A força subversiva da colagem

No trançar de ideias, dissolvem-se autorias rígidas e egos; novos mundos tornam-se visíveis. Ensaia-se outra ordem criativa, aberta à colaboração. E ao remexer as colagens, surgirão novas alternativas e significados. Nada pode ser mais político

Por Antonio Lafuente

Texto publicado originalmente no site Outras Palavras


Vivemos num mundo que, claramente, poderia ser melhor — e é normal tentarmos mudá-lo. Não surpreende, por exemplo, que desejemos libertá-lo dos muitos preconceitos racistas, de classe, gênero, cultura ou idade. Portanto, não é rara a nossa vontade de limpá-lo e de “lavar a roupa suja”, tanto literal, como figurativamente. Precisamos fazer uma colagem.


Lavar e desencardir a roupa (na Espanha, a expressão é “hacer la colada”) não deixa de ser um jogo que desafia a ordem estética, simbólica e política herdada e/ou promovida pelas elites dominantes. Enquanto que fazer colagens é conectar coisas que nunca estiveram juntas, tornar visíveis mundos imaginários, ensaiar outra ordem possível, iniciar uma história inédita, suspender significados normalizados: fazer colagem é desanuviar os nossos olhos. Fazer colagem é como ver de novo, não tanto no sentido de rever, mas de renascer.


Para além de uma ação individual, a colagem nos convida à colaboração porque precisamos reunir coisas que foram separadas por questões administrativas, estéticas, políticas ou epistêmicas. Talvez desejemos outras configurações menos funcionais, ou talvez sejamos atraídos pelo desconhecido, pelo marginal, pelo minúsculo, pelo descartado, pelo irregular ou pelo inútil: o fato é que precisamos nos aproximar de outros mundos, ou do mundo de outras pessoas, se quisermos experimentar com a diferença, desanuviar os olhos e ampliar nossa sensorialidade. Vamos lavar a roupa!


Os materiais da colagem podem ser dos mais variados: coisas improvisadas que ignorávamos, coisas imaginadas que se tornam reais, coisas que unem experiências comuns, coisas que existiram ou foram abandonadas, coisas futuras, coisas prometidas ou coisas indecifráveis, coisas salvas ou coisas encontradas. Entram também as coisas que você tem ou não tem, assim como as que você conhece ou ignora, as que deseja ou abomina, as que sonha, as que suspeita e as que são misteriosas. Numa colagem podem entrar as coisas mais vulgares e extraordinárias, segredos, profecias, versos e todas as outras máquinas que nos rodeiam. Na verdade, nada pode ser mais aberto e inclusivo do que uma colagem. Nada pode ser mais criativo ou mais político.


Também, nada poderia ser mais fácil. Podemos lavar a roupa suja na escola e em todos os espaços de convivência. E mais: deve-se. É um jogo, basta querer jogar. Para isso, pedimos aos participantes que cada um traga algo que é muito importante para si, seja porque traz lembranças ou tem algum valor. Também valeria a pena trazer o mais insignificante dos objetos que você possui, porque está farto de sua presença ou de sua irrelevância. Resumindo, nosso jogo tem regras fáceis de lembrar. Depois de ter esses objetos, passamos para a segunda parte: brincar com os outros. Ou seja, misturar nossas coisas, trançá-las e despersonalizá-las. Conectá-las em rede.


E ao remexê-las, surgirão e se abrirão alternativas, possibilidades, significados. O primeiro passo pode ser criar uma história que explique esse encontro, tropeço ou avistamento. Então, fazer colagem é uma forma de inventar histórias. Na colagem, os relatos e as histórias são importantes porque nos mostram formas de re(a)presentarmos o mundo por meio de objetos contingentes, situados e próprios. Nós inventamos histórias e as histórias nos inventam. E nós inventamos um “nós”.


Cada uma das coisas escolhidas e acrescentadas à colagem se conecta com o nosso inconsciente e, ao misturá-las, dão vida a um “nós” emergente; ou seja, contamos uma história que parte do âmbito pessoal mas que o processo torna cola(gem)borativa. Cola(gem)borar é um jogo sem regras. Podemos não descobrir nada e nos divertirmos pouco. Depende da atitude e da situação. Às vezes, é bom aceitar nossa mediocridade e não nos esforçarmos demais. Mas nada nos impede de ser brincalhões, especulativos ou desafiadores. Ninguém nos obriga a ser convencionais e previsíveis. Podemos arriscar uma hipótese improvável ou uma combinação absurda de objetos. Podemos ser absurdos como nosso inconsciente, imprevisíveis como a fortuna ou mágicos como os músicos de uma jam session. Também podemos ser tenazes como formigas, solidários como doadores ou confiantes como crianças. Podemos, em resumo, ser cola(gem)borativos.



Tradução: Simone Paz Hernández


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