A economia brasileira e o contexto da pandemia

O auxílio emergencial, embora necessário, se mostrou insuficiente, tanto pelo montante reduzido, como por seus prazos de concessão limitados e com sérios problemas de gerenciamento

Por Marcelo Dias Carcanholo*

Texto publicado originalmente no Jornal dos Economistas


Não há quem desconsidere os efeitos da pandemia sobre a crise profunda pela qual passa a economia brasileira. Poucos, entretanto, são os que, de fato, entendem essa relação. Ao contrário do que se propagandeia, principalmente nos canais oficiais e no governo, a pandemia não é a causa da crise.


Além disso, também contrariamente à opinião média, a economia brasileira não se recuperará com rapidez desta crise. A economia brasileira está em crise desde pelo menos 2014. Nesse ano a taxa de crescimento do PIB foi de míseros 0,5%. Nos dois anos seguintes, o decréscimo superou os três pontos percentuais. Em 2017 e 2018, o crescimento foi de apenas 1,3%, em si já algo pífio, mas pior ainda se considerada a baixa referência dos dois anos anteriores. Todo esse desempenho medíocre já sob o comando da economia pós-golpe.


O discurso convencional, mesmo assim, não se intimidou em vociferar que a eleição de Bolsonaro, com um programa econômico ainda mais radical na defesa do neoliberalismo, iria fazer com que os investimentos, o crescimento e o emprego fossem revigorados. Em seu primeiro ano de governo, entretanto, o resultado foi ainda pior, 1,1% de crescimento, um saldo positivo da balança comercial (US$ 39,4 bilhões) ainda menor do que no ano anterior e transações correntes deficitárias em mais de US$ 50 bilhões (2,76% do PIB), o pior resultado desde 2015.


Diferentemente do discurso oficial, o desempenho da economia brasileira já mostrava a crise antes do início de 2020, quando os efeitos da pandemia se fazem sentir na economia mundial.


Isso não significa que a pandemia não tenha tido nenhum impacto. Ela aprofundou a intensidade da crise e modificou sua forma. A piora do cenário externo e a parada de atividades produtivas, redes de distribuição de produções e logísticas de fornecedores resultaram na retração não só da demanda agregada, mas também da oferta, ampliando ainda mais a capacidade ociosa da economia. Com a expectativa de que o resultado da economia neste ano possa ser de um decréscimo de até dois dígitos, já é certo que o período 2011-2020 foi o pior de toda a nossa história.


A manutenção da crise pós- -pandemia ainda se mostra o cenário mais possível pela forma como o próprio governo tem enfrentado os seus atuais efeitos, até pelas medidas de política econômica implementadas até agora.


Em um primeiro momento, a equipe econômica anunciou que a melhor maneira de combater a crise era aprofundando o ajuste e as reformas, apontando especificamente para amplos processos de privatizações. Logo em seguida, ela se rendeu ao que governos no mundo inteiro se viram obrigados a fazer, aplicar políticas econômicas anticíclicas. Desde esse momento em diante, o governo ampliou a concessão de liquidez para o mercado, através da forte atuação do Banco Central, flexibilizou a lei de responsabilidade fiscal, aprovou linhas de crédito de ajuda para estados e municípios e estipulou o pagamento de um auxilio emergencial para camadas mais impactadas pela crise.


Essas medidas, entretanto, se mostraram insuficientes, no mínimo. O aumento da liquidez não significou elevação das linhas de crédito para as atividades produtivas, que necessitam compensar as fortes reduções de receita. Os recursos ficaram empoçados no próprio sistema bancário. O auxílio emergencial, embora necessário, se mostrou insuficiente, tanto pelo montante reduzido (menos de 50% do salário mínimo), como por seus prazos de concessão limitados (3 parcelas, posteriormente ampliadas, mas ainda insuficientes), e com sérios problemas de gerenciamento (dificuldade de acesso, fraudes, etc.).


O que mais sinaliza para a piora do cenário no pós-pandemia, entretanto, é a forma como o governo pretende tratar os efeitos da política fiscal. Segundo ele, os aumentos do déficit e da dívida pública terão que ser financiados tanto no curto como no médio prazo. Assim, já se aponta para o aprofundamento do ajuste fiscal e em uma nova rodada de reformas. Como a economia mundial ainda vai demorar para se recuperar, a demanda externa e a atuação do Estado não podem ser as locomotivas de recuperação. O que sobra? Os investimentos privados. A aposta do governo são as privatizações. Com esse governo, qual é o agente privado que se aventura?


*Marcelo Dias Carcanholo é professor titular da Faculdade de Economia da UFF.

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