que antes seriam usadas em publicidade. A essa conclusão, de que a “elite brasileira” pouco se importa com o genocídio em curso, somos forçados a chegar por evidências concretas e, até mesmo, pelo cinismo de declarações de autoridades públicas em nosso país.


Em 22 de março o então Ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou: “O que a gente sabe é que quando passa de 50% da população infectada, o vírus já não consegue multiplicar mais na mesma velocidade. Se vai ser 50%, 60% ou 70% da população, isso é secundário." [1] Assim, se 50% da população brasileira for infectada, morrerá aproximadamente um milhão de pessoas. Se forem 70%, morrerão, aproximadamente, 1,4 milhão. Mas, para o ex-ministro, “isso é secundário”. E cabe salientar que a letalidade do vírus era bem conhecida na ocasião de sua declaração, pois os dados sobre a covid-19 sempre estiveram amplamente divulgados pela OMS.


Na política genocida do Governo Bolsonaro, que até mesmo vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras no comércio, nas escolas e igrejas ou a distribuição gratuita delas pelo Estado para as populações carentes [2], parece que quanto mais rápido 70% da população for infectada, mais rápido o país terá se livrado da pandemia: “Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda nação vai ficar livre da pandemia depois que 70% for infectada e conseguir os anticorpos”. [3] [4]


Entre o capital e a vida, o governo optou pelo capital. Afinal, se houvesse testagem massiva e gratuita para todos que apresentassem algum sintoma, quem pagaria entre R$ 250,00 a R$ 560,00 por um teste em clínicas particulares? [5] Durante algum tempo, pareceu mesmo que se tratava de criar um amplo mercado consumidor de Cloroquina com a propagação do vírus, para beneficiar algumas empresas fabricantes desse medicamento e seus acionistas, entre os quais alguns financiadores de campanhas e partidos no Brasil ou nos Estados Unidos [6] [7]. E, mesmo depois que estudos científicos comprovaram os seus riscos, o Governo Federal continuou insistindo em sua administração no tratamento da Covid-19 no Brasil. [8]


Mas, talvez, nada tenha sido mais cínica que a proposta do Ministro da Economia Paulo Guedes em criar o chamado “passaporte da imunidade”, que permitiria a volta ao trabalho dos que fossem testados e tivessem resultado positivo para anticorpos do novo Coronavírus. [9] No dia 4 de abril ele afirmou que na fase 2 poderiam ser testados 40 milhões de brasileiros por mês: “Hoje pela manhã, conversávamos com um amigo na Inglaterra, que criou o ‘passaporte de imunidade’. Ele faz 40 milhões de testes. Ele coloca disponível para nós, brasileiros, 40 milhões de testes por mês” [10].


Ora, se no começo de abril estavam disponíveis 40 milhões de testes por mês para o país, 120 milhões de brasileiros poderiam ter sido testados até agora. Mas não o foram. Pois, para o andar de cima, os testes não serão feitos para identificar os infectados, rastrear os contágios e conter a propagação do vírus. Mas para confirmar que os sobreviventes do contágio na senzala, poderão voltar a trabalhar. Por isso somente seriam feitos na fase 2 da pandemia. Assim, o trabalhador contrai o vírus na fase 1 e, se a família dele não receber um “atestado de óbito” por sua morte, ele próprio receberá o “passaporte da imunidade” na fase 2.


O que importa mesmo, para o andar de cima que mantém esse governo genocida, é o que afirmou o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente: “Precisa ter o esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid, e ir passando a boiada, ir mudando todo o regramento e simplificando normas, de Iphan, de Ministério da Agricultura, Ministério do Meio Ambiente, ministério disso, ministério daquilo”[11]. No Ministério da Economia, como diz Guedes, “se aprovarem a [privatização da] Eletrobras temos R$ 16 bilhões. Fica agora no Orçamento e vendo no segundo semestre.” [12] Trata-se de transferir o patrimônio público para a iniciativa privada. Trata-se, entre outros objetivos, de privatizar a Educação, fortalecer o setor privado da Saúde, entregar refinarias da Petrobras, grandes extensões do solo e as riquezas do subsolo do país ao capital internacional.


E, assim, enquanto avança o genocídio na senzala, a casa grande vai “passando a boiada”, mantendo o ritmo das mortes em nível adequado para que existam UTI’s disponíveis, em caso de que seus membros necessitem de algumas delas. E, por fim, Paulo Guedes poderá pedir ao seu “amigo” da Inglaterra que comece a enviar os 40 milhões de testes mensais ao Brasil, para verificar quais dos sobreviventes desse genocídio estarão aptos a voltar ao trabalho, para produzir a mais-valia a ser acumulada como lucro pelas forças econômicas que governam o nosso país.

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