As próximas crises financeiras prováveis

Parte 3 da série: A Pandemia do Capitalismo, o Coronavírus e a Crise Económica

Por Eric Toussaint

Texto publicado originalmente no site do Comitê para a abolição das dívidas ilegítimas A pandemia do coronavírus tem efeitos dramáticos e duradouros nas condições de vida das pessoas. Adam Hanieh apresentou um quadro impressionante. Os seres humanos serão afetados de forma diferente em função de sua classe social, sexo e orientação sexual, país de residência, idade, casta (no Sul da Ásia) e outros fatores. As diferentes formas de opressão e exploração serão exacerbadas numa série de casos. Todos e todas serão afetados de uma forma ou de outra. Trata-se da primeira crise internacional a ter um efeito tão generalizado em todos os cantos do mundo num curto espaço de tempo (apenas 3 meses após o reconhecimento oficial da epidemia em Wuhan pelas autoridades chinesas). Mais do que a Segunda Guerra Mundial. Não estou falando em termos de mortes, que felizmente serão muito inferiores, estou falando da simultaneidade das manifestações da crise e do tipo de medidas tomadas pelos governos. A crise económica e financeira é um dos aspectos. A dimensão do recuo da produção nos meses seguintes a Março de 2020 será sem precedentes em comparação com as crises dos últimos 70 anos. Não há dúvidas quanto a isso. Centenas de milhões de pessoas perdem repentinamente o seu meio de subsistência e ficam desempregadas. A queda da atividade económica é enorme e irá perdurar. Este é o momento de pensar e agir para mudanças muito radicais. É uma verdadeira corrida. Por um lado, há aqueles que anunciam que vão mudar tudo para que nada mude e o mundo regresse o mais rapidamente possível ao funcionamento normal do sistema capitalista. Por outro lado, há aqueles que querem uma verdadeira mudança. A resposta necessária à pandemia do coronavírus deve ser a oportunidade de avançar para uma autêntica revolução que mude radicalmente a sociedade no seu modo de vida, no seu modo de propriedade, no seu modo de produção, na sua relação com a Natureza. É necessário planejar o decrescimento, melhorando simultaneamente as condições de vida. É necessário dar prioridade absoluta aos bens comuns e relocalizar radicalmente a produção material e os serviços, optando por um modo de trabalho e de produção compatível com a luta contra a crise ecológica. A esfera dos serviços públicos verdadeiros e controlados pelos cidadãos deve ser maciçamente alargada. Esta revolução só acontecerá se as vítimas do sistema capitalista e da sociedade patriarcal se tornarem auto-activas e auto-organizadas, para expulsar o 1 % e os seus lacaios dos diferentes centros de poder e criar um verdadeiro poder democrático. É preciso preparar e realizar uma revolução ecossocialista augestionária, feminista e antirracista. No resto deste artigo, voltarei a analisar a ação dos bancos centrais e às próximas deflagrações financeiras.

Ação dos bancos centrais

Desde meados de Março de 2020, os principais bancos centrais do mundo têm vindo a intervir massivamente para tentar limitar a propagação do incêndio financeiro em curso e para tentar evitar novas deflagrações. É de salientar que a prioridade deles é ajudar os grandes bancos privados, as outras grandes empresas financeiras e, em termos mais gerais, os grandes acionistas de grandes empresas, sejam elas industriais ou não. Os bancos centrais estão ajudando o 1 % em detrimento dos 99 %, alegando servir o interesse geral. Os bancos centrais procuram a manutenção do já instável sistema capitalista globalizado. Ao inundar os mercados financeiros de liquidez, esperam conter o incêndio. É o que já tinham feito a partir de 2008-2009 e produziu os resultados atuais. É importante estar ciente das várias deflagrações que poderão ocorrer nos próximos dias, semanas e meses. Isto permitirá compreender, para além da retórica, qual é a verdadeira direção dos grandes bancos centrais e dos governos. Mas, antes de mais, recordemos as ações dos bancos centrais.

