A relação entre moeda e valor em Marx

A relação estabelecida por Marx entre moeda e valor é, a nosso ver, muito mal compreendida. Isso fica claro nas discussões sobre a teoria marxista do valor-trabalho, que há mais de meio século permeiam o debate acadêmico



Por Maria de Lourdes Rollemberg Mollo


A relação estabelecida por Marx entre moeda e valor é, a nosso ver, muito mal compreendida. Isso fica claro nas discussões sobre a teoria marxista do valor-trabalho, que há mais de meio século permeiam o debate acadêmico. Estas discussões mostram uma tendência particular a ler Marx como se se tratasse de um discípulo de Ricardo, ou de um membro da chamada "Escola Clássica". Esse tipo de leitura conduz a uma interpretação da lei do valor como se ela se manifestasse de forma direta e imediata, e se constatar a cada instante. Essa não é, para nós, a concepção marxista, como tentaremos mostrar neste trabalho, através da análise dessa relação.


Marx estabelece em sua obra uma relação estreita, ainda que complexa, entre moeda e valor que destaca a complexidade da forma valor, entre outras razões, por causa da autonomia que caracteriza a forma do valor em relação ao valor. Essa autonomia, comentada por Marx em diversas ocasiões, é inerente à moeda enquanto forma universal do valor. Como é impossível conceber a existência de uma economia mercantil sem a utilização de moeda, essa ideia de autonomia não pode ser colocada de lado nas análises, mas, ao contrário, deve tornar-se o objeto destas.


É esta autonomia que impede que a lei do valor possa se impor de forma direta e imediata. E ela que permite a imposição da lei do valor de diferentes formas, segundo a diversidade das condições sociais do processo de acumulação do capital. Em qualquer caso, porém, a lei do valor só se impõe através da moeda como equivalente geral.


Assim, a compreensão da forma do valor em relação ao valor e da moeda como forma universal do valor implica a compreensão das razões pelas quais a lei do valor, mesmo se impondo necessariamente através da moeda, não pode ser vista como absoluta e imediata. Esses são os assuntos que preten demos desenvolver neste trabalho, a partir das contribuições de Rubin e S. de Brunhoff.


Rubin foi escolhido por sua relevante contribuição à compreensão da teo ria do valor na versão trabalho abstrato [1]! Quanto a S. de Brunhoff, sabemos que é uma dos poucos economistas marxistas que se dedicou de forma sistemá tica à análise da moeda e dos fenômenos monetários. No início dos anos 70, S. de Brunhoff sugere uma interpretação da lei do valor que menciona justa mente essa impossibilidade de imposição da lei do valor de forma direta e ime dieta, destacando diferentes aspectos da relação entre moeda e valor em Marx [2]. É essa sugestão de S. de Brunhoff, paralelamente à análise de Rubin sobre o valor, que pretendemos explorar neste trabalho.


Começaremos discutindo a relação entre a forma valor e o caráter mercan til da economia capitalista [3] e nos apoiaremos para isso nos trabalhos de Rubin.


Em seguida trataremos da imposição da lei do valor e do papel da moe da nesse processo, a partir do desenvolvimento de algumas idéias contidas nos trabalhos de Suzanne de Brunhoff.


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NOTAS


[1] Rubin, I. Essais sur la Théorie de la Valeur de Marx, Maspero, 1978. Nós o designaremos após as cita ações pela abreviação R(a), seguida da página correspondente.


_________ "Abstract Labour and Value in Marx's System" em Capital and Class, Summer, 1978. Nós o designaremos pela abreviação R(b), seguida da página correspondente.


[2] Ver Brunhoff, S. "Production Marchande. Mode de Production. Catégorie Monnaie" em La Politi que Monétaire, PUF, 1974, cap. II. Nós o designaremos, após as citações, por Brunhoff, seguido da página correspondente.


[3] Seguiremos neste trabalho a análise de Fausto, R., segundo a qual a "produção mercantil não é um modo de produção particular, mas sim um momento" do modo de produção capitalista. "Sur la forme valeur et le fetichisme" em Critique de l'Economie Politique, nova série n 18 jan./mar. 1982, p. 136. Mas trataremos de forma diferente dele as noções de trabalho abstrato e valor.

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