As perspectivas dramáticas da Economia brasileira

Pesquisa PNAD-Covid aponta convergência de dois desastres: empresas não resistem e famílias, desocupadas, não podem comprar. Descaso e negligência do governo com pandemia geraram a tempestade perfeita. Resgate será duríssimo

Por Caroline Oliveira

Texto publicado originalmente no site do Comitê para a abolição das dívidas ilegítimas


Dos 84,4 milhões de trabalhadores do Brasil, cerca de 9,7 milhões ficaram sem remuneração durante a pandemia de covid-19 no mês de maio, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Covid-19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na última quarta-feira (24). É o primeiro estudo da instituição com objetivo de medir o impacto da crise sanitária, que deve ser atualizado semanalmente.


A quantidade faz parte dos 19 milhões que foram afastados dos postos de trabalho. Isso significa que aproximadamente 51,3% dos afastamentos representaram a perda de remuneração. O afastamento não significa, necessariamente, o desemprego. Ao contrário deste, ainda pode existir algum tipo de vínculo empregatício. O número de 9,7 milhões também equivale a 11,5% da população ocupada do país no período – isto é, aqueles que trabalham por conta própria, empregados e empregadores.


Os números refletem, “o severo impacto que a crise teve sobre o emprego”, de acordo com Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e que trabalhou como diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) por 16 anos.


“A pesquisa está indicando que são milhões de pessoas que não tendo acesso a renda, provavelmente, estão em uma situação dramática precisando fazer algum tipo de atividade justamente para poder ter renda e poder sobreviver no curto prazo”, afirma Lúcio.


A situação, analisa o sociólogo, reflete uma “descoordenação” entre os governos federal e estaduais para que as medidas de proteção ao emprego fossem melhores efetivadas. Para ele, a pior situação é a pela qual o Brasil passa, “que é liberar a economia para voltar a atividade produtiva. A economia, então, volta a funcionar, o contágio aumenta, o número de mortes aumenta e é obrigado a fechar a economia novamente. Essa sanfona de abre e fecha, para as pessoas, gera muita insegurança e, para a economia, muita incerteza”.


Consumo das famílias


Nesse cenário, para Iriana Cadó, especialista em economia social e do trabalho e mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos fatores mais preocupantes é em relação ao consumo das famílias, que apresentou uma retração de 2% no Produto Interno Bruto (PIB), no primeiro trimestre de 2020, em relação ao trimestre anterior, segundo o Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, do IBGE. O recuo do consumo das famílias foi o maior desde a crise energia elétrica de 2001.


“[O governo] não tem colocado grandes perspectivas de manutenção da renda das famílias, ou seja, essas famílias não terão condições de fato de retomar o consumo, então aprofunda a diminuição de consumo das famílias, e tem desdobramentos para o conjunto da economia como um todo. Se as famílias não consomem, não mantêm a demanda e não há estímulo para a produção”, afirma Cadó.


Com os novos dados, de maio, a taxa de consumo das famílias deve diminuir ainda mais, analisa a especialista. “Se essas pessoas estão dependendo da renda emergencial e não têm trabalho, haverá um aprofundamento das condições de uma realidade de pessoas que não vão voltar a consumir. Então, o que já é uma tendência tende a se aprofundar efetivamente. O consumo das famílias pode diminuir ainda mais e aí não há elementos que façam com que essas variáveis estimulem o PIB.”


De acordo com a pesquisa do IBGE, 38,7% dos domicílios brasileiros receberam algum tipo de apoio financeiro, em maio de 2020, como o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal. Em média, o valor recebido por essas famílias foi de R$ 847. Em termos percentuais, residências do norte e nordeste foram as que mais receberam ajuda nesse sentido: 55% e 54,8%, respectivamente. Em seguida, estão centro-oeste (36,7%),sudeste (31,3%) e sul (26%).


Desemprego


Outro ponto que preocupa Cadó é o aumento exorbitante da taxa de desempregos nos próximos períodos, o que não aparece na PNAD Covid-19, de maio. A pesquisa aponta para a diminuição pela busca por emprego, o que diminui consequentemente a taxa de desemprego, uma vez que esta última é calculada a partir daqueles que estão procurando postos de trabalho e não da população em geral.