Recapitulação dos factos relativos à ação

dos bancos centrais desde 2008

A política dos bancos centrais não é a principal causa da crise do sistema capitalista, mas contribui para ela. Através de um intervencionismo muito orientado para ajudar sobretudo as grandes empresas financeiras privadas, após 2008 pouparam o sistema capitalista a uma repetição da crise dos anos 1930 e às suas consequências mais brutais. Refiro-me ao que aconteceu entre 1929 e 1945: a cadeia de falências, a suspensão do pagamento da dívida por cerca trinta países (incluindo Alemanha, Grã-Bretanha, França, Bélgica, Itália, 14 países da América Latina, [1] etc.), a vitória do nazismo, [2] a Segunda Guerra Mundial, para mencionar apenas alguns choques brutais. Mas esta forma de intervenção produziu os ingredientes de uma nova crise financeira e não gerou uma verdadeira retoma da produção [3]. A nível mundial, estourou uma nova crise financeira em fevereiro-março de 2020. Esta crise mundial tinha sido precedida por crises financeiras que a FED só conseguiu controlar com grande dificuldade durante 2019 nos Estados Unidos. Enquanto os principais meios de comunicação e os governos afirmam constantemente que a crise económica e financeira é causada pela pandemia do coronavírus, sublinhei que todos os elementos de uma nova crise financeira estavam presentes há vários anos e que o coronavírus era a centelha ou o detonador da crise bolsista e não a sua causa. A quantidade de materiais inflamáveis na esfera financeira tinha atingido a saturação ao longo de vários anos e sabia-se que uma faísca poderia e causar a explosão: não sabíamos quando a explosão teria lugar e o que a causaria, mas sabíamos que estava para vir. Referi também que a crise na produção começou antes do coronavírus e afetou as principais economias mundiais no primeiro semestre de 2019. [4] Desta vez, a crise financeira é global. Nenhuma bolsa de valores na Europa, nas Américas, na Ásia-Pacífico ou em África é imune a ela. As perdas entre 17 de fevereiro e 17 de março de 2020 situam-se entre 20 e 40 %, dependendo das bolsas; apenas as bolsas chinesas limitaram os prejuízos (a bolsa de Xangai caiu 7 %). No momento em que escrevo essas linhas, dia 18 de abril de 2020, as bolsas retomaram entre quinze e vinte por cento entre 17 de março e 17 de abril devido a injeções maciças de liquidez e a enormes pacotes de salvamento anunciados pelos grandes bancos centrais e governos. Mas a situação das bolsas não está estabilizada e novos eclosões não podem ser excluídas. Há que salientar que a cotação de empresas muito grandes caiu fortemente: o valor da Boeing na bolsa baixou de 53 % entre 1 de janeiro e 18 de abril de 2020; o da principal sociedade petrolífera, a Exxon Mobil: -38 %; o da segunda petrolífera, Chevron: -27 %; o do principal banco dos Estados Unidos, JPMorgan: 32 %; o da principal firma petroquímica, Dow: -39 %; Goldman Sachs: -20 %; Caterpillar: -22 %. Na bolsa de Frankfurt, desde 1 de janeiro de 2020, a VW perdeu 30 %; BMW: -30 %, Mercedes-Daimler: -41 %, Siemens: -30 %; Deutsche Bank: -14 %. Na bolsa de Paris, a Airbus perdeu 56 %; o banco Crédit Agricole: -49 %; o banco Société Générale: -55 %; BNP Paribas: -52 %; Peugeot:-45 %, Renault: -61 %.

