Ao amigo Mario Duayer, vítima da covid-19

Mario, meu amigo, como fazer com a tua ausência? Sei que tua obra perdurará, sei que tua semente brotou e seguirá brotando, sei que estamos sob um governo genocida, que carrega nas costas mais essa morte… Nada diminui a dor ou me consola

Por Virgínia Fontes*

Texto publicado originalmente no Blog da Boitempo


Ontem, 16 de janeiro de 2021, morreu um grande amigo. Era um grande intelectual, um marxista de qualidades raríssimas. Mas quero falar de Mario Duayer, amigo. Faleceu no sábado à noite, após muitos dias de esforço lutando contra a covid. Não consigo ainda acreditar nisso, apesar de ter acompanhado ansiosa os boletins sobre a situação dele. Mario era um amigo querido, daqueles que podemos ficar meses sem nos encontrar mas com quem o reencontro era instantâneo como se tivéssemos nos despedido na véspera. Era de uma enorme generosidade com os amigos e tinha um senso de humor único, com finas ironias e uma enorme capacidade de desentranhar sentidos divertidos, com tiradas constantes, que atingiam o mundo, ele próprio, as nossas discussões e o que mais viesse à tona no momento. Além disso, Mário era um paizão, com enorme amor e afeto pelos filhos, o que nos aproximava em outros tantos assuntos.


Muitas vezes ri com Mário, e ri muito. Como aguentar o tranco sem esses momentos, com a partida de Mário? Fizemos viagens juntos, e quase sempre o tempo era partilhado entre a enorme seriedade do trabalho e as conversas, entremeadas de risadas, com as brincadeiras e tiradas irônicas dele. Como é possível não ter mais Mário, esse amigo sério, refinado e divertido? Nossas conversas fluíam com uma facilidade espantosa, sempre havia mais assunto e temas a tratar, sempre havia mais ironias e brincadeiras, sempre havia mais textos para ler e comentar, mais questões teóricas e práticas a enfrentar. Sempre havia mais jantares maravilhosos e bons vinhos a inventar. Sim, ele cozinhava muito bem e adorava receber amigos.


Como todos nós, nem sempre Mario era uma pessoa fácil, excessivamente exigente e rigoroso. Discutimos muitas vezes, discordamos outras tantas, mas sempre nos despedimos entre risos. Não consigo ainda acreditar que falarei dele no passado, que não teremos o jantar que estava programado e sempre adiado em razão da pandemia. Conheço Mario Duayer há quase trinta anos. Não farei sua biografia em meio ao luto e à dor imediata. Estou mergulhada na perda de um grande amigo.


Fizemos muitas coisas juntos, de reflexão, de trabalho, de conversas, de iniciativas, de debates de textos. Quero lembrar apenas dois momentos, dentre tantos que vivi com esse amigo, um dos mais rigorosos, inteligentes e refinados leitores de Marx que conheci. E uma das pessoas mais sérias e divertidas com as quais já convivi.


Eu já conhecia Mário Duayer antes de virarmos verdadeiramente amigos. Numa circunstância extraordinária, em 1996, entendi de fato sobre o que ele trabalhava e o alcance do que fazia. Mostrou-me um enorme trabalho, do que resultara artigo primoroso, escrito conjuntamente com Maria Celia M. de Moraes (também precocemente desaparecida), enfrentando questões cruciais sobre o pós-modernismo. No caso, defrontavam-se com Richard Rorty, um dos papas do neopragmatismo que então reinava na mídia e era a base de mais uma reviravolta entre os historiadores, que mal entendiam o que queria dizer a tal contingência absoluta na qual Rorty tentava enjaular a reflexão histórica. Mário era ousado, aprendeu com Marx – não se limitava a fazer uma crítica menor de autores menores: ele sempre enfrentava o cerne da elaboração do adversário e evidenciava seus equívocos de maneira cristalina. Foi um bálsamo para mim em tempos que já eram muito difíceis e, dali para a frente, nunca mais nos afastamos.


Em outro momento, no início do século XXI, propus a Mario enorme desafio: dar aulas de Marx para uma turma de militantes de movimentos sociais, cujo nível escolar era muito díspar. Ele não hesitou, apesar do tamanho do desafio. Em seu profundo engajamento teórico – rigoroso, elaborado, refinado e sério – sabia que teria de ser também pedagógico. Essa foi uma aula a dois, juntamente com João Leonardo Medeiros e foi inesquecível. Foi uma das mais fascinantes aulas de Marx que assisti e que cativou inteiramente a turma, que sem dimensionar o gigantismo da tarefa, queria enfrentar imediatamente a leitura de O capital…


Mario, meu amigo, como fazer com a tua ausência? Sei que tua obra perdurará, sei que tua semente brotou e seguirá brotando, sei que estamos sob um governo genocida, que carrega nas costas mais essa morte… Nada diminui a dor ou me consola.


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Professor titular aposentado de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Mario foi o responsável por uma das publicações mais importantes da Boitempo: a tradução dos Grundrisse, pela primeira vez em língua portuguesa (abaixo, a gravação do lançamento da obra em São Paulo). Colaborou ainda algumas vezes com a revista semestral da editora, a Margem Esquerda, e com alguns de nossos cursos, além de desempenhar um papel na tradução da obra de Moishe Postone para o português. Inteligente, rigoroso e dono de um humor sarcástico, vai fazer uma falta enorme.


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