Durante o mês de maio, cerca de 18,4 milhões de pessoas não procuraram trabalho em decorrência da pandemia de covid-19 ou da falta de vagas na região em que moram. “Se as condições voltassem à normalidade e pessoas começassem a procurar emprego, a gente teria uma taxa de desemprego de quase 30%, o que é muito acima das estimativas hoje declaradas na pesquisa”, explica Cadó. Daqueles que procuraram, 10 milhões de pessoas não encontraram.


Dados regionais


Proporcionalmente ao tamanho de suas populações, os trabalhadores das regiões norte e nordeste apresentaram a maior taxa de afastamento sem remuneração entre os ocupados, maior até mesmo que a média nacional de 11,5%: 15% e 16,8%, respectivamente. Sul apresentou o menor índice, com 5,9%, seguido por Centro-Oeste, 8,2%, Sudeste, 11%. Em número absolutos, também levando em conta dados proporcionais, isso significou 4,19 milhões de trabalhadores sem remuneração no sudeste e 3,16 milhões no nordeste. Com populações menores, as regiões norte (953 mil), sul (828 mil) e centro-oeste (591 mil) também tiveram taxas menores.


Faixa etária


Segundo a pesquisa, o grupo etário mais expressivo entre os afastamentos, remunerado ou não, foi o de 60 anos ou mais: cerca de 27,3%. Em algumas regiões do País, esse percentual alcançou níveis superiores, como no Nordeste, com 33,3%.


Dados setoriais


No que concerne às categorias investigadas, os trabalhadores afastados, devido à pandemia, sem carteira assinada também são preponderantes: empregados domésticos sem carteira (33,6%), do setor público sem carteira (29,8%) e do setor privado sem carteira (22,9%). Em relação ao setores com mais afastamentos preponderaram na pesquisa outros serviços (37,8%), serviço doméstico (28,9%) e alojamento e alimentação (28,5%). O setor com menos afastamento foi o das atividades de agricultura e pecuária, cerca de 6,8%.


Trabalho remoto


A pesquisa também trouxe dados da abrangência do trabalho remoto no país, o que foi uma realidade apenas para 13,3% da população brasileira ocupada que não estava afastada em maio de 2020. Em números absolutos, isso representa 8,7 milhões de trabalhadores. Como esperado, dessa porcentagem, 38,3% têm diploma universitário. Por outro lado, os índices de trabalhadores com as demais faixas de escolaridade ficaram bem abaixo: 0,6% no nível fundamental incompleto, 1,7% no fundamental completo, e 7,9% no médio completo.


Reduções no salário e na carga horária


Daqueles que não foram afastados, no entanto, 18,3 milhões de trabalhadores – 27,9% da população ocupada – tiveram o horário de trabalho reduzido, o que representou uma diminuição de rendimento médio de todos os trabalhos em 18,2%, de R$ 2.320 para R$ 1.899. A informação também significou menos horas efetivamente trabalhadas no país do que o habitual: de 39,6h para 27,4h. Do lado contrário, 2,4 milhões trabalharam mais horas do que o habitual, o que correspondeu a 3,6% das pessoas ocupadas.


Covid-19 na população


Uma novidade contundente da PNAD Covid-19 é o número de pessoas que tiveram sintomas relacionados à doença durante o mês de maio. Em visita aos domicílios, os entrevistadores perguntaram aos residentes se alguém da família havia apresentado, na semana anterior, febre, tosse, dor de garganta, dificuldade para respirar, dor de cabeça, no peito ou nos olhos, náusea, congestionamento nasal, fadiga, perda de olfato ou paladar e dor muscular.


Cerca de 11,4% dos entrevistados – 24 milhões de pessoas – apresentaram sintomas, e, novamente, a maioria das queixas se deram no norte (18,3%), com 3,3 milhões de pessoas, e, mais especificamente, no estado do Amapá (26,6%). Os outros estados com maiores índices são Pará (21,3%), Amazonas (18,9%), Ceará (16,5%) e Maranhão (15,1%).


Em relação ao gênero e raça, 57,4% eram mulheres e 70%, negros. O perfil dos hospitalizados, no entanto, é majoritariamente masculino, cerca de 62,3%, mas continua sendo negro: 61,3%.

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