As medidas anunciadas após a crise financeira de 2007-2008

As medidas anunciadas em 2008 e 2009 para disciplinar os bancos acabaram se limitando a anúncios. A supervisão centralizada dos bancos da zona euro, a criação de um fundo europeu de garantia dos depósitos, a proibição de certas operações (que atinge apenas 2 % da atividade bancária global), a limitação dos bónus, a transparência das atividades bancárias ou as novas regras de regulação bancária, Basileia III e IV, foram apenas recomendações, promessas ou, na melhor das hipóteses, medidas completamente insuficientes face aos problemas a resolver. Mas isto era ainda demasiado para os grandes bancos e então a administração Trump, em Janeiro de 2020, cancelou grande parte do regulamento Volcker adoptado durante a administração de Barack Obama. Na China, de Janeiro a Fevereiro de 2020, o banco central também soltou as rédeas dos bancos chineses, permitindo-lhes assumir mais riscos, numa tentativa de reanimar rapidamente a atividade económica. No final de Março de 2020, a FED, o BCE e o Comité de Basileia puseram fim a quase todas as restrições impostas aos bancos após a crise de 2007-2008. A aplicação dos acordos de Basileia III foi adiada por vários anos (relativamente a Basileia III ver o final de https://www.cadtm.org/Bancos-boletim-de-saude-traficado publicado em Julho de 2013).

Forte aumento da dívida privada e novas bolhas financeiras criadas nos últimos 10 anos

A política dos grandes bancos centrais favoreceu, por um lado, um aumento muito acentuado das dívidas privadas das empresas e, por outro, uma bolha especulativa nos preços dos ativos financeiros: capitalização de mercado completamente exagerada, preços sobrevalorizados dos corporate bonds (= obrigações emitidas pelas empresas para contrair empréstimos) e volume excessivo deste mercado e, em alguns países (Estados Unidos, China, etc.), uma bolha no sector imobiliário. Isto produziu igualmente um aumento da dívida pública, que é entre outros o funesto resultado do resgate do sistema financeiro privado a partir de 2007-2008 com dinheiro público. As bolhas especulativas acima referidas resultam, portanto, em grande parte, da política seguida pelos principais bancos centrais (Reserva Federal dos EUA, BCE, Banco de Inglaterra, nos últimos dez anos, e Banco do Japão desde a explosão da bolha imobiliária nos anos 90), que injetaram milhares de bilhões de dólares, euros, libras esterlinas e ienes em bancos privados para os salvar da falência. Estas políticas foram chamadas de quantitative easing ou flexibilização monetária. Os recursos financeiros que os bancos centrais têm distribuído em abundância não têm sido utilizados pelos bancos e pelas grandes empresas capitalistas de outros sectores para investimento produtivo. Foram utilizados para adquirir ativos financeiros: ações da bolsa, obrigações de dívida de empresas, títulos de dívida pública soberana, produtos estruturados e derivativos, o que produziu uma bolha especulativa no mercado bolsista, no mercado de obrigações (ou seja, obrigações de dívida) e, em alguns locais, no sector imobiliário. Todas as grandes empresas estão sobre-endividadas. Esta política dos bancos centrais evidencia que as decisões dos seus gestores são inteiramente determinadas pelos interesses a curto prazo dos grandes bancos privados e das grandes empresas capitalistas de outros sectores: evitar falências em cadeia e, consequentemente, perdas consideráveis para os grandes acionistas.

As bolhas financeiras têm sido favorecidas pelos bancos centrais e correspondem ao funcionamento do sistema financeiro capitalista

Esta política decorre também de uma característica do capitalismo financiarizado contemporâneo: uma porção cada vez menor do valor novo criado é reinvestido na produção (ver François Chesnais, «De nouveau sur l’impasse économique historique du capitalisme mondial», consultado em 13 de Abril de 2020). Uma parte crescente do valor novo é gasto sob a forma de dividendos para os acionistas, sob a forma de recompra de ações, em investimentos especulativos, nomeadamente em produtos estruturados e derivados. François Chesnais fala em particular de «um afluxo cada vez maior dos lucros não reinvestidos de grupos financeiros predominantemente industriais». [5] Michel Husson, em vários textos, também aponta nesta característica do capitalismo contemporâneo.

A ação da Fed em Março de 2020

Face ao estouro da bolha bolsista que teve início na segunda quinzena de Fevereiro de 2020, em 3 de Março de 2020 a FED decidiu fixar a sua taxa de referência numa faixa de 1 % a 1,25 %, uma queda de 0,50 %, a maior dos últimos anos, uma vez que a FED tinha anteriormente baixado a sua taxa em 0,25 %. Face à continuação da queda dos mercados bolsistas, em particular dos bancos à beira da falência, a FED decidiu fazer um novo corte em 15 de Março de 2020, com muito mais força ainda do que em 3 de Março. Desta vez, baixou a sua taxa em 1 %. Por conseguinte, desde 15 de março, a nova taxa de juro de referência da Reserva Federal situa-se num intervalo de 0 a 0,25 %. Os bancos são encorajados a aumentar as dívidas. A FED não se limitou a baixar as taxas de juros, voltou a injetar uma enorme quantidade de dólares no mercado interbancário, porque os bancos, mais uma vez, já não confiam uns nos outros e estão relutantes em emprestar entre eles. O presidente da FED disse que a sua instituição tinha planejado injetar mais de 1 bilião de dólares de liquidez nos mercados de curto prazo nas semanas seguintes, nomeadamente no mercado de Repo, no qual já tinha intervindo maciçamente entre Setembro e Dezembro de 2019. O mercado de Repo refere-se ao mecanismo através do qual os bancos se financiam por um curto período de tempo: emprestam (Repo) os títulos que possuem e comprometem-se a recomprá-los rapidamente. Por exemplo, depositam títulos do Tesouro dos EUA ou obrigações de empresas com notação AAA durante 24 horas em operações de Repo (isto é, como garantia ou como colateral do seu empréstimo). Em troca destes títulos, obtêm dinheiro a uma taxa de juro próxima ou igual à taxa de referência fixada pela FED. A seguir, a partir de 23 de Março, a Reserva Federal foi ainda mais longe. Começou novamente a comprar em massa produtos estruturados ligados ao mercado imobiliário, tanto imobiliário residencial (Mortgage Backed Securities, MBS), como imobiliário comercial (Commercial Mortgage Backed Securities, CMBS). Só na última semana de Março, ela recomprou aos bancos mais de 250 bilhões de dólares de MBS e CMBS. Ela compra também outros produtos estruturados perigosos: CLO (Collateralized Loan Obligations) e CDO (Collateralized Debt Obligations), que têm um rating tão baixo como BBB- (ou seja, o rating que está ligeiramente acima da dívida podre, junk bonds). Também compra ações de empresas para tentar refrear a queda. Além disso, compra enormes montantes de dívida de empresas privadas (obrigações de empresas, em inglês corporate bonds), incluindo dívidas de alto risco. No mercado de repo, no dia 17 de março, aumentou brutalmente a sua intervenção injetando 90 bilhões de dólares em um único dia (fonte: https://fred.stlouisfed.org/series/RPONTSYD). Desde então, injeta entre 10 e 20 bilhões por dia no mercado do repo desde que há falta de liquidez. Além disso, selou um acordo com todos os grandes bancos centrais de outros continentes para lhes fornecer centenas de bilhões de dólares, a fim de evitar um maior caos financeiro internacional. Em suma, a intervenção da FED é nitidamente maior do que após Setembro de 2008, após a falência do Lehman Brothers e o colapso da principal companhia de seguros norte-americana (AIG) e da General Motors.

Ação do BCE em Março de 2020

O Banco Central Europeu (BCE), dirigido por Christine Lagarde, cuja taxa de referência é de 0 %, anunciou em 12 de Março de 2020 que iria aumentar as suas compras de títulos financeiros privados (obrigações e produtos estruturados) e públicos (títulos soberanos). Além disso, aumentará o volume de crédito vantajoso a médio e longo prazo concedido aos bancos. Os bancos que se comprometem a não reduzir o volume dos seus empréstimos ao sector privado podem obter financiamento substancial do BCE a uma taxa negativa de 0,75 %. Note-se: se não cumprirem as suas promessas, não está previsto o pagamento de multas. Isto significa que são remuneradas e subsidiadas quando contraem um empréstimo junto do BCE. Os bancos reembolsam ao BCE um montante inferior ao valor do empréstimo. Se tomaram emprestado 100 euros, reembolsam 99,25 euros. E, como já foi mencionado, a FED, o BCE e outros bancos centrais reduziram, a partir de Março de 2020, as poucas medidas «disciplinares» que tinham sido tomadas após a anterior crise financeira de 2007-2008 e prometem mostrar um laxismo quase ilimitado sob o pretexto de que os bancos são os intermediários privilegiados da recuperação económica.

Os bancos centrais e os outros reguladores permitem que os grandes bancos privados assumam ainda mais riscos

A FED, o BCE e outros bancos centrais anunciaram que os bancos já não têm de cumprir as regras sobre um determinado montante de liquidez que têm de deter em caso de acidente financeiro. Do mesmo modo, os bancos centrais reduziram as suas exigências em termos de rácio entre o capital do banco e seus comprometimentos (o seu balanço). Isto significa que os bancos podem assumir ainda mais riscos do que anteriormente. Estamos quase de volta à situação que precedeu a crise de 2007-2008 em termos da liberdade que é deixada aos bancos. Há anos que os grandes bancos vinham pedindo isto. Já tinham conseguido reduzir as exigências que lhes eram impostas pelos bancos centrais e pelos reguladores. Agora estão a obter todas as licenças para fazer de novo o que quer que seja. O diário financeiro Financial Times calculou que, em 3 semanas, os vários bancos centrais anunciaram medidas que reduziram em 500 bilhões de dólares as reservas e o capital que os bancos devem manter permanentemente (Financial Times, «Regulators free up $500bn capital for lenders to fight virus storm», 5 de Abril de 2020). O Financial Times escreve: «Ao permitir que os bancos operem com níveis de capital mais baixos, os reguladores estão aumentando o poder de fogo dos bancos para absorver o aumento da procura de empréstimos, bem como o aumento da inadimplência dos clientes e a deterioração da qualidade do crédito nas suas carteiras de empréstimos.» [6]

Os bancos centrais estão pedindo aos grandes bancos que deixem de distribuir grandes dividendos aos seus acionistas e que deixem de recomprar as suas próprias ações

Numa tentativa de limitar o descontentamento popular que irá surgir quando as pessoas perceberem os presentes que estão sendo feitos aos bancos privados, os bancos centrais, em particular a FED e o BCE, estão pedindo aos bancos que deixem de comprar de volta as suas ações na bolsa e que limitem o pagamento de dividendos. Em 27 de Março, o BCE anunciou que pedia aos 200 maiores bancos da zona euro que se abstivessem de recomprar as suas ações durante um período de tempo limitado. Recorde-se que os bancos dos Estados Unidos recompraram as suas próprias ações por mais de 860 bilhões de dólares nos últimos dez anos e, só em 2019, recompraram ações por 47,5 bilhões de dólares. Além disso, pagaram quase 80 bilhões de dólares de dividendos aos seus acionistas em 2019. Os bancos europeus têm feito o mesmo que os seus homólogos americanos. Como referido anteriormente, os principais bancos dos Estados Unidos anunciaram que vão pôr termo às suas recompras de ações até Setembro de 2020. Por outro lado, estão forcando a barra para poder continuar a distribuir dividendos aos seus acionistas, apesar de estarem recebendo uma ajuda maciça do tesouro público! Vale lembrar que os bancos americanos acabam de se gabar aos seus acionistas de terem realizado ganhos muito significativos graças às vendas maciças de ações no mercado bolsista durante o primeiro trimestre de 2020. Note-se que os bancos ganham comissões sobre a venda de ações em todos os sectores. Quanto mais as ações mudam de mãos nos mercados bolsistas, mais dinheiro os bancos ganham, mesmo que o valor das ações desça. De acordo com o Financial Times de 26 de Março de 2020, as receitas dos bancos americanos provenientes das atividades de mercado aumentaram 30 % entre Fevereiro e Março de 2020. Este aumento diz respeito aos 12 maiores bancos. Tal não os impedirá de declarar perdas nas suas atividades globais, de modo a não pagarem impostos.

As próximas deflagrações

Antes do início da crise, o mercado de títulos de dívida de alto risco e de alto rendimento tinha atingido um volume de cerca de 2 200 bilhões de dólares (trata-se de títulos classificados entre BB e C-, ver a infografia). O mercado de títulos de dívida de melhor qualidade (investment grade que varia entre AAA e BBB) era muito maior, atingindo cerca de 4,5 trilhões de dólares. O problema é que, desde Março de 2020, as agências de notação de risco têm desvalorizado dezenas de títulos por dia (por centenas de milhões ou bilhões de dólares). Nos Estados Unidos, trata-se de títulos de dívida emitidos por grandes empresas como a Ford, General Motors e outras. No início de Abril, os títulos de dívida emitidos pela Ford no montante de 36 bilhões de dólares foram rebaixados pelas agências de rating de BBB (investment grade) para BB (ou seja, junk, que pode ser traduzido como «podre» ou «lixo»). Em consequência, são agora considerados de alto risco. No final, em Março de 2020, 90 bilhões de dólares de dívida considerada de bastante boa qualidade foi rebaixada para a categoria de alto risco (junk) – ver o Financial Times, «Bond investors rattled by flood of fallen angels», versão em papel do Financial Times datada de 8 de Abril de 2020. No entanto, como se pode ver no gráfico seguinte, um montante muito elevado de dívida de grau de investimento encontra-se na categoria BBB e é precisamente esta categoria que está sendo maciçamente rebaixada para BB, ou seja, junk. O gráfico mostra a situação tal como se apresentava em Janeiro de 2020, antes do surto da crise do coronavírus. Desde Março a situação se ficou nitidamente mais grave.


Tal como a Ford, as grandes empresas industriais, comerciais, financeiras e outras estão começando a ter enormes dificuldades em pagar as colossais dívidas que acumularam nos últimos dez anos. Acontece que os bancos têm concedido empréstimos a longo prazo (geralmente sob a forma de compra de títulos de dívida emitidos por todos os tipos de empresas) e, para financiar estes empréstimos, geralmente contraem empréstimos a curto prazo. O que está a acontecendo agora é uma repetição de 2007-2008, quando os bancos concederam empréstimos massivos a longo prazo (ou seja, por prazos de 5 a 6 anos) sem prestar muita atenção à qualidade e à solvabilidade dos tomadores (geralmente grandes empresas, mas também famílias, estudantes...), desde que isso proporcionasse um retorno. Os tomadores são diretamente afetados pela crise e têm cada vez mais dificuldade em reembolsar as suas dívidas. No entanto, os bancos estão se financiando a curto prazo de outros bancos e empresas financeiras no mercado de repo, em particular, e estão também contraindo empréstimos junto do Fed. Sendo que, mais uma vez, os bancos já não confiam uns nos outros e que outras empresas financeiras estão de novo com um alto nível de desconfiança em relação aos bancos, o FED ou os outros bancos centrais (BCE, etc.) estão intervindo com grandes quantidades de liquidez para evitar que os bancos ou outras empresas entrem em falência, tudo isto para proteger os seus principais acionistas. Isso não impedirá uma queda acentuada do valor de mercado dos títulos de dívida, que se combinará com a queda acentuada dos mercados bolsistas. Por isso, uma nova bolha está estourando. Após a bolha bolsista que começou a estourar com estrondo em Fevereiro-Março de 2020, a bolha do mercado obrigacionista também começou a estourar. Outra bolha começou a estourar, a bolha do mercado hipotecário nos Estados Unidos. A crise afeta tanto o mercado hipotecário residencial como o comercial (espaço de escritórios, espaço comercial, etc.). Mas como muitas das grandes empresas industriais estão muito endividadas, é bem possível que se verifiquem falências. Esta situação é susceptível de afetar também outros sectores, como a retumbante falência do operador turístico britânico Thomas Cook, em 23 de Setembro de 2019, muito antes da epidemia do coronavírus. Thomas Cook já não conseguia pagar uma dívida de mais de 2 bilhões de euros. Em ligação com a crise, outros grandes operadores de turismo irão à falência. As companhias aéreas irão à falência. As empresas petrolíferas irão à falência. A menos que os governos intervenham para salvar os seus principais acionistas mais uma vez com dinheiros públicos. Como acima mencionado, os bancos centrais e os governos dos países mais industrializados conseguiram limitar os danos em 2007-2008 e evitar a repetição da crise dos anos 30, injetando milhares de bilhões de dólares no sistema. Claro, houve o colapso do Lehman Brothers em Setembro de 2008, mas nos Estados Unidos outras grandes empresas à beira da falência, como a seguradora líder mundial AIG ou a General Motors, foram salvas com dinheiro público. O mesmo aconteceu na Europa com o Royal Bank of Scotland no Reino Unido, Natexis em França e cerca de vinte grandes bancos na Irlanda, Alemanha, Bélgica, Suíça, Itália, Espanha, Países Baixos, Grécia, Eslovénia, Chipre, alguns dos quais foram nacionalizados para salvar os seus principais acionistas. Este tipo de intervenção maciça permitiu assim aos grandes acionistas de se sair muito bem e conduziu a um movimento de concentração financeira ainda maior. Os bancos médios e grandes foram comprados pelos maiores. Este movimento teve lugar nomeadamente nos Estados Unidos, Bélgica, Espanha, Portugal, Grécia, entre outros. Mas este tipo de intervenção dos bancos centrais e dos Estados não permitiu a purga que, no «seu» próprio interesse, o sistema capitalista precisava de ter levado a cabo para poder retomar o caminho da expansão. Recordemos que as elevadas taxas de crescimento das principais economias industriais datam dos 30 anos após o início da Segunda Guerra Mundial, no caso dos Estados Unidos, e do período pós-Segunda Guerra Mundial, no caso da Europa e do Japão. Depois, entre os anos 70 e 80, a taxa de crescimento diminuiu [7] e a financeirização da economia desenvolveu-se fortemente. Isto levou à primeira grande crise financeira em 1987, depois às crises 2000-2001 e 2007-2008, que foi seguida por uma queda global da produção em 2009 e depois por dez anos de crescimento lento, [8] exceto na esfera financeira, onde se formaram bolhas especulativas pela enésima vez na história do capitalismo mundial. Em resumo, entre 2010 e 2020, o crescimento da produção e da produtividade foi fraco entre as antigas grandes potências industriais da América do Norte e da Europa. A China tem sido uma locomotiva global. Uma coisa é clara: em comparação com a intervenção maciça dos bancos centrais a partir de 2008, [9] a intervenção dos bancos centrais de Março-Abril de 2020 é ainda mais colossal. Para fazer uma comparação ousada, a intervenção dos bancos centrais é um pouco como a intervenção dos Estados em Chernobyl, em 1986, ou em Fukushima, em 2011. Estão a tentar conter a extensão das deflagrações, afogando ou concretizando partes da central nuclear. Isto pode limitar os danos, mas não resolve os problemas.

Conclusão

É fundamental pôr em prática uma estratégia de ruptura radical e completa com o sistema capitalista e a sua lógica mortífera. Tal como as centrais nucleares devem ser encerradas, temos de nos livrar do sistema capitalista e rever completamente o modo de produção, as relações de propriedade, as relações entre os humanos e a Natureza, as relações entre os seres humanos, o modo de vida.


Tradução: Alain Geffrouais Revisão : Rui Viana Pereira

Notas

[1] Sobre a suspensão do pagamento da dívida em 14 Estados sul-americanos nos anos 1930, ver Éric Toussaint, A Bolsa ou a Vida, Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2001, capítulo 6 [2] Claro está que a vitória do nazismo não é o resultado mecânico da grande crise económica dos anos 1930, outros fatores intervieram. O mesmo se diga da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Ver Ernest Mandel, O Significado da Segunda Guerra Mundial, ed. Atica, 1989; alguns capítulos podem ser consultados na Internet, em diversas línguas (mas não português): http://www.ernestmandel.org/new/mot/seconde-guerre-mondiale [3] François Chesnais escreve que a situação atual «atesta a não-resolução da «grande recessão», uma vez que a condição sine qua non de qualquer saída duradoura de uma grande crise e a fortiori de uma depressão é uma forte desvalorização/destruição física do capital produtivo e a inversão do movimento da taxa de lucro a que conduz», in «L’état de l’économie mondiale au début de la grande récession Covid-19: repères historiques, analyses et illustrations», publicado por A l’encontre em 12 de Abril de 2020, consultado em 13 de Abril de 2020. [4] François Chesnais vai no mesmo sentido e dá uma série de detalhes sobre a dimensão da crise no sector da produção em 2019 (ver o artigo já citado https://alencontre.org/laune/letat-de-leconomie-mondiale-au-debut-de-la-grande-recession-covid-19-reperes-historiques-analyses-et-illustrations.html). O economista britânico Michael Roberts também tinha mostrado em vários artigos publicados em 2019 a extensão da crise no sector da produção. [5] Concordo com a conclusão do artigo de François Chesnais já mencionado: «Trata-se, antes de mais, de políticas públicas de austeridade em todo o lado, mas também de uma configuração em que as empresas e a grande distribuição devem persuadir as famílias cujo poder de compra está em estagnação a comprar, para além das necessidades diárias indispensáveis, coisas que já possuem». Ao mesmo tempo, nas cadeias de valor globais, os contratantes estão pressionando cada vez mais os subcontratantes e os transportadores marítimos e rodoviários ao longo da cadeia. A curva de acumulação de capital monetário que arrecada juros reforça o peso económico e político em todos os países dos gestores de fundos, de património e dos gestores de grupos financeiros industriais e comerciais que apenas estão interessados na segurança dos fluxos de juros e na distribuição máxima de dividendos. Assim, os processos contracionistas que dominam a economia mundial são acompanhados por uma aceleração do desperdício dos recursos mineiros, da deflorestação e do empobrecimento dos solos. Ao mesmo tempo, o montante do investimento público exigido por qualquer «transição ecológica» é inalcançável sem a anulação da dívida pública, que é mais do que nunca uma exigência democrática absolutamente central.» [6] « By allowing banks to operate with lower levels of capital, regulators are boosting their firepower to absorb higher demand for loans as well as rising customer defaults and a deterioration in credit quality in their loan books. » [7] A primeira grande crise de produção ocorreu em 1974-1975, a primeira a nível mundial desde a Segunda Guerra Mundial, seguida de duas grandes crises de produção nos anos 80 e no início dos anos 90 – uma no início dos anos 80 e outra no início dos anos 90. [8] Michael Roberts refere-se ao período após a crise de 2007-2008 como «depressão prolongada», ver em especial Michael Roberts, «The post-pandemic slump», publicado em 15 de Abril de 2020.

[9] No Japão, a intervenção maciça do banco central já tinha começado na década de 1990, porque este país tinha vivido uma enorme crise financeira que prefigurou a crise que afetou os Estados Unidos e a Europa a partir de 2007-2008. Ver Daniel Munevar, «Décennies perdues au Japon», em Éric Toussaint e Damien Millet, La Dette ou la Vie, Aden, 2011, Bruxelas.

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